Eu, pecador, me confesso de ser charco e luar de charco, à mistura...

Miguel Torga

Poeta e prosador:
1907 - 1995



Quando tudo aconteceu...

907: Nasce Adolfo Correia da Rocha em S. Martinho de Anta (distrito de Vila Real). - 1920: Emigra para o Brasil. - 1925: Regressa do Brasil. - 1927: Fundação da "Presença" em que colabora desde o começo. - 1928: Ingressa na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra; Ansiedade, primeiro livro, poesia. - 1930: Deixa a "Presença". - 1931: Pão Ázimo, primeiro livro em prosa. - 1933: Formatura em Medicina. - 1934: A Terceira Voz, prosa; passa a usar o pseudónimo Miguel Torga. - 1936: O outro livro de Job, poesia. - 1937: A Criação do Mundo - Os dois primeiros dias. - 1939: Abertura do consultório médico, em Coimbra. - 1940: Os Bichos. - 1941: Primeiro volume do Diário; Contos da Montanha, que será reeditado no Rio de Janeiro; Terra firme, Mar, primeira obra de teatro. - 1944: Novos Contos da Montanha; Libertação (poesia). - 1945: Vindima, o primeiro romance. - 1947: Sinfonia (teatro). - 1950: Cântico do Homem (poesia); Portugal. - 1954: Penas do Purgatório (poesia) - 1958: Orfeu Rebelde, poesia. - 1965: Poemas Ibéricos. - 1981: Último volume de A Criação do Mundo. - 1993: Último volume do Diário (XVI). - 1995: Morre Adolfo Correia da Rocha.

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O HOMEM E AS ORIGENS

Adolfo Correia da Rocha, que será conhecido por Miguel Torga, nasce em 12 de Agosto de 1907, em S. Martinho da Anta, concelho de Sabrosa, Trás-os-Montes. Filho de gente do campo, não mais se desliga das origens, da família, do meio rural e da natureza que o circunda. Mesmo quando não referidos, estão sempre presentes o Pai, a Mãe, o professor primário Sr. Botelho, as fragas, as serranias, a magreza da terra, o suor para dela arrancar o pão, os próprios monumentos megalíticos em que a região é pródiga.

Entra no Seminário, donde sai pouco depois.

Emigra para o Brasil em 1920. Trabalha na fazenda do tio, é a dureza da "capinagem" do café. O tio apercebe-se das suas qualidades. Paga-lhe ingresso e estudos no liceu de Leopoldina, onde os professores notam as suas capacidades.

Regressa a Portugal em 1925. Entra da Faculdade de Medicina de Coimbra. Participa moderadamente na boémia coimbrã. Ainda estudante publica os seus primeiros livros. Com ajuda financeira do tio brasileiro conclui a formatura em 1933.

A família é um dos pontos fulcrais da sua vida. O pai, com quem a comunicação se faz quase sem necessidade de palavras, é um dos fortes esteios da sua ternura, amor e respeito. Cortei o cabelo ao meu pai e fiz-lhe a barba.(...) Foi sempre bonito, o velhote... Recorda os braços do pai pegando pela primeira vez na neta, recém nascida. O mesmo amor em poemas dedicados à mãe. Por sua mulher e filha um afecto profundo, também.

Uma parcela de arrogância, um certo distanciamento dos homens, timidez comum aos homens vindos dos meios humildes:

Nem sempre escrevi que sou intransigente, duro, capaz de uma lógica que toca a desumanidade. (...) Nem sempre admiti que estava irritado com este camarada e aquele amigo. (...) A desgraça é que não me deixam estar só, pensar só, sentir só.

O desejo de perfeição absoluta e de verdade:

Que cada frase em vez de um habilidoso disfarce, fosse uma sedução (...) e um acto sem subterfúgios. Para tanto limpo-a escrupulosamente de todas as impurezas e ambiguidades.

Não dá nada a ninguém, diz-se. Imensas consultas gratuitas como médico, desmentem a atoarda. Não dispõe de recursos folgados, confidencia a alguns amigos. Compreende-se: por motivos políticos, a sua mulher, Profª. Andrée Crabbé Rocha, é proibida de leccionar e, ao longo dos anos iniciais, altos são os custos editoriais do que publica...

A ideia da morte e da solidão acompanham-no permanentemente. Desde criança mantêm-se presentes no corpo e no espírito. Dos vinte e cinco poemas insertos no último volume do Diário, cerca de metade evocam-nas. Não porque atinja já uma idade relativamente avançada ou sofra de doença incurável. Na casa dos quarenta e até antes, já o envolvem. Não se traduzem em medo, mas no sentido do limite. Criança ainda, uma noite, sozinho, (...) desamparado e perplexo, assiste à morte do avô. O que não será estranho à obsessão.

No enterro de Afonso Duarte, ao fazer o elogio fúnebre afirma que a morte purifica os sentimentos.

O homem é, por desgraça, uma solidão: Nascemos sós, vivemos sós e morremos sós.

Viajante incansável por todo o país e estrangeiro. Visita a China e a Índia já próximo dos oitenta anos. Pareço um doido a correr esta pátria e nem chego a saber por quê tanta peregrinação.

Os monumentos entusiasmam-no. Os Jerónimos, a Batalha e Alcobaça têm sentido na Alma da nação. Mafra é uma estupidez que justifica uma punição aos reis doiros que fizeram construir o convento. Os monumentos paleolíticos fascinam-no.

Sou uma encruzilhadas de duas naturezas. De variadíssimas, dirá quem bem o conhece...

Morre em 17 de Janeiro de 1995. Enterrado em S. Martinho da Anta, junto dos pais e irmã.






OS OUTROS

O relacionamento com as pessoas, ao nível artístico, literário ou qualquer outro, não é fácil. Mais difícil com personalidades ou pessoas com visibilidade pública, mais afável com os humildes.

Tem zangas com os amigos de tertúlia. Em regra não são ultrapassadas.

No exercício da profissão dá consultas médicas gratuitas. Perde-se em conversas com os doentes, sobretudo se de condição modesta ou da sua região.

Não dá autógrafos ou apõe dedicatórias nos seus livros, para que o leitor esteja inteiramente livre para julgar o texto.

Uma alta personalidade política queixa-se ao próprio escritor da recusa que teve. Compara-a com a melhor sorte de uma senhora por ambos conhecida. Responde que não tem que se admirar pois faltam-lhe os atributos de beleza e elegância da senhora... Sem qualquer malícia, pois não é dado a dizeres brejeiros.

Tampouco se presta a prefaciar obras de outros colegas de escrita, salvo eventuais excepções. A crónica coimbrã conta, talvez com os excessos habituais, que, solicitado por um novato, explica a recusa perguntando: pretende publicar a sua obra ou o meu prefácio?

Não mostra receio de criticar quem quer que seja, mesmo os divinizados. De Camões fala de versos feitos a martelo. Considera o título d’Os Lusíadas a expressão da nossa tacanhez e os versos mais ilegíveis do que os da Divina Comédia. Exprime, apesar disso, enorme admiração pelo vate e pela sua obra.

Atribui aos nossos bem pensantes de serviço a ausência da mais pequena dúvida.

A sua desconfiança e menos paciência com os intelectuais é bastante viva: converso até onde me vejo obrigado, (...) largo-o logo que posso e regresso a um convívio menos tenso e mais fecundo, (...) sem esperança nos letrados, (...) junto dos analfabetos encontro ainda o riso, a indignação, o espanto...




A PÁTRIA É UM ÍMAN

O Reino Maravilhoso de Trás-os-Montes, é um dos seus grandes amores. Sempre na sua alma viaja com ele, parece vê-lo em toda a parte. Surge a cada momento na sua prosa. Sempre enaltecida como terra de Deus e dos deuses.

Não sendo apenas dele, sê-lo-á apenas dos que queiram merecê-lo. Assim o diz em Portugal, onde faz um quadro de outro dos seus amores: o país.

Esta adoração conduz a excessos. No vizinho Minho mostra-se enfastiado com a presença permanente do verde. Desanimado, à procura de um Minho com menos milho, menos erva, menos videiras de enforcado. Encontra-o onde a relva dá lugar à terra nua, parda, identificada com o panorama humano. Ou seja: com o seu Trás-os-Montes natal.

Nesse seu torrão vê o que os outros não conseguem ver. Um paraíso onde basta estender a mão e logo se desentranha em batatas, azeite, figos, nozes. Um sem número de outras riquezas e mimos que nenhuma imaginação descreve.

Mas anos antes falara do Marão, que não dá palha nem grão, as crianças famintas a pastar ervas.

Reconhece que o estar bem jantado é condição para admirar a beleza da cor e do relevo dos cumes das serranias...

O exagero atinge níveis que só a simbiose da paixão com a poesia e os sem limites da genialidade explicam. As rixas entre os naturais que às vezes se agridem, (...) que parecem feras, resulta de uma exacerbação de puras e cristalinas virtudes...

Évora e os seus monumentos atraem-no vivamente. Ela sintetiza a diversidade dos povo anteriores, latinos, mouros e os outros..

O seu amor pela Pátria, um íman, surge linha a linha. Vai a Espanha, Verin e delicia-se do alto de um castelo a olhar Portugal.

Um tanto estranhamente aceita o conceito da multicontinentalidade, embora temperado pelo seu humanismo universalista. Mais tarde vinca as diferenças de privilégios entre as duas etnias.

Cada monumento, cada pedra, cada planície, o mar, a serra, desde que portugueses, são fervorosamente enaltecidos...

Um certo iberismo: a minha pátria cívica acaba em Barca de Alva, (...) a telúrica nos Pirinéus.

Não reflecte uma posição pela união política. É feito das própria referências a um legado cultural e um destino comuns. Em A Vida (Poemas Ibéricos) ao referir os povos vasco, andaluz, galego, asturiano, catalão e português, esquece os castelhanos. Colocando os heróis lado a lado, chama desumano e brutal a Cortez, enquanto de Albuquerque parece apenas que chora o seu chorar:

(...) Por isso a Índia há-de acabar em fumo
Nesses doirados paços de Lisboa;
Por isso a pátria há-de perder o rumo
Das muralhas de Goa.

Publicado antes do livro, nos Poemas Ibéricos sobressairá o que dedica a Lorca. Antecedendo o prefácio da sua mulher à edição bilingue (português e castelhano em tradução de Eugénio de Andrade), Torga diz trazer torgas à rosa de Granada e que virá enquanto houver poesia, vida e povo na Ibéria.




COIMBRA E A TRADIÇÃO

Coimbra é uma das ligações de Torga à vida. Aí estuda e, depois de 1939, aí exerce medicina, aí vive, aí a sua actividade criadora se revela como vulcão em permanente actividade. Tem as suas tertúlias e os seus amigos e passa todos os dias umas horas de cavaqueira com o seu amigo João Fernandes, antes de chegar ao Central, à Brasileira ou ao Arcádia.

Coimbra suscita-lhe sentimentos opostos: paixão e timidez, a humildade e a desumildade, a (des)valorização do que está próximo.

As suas posições políticas ligam-se aos seus conceitos criticas quanto ao ensino universitário de então. A Universidade, casarão para ensinar camponeses (...) defende-se de toda a originalidade ou pensamento subversivo (...). A mistificação da borla e capelo.

Devoto de tudo o que é belo e monumental, no seu Portugal não tem uma palavra para a Igreja de Santa Cruz, para a Sé Velha, Almedina, Igreja de Santiago. Ou para as ruelas da Baixa, com o seu encanto especial que não deixa ninguém indiferente.

Começa o capitulo que lhe dedica com uma citação do que Eça põe na boca do conselheiro Acácio, chamando-lhe odalisca reclinada nos seus aposentos...

A tradição parola explica este estado de espírito. Mais longamente exposto em trecho intitulado A Formatura transcrito em Memórias de Alegria, volume antológico organizado por Eugénio de Andrade, onde se fala das praxes e tradições do meio académico. Sempre as combateu abertamente. À capa e batina, símbolos anacrónicos, chama farda.

Crime de lesa praxe, efectua o seu acto de formatura com o seu fato banal. Não evita que as suas vestes, conforme o costume, sejam rasgadas e destruídas pelos colegas.

Embora amaciada, esta aversão mantém-se. A Queima das Fitas, em 1957, é um dos seus aniversários fúnebres...

Mas Coimbra é um dos seus amores. Aí vive, trabalha e passa o seu tempo. A mais bela cidade do pais", (...) cenário para um perpétuo renascimento do espírito.




POLÍTICA E POLITICOS

Não é fácil, com rigor, situar Torga politicamente. Antes do 25 de Abril, sem dúvida é um homem da oposição, do "contra".

Várias prisões e algumas das suas obras apreendidas.

Viajando a Paris aí convive com exilados que, em grande número, virão a constituir o Partido Socialista. Sugerem-lhe que com eles fique. Recusa com o argumento de que não se ajustará à distância do Pais.

Volta, é preso pela polícia política, e encerrado no Aljube.

O passaporte é-lhe negado várias vezes.

Preside á primeira reunião do órgão regional do Centro do Partido Socialista. Esclarece que não é filiado, e que o faz na qualidade de homem socialista que sempre foi. É mais sensível a uma ética do que a uma ideologia, mais (...) fraterno que disciplinadamente correligionário.

Afirma que não será com sistemas e métodos alheios (...) que permaneceremos de bem com o nosso semblante constitutivo e lançados na senda progressiva da democracia, (...) só o conseguiremos mediante soluções originais. (...) O capitalismo não hesita mesmo diante de um leito de sofrimento; aponta a sua incorrigível voracidade e, em outro trecho, vê raízes judaico-cristãs no comunismo.

Uns anos antes, a respeito dos intelectuais nos palcos da política, dissera: nada há de menos sociológico de que a aplicação a uma comunidade viva do estrito espírito do sistema. E acusa Sartre de ter posto o preconceito acima do conceito com o fim de promover a sua imagem, sem se importar de ter eventualmente corrompido gerações inteiras.

A sua manifesta impaciência para com os políticos e o seu distanciamento do poder, concilia-se com afirmações de que tem uma raiz anarquista. Os seus sentimentos políticos lembram um socialismo proudhoniano, com fortes interacções de um anarquismo nobre, profundamente humano, não violento. Sempre em oposição com o poder constituído, pelo que o poder representa de afastamento do humano que lhe serve de suporte.

O 25 de Abril, a par do sentido de libertação traz-lhe algumas desilusões - as perseguições, a procura de lugares. A política é para eles (os políticos) uma promoção e, para mim, uma aflição. Com ironia e descrença relata conversas que os políticos têm com ele, independentemente da convergência ou divergência no plano partidário.

Não apoia nem tem a mínima simpatia pela União Europeia. Ela ofende o seu espirito patriótico e o seu ideal de Pátria. É o repúdio de um poeta português pela irresponsabilidade com que meia dúzia de contabilistas lhe alienaram a soberania (...) e Maastricht há-de ser uma nódoa indelével na memória da Europa. Exulta com o não dos dinamarqueses ao primeiro referendo.

Sobre a regionalização, pergunta: o mundo a braços com o drama das diversidades e nós, que há oitocentos anos temos a unidade nacional no território, na língua, nos costumes e na religião, vamos desmioladamente destruí-la?




O ESCRITOR E A OBRA

Decide adoptar o pseudónimo de Torga. Não escolhe o nome por acaso. Torga, ou urze, planta bravia, humilde, espontânea e com o seu habitat no chão agreste por todo o Portugal, mas particularmente nas serranias do norte, é o correspondente no reino vegetal dessa força que será o poeta e o prosador.

Mais que um prenúncio é todo um programa. Da insubmissão à própria natureza e, em todos os outros planos, humano, político, social, que constituirão a sua obra, plena de força, independência e intransigência. Contra todas as barreiras, vertentes aparentemente contraditórias mas que se complementam, expõe a sua verdade sem quaisquer restrições na apreciação de pessoas, acontecimentos e factos; não receia atacar o estabelecido ao mesmo tempo que não põe de lado conceitos conservadores em que acredita; altera as suas próprias posições desde que a "sua" verdade o exija. Não há uniformidade de critério possível perante a surpreendente e paradoxal diversidade da vida (Diário XII, p.133).

Na década de 20, as suas primeiras publicações, ainda estudante, são assinados por Adolfo Correia da Rocha, o nome de baptismo.

Adere, logo na fundação, ao grupo da Presença com a companhia dos grandes poetas do tempo. Sai em 1930, com Branquinho da Fonseca e Edmundo Betancourt, por considerar haver imposição de limites à liberdade criativa.

Equipara à morte a (má) sorte das posições sem relevo (Altitude). O esforço de todos os momentos da vida e na produção literária...

Funda com Branquinho da Fonseca uma nova revista, Sinal, que tem um percurso bastante curto. Mais tarde, com Albano Nogueira, uma outra, Manifesto. Efémera também.

Surge o primeiro livro - Ansiedade (1928) , a que se segue Rampa, ambos poesia.

Inicio do que será uma das mais vastas e profundas obras da literatura portuguesa de sempre. Escrever será, desde então, um constante fixar de emoções que dificilmente encontra paralelo.

Seguem-se Tributo e Abismo, ambos poesia, e Pão Ázimo e A Terceira Voz, os primeiros livros em prosa. Com este último começa a usar o pseudónimo Miguel Torga. Será o seu nome não só para a escrita mas para o convívio com os amigos e para tudo o mais.

Os seis títulos referenciados encontram-se esgotados ou foram apreendidos ou retirados do mercado.

A partir de 1936 volta à poesia com O Outro Livro de Job, reeditado em 1944 e que terá, até 1998, mais três reedições.

A sua produção começa a ter visibilidade,

Na poesia continua com Lamentação (1943) e Libertação (1944), apelo de esperança de que

venha o anjo da visita e do poema,
e traga o lume e a lenha
o incêndio pedido.

Seguem-se Odes (1946), Nihil Sibi (1948). Em 1950 o Cântico do Homem, logo reeditado. Sem pôr de lado a resistência e a esperança, cântico de lamento da condição humana:

Mas o fruto humilhante da falência
Tem um azedo gosto que me excita
(...)
Junquem de flores o chão do velho mundo:
Vem o futuro aí!

Pouco depois, (1952) Alguns Poemas Ibéricos. Em 1954, Penas do Purgatório:

(...) este tormento
Quotidiano;
(....) este lume secreto que nos queima
E que, mesmo apagado ou dominado, teima".

Quatro anos mais tarde Orfeu Rebelde, o inconformismo perante os limites:

Canto como quem usa
Os versos em legitima defesa.
Canto, sem perguntar à Musa
Se o canto é de terror ou de beleza.

E ainda, no mesmo livro::

Nasci subversivo.
A começar por mim - meu principal motivo
de insatisfação.

De poesia, ainda Câmara Ardente (1962) e Poemas Ibéricos, estes traduzidos para espanhol e francês.

Não se confina aqui a produção poética. Em 1941 começa a publicação do Diário que, ao longo de dezasseis volumes, incluirá inúmeros poemas ao lado de prosa variada. Apreciação dos acontecimentos mais variados, introspecção intimista, poesia, crónica e análise política, social, critica de costumes, apontamentos de paisagem. Exame de culturas, impressões de viagem. Seria suficiente para que Torga fosse considerado dos maiores, não só do século, mas de sempre, não apenas português mas universal.

O teatro merece também o seu esforço criador. Publica O Paraíso, Sinfonia (de cuja apreensão refere o desgosto), Mar e Terra Firme (drama do viver rural e a espera infinda pelos que se ausentaram - noivas, família).

Em prosa surgira já em 1938 A Criação do Mundo - Os Dois Primeiros Dias que continuará com o Terceiro Dia da Criação do Mundo até a O Sexto Dia da Criação do Mundo (1981) que, num sentido autobiográfico, se complementa com o Diário.

Portugal, cuja ultima edição datada de 1993, engloba trechos anteriores, é explicado pelo poema Pátria que lhe serve de prólogo:

(...) Hoje
sei apenas gostar
duma nesga de terra
debruada de mar.

O romance igualmente o ocupa. Vindima constituirá o principal titulo deste tipo literário. A qualidade não sofre contestação, mas é relativamente menos valorizado que a restante produção; por razões exógenas à qualidade, opina António Arnaut.

No conto vêem muitos o cume das suas qualidades como escritor. Contos da Montanha, mais uma vez os dramas da vida rural.

Bichos surge em 1940, reeditado pouco depois, traduções sucessivas para variadíssimas línguas. Animais com sentir humano ou seres humanos vestidos de animais. Ou uma irmandade de animais e homens. Tudo numa argamassa de vida. O cão Nero, o galo Tenório, o jerico Morgado, o Ladino, o Ramiro. E a Madalena, caminhando na contra mão da contradição entre cultura e vida.

Os seus escritos integram várias antologias ao lado dos grandes nomes.

Traduções dos seus livros em várias línguas: espanhol, francês, inglês, alemão, chinês, japonês, croata, romeno, norueguês, sueco, holandês, búlgaro. Por vezes precedidas de prefácio seu.




PRÉMIOS

Jorge Amado considerá-lo-á acima dos prémios, inclusive do Nobel, para que é proposto em 1960. Sem êxito, possivelmente por interferências do Poder de então. Voltará a ser considerado uns anos mais tarde, não lhe tendo sido atribuído, como se sabe.

Não pretendendo mostrá-lo, os amigos entrevêem o seu desgosto.

Avesso a galardões, recusa em 1954 o prémio "Almeida Garrett".

São-lhe entretanto atribuídos vários outros. Em 1976 o "Prémio Internacional de Poesia" de Knokke-Heist e, alguns anos mais tarde, o "Prémio Montaigne", da Fundação Alemã F.V.S. Dos nacionais, entre outros, recebe em 1989 o "Prémio Camões", o "Prémio Personalidade do Ano" (1991) e, no ano seguinte, o prémio "Vida Literária" da Associação Portuguesa de Escritores, na sua primeira atribuição. Havia já recebido em 1969 o prémio literário "Diário de Notícias" e, em 1980, ex-aecquo com Carlos Drummond de Andrade, o "Prémio Morgado de Mateus". A capacidade criadora de Miguel Torga manter-se-á até próximo da morte, que irá ocorrer em 1995.