O último herói romântico de Portugal...

Palma Inácio

Resistente antifascista:
1922 - 2009



Quando tudo aconteceu...

1922: Hermínio da Palma Inácio nasceu em Ferragudo a 29 de Janeiro. 1941: Faz o curso de Mecânico de Avião, na base da Granja do Marquês (Sintra). 1947: Envolve-se numa tentativa de levantamento militar, marcado para 10 de Abril. É preso e encarcerado no Aljube a 6 de Setembro. 1948: Evade-se da cadeia em 16 de maio. 1955-1961: Reside no Brasil. 1961: Dirige o desvio do avião da TAP da carreira Casablanca-Lisboa em 10 de novembro. 1967: Em 17 de Maio participa no assalto à dependência do Banco de Portugal na Figueira da Foz. 1967: Em 19 de junho funda a LUAR, (Liga de Unidade e Ação Revolucionária). Detido pela Interpol, em Paris, Palma Inácio esteve quatro meses na prisão da Santé. 1968: Passou cerca de um ano em Carabanchel, a terrível prisão política do franquismo. Em 18 de agosto entra no país com o intuito de ocupar a Covilhã com um grupo armado mas é detido e conduzido à prisão da PIDE no Porto. 1969: Em 8 de Maio consegue escapar da prisão da delegação da PIDE do Porto. 1971: Em maio e junho são assaltados os consulados portugueses em Roterdão e no Luxemburgo. 1972: Assalto a uma carrinha blindada de um banco português em Paris. Projeta o rapto de altas individualidades afectas ao regime, como forma de se conseguir a libertação dos presos políticos. 1973: É preso a 22 de novembro. 1974: Em Janeiro, um Comité de Apoio á Luta do Povo Português protesta «contra as torturas de que é vítima Palma Inácio que, em consequência das torturas infligidas pela PIDE/DGS, se encontra no hospital em estado de coma». No dia 26 de abril são libertados todos os presos políticos. 1975: Em agosto realiza-se o 1º Congresso da LUAR. É eleito deputado pelas listas do PS. 1978: A LUAR foi extinta. 2000: Presidente da República Jorge Sampaio atribuiu-lhe a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade. 2005: A 8 de Abril é-lhe atribuída uma pensão de €203,5 ilíquidos. 2009: Hermínio da Palma Inácio falece no dia 24 de Julho, com 87 anos.

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VIDA E MORTE DE UM HERÓI

Morreu hoje, 24 de Julho de 2009, aos 87 anos, Hermínio da Palma Inácio, figura política da resistência ao regime salazarista. Passou os últimos anos num lar em Lisboa, fundado por antigos alunos da denominada "Velha Guarda Casapiana", lar onde faleceu por volta do meio-dia, após doença prolongada.

Palma Inácio começou a ser conhecido ao protagonizar o primeiro desvio político de um avião em 10 de Novembro de 1961. Nunca, na história da aviação comercial, um avião fora tomado no ar. O plano dos revolucionários é arriscado: pretendem seguir na rota para Lisboa, simular a aterragem na Portela e voltar para trás, em voo rasante sobre a capital, Barreiro, Setúbal, Beja e Faro, para lançarem 100 mil panfletos com apelos à revolta popular contra a ditadura. O nome de código era Operação Vagô.




A OPERAÇÃO VAGÔ

Marrocos, 10 de Novembro de 1961, sexta-feira. O Super-constellation da TAP Mouzinho de Albuquerque descola à tabela do Aeroporto de Casablanca, em Marrocos. Eram 09h15. O comandante José Marcelino e o co-piloto Raul Teles Grilo ganham altitude, alinham o avião na rota para Lisboa e permitem aos passageiros desapertar os cintos e acender os cigarros. Estava bom tempo. A viagem, de cerca de hora e meia, prometia ser calma. Mal sabia a tripulação que entre os 18 passageiros seguiam seis guerrilheiros, inimigos jurados do regime, chefiados por Palma Inácio.

Cerca de 45 m após o início do voo, Hermínio da Palma Inácio entra de surpresa pela cabina de pilotagem e aponta um revolver à cabeça do Comandante: “Isto é uma ação revolucionária. Não quero fazer mal a ninguém” – diz. “Somos um grupo revolucionário patriótico e estamos a fazer uma operação política, contra o regime ditatorial de Salazar. O senhor tem duas alternativas: ou colabora, fazendo tudo o que lhe for ordenado, ou afasta-se e eu próprio assumo os comandos do avião".

O objetivo era lançarem sobre Lisboa, Barreiro, Setúbal, Beja e Faro, 100.000 folhetos, denunciando as eleições para a Assembleia Nacional que se iam realizar 2 dias depois e incitando à revolta contra o regime de Salazar, regressando depois a Tânger onde Palma Inácio e os seus 6 companheiros, deviam obter asilo político.

O co-piloto Teles Grilo, o mecânico-chefe António Coragem, o mecânico de voo Alberto Coelho não disseram palavra. Apenas o comandante Marcelino, ameaçado pelo revólver, tentou com serenidade demover o guerrilheiro. Disse que o avião não tinha combustível para regressar a Tânger. Mas Palma Inácio, que era mecânico de aviões e tirara nos Estados Unidos a licença de piloto de linha aérea, estava seguro do que fazia. Exigiu os registos de voo do Super-constellation – e verificou que os tanques tinham sido atestados em Casablanca. Havia gasolina à farta. O comandante tentou outro truque: “Como é que vai lançar os papéis? Eu não posso abrir as janelas do avião” – disse José Marcelino. A resposta de Palma calou-o: “Pode, pode. Voa o mais baixo possível, despressuriza as cabinas e abrimos as janelas de emergência.”

Palma Inácio tinha a situação dominada. Lá atrás, a aventura também não podia correr melhor. Os outros cinco revolucionários nem sequer foram obrigados a levantar a voz e a mostrar as armas. O comissário de bordo Orloff Esteves e as duas assistentes, Maria del Pilar e Luísa Infante, ajudaram a manter a calma. Nem todos os 13 passageiros compreenderam que o avião fora tomado de assalto: só ficaram a saber depois da aterragem em Tânger.

A cerca de meia hora de Lisboa, momentos antes de iniciar os procedimentos de descida, o comandante Marcelino contacta a torre de controlo – e recebe autorização para aterrar na pista 05.

Faz uma simulação de aterragem tão perfeita que Palma Inácio exclama: “Que está a fazer? Se aterra somos todos presos”. Mas, no último momento, acelera os 4 motores hélice: o avião ‘borrega’ sobre a pista, ganha altura e afasta-se do aeroporto.

José Marcelino volta a comunicar com a torre – e tenta explicar ao controlador, por meias palavras, que a bordo o obrigam a fazer um voo rasante sobre Lisboa e outras cidades a sul. “Repita lá?” – dizem-lhe da torre. A comunicação é interrompida pela voz de um general da Força Aérea, Costa Macedo – que pilotava um monomotor; percebeu tudo e deu o alerta.

Rasando a cidade de Lisboa, voando a cerca de 100 m. de altitude, evitando assim os radares e os dois caças Sabre, que entretanto tinham descolado de Monte Real, o avião segue sempre a baixa altitude, enquanto os companheiros de Palma Inácio se preparam para encher os céus de Portugal com os folhetos.

Os seis revolucionários tinham levado 100 mil folhetos, impressos em fino papel de seda, na bagagem de mão. O avião passou a rasar a estátua do Marquês de Pombal, sobrevoa a Baixa, guina sob Alcântara. Uma chuva de papéis cai sobre Lisboa – o mesmo no Barreiro, Setúbal, Beja, Faro. Cem mil panfletos voaram das janelas do avião. A missão estava cumprida.

Mas, os sustos ainda não tinham acabado. Já, de regresso a Marrocos, os pilotos avistam 2 navios de guerra portugueses. Só havia uma hipótese de escapar. Era voar a meia dúzia de metros acima da água por entre os dois navios, impedindo-os, assim, de utilizarem a artilharia, pois se o fizessem disparavam um contra o outro. Foi a incrível proeza que o Comandante Marcelino conseguiu.

O Super-constellation iniciou então um perigoso jogo do gato e do rato. O avião teria de voar baixo, a escassos 100 metros de altura, para fugir aos radares e iludir os caças. A manobra era perigosa, só ao alcance de pilotos de elite.

Foi só quando aterraram em Tânger, no meio dos festejos pelo êxito da operação, que os passageiros, na maioria estrangeiros, perceberam o que se tinha passado.

O Super-constellation, como estava previsto, aterrou no Aeroporto de Tânger, em Marrocos, às 12h50 de 10 de Novembro, sexta-feira. A operação mereceu honras da Imprensa internacional – era o que os revolucionários pretendiam.

Depois de obter garantias que o avião não estava armadilhado, o Comandante Marcelino regressou a Lisboa, sem que nada tivesse acontecido aos passageiros, à tripulação e ao avião.

Apesar das pressões do Governo português para que Marrocos extraditasse Palma Inácio e os restantes “comandos”, eles conseguiram ir para o Brasil.

O comando revolucionário que executou o desvio do avião era constituído por seis portugueses asilados políticos no Brasil.

Foram eles: Hermínio da Palma Inácio, Amândio Silva, Camilo Mortágua, João Martins, Fernando Vasconcelos e Helena Vidal (já falecida).

Helena, que era casada com Fernando Vasconcelos, estava grávida na altura da operação revolucionária. Ela entrou a bordo com as cinco pistolas presas à barriga por uma cinta. Palma Inácio subiu a bordo com o seu inseparável revólver escondido na meia.

De acordo com os planos da ‘Operação Vagô’, Palma Inácio ficava em Tânger enquanto o general Humberto Delgado partia sob disfarce para a Europa com o objetivo de preparar o pronunciamento militar.

O desvio do avião teria como objetivo o lançamento de panfletos de apoio à intentona. O grupo de Manuel Serra encontra dificuldades em organizar a insurreição e, ao contrário do que esperava Delgado, o Partido Comunista recusa o apoio. Serra ainda pede aos companheiros de Tânger para adiarem o desvio do avião.

Mas Henrique Galvão não lhe dá ouvidos. Tânger estava enxameada de agentes da PIDE, a Polícia política portuguesa que vigiava os revolucionários. A ‘Operação Vagô’ não podia ser adiada. Foi desencadeada em 10 de Novembro. Os panfletos foram substituídos: em vez de instruções como fabricar bombas, denunciavam as eleições fraudulentas para a Assembleia Nacional, marcadas para daí a dois dias, e apelavam à revolta popular.

Nota: Recentemente o historiador Luiz Vaz corrige alguns aspetos sobre o desvio do avião da TAP em livro publicado pela Editora ncora. Luís Vaz reconstitui e analisa o célebre desvio do avião. Para escrever este livro o autor entrevistou os membros do comando da «Operação Vagô» ainda vivos e foi com Camilo Mortágua a Marrocos para identificar os itinerários percorridos há meio século. Palma Inácio e o Desvio do Avião (1961).




HERMÍNIO DA PALMA INÁCIO

Hermínio da Palma Inácio nasceu a 29 de Janeiro de 1922 em Ferragudo, então uma pequena aldeia de pescadores da costa algarvia; filho de um humilde operário ferroviário, passou a juventude em Tunes, concelho de Silves.
Terminado em Silves o curso secundário industrial, alista-se aos dezoito anos na Aeronáutica Militar e é destinado à Base Aérea nº1, na Granja do Marquês, Sintra. Aí completa o curso de mecânico e atinge o posto de sargento. Consegue também o brevet de piloto civil. Durante o serviço militar estabelece relações com alguns oficiais desafetos ao regime salazarista




PRIMEIRA REVOLTA

Palma Inácio iniciou a luta antifascista com a sua adesão ao "Golpe dos Militares", em 10 de Abril de 1947, um movimento desencadeado pelo general Godinho e pelo almirante Cabeçadas e que contou com a participação de alguns civis, entre os quais João Soares, pai de Mário Soares. Uma das ações consistia em imobilizar os recursos da Base Aérea da Granja do Marquês, onde Palma Inácio havia prestado serviço.
«Como tinha sido sargento mecânico na Granja do Marquês, aliciaram-me para sabotar alguns aviões militares e um Dakota em que normalmente viajava Santos Costa.» Recorda Palma Inácio na entrevista á revista História de setembro de 2000.
Bom conhecedor do terreno, encaminha-se pois para aí na companhia de outro mecânico, Gabriel Gomes, e entre os dois cortam os cabos de comando de vários aviões Tiger Moth, T-6 e DC3, e de um Dakota utilizado pelo Ministro da Guerra, Santos Costa, para as suas deslocações oficiais.
A conjura é cancelada à última hora e a polícia lança uma vaga de prisões. Na iminência de ser detido, o jovem revolucionário refugia-se numa casa de Lisboa e depois numa quinta em Odivelas, onde aparenta ser estudante em férias.
«Cheguei a ir a Tancos, porque o núcleo da revolta era na região de Tomar. Mas tive de voltar a Lisboa. A PIDE descobriu que tinha sido eu o sabotador e tentou apanhar-me na KLM, na Portela de Sacavém, onde eu era na altura mecânico. Consegui fugir.»




PRIMEIRA PRISÃO

Denunciado por alguém que vira a sua fotografia afixada no posto local da GNR, Palma Inácio é preso e dá entrada no Aljube. «Passei cerca de meio ano a aguardar julgamento. Instalaram-me nos curros. Eu tinha levado a cabo a única operação bem-sucedida da revolta. Queriam saber a todo o custo quem me tinha dado a ordem. Torturaram-me. Cheguei a ter os pés tão inchados, que não cabiam nos sapatos.»
Havendo-se recusado a revelar o nome do oficial que o encarregara da missão de sabotagem, sofre a tortura da "estátua" por doze dias consecutivos, seguidos por cinco meses de incomunicabilidade. As celas onde mantinham os presos isolados tinham quatro metros por um. Chamavam-lhes “curros” ou “gavetas”. Palma Inácio foi torturado e passou muitos dias em supressão de sono (tortura do sono). Quando o chefe da prisão lhe disse “Vais morrer aqui”, respondeu-lhe “Vamos a ver”. Ao que o polícia retorquiu “Só se fugisses, mas é impossível”. “Vamos a ver”, respondeu. «Se me disseres quem te deu a ordem sais daqui já. Se não falares vais morrer ao Tarrafal.»
Através das grades da cela, passou meses a observar os movimentos da sentinela que, mesmo por baixo, andava para trás e para diante: «Preparei cuidadosamente a fuga. Sem praticamente apoios nenhuns. Decidi fugir pela única janela sem grades do Aljube. Era uma sala de visitas, a dar para o saguão, utilizada pelos guardas como apoio na condução dos presos isolados a uma casa de banho contígua. Tinha de resolver vários problemas: ser isolado para esse lado do Aljube, acompanhar um grupo de presos que soubessem da fuga a essa sala de visitas, arranjar dois ou três lençóis extras porque a altura era grande, e saltar para o saguão vigiado por um GNR, explorando o efeito de surpresa. Depois descer as escadas do saguão que dão para a rua, anular a reação do guarda da GNR que montava guarda na porta principal da cadeia e, mais importante ainda, fazer tudo isto de manhã, quando a Rua da Sé estava cheia de gente, por forma a impedir que disparassem sobre mim. Era também o momento em que as casas de banho principais estavam ocupadas, e a única altura em que os presos eram levados para a tal sala de visitas.»




PRIMEIRA FUGA

«Foi o que aconteceu». Na manhã de 16 de Maio de 1948 «Aproveitei o momento em que o guarda acompanhou um preso à casa de banho, recomendei ao companheiro que o distraísse e pendurei os lençóis que tinha escondidos nas calças largas. Num ápice saltei para a retaguarda do guarda do saguão, que ficou sem reação. Corri pelas escadas que conduzem à rua e empurrei o GNR da porta do Aljube quando passei por ele. Desci a rua com um galope louco e só parei na Rua da Madalena, onde apanhei um táxi.»
Após quatro meses escondido numa casa perto de Alcobaça, um amigo ajuda-o a entrar num navio de carga que partia de Lisboa para Casablanca, onde desembarca. No Marrocos francês obtém o estatuto de exilado político e trabalha por um ano como mecânico de camiões. «Dizia-se sempre que a revolução estava para amanhã e que precisavam de mim. Porém, o tempo foi passando, e nada acontecia. Sentia-me incapaz de sobrecarregar as pessoas. Por isso decidi aceitar a oferta de uma passagem para Marrocos, escondido num cargueiro. Foi o Gabriel Pedro e o filho, o Edmundo Pedro, que me levaram num barquinho à vela a atravessar o Tejo e a apanhar o dito cargueiro no Barreiro.»
Emprega-se depois como membro da tripulação de um navio mercante que operava no Norte da Europa. Deste passa para outro, no qual, como empregado de mesa, viaja pelo Extremo Oriente e chega aos Estados Unidos. Fixa-se então na pequena cidade de Northampton, em Massachusetts, dotada de um aeroporto em funcionamento desde 1929, e consegue um emprego como mecânico da aviação, outro brevet de piloto civil e um novo trabalho como instrutor de voo. Assim passam cinco anos até que, em 1955, os serviços de imigração o descobrem como indocumentado e o deportam.
A etapa seguinte é o Brasil, onde reencontra Humberto Delgado e se relaciona com outros membros do exílio político, entre eles Henrique Galvão. Foi este quem concebeu a chamada Operação Vagô, que Palma Inácio e cinco companheiros iriam protagonizar.
O desvio do avião da TAP havia esgotado os fundos dos conspiradores exilados no Brasil, que desejavam prosseguir a sua atuação até ser atingido objetivo final do desmantelamento do regime ditatorial português.




LUAR

Em Paris é fundada em 1967 a Liga de Unidade e Ação Revolucionária - LUAR. Entre os fundadores, com Palma Inácio, está Emídio Guerreiro que depois da Revolução de 25 de Abril adere ao Partido Popular Democrático. Foi secretário-geral do PPD-PSD em 1975, liderando-o durante um período em que Francisco Sá Carneiro, por motivos de doença, se deslocara ao estrangeiro. Afastou-se daquele partido em 1975.
Em 1965, considerado pela PIDE como um dos indivíduos mais perigosos, passeava-se calmo e sorridente, sempre elegantemente vestido e com o seu cachimbo, pela exposição “Portugal Hoje” que o regime fascista montara no Rio de Janeiro. Os pides, esgueirando-se aterrorizados e impotentes, perseguiam-no pelos corredores do pavilhão, até se irem sentar na mesa ao lado da dele, numa casa de fados de Copacabana, onde passava as noites a conviver animadamente com o cantor Max e outros portugueses. Quando lhe perguntavam se não tinha medo de se expor assim, respondia que eles ali nada podiam contra ele e que, quanto aos seus projetos futuros, “eles só não podem saber nem o dia e hora, nem o local”. Fazia desporto e mantinha uma grande disciplina física e mental porque tinha de se “manter em forma para tudo o que ainda há a fazer”. Mal sabiam os que, no seu pequeno e modesto apartamento, com ele jogavam o “poker desconfio” (jogo de bluff e dissimulação que ensinou aos que com ele mais conviviam) que, para financiar futuras ações de guerrilha, estava a preparar-se para um dos mais espetaculares golpes contra a ditadura: o assalto à dependência do Banco de Portugal na Figueira da Foz.





A OPERAÇÃO MONDEGO

A opção recaiu sobre um projeto a que se deu o nome de “Operação Mondego”, a primeira atuação da LUAR. Tratava-se agora de um assalto à agência do Banco de Portugal na Figueira da Foz. O plano foi meticulosamente estudado e, ao ser posto em prática, Palma Inácio fez-se passar por um arqueólogo brasileiro interessado em estudar as ruínas de Conímbriga. Com o pretenso fim de conseguir fotografias aéreas foi-lhe facultado o uso de um avião.
Uma vez assegurado um relativo êxito, a 17 de Maio de 1967, minutos antes das quatro da tarde, hora do encerramento da agência, Palma Inácio com Camilo Mortágua, António Barracosa, e Luís Benvindo entram pelas instalações e em breve saem com três sacos contendo mais de 29 000 contos, (o equivalente a uns atuais 5 milhões de euros), a caminho da fronteira espanhola. Fora um rude abalo ao prestígio do Estado, mas na realidade não muito rentável para a LUAR. Algumas notas foram retiradas de circulação, como é o caso das notas de 500 escudos com a esfinge do primeiro vice-rei da Índia, D. Francisco de Almeida e a nota de mil escudos com a esfinge do rei D. Dinis, depois de ter sido assaltada a agência do Banco de Portugal, na Figueira da Foz.
De qualquer modo, informadores da PIDE infiltrados na LUAR levaram a que 11 000 contos fossem recuperados numa quinta dos arredores de Paris, assim como idêntica quantia escondida numa mina de água perto de Guimarães.
Com os fundos ainda passíveis de serem utilizados adquiriram-se armas na Checoslováquia, então enviadas a depósitos na Bélgica, França e Portugal.
Em Setembro de 1967 um comando da LUAR dirigido por Seruca Salgado assalta o Quartel de Évora, de onde são desviadas armas para a organização.
Note-se que o assalto ao Banco de Portugal foi feito com réplicas de armas (haveria apenas uma pistola autêntica). Dias depois era difundido, em Paris, um comunicado reivindicando a autoria do assalto pela Liga de Unidade e Ação Revolucionária (LUAR). Detido pela Interpol, em Paris, Palma Inácio esteve quatro meses na prisão da Santé.
Dos vinte e dois operacionais presumidamente envolvidos na "Operação Mondego", segundo o acórdão proferido no 2º Juízo Criminal da Boa Hora, dezasseis foram posteriormente condenados [sete à revelia] e seis foram absolvidos.
Foram julgados à revelia e condenados: António Manuel Marques Barracosa (13 anos), Hermínio da Palma Inácio (16 anos), Luís Benvindo (13 anos), Camilo Tavares Mortágua (20 anos), Germano Mateus de Jesus Filipe (8 anos), Júlio dos Santos Alves (12 meses), Mariana Teresa da Conceição Xufre (7 meses). Condenados a prisão maior, Oliveiros Cabrita Gonçalves (6 anos), ngelo Maria Fernandes Cardoso (7,3 anos), Castor Manuel Ferreira (8 meses), Natália Augusta Fernandes Cardoso (6 meses), Fernando Manuel de Oliveira (8 meses), Joaquim Manuel Nunes de Freitas e Silva (7 meses), Fernando Abel Campino Gandra ( 7 meses), António Luís Teixeira (8 meses), Joaquim da Silva Ramos (3,4 meses).





NOVA AÇÃO, NOVA PRISÃO, NOVA FUGA

O último e mais espetacular plano de Palma Inácio não chegou a consumar-se. Propunha-se ele ocupar com elementos da LUAR a cidade da Covilhã, cujos acessos, incluindo estradas e pontes, seriam cortados com explosivos. A população seria evacuada e a PSP e a GNR desarmadas. Após alguns dias, os ocupantes retirar-se-iam para o estrangeiro.
«Isso foi já no Verão de 1968. Tínhamos uma organização - a LUAR -, tínhamos dinheiro e um grupo de mais de 50 homens, uns cá dentro e outros que vinham de França e de Espanha, todos dispostos à luta armada. As coisas não correram bem. Fomos presos, eu e alguns companheiros, na zona de Alfândega da Fé.»
«Porque a detenção se fez na zona do Porto. O julgamento também estava a ocorrer no Porto. Havia vários processos em curso. O cúmulo destas penas nunca mais me permitiria sair da cadeia com vida. O meu advogado, o Dr. António Macedo, chegou a oferecer-se para me "passar" uma arma, o que eu quisesse. A única solução era a fuga. Eu respondi-lhe que precisava apenas de «uma noite em que chovesse a potes».
Pelo testemunho de Mário Soares, ao qual a irmã de Palma Inácio recorrera como advogado, sabe-se que era vontade do irmão que o julgamento fosse adiado até chover. À beira de ser novamente transferido para Caxias ou para o forte de Peniche, Palma Inácio iniciou a fuga, precisamente numa noite de chuva.




PRISÃO E FUGA-2

Preso na cadeia da PIDE do Porto, situada na Rua do Heroísmo, contígua ao cemitério do Prado do Repouso, Palma Inácio começa a planear nova fuga. Consegue que uma irmã lhe envie umas lâminas escondidas num álbum e pacientemente vai serrando as grades da cela. Nove meses depois da sua prisão, numa noite de forte temporal, empurra as grades, cai sobre um alpendre, salta um muro e na rua passa em frente de um guarda abrigado numa guarita que o toma por um transeunte fugindo à chuva; escapou sem deixar rasto.
Na primeira esquina corre até ao tabuleiro superior da ponte D. Luís I, por onde os comboios passavam a reduzida velocidade. Suspende-se num vagão de carga, chega a Lisboa e semanas depois cruza a fronteira.
Fernando Pereira Marques, outro membro da LUAR que estava detido na mesma cela da delegação da PIDE do Porto, para onde Hermínio da Palma Inácio fora transferido de Caxias, descreveu mais tarde a «fuga que deixou a PIDE verdadeiramente desesperada pela sua ineficácia». Lembrando que, «devido a traição de um tipo chamado Castelo Branco, a PIDE soube que iam ser introduzidas serras, na prisão, para Palma se poder evadir, sabendo a polícia como se processaria a passagem das serras trazidas de Londres por uma irmã deste», Pereira Marques relatou que a própria polícia não descobrira porém onde o utensílio para a fuga estava escondido. Pereira Marques conseguiu depois que o alerta fosse dado o mais tarde possível, pelo que os guardas prisionais só se aperceberam da fuga, pelas 9 horas da manhã.
Refira-se ainda que, na sequência de um inquérito relativo à fuga de Palma Inácio, conduzido no seio da PIDE/DGS pelo inspetor Fernando Gouveia, foram suspensos do serviço um chefe de brigada e um agente de 2.ª classe dessa polícia, respetivamente António de Matos Pais e Rogério Guimarães Lages, bem como o guarda prisional Fernando Martins de Lemos.
Mais uma vez tinha saído praticamente sem apoio exterior, por sua conta e risco.
«De tal forma que tive de viajar para Lisboa nos engates dos comboios e nos vagões de mercadorias. Só em Lisboa é que passei a ter o apoio do Dr. Mário Soares, através de um sobrinho meu que o contactou. Era procurado pela polícia, que convenceu o tribunal a suspender temporariamente a audiência, já que aquela estava convencida de que me apanharia. Mas não aconteceu. Com o tal apoio, atravessei a fronteira para Espanha. Fui preso, mas, ao contrário do que poderia esperar-se, Franco não me extraditou, como era desejo de Portugal.»
A PIDE transmite a sua fotografia pela televisão, oferece uma recompensa de 50 mil escudos por informações que levem à sua recaptura, mas tudo sem resultado. É no entanto detido em Madrid e enviado para a prisão de Carabanchel. Um pedido de extradição não é deferido pelo Governo Espanhol. Expulso do país, fixa-se na capital francesa.
Entre 1969 e 1973 são levadas a cabo diversas operações, tanto em Portugal como no estrangeiro. Elementos da organização chegam a ser presos em França, acusados de assaltos a bancos, nomeadamente ao Banco Franco-Português do Ultramar.
Entre 1970 e princípios de 1972, de acordo com o Ministério Público «a LUAR introduziu em Portugal 1000 quilos de explosivos plásticos; 2000 detonadores pirotécnicos; 1000 detonadores elétricos; 500 metros de cordão detonante; 500 metros de cordão mecha lenta»
A maioria deste material teria sido apreendida pela polícia.
Em Maio e Junho de 1971 são assaltados, respetivamente, o Consulado de Portugal em Roterdão e o Consulado de Portugal no Luxemburgo, de onde são desviados passaportes, bilhetes de identidade, cédulas, licenças militares, carimbos e máquinas num valor estimado em cerca de 145 contos.
Em Junho de 1973 é publicado o primeiro número do jornal «Fronteira», porta-voz da organização, dirigido essencialmente aos emigrantes portugueses.




A ÚLTIMA PRISÃO

Em novembro 1973 Palma Inácio entra de novo em Portugal com outro grandioso projeto, o de sequestrar alguma alta personalidade do regime, que seria trocada por presos políticos. Uma quebra das regras de segurança da LUAR leva a polícia a procurar um suspeito numa tasquinha das Avenidas Novas. A surpresa foi que esse suspeito, disfarçado com uma peruca, era Palma Inácio. Violentamente espancado ainda na rua, antes mesmo de chegar à sede da DGS e durante a noite, entra num estado de pré-coma.
Conta quem viu: «Em Novembro de 1973 assisti “in loco” à captura do velho guerreiro e dos seus camaradas.
Eram cerca das 11.30 da manhã quando três homens entraram na Tasca do João na Av. Duque D’Ávila em Lisboa onde eu e outro amigo comíamos uma sandes por não haver gostado do almoço no hotel onde trabalhávamos. Gracejaram com o tempo ou coisa que o valha e à vez foram à casa de banho.
Nisto entra no minúsculo estabelecimento um indeterminado número de homens vestidos de fato escuro e empunhando metralhadoras. Era a PIDE!
Puseram de imediato os poucos clientes na rua e neutralizaram o outro grupo que há pouco havia entrado.
Do relato do que se passou no interior nada sei, mas segundo o taberneiro João nos contou, os Pides rejubilavam de alegria ao descobrirem quem haviam capturado.
Hermínio da Palma Inácio, o mais alto do grupo ao sair algemado da tasca para entrar no carro da polícia política olhou o seu algoz nos olhos e disse-lhe: – saiba vencer, que eu também sei perder!
Soube mais tarde que pretendiam assaltar o Banco de Angola na esquina imediata à Tasca do João.
Nunca mais me esqueci da frase que ouvi da boca deste algarvio, exemplo de coragem e heroísmo que hoje nos deixou.»
Em Janeiro de 74, um Comité de Apoio á Luta do Povo Português ocupa durante 45 minutos o Consulado de Portugal em Roterdão para protestar «contra as torturas de que é vítima Palma Inácio, um dos chefes da LUAR, que, em consequência das torturas infligidas pela PIDE/DGS, se encontra no hospital em estado de coma» (do comunicado distribuído na ocasião).
Em Abril de 1974 é assaltada nos arredores de Paris uma carrinha da filial do Banco da Agricultura, de onde são retirados 628 mil francos.




1974: ANO DA LIBERDADE

O sistema político português estava no entanto perto do seu fim. A 26 de Abril de 1974 começam a ser libertados os presos do Forte de Caxias. Palma Inácio é o último a sair, dado que alguns oficiais resistiam à ideia da sua libertação por considerarem que o assalto ao banco da Figueira da Foz havia sido um crime comum.
António de Spínola permitia que alguns fossem libertados, mas não todos. Os que estavam presos por delitos comuns deveriam ser julgados. O general estava irredutível. Não queria que pessoas como Palma Inácio saíssem.
Os detidos perceberam a razão do impasse e depois de algumas discussões resolveram que “ou sairiam todos, ou nenhum”. Se fosse necessário iniciariam uma greve de fome. Em Peniche, os 43 detidos decidiram o mesmo: ninguém seria deixado para trás.
As discussões sobre o assunto arrastaram-se durante todo o dia 26 de Abril. Spínola insistiu que todos os processos deveriam ser analisados um a um, o que levaria horas. Talvez dias. Mas às 23h30, o tenente Nunes, do MFA chegou a Caxias com a ordem de libertação. Uma hora depois todos eram libertados.




NO PS

O mais famoso revolucionário do tempo torna-se então militante do Partido Socialista. Mário Soares propõe para ele em 1994 a concessão da Ordem da Liberdade mas a proposta não é aceite pelo Conselho das Ordens. Só seis anos mais tarde, durante o mandato de Jorge Sampaio, é que recebe pela mão de Manuel Alegre as insígnias dessa condecoração. Dada a sua idade, ingressa num Lar fundado por ex-alunos da Casa Pia de Lisboa, onde mal subsiste com uma modesta pensão de reforma, tendo-se, por razões de consciência, abstido de solicitar reingresso nas Forças Armadas com o posto que através dos anos lhe haveria correspondido, como a lei autorizava.
Era o singelo desenlace da aventurosa carreira do homem mais temido pela Ditadura, sempre empenhado na luta pela liberdade sem jamais haver recorrido à violência física.




EM MEMÓRIA DE PALMA INÁCIO POR MÁRIO SOARES

«Foi uma notícia muito dolorosa, apesar de esperada, a morte de Hermínio da Palma Inácio. Éramos amigos muito próximos - e camaradas - há dezenas de anos. Foi um herói, um verdadeiro mito, da resistência ao salazarismo. Morreu pobre, desinteressado de bens materiais, ao cabo de longa doença, ajudado pelos amigos, que já mal conhecia.
Ouvi falar dele, pela primeira vez, quando do golpe frustrado, contra o salazarismo, de Abril de 1947, em que meu Pai também esteve envolvido. O célebre capitão Queiroga revoltou, no Porto, um regimento de carros de combate e, por falharem os apoios locais, dirigiu-se para o Sul, até à Mealhada, onde teve de se render. Palma, então cabo da Força Aérea, mecânico e piloto, sabotou os aviões da base de Tires, como se comprometera.
Foram os únicos que cumpriram. Preso, torturado e transferido depois para a Cadeia do Aljube, conseguiu fugir, o que parecia impossível. Foi um feito de extrema audácia, de que ouvi falar, com admiração, quando estive preso, com outros camaradas, nessa mesma cadeia, todos militantes do MUD Juvenil.
Mais tarde, soube que Palma Inácio, depois da fuga, se refugiara na casa de um proprietário rural, do Reguengo do Fetal, perto de Leiria, Cacela e Cunha, velho amigo de meu Pai, republicano, maçom e, depois do 25 de Abril, socialista.
Planeou sair por Leixões, do refúgio onde esteve alguns meses, clandestinamente, num barco de carga que o contratou para trabalhos humildes, em troca de comida e o levou, por caminhos vários, até ao Japão e, depois, à América. Uma enorme aventura! Quase um ano embarcado, conseguiu, embora sem passaporte, desembarcar. A referência que tinha na América era de um velho republicano, João Camoesas, exilado desde o começo da ditadura. Foi ele que lhe valeu e lhe arranjou o primeiro emprego: piloto de aviões de recreio, mecânico e instrutor de pilotos amadores.
Palma Inácio tinha uma excecional habilidade manual: fabricava passaportes na perfeição e concertava velhos carros e aviões... Ficou alguns anos na América, onde conseguiu amealhar algum pecúlio e ter uma vida desafogada. Fez bastantes amigos, portugueses e americanos. Mas foi denunciado por um deles. A embaixada portuguesa pediu a extradição de Palma para Portugal. A América recusou. Mas exigiu que saísse do território americano. Refugiou-se, assim, no Brasil democrático de então (no Rio) onde foi acolhido pelos emigrantes políticos portugueses: o coronel Pio e o comandante Jaime de Morais, resistentes de grande prestígio junto das autoridades brasileiras. Foi um pouco mais tarde que conheceu Henrique Galvão e o general Humberto Delgado.
Palma Inácio estava então a meio da vida. Era um homem elegante, bem-parecido, com um ar de gentleman farmer, requestado pelas brasileiras e bem instalado na vida...
No entanto, o rapto do «Santa Maria», que seguiu de perto, levou-o de novo à conspiração política. Largou tudo e, com alguns amigos, resolveu ir para Marrocos, onde desviou um avião da TAP, que sobrevoou Lisboa e deixou cair manifestos denunciando mais uma das farsas eleitorais, organizadas por Salazar. Expulso de Marrocos, refugiou-se em França, onde planeou o assalto ao Banco de Portugal, na Figueira da Foz - que foi um sucesso imenso - para obter fundos para a Revolução. Criou a Luar, uma organização revolucionária para derrubar o regime. Pouco tempo depois foi preso de novo.
Foi, nessa altura, que o conheci, tinha eu acabado de regressar da deportação em São Tomé. Uma irmã de Palma, casada com um inglês, procurou-me no escritório e transmitiu-me o seu desejo de que eu fosse seu advogado. Foi já nessa qualidade que o visitei na prisão de Caxias e o vi pela primeira vez. Perguntei-lhe como queria que organizasse a defesa. Respondeu-me, com um sorriso: "Como entender, mas prolongue o meu julgamento até que chova a cântaros..." Percebi.
Entretanto, foi transferido para a Cadeia da PIDE, no Porto, porque o tribunal resolveu realizar o julgamento no Porto. Tive de substabelecer a procuração no meu amigo e colega Mário Cal Brandão. Transmiti-lhe a mensagem. O julgamento prolongou-se com incidentes que se sucediam. Até que choveu. Palma, nessa madrugada, fugiu da PIDE do Porto, feito julgado inédito e impossível, que espantou toda a gente.
Na manhã seguinte, estava a preparar a tese que apresentei ao II Congresso Republicano de Aveiro, quando recebi um telefonema enigmático do meu escritório a dizer que estava lá um senhor que precisava urgentemente de me falar. Desconfiei do que se tratava. Pedi-lhe que viesse a minha casa. A minha mulher preveniu-me: "Cuidado, é uma armadilha da PIDE para te prender de novo." De facto, a televisão da noite anterior tinha dado, com destaque, a notícia da fuga de Palma, com a fotografia dele, apresentado como um perigoso meliante, prometendo uma grande recompensa para quem o tivesse visto e indicasse o seu paradeiro.
Quando chegou o emissário, que nunca tinha visto, percebi, pelo nervosismo e medo que demonstrava, que não era uma armadilha. Disse-me ser primo do Palma, o qual o tinha procurado, antes de entrar para o trabalho, pedindo-lhe que me pedisse dinheiro, porque não sabia onde se meter nem como se alimentar. Perguntei-lhe onde o deixara e disse-me: num vão de escada de um prédio velho da Rua da Palma. Não hesitei: resolvi ir buscá-lo. Fomos os dois, eu a guiar. Dei voltas para ver se estava a ser seguido. Certifiquei-me que não.
Encontrei o Palma no sítio indicado. Estava num estado lastimável: molhado até aos ossos, vestido com umas calças de ganga e uma camisa à pescador, com a barba de dois dias, esfomeado. Instalei-o no meu carro, despachei o primo, começámos a circular em direção à estrada Marginal, sem saber ao certo ainda para onde o iria deixar. Para uma pensão, mal-afamada, como ele queria, seria correr um risco tremendo. Seria preso em pouco tempo. Lembrei-me então do meu amigo José Fernandes Fafe, que habitava, com a família, em Cascais, numa moradia isolada. Para aí me dirigi. A meio do caminho, precisamente em Carcavelos, havia uma brigada de trânsito a mandar parar os carros. Perguntei-lhe: que fazemos? Respondeu: não pare! Fiquei indeciso, aflito. Felizmente, não nos mandaram parar. Respirámos de alívio!
Em casa do Fafe entrei sozinho. Estava a almoçar tranquilamente com a família. Mas percebeu, pela minha cara, que alguma coisa de grave se passava. Disse-lhe de imediato: "Trago-te uma encomenda que deixei no carro. Posso mandá-la subir? São dois dias, não mais..." Respondeu-me: "Não tenho coragem para te dizer que não." Fi-lo subir e voltei para Lisboa. Disseram-me depois que ninguém mais almoçou. Senão ele. E, depois, deitou-se e dormiu até ao dia seguinte.
Entretanto, a minha mulher arranjou um fato meu e roupa, tirou-lhes todos os indícios que me pudessem referenciar. Foi Catanho de Menezes, querido amigo, que levou a roupa a casa do Fafe. Mas arranjar-lhe um outro poiso foi mais difícil. Houve várias recusas. Finalmente o Fernando Oneto lembrou-se que o irmão do David Mourão Ferreira, o Jaime, tinha um pequeno apartamento, perto da penitenciária, onde tinha encontros galantes. Foi para aí que o Oneto levou o Palma, onde esteve quase um mês. Ainda lá o fui ver uma vez, antes do Oneto o levar para perto da fronteira de Elvas, onde passou "a salto", pelo caminho dos contrabandistas e entrou clandestinamente em Espanha. Do lado de lá, estava Oneto à espera dele e, ambos, se dirigiram a Madrid, eufóricos...
Lembraram-se então de ir visitar um advogado que Oneto conhecia por meu intermédio, quando do caso Delgado, extremamente simpático, de seu nome Mariano Robles Romero-Robledo. O escritório estava vigiado pela polícia espanhola, que prendeu o Palma. Passou cerca de um ano em Carabanchel, a terrível prisão política do franquismo. A justiça portuguesa, que o considerava um preso comum (não político) pediu a extradição de Palma. Quem o defendeu, a meu pedido, foi o depois embaixador de Espanha em Lisboa, Raul Morodo, que impediu a extradição. O então vice-presidente do Governo Italiano, Neni, oficiou ao Governo espanhol afirmando tratar-se de um preso político e que a Itália estava disposta a dar-lhe asilo político. Assim aconteceu.
Voltei a encontrar Palma Inácio, em Paris, estava eu já exilado e ele clandestino, em França. No entanto, era sócio de um clube chique de aviação onde alugava regularmente um bimotor para se treinar e dar umas voltas sobre Paris. Levou-me um dia com ele, quando planeava realizar uma operação sobre Lisboa...
Ainda em Paris, apareceu-me uma noite o Adolfo Ayala, a dizer que o Palma tinha sido preso na Alemanha, por ter tido um desastre, quando trazia o carro cheio de armas compradas na Checoslováquia. Para além das armas, todos os documentos eram falsos. Foi Willy Brandt, então Chanceler, a quem recorri para o conseguir safar. Não foi nada fácil.
Foi depois disso que reentrou em Portugal e foi preso de novo na Covilhã, quando tinha planeado, com outros, dominar a cidade, por algumas horas. A "operação" não chegou a realizar-se. Foi encarcerado em Caxias, donde só saiu em 26 de Abril de 1974, depois da Revolução dos Cravos.
Palma Inácio ainda manteve uns tempos a LUAR, como organização política. Mas não fazia sentido, uma vez conquistada a liberdade. Assim o reconheceu o próprio Palma, passado o "Verão quente". Foi então que se inscreveu no Partido Socialista. Mas não foi fácil, apesar de ter o meu patrocínio, na altura secretário-geral.
Foi um militante ativo e sempre discreto e cumpridor. Foi deputado pelo PS em duas legislaturas e membro da Assembleia Legislativa do Concelho de Lisboa.
Palma Inácio nunca foi um homem político, no sentido que se dá ao termo em democracia. Mas foi um homem com fortes convicções políticas e um militante ativo e esforçado que lutou pelos seus ideais e pelas causas, que sempre foram as suas: a liberdade, a igualdade e a fraternidade. Um revolucionário ativo, imaginativo, corajoso, consequente e pessoalmente desinteressado.
Com um grande sentido da dignidade, da honradez política, modesto, mas, ao mesmo tempo, com consciência e orgulho do que fez ao serviço da Pátria, no tempo particularmente difícil em que viveu.»

A identificação ideológica da LUAR não era muito clara. Embora Palma Inácio tivesse ligações pessoais a Mário Soares, que tinha sido seu advogado de defesa, não existiam quaisquer vínculos organizativos ao Partido Socialista ou aos seus precursores.
Depois da revolução a LUAR ainda se transformaria em partido político, mas nunca teve sucesso eleitoral. Depois aproximou-se do Partido Socialista, onde tinha grandes amigos, como o antigo presidente da Câmara de Lisboa João Soares.
Na sua página do Facebook, João Soares escreveu: "Morreu hoje o Hermínio da Palma Inácio. Revolucionário romântico, nasceu pobre e morreu pobre. (...) Era um bom amigo. Corajoso, audaz, generoso, amigo dos seus amigos. (...)»

Quem conheceu este antifascista, de cachimbo sempre no canto da boca e casaco de xadrez, saberá o quanto estas linhas são poucas para espelhar a sua vida, em que à coragem juntou a lealdade e o seu humanismo, que lhe valem o título de "O último herói romântico de Portugal".


Algumas Fontes:
João Madeira e Luís Farinha, História, setembro, 2000.
Manuel Catarino Correio da Manhã, Novembro 2006.
Eduardo Mayone Dias [www.portuguesetimes.com].
eduardomdias@sbcglobal.net
A Mão Incendiada, de Carlos Loures. Edições Colibri.