"... para um romancista vale mais tomar lições particulares com a grande mestra vida do que fazer um curso completo em qualquer universidade do mundo...” (E.V.)

Érico Veríssimo

Um gaúcho a pé mais a sua máquina de escrever:
1905 - 1975



Quando tudo aconteceu...

1905: Nasce em 17 de Dezembro na cidade de Cruz Alta (Rio Grande do Sul). - 1920: Aluno do colégio Cruzeiro do Sul, em Porto Alegre, não chega a concluir os estudos secundários. Parte do tempo dedica à leitura dos clássicos brasileiros e de outros escritores, exs. Machado de Assis, Eça de Queirós, Júlio Verne, etc.. – 1922: Separação dos pais. Erico vai viver com a mãe e o irmão. – 1925: Empregado do Banco Nacional do Comércio. – 1926: Sócio, sem vocação, duma farmácia. – 1928: Publica o conto, Ladrão de Gado, dado à estampa na Revista do Globo. – 1930: Após a falência da farmácia resolve ir tentar a sorte para Porto Alegre. Está agora noivo, sem profissão e sem dinheiro. - 1931: Começa a trabalhar na Livraria do Globo para secretariar a publicação da revista. – 1932: Lança o seu primeiro livro Fantoches (colectânea de contos). – 1933: Já como director da Revista (que na quase totalidade compõe e organiza) inicia a sua tarefa de tradutor de livros policiais e de aventuras, o que só lhe deixa tempo para se dedicar no fim-de-semana aos seus escritos. Clarissa será o seu romance inaugural. – 1934: Escreve Caminhos Cruzados (prémio Fundação Graça Aranha). A novela Música ao Longe, apesar de escrita num repente, recebe o Prémio Machado de Assis. – 1936: Sai o romance Um Lugar ao Sol. - 1938: publica Olhai os Lírios do Campo, que o torna uma celebridade. – De 1940 a 45, passa vários períodos nos U.S.A onde, além de leccionar Português, é conferencista em várias universidades. Gato Preto em Campo de Neve e a Volta do Gato Preto são duas narrativas desta primeira fase americana. - 1947: Inicia a saga de O Tempo e o Vento. A partir de 1953 até 55 é director do Departamento de Assuntos Culturais da União Pan-Americana, em Washington, visitando na altura uma série de países latino-americanos. – 1959: Primeira viagem à Europa, incluindo Portugal. – 1961: Tem uma crise cardíaca grave; mesmo assim debilitado conclui o livro O Arquipélago. – 1973: Incidente em Antares, o seu último romance, aborda a temática do fantástico e do sobrenatural, um estilo pouco habitual entre os escritores latino-americanos. – 1975: Perto de completar setenta anos morre em Porto Alegre.

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PRIMEIROS ANOS

Há cem anos nascia, em 17 de Dezembro de 1905, Erico de Melo e Albuquerque Veríssimo da Fonseca, escritor, um dos símbolos do modernismo brasileiro, filho de Sebastião Veríssimo da Fonseca (farmacêutico) e de Abegahy Lopes Veríssimo, conhecido para a posteridade simplesmente por Erico Veríssimo. Natural do interior do Rio Grande do Sul (Cruz Alta), de ascendência portuguesa - pelo sobrenome Veríssimo de um antepassado emigrado para o Brasil nos inícios do século XIX - irá morrer em Porto Alegre a 28 de Novembro de 1975.



Erico (ou Érico, como se diz no Brasil) Veríssimo, ainda miúdo, com cerca de 4 anos, encontra-se às portas da morte, vítima de meningite, complicada por broncopneumonia. Será graças à intervenção dedicada de um renomado médico da época, Dr. Olinto de Oliveira, vindo especialmente de Porto Alegre para o tratar, distando cerca de 336 km por estrada de Cruz Alta, que quase por milagre o salva.



Inicia os estudos em 1912, mas nas horas vagas interessa-se pelo primeiros filmes mudos que são projectados no animatógrafo local ou vê o tempo passar na Farmácia Brasileira, do seu pai. Descendente de uma família tradicional, possuía no entanto, dentro dela, vários elementos de perfil intelectual, o que poderá ter-lhe estimulado a imaginação desde muito cedo para uma leitura apaixonada e omnívora de autores nacionais, como são Machado de Assis, Afrânio Peixoto, Joaquim Manuel de Macedo, Coelho Neto, Aluísio de Azevedo, etc.. Um pouco mais tarde, devido à gripe pneumónica (ou espanhola) que grassa pelo mundo, é obrigado a permanecer em casa de quarentena e com muito mais tempo livre para começar também a ler os escritores estrangeiros, desde Eça de Queirós, Anatole France, Jonathan Swift, Júlio Verne, passando por Émile Zola, Walter Scott até Tolstoi, Dostoievski, e muitos outros.



É agora aluno interno do colégio Cruzeiro do Sul, perto de Tersópolis, em Porto Alegre, até ao ano de 1922; contudo não chega a completar os estudos secundários (Ginásio) pela necessidade imperiosa de trabalho, em parte pelos problemas financeiros como devido à separação de facto dos pais, sendo por isso mesmo considerado um autodidacta.



Os primeiros anos de juventude, em Cruz Alta, são vividos com alguma dificuldade. A família outrora abastada de estancieiros (fazendeiros), arruina-se economicamente, pela crise que atinge a pecuária rio-grandense nas primeiras décadas do século XX, associada ao carácter desregrado do pai, o que força de antemão o nosso jovem gaúcho a começar a trabalhar - assim exerce várias actividades menores, desde empregado de armazém, bancário, ajudante e mais tarde sócio sem vocação de uma farmácia, na Rua do Comércio, que rapidamente entra em falência, ou simples desenhador na imprensa regional.



Desde cedo tem uma inclinação especial para as Artes, tanto na música como no desenho, e uma antiga e íntima aspiração, a de cursar medicina. No entanto, mais uma vez por falta de dinheiro decide, paradoxalmente, dedicar-se à paixão da escrita e à literatura. Principia a colaborar no Correio do Povo e no Diário de Notícias da terra. Nesta altura já domina bem o inglês, o que o vai ajudar mais tarde a leccionar nas universidades americanas quando das suas deslocações aos USA.



Fixa, em definitivo, residência na cidade de Porto Alegre, capital do Estado gaúcho do Rio Grande do Sul, no extremo meridional do país Brasil, onde trabalha como pintor, decorador e tradutor. A partir de 1931, com 26 anos e quase por acaso, ingressa na Livraria do Globo como jornalista e logo a seguir nos seus quadros, para secretariar o departamento editorial duma publicação interna com igual nome – a Revista do Globo (que publicara anos antes um conto seu, Ladrão de gado), tornando-se no futuro o seu director. Ainda em 1931, após um namoro de quatro anos, casa-se com Mafalda Halfen Volpe, de quem tem dois filhos.




CARREIRA LITERÁRIA

Em 1932 publica o seu primeiro livro, Fantoches (colectânea de contos que exibem, quase todos, uma estrutura de peça de teatro), e dá assim início à sua activa carreira literária, de princípio como simples escritor de fins-de-semana mas que, passada meia dúzia de anos, vai alcançar repercussão nacional e logo mais internacional. No ano seguinte surge o seu romance de estreia, Clarissa – mais tarde dará o mesmo nome à filha por ocasião do seu nascimento.



A obra de Érico Veríssimo pode ser dividida, consensualmente, em três períodos, tendo em conta a sua extensa escrita novelística, dum realismo de marcada efabulação humana – segundo ele a criação literária é quase sempre um acto de amor.



A primeira fase abrange os romances Clarissa, 1933, Música ao longe, 1935; Caminhos cruzados, 1935; Um lugar ao sol, 1936; Olhai os lírios do campo, 1938; Saga, 1940, O resto é silêncio, 1943, onde reaparecem por mais de uma vez, alguns dos personagens mais carismáticos, com realce para Clarissa e Vasco que marcam em parte a história da literatura brasileira do século XX. Nestes romances, ditos urbanos, o escritor (um gaúcho a pé como se define), vinculado a um certo regionalismo modernista ligado ao seu Estado do Rio Grande do Sul, descreve o ambiente desumanizado e cheio de contrastes da provinciana vida urbana da cidade de Porto Alegre, onde a nota pungente são a crise da sociedade tradicional, pela pouca solidariedade da elite social local, em decadência, e os conflitos morais e éticos inerentes - a que não é alheia a grande imigração de gente desenraizada e em fuga duma Europa à beira do abismo -, em que a pulsão do dia-a-dia se sucede caótico, desregrado, apenas controlado por indivíduos sem escrúpulos, como é exemplo, nas suas memórias, o traço que faz sobre a sua cidade natal de Cruz Alta, “… Estávamos ainda no tempo dos coronéis truculentos, da violência e do banditismo. Vi cadáveres cobertos de geada estendidos na lama sangrenta de minha rua …”, que já pronunciava o caos e desorientação de um mundo em crise e meio aloucado.



Com Olhai os lírios do campo, um dos livros brasileiros que apresenta maior número de edições, lido por sucessivas gerações, Erico Veríssimo atinge, rapidamente e em pouco tempo, o reconhecimento nacional pela popularidade alcançada, com tiragens surpreendentes para a época, com mais de duzentos mil exemplares vendidos em 1938, apesar do nível de aliteracia presente na sociedade brasileira de então, partilhando, a partir daí, o acolhimento e estima do público, só equiparado a um Jorge Amado. Este best-seller, um evangelho do amor comovente e apaixonante, decide por si só a sua carreira, tendo a literatura como profissão, e passa a ser um os poucos escritores capazes de sobreviver apenas com os direitos de autor.



O segundo período, o dos romances históricos, abrange a trilogia de O tempo e o vento, em que faz uma reflexão notável da formação do Estado e da alma gaúcha em busca da sua identidade, considerada por muitos a sua obra-prima. Registada entre os anos de 1948-1962, a sua escrita repousa num permanente movimento que remonta ao passado histórico do Rio Grande do Sul, desde a época dos seus fundadores, passando pela luta sem tréguas pela posse da terra subjugada ao poder tradicional de certas famílias. O conjunto, como que uma viagem no tempo (começa em 1745, nas missões jesuítas e conta a história da família Terra Cambará durante dois séculos, até ao século XX), é uma história de sobrevivência composta pelos livros O continente, O retrato e por fim O arquipélago, concluído no início dos anos 60. Aqui expressa, inequivocamente, a maturidade da sua evolução como escritor.



O terceiro ciclo inclui os romances políticos, da última fase da sua vida, já de escritor firmado e acima de qualquer polémica, como são O senhor embaixador, 1965; O prisioneiro, 1967, e Incidente em Antares, 1971, em que assume uma postura precisa e contrária às ditaduras que ocupavam por esse mundo fora a consciência de vários países, inclusive o Brasil, que sofria desde 1964 o drama duma ditadura militar que se vai manter até 1985, num planeta ainda a viver em plena guerra-fria. Ao lado de Jorge Amado, manifesta-se contra a censura prévia em vigor durante este período. O escritor mostra aqui a sua personalidade lúcida e independente, onde a liberdade é invariavelmente evocada, adoptando um rumo de pensamento que disseca a opressiva e confusa situação brasileira, sempre muito perto do caos, por anos seguidos de prepotência e arbitrariedade.




CURIOSIDADES E PARADOXOS EM ÉRICO VERÍSSIMO

Erico Veríssimo, sendo um escritor de estilo simples e directo, um contador de histórias como gostava de ser conhecido, exterior ao círculo cultural e cosmopolita do Rio de Janeiro e S. Paulo, tem uma infância tranquila e despreocupada, pois que descendia de famílias tradicionais de proprietários estancieiros, por ambos os pais, mas ainda menino-criança vai ser testemunha da rápida decadência familiar, ao ver em poucos anos dissipar-se a fortuna, o que o obriga a procurar trabalho em ofícios menores, e a mãe, para evitar a pobreza extrema, a dedicar-se à costura. Claro que tudo isto levou inevitavelmente à ruptura do casamento dos pais.



Os múltiplos sonhos que teria alimentado, para si, como pintor ou estudante numa universidade inglesa, são desviados para o contacto quotidiano com gente de toda a espécie por detrás de um balcão de simples empregado, “… O balcão me punha em contacto com: operários, soldados, empregados do comércio, funcionários públicos, caixeiros-viajantes, pequenos burgueses, estancieiros, trabalhadores do campo, caudilhos e vagabundos. Era uma parada singular… “. No entanto, serão estas personagens reais que mais tarde irão densamente povoar o seu imaginário de romancista.



Ao tentar seguir as pisadas do pai, farmacêutico, abre uma farmácia que rapidamente entra em falência – em virtude de uma fatal trilogia: muitos fiados, muitos namoros e a consequente falta de apego ao trabalho. No comércio não estava seguramente o seu destino, mas nada está perdido porque em frente à botica, no outro lado da rua, mora a sua futura mulher com quem nas horas vagas namorisca e o ajuda a passar o tempo, para além do ensino do inglês e da escrita que metodicamente pratica nos fundos da loja.



O escritor convive, em simultâneo e por várias vezes, com o drama do empobrecimento e a desonra familiar da decadência, situação esta que sente como um estímulo e fonte de inspiração futura para compor muitas das suas melhores páginas.



Para compensar o seu estado de melancolia latente, e sem dinheiro para cursar medicina, dedica-se cada vez mais às leituras de Machado de Assis e à moderna literatura inglesa, com Aldous Huxley, Somerset Maugham, autores que traduz quando vai trabalhar para a Livraria da Globo, assim como a ler Bernard Shaw, Swift, Óscar Wilde, Ibsen, etc., que irão influenciar e condicionar, logo mais, a sua técnica de escrita.



A ambiência da atmosfera com que Erico Veríssimo se envolvia quando escrevia, era muito sóbria e pobre: para ele bastava uma sala sombria, quase escura e praticamente vazia, onde apenas eram necessários uma velha máquina de escrever numa simples escrivaninha e um cabide para pendurar o chapéu, a bengala e o seu guarda-chuva.



Há quem se interrogue, se Erico Veríssimo não tivesse tido a felicidade de se empregar tão cedo na Editora da Globo, teria optado pelo percurso difícil da Escrita, quando o mais natural era ter sido Jornalista ou Funcionário Público, como era habitual na época. Provavelmente não, pois nesta altura era difícil aos autores brasileiros enveredarem só pela profissão de escritor, pois não existia a televisão e a rádio dava ainda os seus primeiros passos incipientes, logo a possibilidade de divulgação com um público anónimo, virtual, era muito reduzida.



Ainda no dealbar do século XXI, há estudos que apontam para uma grande maioria de brasileiros (aliás, um problema à escala mundial, segundo Gerard Vergnaud) que são analfabetos funcionais (67%, Ibope), ou seja, não são capazes de ler ou compreender cabalmente o que está escrito e de escrever correctamente; como não seria então o grau de aliteracia e do ensino, numa terra que se achava isolada e longe de tudo, a mais de 1550 km de distância da capital política, que era há um século Rio de Janeiro, e a mais de 1100 km do motor económico, São Paulo?



Claro que a possibilidade de poder editar tudo o que escreve, é aliciante e ajuda-o a optar sem hesitar. E como trabalhador militante agarra esta oportunidade, começando cedo a escrever romances (quase ao ritmo de um por ano), além de contos e outras histórias.



Também, ao criar uma relação de amizade com Henrique Bertaso, filho do dono da própria editora, que lhe publica toda a obra e para quem mais tarde escreve uma biografia, permite a Erico Veríssimo não ser confrontado com as ilusões e dissabores de qualquer escritor debutante que se inicia no ofício da escrita.



A dificuldade para publicar ainda hoje é manifesta, tanto lá como cá; que o digam muitos dos nossos escritores, alguns até de alguma nomeada, isto é, pelo menos dos mais badalados.



Outro paradoxo curioso foi Veríssimo nunca ter completado qualquer curso, inclusive o secundário, apesar de ser um dos grandes representantes da moderna ficção brasileira. Por vezes, a pessoa de Jorge Amado parece constituir o seu alter-ego, apesar das naturais diferenças geográficas e de pensamento político dos dois.



O escritor, talvez por isso, tem sido acusado, por certos críticos, de prolixo e difuso nas palavras com “repetições abusivas, incerteza na concepção de protagonistas, uso convencional da linguagem...”, o que torna evidente o seu maior defeito: a superficialidade e a falta de estudo psicológico e social das figuras literárias dos personagens, reconhecido em parte pelo próprio autor quando a elas se refere como marionetas “com a força e, ao mesmo tempo, a fraqueza da caricatura” (segundo Adelto Gonçalves).



No entanto, a partir de Olhai os lírios do campo, a sua obra passa a ser aceite, conseguindo tiragens dum escritor de sucesso, um verdadeiro artesão do tempo e da palavra, para a transmitir ao tempo das novas gerações, como um segredo que se guarda com a vida.



Em 1939, publica Viagem à aurora do mundo, história romanceada plena de mistério e fantasias, onde os segredos das origens do planeta, da vida e do homem são revelados.



A partir de 1941, passa a ser convidado regularmente para leccionar em algumas universidades nos Estados Unidos, sem nunca ter frequentado qualquer curso de inglês, já que o seu nível era escolar, proferindo conferências, nas quais se dedica em divulgar a literatura e a cultura brasileiras.



Vem por duas vezes a Portugal. Em 1959, encontra-se com Jaime Cortesão, Ferreira de Castro, Miguel Torga, João Gaspar Simões, Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner, Alves Redol, José Rodrigues Migueis, Vitorino Nemésio, Manuel da Fonseca e outros mais (conforme Dário de Castro Alves). Aqui faz palestras em que defende a democracia, o que provoca desinteligências com a polícia política de Salazar.



A segunda visita acontece em 1966, quando tenta perceber as suas raízes portuguesas, em Ervedal da Beira. Erico Veríssimo foi sempre um apaixonado por Portugal, segundo ele próprio diz ser, o mais português de todos os escritores brasileiros.




O MODERNISMO NA LITERATURA

Entende-se por Modernismo, como uma designação genérica de movimentos e tendências literárias e artísticas vanguardistas, das primeiras décadas do século XX, que surgem mais ou menos simultaneamente, em vários países europeus, exs. futurismo, dadaísmo, expressionismo, super-realismo, etc., mas com raízes no século XIX, acompanhado de avanços significativos no campo da ciência aliado à grande revolução tecnológica.



A corrente modernista apresenta múltiplos aspectos temáticos, revoluções formais de índole vária e diferentes pontos de vista reformadores do mundo. Na verdade, mais do que uma profunda revolução artística, expressa uma nova forma de ver, pensar, sentir e interpretar a vida do homem ocidental, privilegiando a valorização da vida quotidiana e o sentimento da sua interioridade e do seu próprio arbítrio. Muitas vezes a literatura surge associada às artes plásticas e por elas influenciada, numa verdadeira renovação da linguagem, na busca da experimentação e na autonomia criativa. Uma das características essenciais no Modernismo é a máxima liberdade para criar, praticamente sem regras, assim como possuir uma abordagem directa sobre os problemas sociais mais evidentes, denunciando situações chocantes de desemprego, infortúnio, fome, miséria, doença, exploração do homem pelo homem…



Igualmente, o modernismo como movimento estético tem prossecução em países como Portugal e Brasil, nos quais representa um tempo de rotura com a tradição naturalista de oitocentos, de acordo com uma geografia da arte que se organiza em torno de Paris, como principal pólo da criação artística. Por cá, está ligado às figuras de Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros e muitos outros, e consubstancia-se em volta da revista Orpheu (1.º número, Jan-Mar.1915).



O modernismo no Brasil tem como marco histórico a Semana de Arte Moderna realizada em São Paulo, no ano de 1922. Concebida por um grupo de intelectuais e artistas, por ocasião do Centenário da Independência, que se liberta da doutrina cultural associada às correntes literárias e artísticas anteriores, tais como o parnasianismo, o simbolismo e a arte académica. O compromisso, com a renovação estética do novo estilo, aliado a um forte apego a temas nacionais, é protagonizado por Heitor Villa-Lobos (1887-1958), na música; Mário de Andrade (1893-1945) e Oswald de Andrade (1890-1954), na literatura; Victor Brecheret (1894-1955), na escultura; Anita Malfatti (1889-1964) e Di Cavalcanti (1897-1976), Cândido Portinari (1903-1962), na pintura.



O modernismo (pela sua introspecção e liberdade linguística) vai lançar raízes na literatura brasileira, para as futuras gerações, com escritores do nível de um Manuel Bandeira (1886-1968), Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), Mário Quintana (1906-1994), João Cabral de Melo Neto (1920-1999), etc., etc.




O LEGADO DA SUA OBRA

“Ler Érico Veríssimo é essencial para a compreensão da mentalidade brasileira...” (Moacir Scliar)



Erico Veríssimo deve ser considerado um dos primeiros escritores do Modernismo Brasileiro, do ciclo Romance de 30. Um romancista poeta, como alguém lhe chamou, tendo em conta alguns dos títulos dos seus livros: Música ao longe, Caminhos cruzados, Um lugar ao sol, Olhai os lírios do campo, O resto é silêncio, O tempo e o vento.



Erico entregou-se à ficção, em geral e histórica, à literatura infantil e infanto- -juvenil, a livros de viagem, biografias, ao ensaio, artigos e crónicas. A sua obra é uma das maiores e mais conseguidas da literatura brasileira. Quase todos os seus romances são uma forma de denúncia das desigualdades e injustiças à época em que viveu, mas ainda hoje tão actuais.



Os seus livros estão traduzidos em mais de uma dúzia de línguas e publicados em quase todo o mundo e várias das suas obras estão adaptadas para a televisão e cinema.



Recebe em vida, entre outras honras, o Prémio Machado de Assis, da Companhia Editora Nacional (com Música ao longe), 1934; premiado pela Fundação Graça Aranha da Academia Brasileira de Letras (com Caminhos cruzados), 1935; os prémios Jabuti, da União Brasileira de Escritores, 1966 e Juca Pato (como Intelectual do ano), 1967; Personalidade Literária do Ano, Pen Clube - 1972; Prémio Literário da Fundação Moinhos Santista, 1973, para o conjunto da sua obra; e o grau de Doutor Honoris Causa de Literatura conferido pelo Mills College, na cidade de Oakland, Califórnia.



Erico, já fragilizado por uma crise cardiaca anterior, morre subitamente de enfarte quando escrevia o segundo volume de memórias, Solo de Clarineta. Mas é através dos seus livros que a sua vida intemporal vai continuar viva, tentando ultrapassar um inimigo tão invisível como implacável, pior que a morte física, que é a morte pelo esquecimento que tem acontecido recorrentemente a tantos escritores, alguns até candidatos ao Nobel prize.



No ano seguinte, a casa onde nascera, em Cruz Alta, é transformada num gesto para preservar as suas origens, em Casa-Museu de Erico Veríssimo. Vai passar à história sendo um dos maiores nomes da moderna ficção brasileira.



Em sua memória, Carlos Drummond de Andrade publica, como lápide de despedida, o seguinte poema:



A Falta de Érico



Falta alguma coisa no Brasil

depois da noite de sexta-feira.

Falta aquele homem no escritório

a tirar da máquina eléctrica

o destino dos seres,

a explicação antiga da terra.



Falta uma tristeza de menino bom

caminhando entre adultos

na esperança da justiça

que tarda - como tarda!

a clarear o mundo.



Falta um boné, aquele jeito manso,

aquela ternura contida, óleo

a derramar-se lentamente.

Falta o casal passeando no trigal.

Falta um solo de clarineta.



OBRAS DO AUTOR (resumo quase completo)



Romances: Clarissa, 1933; Caminhos cruzados, 1935; Música ao longe, 1936; Um lugar ao sol, 1936; Olhai os lírios do campo, 1938; Saga, 1940; O resto é silêncio, 1943; O tempo e o vento composto pelos livros: O continente, O retrato e O arquipélago, 1949-1962; O senhor embaixador, 1965; O prisioneiro, 1967, Incidente em Antares, 1971



Contos: Fantoche, 1932; As mãos de meu filho, 1942; O ataque, 1958



Novela: Noite, 1954



Literatura Infanto-Juvenil: A vida de Joana d’Arc, 1935; As aventuras do avião vermelho, 1936; Os três porquinhos pobres, 1936; Rosa Maria no castelo encantado, 1936; Meu ABC, 1936; As aventuras de Tibicuera, 1937; O urso com música na barriga, 1938; A vida do elefante Basílio, 1939; Outra vez os três porquinhos, 1939; Viagem à aurora do mundo, 1939; Aventuras no mundo da higiene, 1939; Gente e bichos, 1956



Impressões de viagens: Gato preto em campo de neve, 1941; A volta do gato preto, 1946; México - história de uma viagem, 1957; Israel em Abril, 1969



Autobiografias: O Escritor diante do espelho, 1966 (em “Ficção Completa”); Solo de clarineta – Memórias (1.º vol. 1973; 2.º vol. 1976 - ed. Póstuma)



Ensaios: Brazilian Literature – an Outline, 1945; Breve história da literatura brasileira, 1955; Rio Grande do Sul, 1973



Biografia: Um certo Henrique Bertaso, 1972



Além de um número considerável de compilações, traduções do autor, documentários e outras adaptações.