Sou um leitor, não sou um escritor...

Gualdino Gomes

Intelectual português:
1857 - 1948



Quando tudo aconteceu...

1857: Em Lisboa, nasce em 19 de Abril, Gualdino Gomes que nesta cidade passará a infância e fará os seus estudos, vindo a obter o diploma no Curso Superior de Letras que então funciona na Universidade da capital. Durante a juventude viverá algum tempo no Brasil, no Estado do Pará, regressando depois a Portugal onde será admitido como bibliotecário na Biblioteca Nacional de Lisboa. 1891: Em 30 de Novembro, lança, com Carlos Sertório, a publicação Balas de Papel. Em 15 de Dezembro, sai o nº2. 1892: Em 20 de Janeiro edita-se o terceiro número de Balas de Papel; em 31 desse mês, sai o quarto e último número destes cadernos. 1894: Em 1 de Fevereiro, sobe à cena no Teatro Avenida de Lisboa a revista A Tourada que o, já nessa altura, conceituado dramaturgo Marcelino Mesquita escreveu de parceria com Gualdino Gomes. 1900: A Paródia, no seu número 37, de 26 de Setembro, publica, sob o título «Guerra da Sucessão», uma série de versos em que alguns escritores «disputam» entre si o lugar de figura principal da literatura nacional, deixado vago pela morte de Eça de Queirós. Esses «candidatos» são Abel Botelho, Silva Pinto, Alberto Pimentel, Sousa Monteiro e Gualdino Gomes. Rafael Bordalo Pinheiro executa uma caricatura de cada um desses escritores. 1908: Em 21 de Abril escreve a António de Albuquerque, autor do polémico livro O Marquês da Bacalhoa. 1921: Faz parte do «Grupo da Biblioteca» que, liderado por Raul Proença, esteve na base de muito do que, na época, aconteceu na vida cultural do País, incluindo a criação da revista Seara Nova (lançada em Outubro deste ano). Desse grupo fazem parte Jaime Cortesão, António Sérgio, Aquilino Ribeiro, Raul Brandão, Afonso Lopes Vieira, Reinaldo dos Santos, José de Figueiredo, Raul Lino, Luciano Pereira da Silva, Gualdino Gomes, entre outros. Em 18 de Dezembro preside a um «comício futurista» no Cinema Chiado Terrasse, onde falam Raul Leal - sobre « A Derrocada da Técnica», Almada Negreiros, Leal da Câmara e o pintor José Pacheko. 1922: Aquilino Ribeiro dedica-lhe o seu livro de contos e novelas Estrada de Santiago, escrevendo um expressivo e comovido texto. 1924: Raul Proença, no prefácio do primeiro volume do seu Guia de Portugal, agradece a Gualdino Gomes a colaboração prestada. 1926: Publica na Seara Nova um soneto, uma das poucas obras que nos irá legar. 1927: Por atingir o limite de idade é aposentado do seu cargo na Biblioteca Nacional de Lisboa. Durante algum tempo, exerce as funções de director-interino daquela instituição.1938: É fotografado com Abel Manta, Aquilino Ribeiro e Júlio Costa Pinto, no Chiado, à porta da Havaneza. 1945: Faz parte de um conjunto de mais de uma centena de homens de letras e de artistas consultados no inquérito organizado por Luís de Oliveira Guimarães para uma edição da Livraria Portugália sobre «o que pensa do conselheiro Acácio?» 1947: Por ocasião da passagem do seu 90º aniversário, em 19 de Abril, um grupo de amigos presta-lhe uma homenagem realizada no Museu de João de Deus. O escritor e político Afonso Augusto Bourbon e Meneses traça-lhe um emocionado panegírico. 1948: Com 91 anos, morre em Lisboa no dia 18 de Setembro.


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NÃO SOU UM ESCRITOR

«Sou um leitor, não sou um escritor», repete invariavelmente Gualdino Gomes a todos aqueles que o acusam de quase não ter obra publicada. No entanto, talvez mais do que um simples leitor, terá porventura Gualdino sido um rigoroso censor ético e estético, um critico severo e atento, cujas por vezes mordazes diatribes são temidas pelos autores. Os seus conselhos são, em muitas ocasiões, acatados pelos plumitivos de sucessivas gerações durante o período que medeia entre o último quartel do século XIX e as primeiras décadas do século XX. São diversas vagas de literatos e de artistas que pelos seus olhos vão passando e que aguardam com alguma apreensão o juízo que, do alto da sua cadeira de café, Gualdino irá emitir.
Durante cerca de setenta anos mantém um convívio, por vezes íntimo, com alguns dos mais notáveis homens de letras e artistas. É amigo, entre muitos outros, de Oliveira Martins, com o qual trabalha na redacção do Repórter, de D. João da Câmara, de Teixeira-Gomes, de Marcelino Mesquita, de Fortunato da Fonseca, do arquitecto Francisco Vilaça, do grande pintor naturalista António Ramalho, de Raul Proença, que é seu director na Biblioteca Nacional. Faz parte da redacção do jornal A Tarde, de Eduardo Schwalbach, onde publica alguns dos poucos textos que dele nos ficam. E, principalmente, é íntimo amigo (e também, algumas vezes, inimigo de estimação) de Fialho de Almeida. Óscar Lopes, na sua História da Literatura Portuguesa, falando de Fialho afirma que este foi um émulo de Gualdino no seu «pontificado de café». Na realidade, a relação entre Gualdino e Fialho nem sempre decorre da forma mais pacífica.
Porém, esse é um tema que iremos abordar mais adiante.




GUALDINO, UM PONTÍFICE DE CAFÉ

«Algumas figuras, de certo modo numerosas, fizeram do café o único cenário conhecido ao longo de toda a sua vida: Gualdino Gomes, Stuart Carvalhais, António Soares, Alberto de Sousa...», afirma Marina Tavares Dias, no seu primeiro volume de Lisboa Desaparecida. Por seu turno, Raul Brandão nas suas Memórias é mais cáustico para a fauna que escolhe os cafés como habitat: «É na Brasileira e no café Chiado que os pobres-diabos, como rãs num charco de café, se exaltam ou combinam as revoluções do dia seguinte. A um canto, o Gualdino de gabinardo e barba branca, prepara a última piada...»1 Na realidade, o nome de Gualdino Gomes é quase indissociável dos lugares que, durante mais de sete dezenas de anos, vai ocupando às mesas dos cafés da Baixa lisboeta. Uma reportagem do Notícias Ilustrado de 1928 - «Lisboa e os seus cafés», proclama, legendando uma foto da fachada do Martinho, situado no então Largo de Camões (hoje Praça D. João da Câmara) - «O Martinho que ainda se lembra de Fialho e de Gualdino.» Alberto Allen Pereira de Sequeira Bramão, o político e jornalista, ex-secretário particular de Hintze Ribeiro, quando este chefiou o Governo, numa evocação organizada pelos Amigos de Lisboa em 26 de Dezembro de 1936, recorda os nomes ligados à tertúlia do Martinho: «o que caracterizou esta casa era o grupo literário que todas as noites realizava as suas sessões de cavaqueira irreverente, em torno das chávenas de café e do pontífice que era o incomparável Fialho de Almeida. Desse grupo faziam parte Marcelino Mesquita, Manuel Silva Gaio, D. João da Câmara, Gualdino Gomes, Heliodoro Salgado, João e Levy Marques da Costa, João Chagas, o espirituoso Figueiredo (Pinturas), Eugénio de Castro, Abel Botelho [...] Guerra Junqueiro e Rafael Bordalo Pinheiro também apareciam de longe a longe.»2

1 Memórias, Vol.III, Raul Brandão (Lisboa, 1991).

2 Os Cafés de Lisboa, Marina Tavares Dias (Lisboa, 1999).




CORREIA DA SILVA - GUALDINO NO CAFÉ CHIADO

O escritor Fernando Correia da Silva, no seu romance Querença, conta dois interessantes episódios ocorridos em 1947 ou 1948, pouco antes da morte de Gualdino. Correia da Silva era na altura um muito jovem estudante e fazia parte de um grupo que, no Café Chiado, onde Gualdino Gomes, já muito idoso, era figura destacada. Ambas as histórias documentam o espírito vivaz e acutilante do antigo companheiro de Fialho. Ouçamos Correia da Silva: «- O Gualdino é um sobrevivente solitário. É mantido por filhos ou netos de amigos seus já falecidos. Magro e comprido, barbicha branca, à duque de Guise. Roupinha no fio, mas sempre distinto e distante, aristocrata por defesa e temperamento. Diz ele para o criado de mesa que anda sempre a bufar: «Ó Pina, traga-me uma bica e um queque, mas que seja fresquinho.» «Ó Sr. Gualdino, os queques acabaram de chegar...» «Também eu acabei de chegar e já tenho 90 anos...» Segunda história: «Um dia, um preto... Esqueci-me do seu nome. É angolano e jornalista. Anda sempre a louvar o génio universalista dos portugueses, pois o Infante, assim e assado, o Vasco da Gama e Albuquerque... (...) Pois um dia o preto, no Café Chiado, decide humilhar o velho. Não suporta a sua ironia, isso é coisa do reviralho e merece correctivo. Intercepta o Gualdino, aponta-lhe a gola do sobretudo, grita, apregoa para que todos ouçam: «Ó Gualdino, você tem aqui um piolho...» O Gualdino mira o piolho, real ou fictício, para o caso tanto faz. Com um piparote do dedo médio logo o dispara sobre o preto: «Ah malandro, vais já desterrado para a costa de África!»3
3 Querença, Fernando Correia da Silva (Lisboa, 1996).




GUALDINO E O TEATRO

Gualdino Gomes é ao longo da sua vida um assíduo frequentador dos chamados galinheiros dos teatros de Lisboa. Os galinheiros eram então os lugares mais baratos, com assentos menos cómodos, situados no topo das salas, atrás do segundo balcão, e, portanto, mais distantes do palco, com pior visibilidade e uma mais deficiente acústica. Ao galinheiro deu-se também o nome de geral. Na sua rubrica jornalística Canteiro de Artistas, o autor e empresário teatral António de Sousa Bastos, marido da grande actriz Palmira Bastos, escreve: «Apesar de ter aparecido apenas uma única vez no teatro, como colaborador de Marcelino Mesquita na revista A Tourada, que se representou no Teatro Avenida, [Gualdino Gomes] é bastante conhecido no meio teatral por ser um dos mais salientes manifestantes contra grande número de originais que se representam no Teatro Normal [D. Maria II]. No café Martinho, à porta do Mónaco, no galinheiro do D. Maria, é sempre ele o chefe das verrinas.»

A propósito desta inusitada e tão directa forma de exercer a crítica teatral - através do aplauso vibrante e ruidoso, da pateada e, sobretudo, do hilariante chiste gritado em coro por espectadores da geral, voltemos a Raul Brandão e às suas Memórias: «Pertenceu à malta que ia com Fialho para o galinheiro dos teatros deitar as peças abaixo - pertenceu à malta esplêndida que se levantou como um só homem e gritou - Às armas! - quando, no palco, um actor vestido de porteiro anunciou aos outros a entrada do senhor general - metendo para sempre no fundo a peça, o autor e os comediantes.»4

4 Raul Brandão - op. cit.




DIVERSAS GERAÇÕES

Da sua mesa de café, Gualdino Gomes vai assistindo à passagem de grandes e pequenos vultos, de diversas gerações e de distintas correntes literárias. À chegada de uns e à partida de outros, como numa estação de caminho-de-ferro. Vê desaparecer grandes nomes da literatura e da cultura portuguesas como Alexandre Herculano, Gonçalves Crespo, Cesário Verde, Oliveira Martins, Gomes Leal, João de Deus, Eça de Queirós, Tomás Ribeiro, António Nobre, Gervásio Lobato, D. João da Câmara, Fialho de Almeida, Bulhão Pato, Mário de Sá-Carneiro, Marcelino Mesquita, Gomes Leal, Maria Amália Vaz de Carvalho, Teófilo Braga, Augusto Gil, Wenceslau de Morais, Florbela Espanca, Raul Brandão, Henrique Lopes de Mendonça, Fernando Pessoa, Leonardo Coimbra...

Na sua juventude, relaciona-se com alguns dos próceres da chamada Geração de 70. Vê depois chegar os realistas e os parnasianos, os neo-românticos e os simbolistas, a gente do Orpheu, os futuristas, os presencistas, os seareiros (foi um deles), os neo-realistas, os surrealistas... Durante a sua longa vida, grandes transformações ocorrem na cidade, no País e no mundo - assiste à abertura da Avenida da Liberdade, às grandes comemorações camonianas que constituem como que um ponto de partida, um importante marco, na luta pelo derrube da Monarquia, ao apaixonado e exaltado debate da Questão Coimbrã, ao evoluir das obras de Eça de Queirós, de Antero de Quental, de Sampaio Bruno, de Teófilo Braga, de Ramalho Ortigão, de Oliveira Martins, de Fialho de Almeida, à criação do famoso Grupo do Leão, imortalizado por Columbano, ao Regicídio, à proclamação da República, à eclosão da Grande Guerra, à Revolução de Outubro, ao sidonismo, ao advento do fascismo e do nazismo, ao 28 de Maio, à instauração do corporativismo salazarista, à Guerra Civil de Espanha, à Segunda Guerra Mundial... A política não é por certo território em que lhe interessasse internar-se demasiado. No entanto, não permanece alheio, como tantos o fazem, às vicissitudes que afectam o povo de que faz parte. Não é homem que aprove o regime autoritário que, desde 1926, vem, com as mutações necessárias à sua sobrevivência, a dominar a vida social, política e cultural do País.




A RELAÇÃO DE GUALDINO COM FIALHO

Falemos então dessa atribulada relação de Gualdino Gomes com o seu amigo Fialho de Almeida. Diz Raul Brandão que, a despeito da sua generosidade e isenção crítica, ele, «com apenas dois ou três folhetos [são quatro, na realidade!] e um soneto no bolso» - pois esta é toda a sua bagagem literária - sempre se mói com alguma inveja quando vê outros escreverem mais um folheto do que ele conseguira produzir. E Brandão acrescenta a este respeito : «Passou a vida a inventar pormenores do Fialho, vingando-se, como ele próprio confessa, da maneira como o grande escritor tratou aquele soneto que começava assim:



Nas soirées do Gervázio

De olho matreiro e gázeo...

- Por causa dele deixei de escrever! Escarneceu a minha obra!»

Sobre a biblioteca de Fialho, terá dito Gualdino: «Eu chamo a estes livros as onze mil virgens. São apenas quatro mil volumes, ou pouco mais, mas - vai surprendê-lo esta minúcia - estão aqui todos por abrir. Há aqui Balzac e Zola, Eça e Ibañez, os Goncourt e Ponson du Terrail. Fialho tinha muito Ponson na sua biblioteca. Esta literatura de costureiras e guarda-portões era para as grandes horas amarguradas.» Conta também que, pretensioso e janota, Fialho «ostentava uma grande corrente de ouro e uma esmeralda de brasileiro na gravata. Num dia de tourada, apareceu no Martinho, com uma camisa vermelha que teve de tirar pela troça que lhe fizeram. E acrescenta:

- Julgo que nunca, nem com a própria mulher, teve relações senão de amizade. Os seus quartos de dormir eram separados, um em cada extremidade da casa, e pela manhã, quando ela lhe batia à porta, ele dizia sempre: - Espere, menina, que eu ainda não estou vestido.»5

Do lado de Fialho de Almeida as referências a Gualdino Gomes são muito escassas. Em Os Gatos, referindo-se a um atentado falhado contra o imperador D. Pedro II do Brasil e dissertando sobre a imperiosa falta que ao currículo dos monarcas que se prezem faz um regicídio, mesmo que falhado, diz - «Oh meu senhor, habilite-se! Uma reles bomba que seja.» (estava-se em 1889, a 21 anos de distância de um regicídio bem sucedido...). Neste contexto, e a propósito de uma alfinetada literária a D. Luís, dizendo que ele traduziu tão mal Shakespeare «que esfriou entre nós o feiticismo pelas obras-primas estrangeiras - subtil maneira esta de V.M. reconduzir o gosto à exclusiva adoração das nacionais!», continua assim a diatribe. «Era trabalho onde o meu rei despejaria a contento geral as asneiras que lhe tivessem sobrado dos seus outros trabalhos literários, e que podia sugerir talvez ao Sr. Gualdino Gomes, por via do rancor plumitivo, o tirázio que V. M. jamais pechinchará do Sr. Consiglieri Pedroso, mercê do jacobino.» Refere-se aqui Fialho ao professor universitário, ensaísta positivista e militante republicano, Zófimo Consiglieri Pedroso, famoso pela acutilância dos seus folhetos doutrinários. Fialho de Almeida coloca Gualdino no topo da agressividade verbal, comparando as suas verrinosas piadas a um tirázio regicida.6

5 Raul Brandão - op. cit.
6 Os Gatos - Vol I, Fialho de Almeida (Lisboa, 1889).




A PRIMEIRA MORTE DE GUALDINO

Por volta de 1913 ou 1914, espalha-se um dia pelos cafés da Baixa de Lisboa a notícia da morte de Gualdino Gomes, «e logo o Ratola, velho companheiro na Biblioteca, se apressou a cumprir o seu dever de amigo, de camarada e de poeta. O Ratola é um funambulesco, balouçando-se dentro de uma sobrecasaca empertigada, luneta de tartaruga e ar de quem cumpre sempre uma missão importante - até quando vai à retrete. Subiu as escadas do prédio onde morava o morto (tinha lido o número da casa no Diário de Notícias), relembrando algumas frases de efeito... Abriu-se a porta do quarto onde o morto, coberto com um lençol, deitava já um cheiro adocicado - a cadáver e a aguardente. Duas mulheres, de preto, choravam ou rezavam. Ratola compenetrou-se, assou-se com solenidade e disse para a que supunha ser a viúva:

- Minha senhora: os meus sentido pêsames... Ele foi o que se chama um grande boémio - mas muito bom rapaz.

O vulto de preto ergueu-se, protestando com dignidade ofendida:

- Meu marido, senhor, nunca foi um boémio! Meu marido foi um modelo dos esposos e dos retroseiros!

Mas o Ratola, que se sentia também magoado no seu valor e no seu conhecimento da vida, obtemperou:

- Ora essa, minha senhora! Eu conheci muito bem seu marido e fui companheiro dalgumas borgas literárias... Um boémio!

- Oh, meu Deus! Meu marido um boémio!...

E, um a teimar que sim, a outra a protestar que não, estiveram quase a pegar-se diante do cadáver - até que empurraram o Ratola pela porta fora. - Eu conheci-o!

O Ratola não conhecera aquele... Houvera engano. Quem morrera fora outro Gualdino Gomes, brasileiro», enquanto o autêntico Gualdino, estava a essa hora na Biblioteca Nacional a encher verbetes, com o olho do Raul Proença em cima. «Desde esse dia os dois poetas cortaram relações para todo o sempre.»7

7 Raul Brandão - Op. cit.




ESCUTEMOS AGORA AQUILINO RIBEIRO

Não abundam, infelizmente, as fontes escritas sobre este homem que pouco escreveu e muito falou. Por isso, colhemos as migalhas de informação que fomos colhendo ou que, de uma forma ou de outra, nos chegaram. Por exemplo, Raul Proença agradece, no prefácio do primeiro volume do seu monumental Guia de Portugal, a assistência «paciente e crítica» de Gualdino na gestação daquela sua obra. Porém, o texto mais eloquente sobre a personalidade de Gualdino Gomes é, quanto a nós, as palavras da dedicatória do grande Aquilino Ribeiro, no seu livro Estrada de Santiago, palavras que transcrevemos na íntegra:

«Com a devida vénia de quem o sabe avesso à publicidade, peço licença para lhe dedicar este livro que leva um nome pomposo da arquitectura celeste e não passa de um nicho das almas, desses nichos de singela e cândida fábrica que velam à beira dos caminhos. No ofício das letras, tão mofino e miserando em Portugal, que ou a pena se parte, se acanalha, a guia fadário ou o Espírito Santo, a sua sombra, Sr. Gualdino Gomes, é, se volvo os olhos à retaguarda, uma das que encontro sobre os meus passos aprazível e tutelar. Vejo-o lá longe, no meu começo, apadrinhando o Jardim das Tormentas com a astúcia e a bondade discreta dum filósofo de Eleia. V. , que conhece todos os livros e ninguém vê com um livro, metera-o no bolso do jaquetão e dias a fio subiu e desceu o Chiado, à espreita a imagem verde, flamante, que lhe alegra a capa. Por este meio singular e outros, alvoroçou a curiosidade dos que o conhecem - ia dizer chamou a atenção da confraria literária em que capricha manter-se irmão leigo. Quando em Paris fui informado, enterneci-me. E, eu lhe digo, nessa circunstância, o impenitente perdulário do espírito, o amável zombador, que em si deslumbram, ofuscaram-se ante o homem de ânimo benigno, talhado dir-se-ia sobre um padrão de Anatole, se espontaneamente, visceralmente não fora essa a sua índole, muita sua por obra e graça só de Deus.

Certo e ser V. como Sócrates, por Platão comparado aos Silenos que se viam expostos nas oficinas dos escultores, com uma gaitinha nos dedos. Ao abrir as duas partes de que se compunham, apareciam estátuas de divindades. Como ele, herdou de Mársias a veia faceciosa. O sátiro tangia frauta; a Gualdino basta a palavra para fascinar quem o ouve. Como ele, tem horror à escrita e joga ao vento, com um desapego soberano, o oiro de suas vozes e pensamentos e até o veneno subtil dos seus juízos. Como ele, ainda, é o catequista dos incipientes.

Por todos estes argumentos que brotam do cérebro ou sobem do coração , eu lhe devia a fruste oferta deste livro. Muitas vezes, à janela, nas noites de lua baça, quando a Terra, em redondo, parece a boca dum cesto enorme, suspenso ao firmamento pelo aro luminoso da Via Láctea, em que tudo soçobra, homens, coisas e loisas, metia a mão no seio a procurar. Achava espinhos, remorsos, uma ou outra flor imarcescível, e a gente que aí vai, alguma celestial e sobre-humana, da muita que eu via andando, andando Estrada de Santiago fora. Digne-se, Sr. Gualdino Gomes, aceitar a pobre homenagem, e, de meus ousios em escalar o céu, a Deus prestarei contas mais confiado.»8

8 Dedicatória de Estrada de Santiago, Aquilino Ribeiro (Lisboa, 1922).




BALAS... DE PAPEL, revista organizada por Gualdino Gomes e Carlos Sertório ESPÍRITO CRÍTICO, MORDAZ, MAS GENEROSO

Gualdino Gomes é por muitos considerado um «escritor menor» e deste modo displicente atirado para as catacumbas do esquecimento. Vimos já que ele próprio se considera um «não-escritor.» Como bem diz Raul Brandão, «a sua mocidade irrespeitosa prolongou-se até aos cabelos brancos» e sempre preferiu arranjar mais um inimigo a perder a oportunidade de desferir uma das suas estocadas de ironia ácida. José-Augusto França define-o como uma «curiosa figura de erudito e de «blagueur» do Chiado.»9 Como podemos ver pelo testemunho de Correia da Silva e pelas palavras de Aquilino Ribeiro, em despeito da sua persistência na crítica mordaz, soube conviver com os mais jovens e ajudá-los sempre que lhes reconhecia valor e mérito. Um dos testemunhos orais que nos chegam, é o de Manuel da Fonseca, um dos jovens que tiveram o privilégio de o conhecer, e que afirma ser Gualdino «um conversador fascinante.» E Manuel da Fonseca, também ele um homem que, além de extraordinário escritor, foi um emérito conversador e contador de histórias à mesa do café era uma grande autoridade nesta matéria. Não esqueçamos ainda o testemunho de Beatriz Costa que, num dos seus livros autobiográficos, diz que só aprendeu a ler aos 13 anos de idade e sozinha, seguindo a sua ambição de saber, terá iniciado a sua alfabetização à mesa da Brasileira, rodeada por homens como Almada Negreiros, Gualdino Gomes, Aquilino Ribeiro e Vitorino Nemésio, entre outros.

Balas de Papel é o título de quatro opúsculos panfletários que nos lega. É o projecto de uma revista bimensal que apenas dura dois meses, entre Novembro de 1891 e Janeiro 1892. Trata-se de uma publicação de sátira política, social e cultural, cujas matrizes podem ser encontradas nos textos das Farpas e de Os Gatos, embora as diatribes não possuam a mesma riqueza formal dos modelos. No primeiro número, salienta-se a dedicatória a Fialho: «Ao Fialho de Almeida/Preito de vassalagem ao maior de todos os escritores portugueses/Saudação vibrante de entusiasmo ao escarnecedor justiceiro e temível dos Gatos.»

Contudo, como já sabemos, uma ironia de Fialho sobre um soneto seu ter-lhe-á bloqueado a veia criadora. Pelo menos, essa é a desculpa que dá ao longo dos quase sessenta anos que se seguiram para quase nada ter publicado, pois além desses pequenos folhetos, escreve ao todo pouco mais de uma dúzia de artigos, dispersos por revistas e jornais. Publica também um soneto na Seara Nova, para além desse tal outro que, ridicularizado por Fialho, é, segundo Gualdino a causa próxima da ruína da sua carreira. É talvez muito pouco para justificar uma vida que se prolongou por mais de 90 anos e em que pelos menos 70 foram votados à literatura. Porém, não esqueçamos, Gualdino Gomes é sobretudo um leitor, a sua função é ler e dar a sua opinião, nem sempre caridosa, mas sempre honesta e desassombrada. As «balas de papel» que disparou não foram muitas, mas aquelas que fez de palavras proferidas nas mesas do Café Chiado, da Brasileira, ou do Martinho, tiveram preponderante influência em sucessivas gerações de gente das letras. Algumas perduram até aos nossos dias.

E, se pensarmos bem, isso já não é pouco.

9 A Arte em Portugal no Século XX, José-Augusto França (Lisboa, 1984)