Para realizar o universal concreto e real surgiram as pátrias

José Marinho

Filósofo:
1906 - 1994



Quando tudo aconteceu...

1904: Nasce no Porto, a 1 de Fevereiro – 1920: Ingressa na Faculdade de Letras do Porto, para frequentar o curso de Filologia Românica – 1925: Acaba por concluir a sua licenciatura em Filologia, tendo para tal apresentado uma dissertação sobre a obra de Teixeira de Pascoaes (Ensaio sobre a obra de Teixeira de Pascoaes) – 1930: Frequenta a Escola Normal Superior em Coimbra e trava conhecimento com Joaquim de Carvalho – 1936: Morre Leonardo Coimbra, seu “mestre para a vida inteira” – 1945: Publica a obra O Pensamento Filosófico de Leonardo Coimbra – 1946: Por exortação de Hernâni Cidade, seu antigo professor na Faculdade de Letras do Porto, inicia a redacção da obra Nova Interpretação do Sebastianismo – 1961: Publica a Teoria do Ser e da Verdade, obra a que dedicou mais de uma dúzia de anos – 1964: Publica a obra Elementos para uma Antropologia Situada, no Centro de Estudos Pedagógicos da Fundação Calouste Gulbenkian, onde, a convite de Delfim Santos, trabalha – 1972: Ainda no Centro de Estudos Pedagógicos da Fundação Calouste Gulbenkian, publica a obra Filosofia: ensino ou iniciação? – 1975: Após prolongada doença, falece, no dia 5 de Agosto – 1976: Já postumamente, é publicada a sua última grande obra: Verdade, Condição e Destino no pensamento português contemporâneo.

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I – Até aos anos 30

Nascido no Porto, a 1 de Fevereiro de 1904, foi igualmente nessa cidade que José Carlos de Araújo Marinho cresceu e realizou todo o seu percurso liceal. Com apenas dezasseis anos, ingressou na Faculdade de Letras do Porto(2).para frequentar o curso de Filologia Românica. Aí vem a conhecer, entre outros, Agostinho da Silva(3) Sant’Anna Dionísio, Delfim Santos e Álvaro Ribeiro(4) bem como José Régio(5) apesar deste então frequentar a Universidade de Coimbra, e Leonardo Coimbra, de quem desde então se torna, como depois virá a escrever, “discípulo para a vida inteira”. Não obstante ter, entretanto, frequentado em simultâneo as disciplinas dos cursos de Filologia Românica e de Filosofia, optou por concluir a licenciatura em Filologia, tendo para tal apresentado uma dissertação sobre a obra de Teixeira de Pascoaes (Ensaio sobre a obra de Teixeira de Pascoaes, 1925). Já licenciado, e casado, lecciona até ao final da década de vinte em diversos liceus do Porto, altura em que redige os seus Aforismos sobre o que mais importa. Por volta de 1930, frequenta a Escola Normal Superior em Coimbra e trava conhecimento com Joaquim de Carvalho, que o convida a publicar os seus Aforismos, bem como para ser seu assistente.




II – Na morte de Leonardo Coimbra, seu “mestre para a vida inteira”

Por insatisfação em relação à sua obra e por relutância em “subir à carreira universitária”, acaba, contudo, por recusar esse duplo convite(6) optando por se manter como professor liceal – primeiro em Bragança, entre os anos de 1931 e 32, depois em Faro, entre os anos de 1933 e 34, e em Viseu, entre os anos de 1934 e 37. É este o período de redacção dos seus Ensaios de Aprofundamento, alguns dos quais então publicados na Presença e na Seara Nova. Entretanto, trava uma acesa polémica com António Sérgio, do qual se vem a afastar definitivamente, e, a pedido de Leonardo Coimbra, escreve o prefácio do segundo volume do seu livro sobre a filosofia de Henri Bergson. Profundamente abalado com a morte do seu “mestre para a vida inteira”, ocorrida em 1936(7) retoma ainda a redacção da sua obra O Pensamento Filosófico de Leonardo Coimbra, que só dará por terminada em 1945. Entretanto, em 1937, por ter protestado pela inclusão abusiva do seu nome num telegrama de repúdio a um atentado a Salazar, é detido por alguns meses. Para além disso, é-lhe ainda retirada a licença de ensino. Face a todas essas contrariedades, muda-se, com a família, para Lisboa, onde vem a reencontrar muitos dos seus condiscípulos da Faculdade de Letras do Porto, aos quais entretanto se tinham juntado outros nomes, como, entre outros, António Quadros, Afonso Botelho e Eudoro de Sousa(8).





III – Maturação da Teoria do Ser e da Verdade

Para além das muitas traduções que, por necessidades económicas, foi fazendo, desdobra-se em múltiplos projectos – assim, entre 1937 e 43, redige a sua obra Significado e Valor da Metafísica, em que tentou, pela primeira vez, expor de forma sistemática o seu pensamento; em 1943, no rescaldo da polémica levantada pela publicação da obra O Problema da Filosofia Portuguesa, de Álvaro Ribeiro, escreve, sobre o assunto, uma série de textos; entre 1946 e 47, realiza uma série de conferências, que projectou publicar sob o título geral de Condição e Destino do Homem; ainda em 1946, por exortação de Hernâni Cidade, seu antigo professor na Faculdade de Letras do Porto, inicia a redacção da obra Nova Interpretação do Sebastianismo. Por, entretanto, ter concentrado todos os seus esforços na redacção da Teoria do Ser e da Verdade, deixa inacabada essa obra, bem como uma outra que teria o título de Misticismo e Lógica no Pensamento Português Moderno. Se exceptuarmos uma série de artigos que publicou em alguns jornais, bem como algumas conferências que realizou, toda a década de cinquenta é dedicada à redacção da Teoria. Esta, contudo, só viria a ser publicada no primeiro ano da década seguinte, e mesmo assim com a relutância do próprio autor, ainda e sempre insatisfeito com o resultado do seu trabalho.




IV – Após a publicação da Teoria

No seguimento da publicação da Teoria do Ser e da Verdade, José Marinho é convidado, por Delfim Santos(9) para integrar o Centro de Estudos Pedagógicos da Fundação Calouste Gulbenkian, onde se manterá até ao seu falecimento, que se consumará no dia 5 de Agosto de 1975, após prolongada doença. Aí, para além de uma série de recensões críticas que elaborou para o respectivo “Boletim Bibliográfico”, escreve dois opúsculos que serão publicados pela própria Fundação (Elementos para uma Antropologia Situada, 1964; Filosofia – ensino ou iniciação?, 1972). É ainda com o apoio do Centro de Estudos Pedagógicos da Fundação Calouste Gulbenkian que vem a redigir a sua última grande obra, que será publicada já postumamente (Verdade, Condição e Destino no pensamento português contemporâneo, 1976). Entretanto, para além de diversos artigos que publicou em várias revistas – nomeadamente, na Colóquio, no Tempo Presente e n’ O Tempo e o Modo –, bem como de algumas comunicações realizadas, prosseguiu ainda a “viagem” da qual brotou a sua Teoria. Prova disso é a série de manuscritos que nos deixou na sua “arca”, e que, no seu conjunto, constituiriam o corpus de uma outra obra teorética, a Assumpção do Nada, a qual, na tese de Jorge Rivera, “extrema ainda o que na Teoria somente na cisão extrema se vislumbrava: o trânsito e o recurso do instantâneo ao genesíaco que conduz para além do ser, a uma excedência do horizonte ontológico”. Prova de que a “barca”, uma vez iniciada a sua “viagem”, jamais a consegue interromper.

(1) Em VIDAS LUSÓFONAS, Renato Epifânio também é o autor da biografia de Agostinho da Silva.

(2) Na primeira Faculdade de Letras do Porto, que existiu durante os anos de 1919 e 1931 – a actual foi criada em 1961 –, por Marinho evocada em diversos textos.

(3) Que, tendo-se igualmente matriculado no curso de Filologia Românica, acabou depois, por desentendimentos com Hernâni Cidade, por se licenciar em Filologia Clássica. Nas palavras do próprio Agostinho da Silva, contudo, a real Licenciatura que ele obteve na Faculdade Letras do Porto foi uma Licenciatura em “Liberdade” – e, posteriormente, um Doutoramento em “Raiva”–, dado que, ainda nas suas palavras, essa Faculdade era, sobretudo, “uma escola de liberdade”, reflexo da “largueza de espírito de Leonardo” – por isso mesmo, porém, “o governo não gostava dela e fechou-a”.

(4) Que viria a ser aquele de quem José Marinho se manteve mais próximo – apesar de todas as diferenças filosóficas.

(5) Com quem viria igualmente José Marinho a cimentar uma grande amizade, facto que é atestado pelas múltiplas cartas entre ambos trocadas – muitas das quais iremos aqui citar –, bem como por diversos depoimentos – a título de exemplo, atentemos neste: “É ele [José Régio] não apenas o homem que com Teixeira de Pascoaes, no juízo vesânico dos melhores, revela entre os portugueses vivos os mais altos dons, como um dos mais nobres e sérios amigos da verdade e inquiridores ou julgadores de responsável juízo.”.

(6) Não obstante a sua consideração por ele – nas suas palavras, “o mais dedicado estudioso da cultura filosófica portuguesa desde a Idade Média aos tempos modernos”. A seu respeito, escreveu ainda: “Tendo perante si o grande exemplo de Teófilo Braga, cuja obra ao contrário de muitos outros das últimas gerações prezou, Joaquim de Carvalho sonhou realizar para a filosofia o que aquele realizou para a literatura./ Uma primeira diferença, porém, aparece já aqui. Enquanto Teófilo Braga via consubstanciada, com a nação portuguesa, ou com a sua alma, as formas de poesia, da novela ou da história, Joaquim de Carvalho, pelo contrário, via a filosofia sempre como algo de estranho ou aleatório, qual árvore transplantada, de raízes pouco fundas sem aquelas amplas ramarias às sombras das quais os meditativos portugueses confiadamente se abrigassem.”.

(7) Abalo do qual resultou a assunção de uma “grave responsabilidade” – nas palavras do próprio José Marinho, escritas numa carta a Álvaro Ribeiro: “Tenho a dizer-lhe, caro Álvaro, que as horas de devaneio e de ensainhos estão passadas. Oxalá você sinta bem aquilo de que me fala, a grave responsabilidade que contraímos com a morte daquele que nos deu o ser espiritual.”. Na carta a que com estas palavras Marinho responde, Ribeiro, por sua vez, após ter-se referido a Leonardo como aquele que lhes “abriu os olhos para a vida espiritual”, havia já igualmente afirmado que “a morte de Leonardo deixa sobre todos nós uma responsabilidade tremenda”. Saliente-se ainda que, nesta carta, Ribeiro considera Marinho como o seu “irmão mais velho em Leonardo”, “irmandade” essa que Marinho igualmente reconheceu em múltiplas ocasiões – daí, a título de exemplo, o ter-se referido a Ribeiro como “nosso companheiros de muitos anos” ou como “meu querido colega”. Apesar dessa “irmandade”, e da assumida “proximidade em que se encontravam em certos pontos essenciais”, nem por isso deixou Marinho, inclusivamente em algumas das muitas cartas que lhe dirigiu, de assumir “o quanto distava” dele, o quanto eram “diferentes”, por mais que “unidos por uma comunidade de aspirações”. Sobretudo pelas razões que o próprio Marinho enunciou: “A dificuldade procede visivelmente de que o meu pensamento se situa de modo contrapolar do seu. Para mim com efeito, a chamada filosofia humanista está posta radicalmente em causa, e podemos pelo menos perguntar-nos se toda a espécie de humanismo cristão, agnóstico ou ateu, não entrou já no que diríamos a catastrófica e gloriosa agonia. A filosofia antropológica, antropática e antropolática, mesmo referida ao Deus-Homem, alcançou a exaustão: desde agora os seus caminhos se encontram ante a muralha intransponível ou perante o abismo.”; “…Álvaro Ribeiro é, como tantos outros pensadores de tradição portuguesa ou europeia, demasiado cristão – se entendermos por cristão o pensador imoderadamente amigo do homem.”; “…não posso acompanhar Álvaro Ribeiro na sua valorização do termo médio, da razão, da palavra, escrita mesmo com maiúscula, no seu humanismo, na sua confiança e obsessivo amor dos homens. De uma coisa estou seguro: o humanismo, cristão ou agnóstico ou ateu, idealista à maneira de António Sérgio, ou materialista, terminou o seu ciclo.”. Em abono do seu “irmão” Álvaro Ribeiro escreveu: “…nenhum pensador português nos tempos modernos conseguiu numa construção cerrada e com estilo ao mesmo tempo clássico e original conciliar o que chamamos exigência da razão e sentido de transcendência. Consciente e expressamente tributário das filosofias de Sampaio Bruno e de Leonardo Coimbra, atento, o que não é menos, ao significado não apenas literal do magistério de Leonardo Coimbra – nenhum magistério é apenas literal e conceptual mas simbólico e exemplar – Álvaro Ribeiro concitou contra si, como bom sinal, a incompreensão da maioria dos crentes bem mais titulados representantes do esquerdismo e do direitismo.”; “Álvaro Ribeiro é hoje, em toda a Europa, um daqueles que assumem a responsabilidade de ser filósofo”; “Depois de Leonardo Coimbra, nada foi escrito em Portugal com a significação filosófica da obra de Álvaro Ribeiro.”. Isto apesar de considerar a sua filosofia como “contraditória”.

(8) Em cujos estudos Marinho reconheceu “afinidade funda com a poética portuguesa e a situação das nossas mais difíceis formas de filosofia”.

(9) Pensador em quem, não obstante a recíproca amizade, Marinho não se reconhecia – como chegou a escrever numa carta a Álvaro Ribeiro: “Decididamente não me interessa o pensamento aporético a que o nosso Delfim concede os seus sufrágios.” –, sobretudo porque, na sua perspectiva, “no princípio, no meio e no fim a filosofia de Delfim Santos é uma antropologia, ou seja, uma filosofia do homem, uma filosofia do homem no tempo”, em que “o absoluto está gnoseológica e fenomenologicamente fora de toda a questão”.