Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, e fez o crítico à semelhança do gato...

Fialho de Almeida

Escritor:
1857 - 1911



Quando tudo aconteceu...

1857: Em Vilar de Frades, Alentejo, a 7 de Julho, nasce José Valentim Fialho de Almeida, que virá a ser conhecido como Fialho de Almeida ou, ainda mais simplesmente, por Fialho. É filho de um pequeno proprietário, um mestre-escola oriundo da Beira-Baixa, com o qual aprende as primeiras letras. 1866: É mandado para Lisboa, onde frequenta o Colégio Europeu. 1872: Devido a dificuldades económicas da família, abandona o internato e, com quinze anos, começa a trabalhar como praticante de farmácia. 1875: Frequenta o Liceu Francês, ao mesmo tempo que, na Escola Politécnica, inicia os estudos preparatórios para ascender ao ensino superior. 1877: Começa a escrever os textos que, em 1881, publicará sob o título genérico de Contos. 1879: Matricula-se na Escola Médico-Cirúrgica. 1880: Funda e dirige a revista literária A Crónica, onde, sob o pseudónimo de «Valentim Demónio», publica diversos artigos. 1881: Começa a sua carreira jornalística, publicando crónicas, artigos, ficções, narrativas, em diversos jornais e revistas: Correio da Manhã, O Contemporâneo, Museu Ilustrado, Os Dois Mundos, O Repórter, A Renascença, Revista Académica Literária, O Ocidente, Diário de Portugal, A Ilustração, Ilustração Portuguesa, etc. No diário Novidades, de Lisboa, sai um folhetim de sua autoria intitulado «Os Decadentes - romance da vida contemporânea. Em Pontos nos II colabora com Rafael Bordalo Pinheiro, sob o pseudónimo de «Irkan». Ainda neste ano, publica no Porto o seu primeiro livro - Contos, dedicado a Camilo Castelo Branco; segue-se, em 1882, a edição de outra colectânea de contos - A Cidade do Vício. 1889/1893: A convite do editor portuense Alcino Aranha, publica os 57 números, depois agrupados em seis volumes, de Os Gatos - crónicas, narrativas, cartas, memórias... 1890: Publica Pasquinadas (Jornal dum Vagabundo). Neste mesmo ano, sai o livro Lisboa Galante (Episódios e aspectos da cidade). 1892: Edição de Vida Irónica (Jornal dum vagabundo). 1893: Casa com uma abastada senhora alentejana, ainda sua parente afastada, que morre onze meses depois, deixando-lhe uma fortuna que lhe irá permitir viver desafogadamente. Novo livro de contos - O País das Uvas. 1895: Forma-se em Medicina, embora só esporadicamente venha a exercer a profissão de médico. 1898: Em 9 de Abril, estreia-se no Teatro da Trindade, em Lisboa, a peça em 3 actos de Legendre, João Darlot, que Fialho traduziu do francês. 1903: À Esquina (Jornal dum Vagabundo). 1911: Sai a público a obra Barbear, Pentear (Jornal dum Vagabundo). Em 4 de Março, na vila de Cuba, Alentejo, morre, com 54 anos. No sexto aniversário da sua morte, António Barradas e Alberdo Saavedra organizam um In-Memoriam. Postumamente, são editadas as obras Saibam Quantos (cartas e artigos políticos - 1912; Estâncias d’Arte e Saudade - 1921; Aves Migradoras - 1922; Figuras de Destaque - 1924; Actores e Autores (Impressões de Teatro) e Vida Errante, ambos em 1925.

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ENTRE EMPLASTROS E PÍLULAS

Quando em 1866, com apenas nove anos de idade, José Valentim ruma a Lisboa a ideia da família é dar-lhe a possibilidade de estudar e de se formar a nível superior. Matriculado no Colégio Europeu, no Largo do Barão, ali frequenta os estudos regulamentares até 1872. Na sua Autobiografia, publicada em A Esquina, Fialho relata ter sido sempre um bom estudante, «uma criaturinha triste e sossegada», razões que se juntam ao facto de seu pai nunca o poder vir visitar e de, devido à sua pobreza, não poder mandar bons presentes ao director, para lhe valerem seis anos de privações e de maus tratos, suportados por uma «resistência aparentemente submissa e tímida de orgulho», que pela vida fora irá ser, segundo ele, a sua independência e a sua força. Escutemos então a voz do próprio Fialho: «No meu tempo de colegial [...] a vida no internato era a seguinte. Erguíamo-nos da cama às cinco horas, Verão e Inverno, estudávamos até às oito, hora regulamentar do almoço [...] depois do que, entrávamos de novo nas salas de estudo, onde nos amesendávamos até às quatro da tarde [...] Quatro horas dadas, caligrafia durante hora e meia, e ia-se jantar.[...] Nas aulas. quase sempre fechadas, sem respiradouros, nem capacidade aérea, nem tiragem, havia constantemente um fétido morno a leite azedo [...] Os dormitórios eram no andar de cima dum prédio velho, grosseiramente adaptado à moradia de tamanha tropa de indivíduos [...] Os banhos raríssimos. Aos domingos de manhã, meia hora de ginástica em argolas e barras, não obrigatória, mas à vontade das famílias, que ainda nesse tempo, as da província sobretudo, consideravam a ginástica como um exercício de palhaços.»1 Mas, se, como por estas palavras se pode ver, as coisas já não estão a correr muito bem ao nosso jovem alentejano, elas irão ainda piorar. Em 1872, por se ter agravado a já de si precária situação económica da família, vê-se obrigado a abandonar o colégio. Tem 15 anos e arranja uma modesta colocação como praticante de farmácia numa lúgubre botica do Largo do Mitelo, perto do Campo de Santana. Aí vive sete anos a «apodrecer entre emplastros e pílulas». Diz ele: «Ninguém pode imaginar os tormentos que eu passei. Davam-me três horas aos domingos para oxigenar os pulmões cansados de respirar fedentinas de drogas e ervas podres; a minha alimentação era uma berundaga que sobrava do jantar da família do patrão, e que mal poderei comparar como nutriência e aspecto, às mais asquerosas pastas que os soldados distribuem nos quartéis, à pobralhada. Dormia num cacifro de seis palmos de largo por vinte de comprido e dez de altura, numa enxerga metida numa espécie de gaveta, que, que de manhã reentrava na parede, e da qual tanta vez pedi a Deus me talhasse o caixão onde acabar os meus grotescos males por uma vez. A baiuca onde eu praticava era tão velha, infecta, escura e desordenada, que ainda hoje me surpreendo da triunfância vital deste arcabouço que pôde resistir sete anos àquele inferno de ratos, pias rotas, miséria alimentícia, e rançuns de unguentos pré-históricos.» 2
Apesar de mergulhado neste ambiente malsão, consegue concluir os seus estudos secundários e ganhar mesmo um grande amor pela literatura - os livros são como que uma fuga à pobre realidade que lhe é dado viver – «Esta residência entre drogas estragou-me a saúde e além de outros achaques de espírito e de corpo, incutiu-me uma tendência mórbida para as letras.» E continua: «Gastei sete anos a percorrer todos os lugares-comuns dos escritores nacionais, de 1830 para cá e a matar o tédio desta leitura com romances de cadernetas, e pequenos ensaios literários de fábrica própria para jornais de província, onde a petulância das minhas asneiras me acarretou, por Leiria e Viseu, foros de escritorinho esperançoso. Minavam-me o tédio e uma ânsia de liberdade insaciável, e alcancei que me deixassem ir findar os preparatórios do liceu, findos os quais, ao matricular-me na Escola Politécnica, o falecimento de meu pai me obrigou a abandonar botica e estudos, para ir acudir ao bem estar dos meus, ameaçado terrivelmente por aquela morte que nos deixara às portas da miséria. Por lá estive um ano inteiro, e tornado no ano seguinte, por aí fora vim vindo, té terminar o curso médico. Como vivi todo este tempo? Dos recursos do pouco que minha pobre mãe podia dar-me, de alguma colaboração avulsa por dicionários e pequenas folhas literárias, e enfim de lições que fui dando à hora em que os meus condiscípulos folgavam, descuidados, felizes, bem comidos, bem vestidos, ignorando o martírio do pão ganho aos patacos, e os prodígios de energia heróica, consumida a vencer economias de cigarros e de ceias, e a desaparecer enfim de toda a parte onde o ‘sucesso tem praça’, e poderia ser notado o nosso casaco velho, o nosso cabelo crescido e as nossas botas roídas nos tacões. Vencidos os cursos científicos, em vez de seguir, como os meus condiscípulos, nas facilidades profissionais que eles fomentavam, cometi a tolice de me lançar numa vida literária, de querer viver por uma pena donde continuamente espirravam revoltas, e que fatalmente havia de me agravar as dificuldades do caminho.»3




FIALHO, BOÉMIO E «PONTÍFICE DE CAFÉ»

Enquanto prossegue, lenta mas porfiosamente, os seus estudos (irá concluir o curso de Medicina aos 38 anos!...) Fialho torna-se conhecido nos meios boémios, jornalísticos e literários colabora em jornais e revistas, escreve folhetins, crónicas, críticas literárias e teatrais, faz traduções. Escreve os Contos e, depois, a Cidade do Vício, onde estão os seus melhores trabalhos de ficção. O seu habitat é a mesa do café - O Martinho, a Brasileira, são as suas paragens dilectas. Num livro editado postumamente em 1922, Figuras de Destaque, confidencia-nos: «Nos meus primeiros anos de escolar, não me lembro de sair nunca do Martinho, com o pai Rosa e António Pedro e outros noctâmbulos, senão depois de terem batido no Carmo as quatro da alva.»
O jovem aldeão de Vilar de Frades converte-se numa figura temida da vida literária, teatral e jornalística da capital. Os seus pareceres são aguardados com algum temor, pois a sua língua e a sua pena são tudo menos benévolos. Na História da Literatura Portuguesa, de António José Saraiva e Óscar Lopes, aventa-se a possibilidade de a agressividade das críticas de Fialho, bem como certos aspectos realistas e «progressistas» da sua obra se relacionarem com «as pretensões a mentor do bom gosto diletante e da boémia artística, que se revelam já nos seus artigos de adolescente e que se observam na sua crítica de arte, de teatro, de literatura, nas suas notas impressionistas de música, e viagem, de boémia nocturna, de cenas espectaculares, no seu trajo, e no seu pontificado de café em emulação com Gualdino Gomes.» Por seu turno, nas suas Memórias, Raul Brandão descreve um Fialho boémio, sarcástico: «um príncipe de gabinardo que fazia cair as peças do alto do galinheiro, a um gesto seu irrespeitoso». Diz também que era seguido por uma «malta atónita de matulas suspeitos e jornalistas de ocasião, que deslumbrou de fantasia e atascou em sonho. [...] Esses aplaudiram-no e amaram-no. Esquecidos do frio e da pobreza, não despregavam os olhos daquele sonho desconforme.»4 Porém, apesar da severidade com que sempre julga actores e autores, Eduardo Brasão, naqueles anos finais do século XIX, o actor por antonomásia, nas Memórias compiladas por seu filho e publicadas em 1925, transcreve uma crítica (globalmente desfavorável) - Brasão o Olímpico - («Figura de actor francês, índole ardente, braços descomunais, e uma voz sem flexibilidade com tendência a enriquecer o som pelos rugidos.»), sentindo-se honrado pela atenção que despertou no crítico feroz -«E, demolindo-nos, Fialho alteia-nos, ou pelo menos, se preciso fosse tornava-nos conhecidos.5




OS GATOS

Entretanto, Ramalho Ortigão publicara as suas Farpas e o editor Alcino Aranha, aliciado pelo grande êxito que aquelas crónicas tinham obtido junto do público, convida Fialho a escrever um texto mensal de análise à vida portuguesa. Fialho aceita e, em Agosto de 1889, é publicado o primeiro panfleto. A reacção dos leitores é de tal modo positiva que depressa a publicação de Os Gatos passa de mensal a semanal. Até Janeiro de 1894, quando sai o derradeiro panfleto, reúne material que é depois publicado em seis volumes. Porquê este título – Os Gatos? Fialho explica-o no pórtico do primeiro panfleto: «Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, e fez o crítico à semelhança do gato. Ao crítico deu ele, como ao gato, a graça ondulosa e o assopro, o ronrom e a garra, a língua espinhosa e a câlinerie. Fê-lo nervoso e ágil, reflectido e preguiçoso; artista até ao requinte, sarcasta até à tortura, e para os amigos bom rapaz, desconfiado para os indiferentes e terrível com agressores e adversários.» [...] Desde que o nosso tempo englobou os homens em três categorias de brutos, o burro, o cão e o gato – isto é, o animal de trabalho, o animal de ataque e o animal de humor e fantasia – porque não escolhermos nós o travesti do último? É o que se quadra mais ao nosso tipo, e aquele que melhor nos livrará da escravidão do asno, e das dentadas famintas do cachorro.»





FIALHO FICCIONISTA. A «GUERRA» COM EÇA

Embora seja mais conhecido pela sua faceta de cronista panfletário, Fialho de Almeida é um admirável contista, tendo legado à literatura portuguesa algumas das mais belas páginas que nesse género se escreveram (como, por exemplo e entre muitos outros, A Ruiva, O Sineiro de Santa Ágata ou O violinista Sérgio num café da Mouraria, texto com que abre um dos panfletos do primeiro volume de Os Gatos). . Porém, usando sempre de uma extrema exuberância verbal, atinge esses momentos de grande beleza estilística, para logo a seguir usar uma linguagem eivada de galicismos (como diz Brandão, talvez apenas para seduzir alguns seus epígonos de café, os tais «noctâmbulos» que o escutavam e admiravam?). Por outro lado, alguns escritos seus raiam mesmo os limites do mau gosto e da grosseria (o que ocorre, nomeadamente, em numerosos textos de Os Gatos).
Como ele próprio reconhece, é um «prosador colérico», um crítico demolidor, impiedoso e, por vezes, excessivo e injusto. Terá sido o caso da sua polémica com Eça de Queirós. Costuma dizer-se que os críticos literários mais severos e implacáveis foram ou são, em geral, escritores frustrados. Esta, como todas, é uma generalização abusiva, pois Fialho deixou-nos das mais belas páginas da literatura do seu tempo, nomeadamente alguns dos seus contos. Não nos legou, porém, um só romance. As tentativas que fez nesse sentido saíram frustradas. Terá essa circunstância algo a ver com a violência com que analisa Os Maias? Em jovem é um profundo admirador de Eça. Diz da grande, da profunda impressão que lhe causou, aos 16 anos, a leitura da primeira edição de O Crime do Padre Amaro. Mais tarde faz também uma defesa de O Primo Basílio, face aos que acusam a obra de imoralismo. É relativamente a Os Maias que a sua veia de «prosador colérico» abafará a admiração antes sentida. Numa crítica publicada em O Repórter em 20 de Julho de 1888 (mais tarde incluída no volume Pasquinadas) considerará o romance um «trabalho torturante, desconexo e difícil de um homem de génio que se perdeu num assunto, e leva 900 páginas a encontrar-lhe saída.» Na sua opinião, Os Maias não passa de «um livro estrangeiro, que não conhecendo da vida portuguesa senão exterioridades, cenas de hotel, artigos e jornais, e compte-rendus de reporters palavrosos, desatasse a apreciar-nos através de três ou quatro observações mal respigadas, e a inferir por intermédio da fantasia satírica, tudo o mais.»
Eça, em carta ao jornalista Mariano Pina, datada de 27 de Agosto de 1888, desvaloriza a crítica: «O artigo do Fialho – est tout à coté. Quero dizer, dá grandes golpes, mas caem ao lado do livro e fora do livro – nenhum sobre o livro. Criticar o livro, como ele faz, não pelo que é, mas pelo que devia ser – é ridículo.» Noutra carta, datada de 8 de Agosto do mesmo ano, esta endereçada ao próprio Fialho e respondendo à acusação de, naquele romance, ter utilizado personagens caricaturais, estereotipadas, decalcadas de outras suas, afirma: «Em Portugal há só um homem – que é sempre o mesmo ou sob a forma de dândi, ou de padre, ou de amanuense, ou de capitão: é um homem indeciso, débil, sentimental, bondoso, palrador, deixa-te ir; sem mola de carácter ou de inteligência, que resista contra as circunstâncias. É o homem que eu pinto – sob os seus costumes diversos, casaca ou batina. É o português verdadeiro. É o português que tem feito este Portugal que vemos.»




BALANÇO DE UMA CARREIRA

Se existem autores de difícil rotulação, Fialho de Almeida é um deles. Geralmente definido como um decadentista, mercê das múltiplas contradições que foi exibindo, percorreu toda uma paleta de estilos, situando-se, no que à sua obra mais válida diz respeito (os seus contos), numa plataforma realista-naturalista, subsidiária das correntes francesas do seu tempo, mas também de alguns dos próceres da chamada Geração de 70, incluindo o seu «odiado» Eça. Devendo muito, sem dúvida, a Camilo. Fazendo um balanço do seu percurso, ouçamos novamente Fialho na Autobiografia: «tendo escrito cerca de mil e trezentas páginas por ano, o que representa uma actividade rara num país onde a bagagem literária é um livro de versinhos e meia dúzia de artigos laudatórios, apenas consegui, na opinião dos meus contemporâneos, “arranjado” a reputação de um desequilibrado indolente, que arma à sensação por via do galicismo, e a de prosador colérico, proibido do sucesso pelo mau sestro de não poder ser lido por senhoras. Dos resultados materiais do meu trabalho acérrimo, baste a V. saber que nem logro auferir da pena o sustento necessário, ganhando menos que um carpinteiro ou um pedreiro, e tendo de resignar os meus gastos a condições de parcimónia de que só eu sei o mistério, e perante as quais forçoso me foi abdicar de todas as aspirações e vanglórias que entram pelo meio na confecção da alegria, e são neste mundo o factor principal da felicidade.» Quando se refere aos escritores sem obra, está por certo a lembrar-se do seu amigo, e inimigo de estimação, Gualdino Gomes. Sobre este último diz Raul Brandão: «A paixão deste homem é não ter um livro de jeito. [...] só escreveu três folhetos e por aí ficou o seu talento. Espremido, não deu mais. É no entanto uma figura epigramática e nítida de conversador e um tipo curioso de boémio lisboeta. Dormiu nas escadas dos prédios, pertenceu ao grupo que o Fialho arrastava pelas ruas até antemanhã, dispersando com ele o oiro da sua esplêndida fantasia. Para essa meia dúzia de boémios improvisou o grande escritor as suas melhores sátiras.» E conta depois Brandão como uma noite, à mesa do café, Gualdino aludiu à sua obra, ao que Fialho terá ironizado: «– A tua obra bem sei... Vinte e cinco cartas a vinte e cinco amigos pedindo vinte e cinco tostões emprestados.» Gargalhada geral, Gualdino Gomes embatucou e calou-se. Porém, pouco depois, aproveitando uma pausa na conversa, desferiu a sua estocada, aludindo ao casamento de conveniência que, tempos antes, Fialho fizera com uma parente rica: –« Ó Fialho, fazes o favor de me dizer que horas são... no relógio do teu sogro?.»6 Na realidade, em 1893, Fialho casa com uma senhora abastada, ainda sua parente que morre vítima de tuberculose menos de um ano após o casamento legando-lhe uma apreciável fortuna. O escritor converte-se então num pequeno proprietário rural. É um Fialho aburguesado, distante do iconoclasta, do anarquista que verberara todos os poderes, que se deixa mesmo seduzir pelas lisonjas do ditador João Franco e se torna num defensor da política franquista que, mercê dos seus erros de governação, vai motivar o Regicídio e abrir de par em par as portas à República. O escritor dedica-se à lavoura, viaja um pouco pelo estrangeiro. Desprezado, vê-se obrigado a refugiar-se na vila de Cuba. Mas nem aí irá ter paz.




O FIM - «FALANDO SOZINHO, COMO UM CONDENADO»

«Quantos Fialhos, todos diferentes, tenho conhecido pela vida fora!», diz Raul Brandão. E continua: «Este, de ventre e barbicha de bode, esta figura de que os mortos se conseguiram apoderar, agarrado à terra, conservador, discutindo com o padre da freguesia os melhoramentos da sua igreja, este é – enfim! enfim! – o descendente autêntico dos cavadores alentejanos. Custou... As suas melhores obras – as que sonhou e nunca se resolveu a escrever – leva-as ele para a cova... De quando em quando ainda tem uma revolta: – É horrível a vida na aldeia. Se não fossem os livros, já me tinha suicidado. Cada vez preciso mais de ver gente e desta vida artificial de Lisboa. Na aldeia, em Cuba, não falo com ninguém, não tenho ninguém com quem comunicar. São de bronze aqueles filhos da p...! E nem a mais pequena sombra de sensibilidade. E se imaginam que a gente não tem dinheiro, estamos perdidos!... – Fuja. – Não posso. Quem me há-de tratar daquilo? E, depois, criei interesse às oliveiras que plantei, à vinha... Ah, mas as noites!... Tenho noites em que pego num livro e saio. Há uma estrada em volta de Cuba – e eu ali ando à roda, toda a noite, a falar sozinho como um condenado!»7
Entretanto a República é proclamada e Fialho, que, exceptuando o curto período da sua sectária e fútil adesão ao franquismo, outrora tanto e tão acerbamente criticara a moribunda instituição monárquica, não se dá melhor com o novo regime. As suas aceradas e felinas garras continuam a arranhar - agora a sensível pele da jovem República, a republiqueta, no seu peculiar dizer: «Dada a ignorância e o desmazelo relaxado, que foi o que a Monarquia legou às classes médias, dadas as tendências vaziamente exibicionistas, que foi o que o partido republicano deu às multidões, a República, como forma de governo, há-de reproduzir todos os fracassos da Monarquia... Na essência, o País ficará o mesmo. Que digo eu? Ficará pior.»8 Não é por isso de estranhar que fanáticos paladinos do barrete frígio, juntamente com alguns «republicanos de 11 de Outubro», lhe caiam furiosamente em cima. Conta Raul Brandão: «Morreu anteontem, em Cuba, o Fialho de Almeida. Diz-se por aí que se suicidou. Duvido. Sei que sofria do coração e que ultimamente vivia num sobressalto porque todos os dias recebia cartas anónimas por causa dos artigos que escrevia para o Brasil. Queixava-se amargamente «desta republiqueta». Quando vinha a Lisboa, passava as noites no Coliseu, acompanhado pelo padre Sena Freitas, ambos entusiasmados com os palhaços. Previu talvez a morte. “Ao contrário do que se pensa sou um perpétuo enfermo de neurastenia e males crónicos. Agora mesmo eu atravesso uma crise tão difícil que chego a pensar se resistirei a ela ainda algum tempo. Aos meus antigos males junta-se agora o coração, que não funciona bem, e a angina pectoris, que ronda à espreita da primeira ocasião” (Carta de Fialho a Coelho Neto): Apressaram-lhe a morte? Há quem diga, peremptoriamente, que sim, com a intimação de que se calasse, senão que o punham na fronteira...9
Numa carta enviada por esta altura por Fialho e publicada pelo Correio da Manhã, do Rio de Janeiro (também transcrita por Brandão nas suas Memórias), confirma-se que o autor de Os Gatos vivia intensamente este problema: «Foi acordado que, se as minhas correspondências para o Correio da Manhã continuarem a referir-se desagradavelmente para a República, eu serei convidado a ausentar-me por algum tempo. “Isto é categoricamente oficial.” Agora devo convidar também V.Ex.a a ler o bilhete que incluso remeto, e me foi remetido de Lisboa por um amigo íntimo que priva quotidianamente com membros da colónia brasileira de Lisboa e da colónia de portugueses, antigos negociantes no Brasil. Por esse bilhete e pela feição grave que a intolerância jornalística está tomando em Lisboa (e no resto do país seguir-se-á) eu delibero por agora, até à reunião das Cortes, ou ao estabelecimento da normalidade, abster-me de me ocupar completamente da política portuguesa. Tenho uma pequena casa agrícola de que viver; e que não marcha (pelo reduzida e modesta que é) sem a minha administração directa. Tenho aqui, no Alentejo, um irmão meio louco e profundamente enfermo de que não posso separar-me.[...] Resolvo escrever cartas sobre todas as matérias que não contendam com a política da República, e ignorar esta, até que um dia em que a minha desforra chegue, e mui pela certa chegará. V.Ex.a exporá o conteúdo desta redacção do Correio da Manhã, e ela responderá se está de acordo com a minha forçada resolução:»
Fialho de Almeida, no dizer de Óscar Lopes, principal documento da formação do estilo decadente na nossa literatura e o mais importante prosador na transição entre os séculos XIX e XX, morre em 1911 na sua Vilar de Frades natal e vinte anos depois os seus restos mortais são trasladados para um jazigo próprio no cemitério da alentejana vila de Cuba.



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1 - Os Gatos, Fialho de Almeida, vol.2, Lisboa. 1889-1893.
2 - À Esquina, capítulo Eu, Fialho de Almeida, Coimbra, 1903.
3 - Os Gatos, vol.2.
4 - Memórias, vol.2, Raul Brandão, Lisboa,1925.
5 - Memórias de Eduardo Brasão (que seu filho compilou e Henrique Lopes de Mendonça prefacia) - Lisboa, 1925.
6 - Raul Brandão - op. cit., vol. 1, Lisboa, 1919.
7 - Raul Brandão, op. cit. vol. 1.
8 - Saibam Quantos, Fialho de Almeida, Lisboa, 1912.
9 - Raul Brandão, Op. cit., vol. 2.