Nos meus livros - e nas minhas peças - tenho desejado fixar pedaços da vida.

romeu correia

Atleta e escritor:
1917-01-01 - 1997-01-01



Quando tudo aconteceu...

1917: A 17 de Novembro Romeu Correia nasce em Cacilhas, burgo vizinho a Almada, cidade na margem esquerda do Tejo, frente a Lisboa. - 1941: Casa com Almerinda. - 1943: No Grupo Desportivo da LISGÁS (Lisboa) pratica boxe amador. Com um grupo de democratas, cria a Biblioteca Popular da Academia Almadense e reanima a da Incrível Almadense; em ambas as colectividades organiza recitais e conferências. - 1947: Estreia-se na literatura com Sábado sem Sol, livro de contos, cuja edição virá a ser parcialmente apreendida pela PIDE. - 1948: Trapo Azul, romance. - 1950: Calamento, romance. - 1952: Gandaia, romance. - 1953: Casaco de Fogo, teatro. - 1955: Desporto-Rei, romance. Isaura, romance. - 1957: Sol na Floresta, teatro. - 1961: Bonecos de Luz, romance. - 1962: O Vagabundo das Mãos de Oiro, peça teatral que recebe o “Prémio da Crítica”. No mesmo ano também recebe o “Prémio Casa da Imprensa”. - 1963: No Pavilhão dos Desportos, em Lisboa, participa num torneio de boxe amador. - 1965: Bocage, teatro. - 1975: Recebe, pela segunda vez, o “Prémio Casa da Imprensa”. - 1976: Recebe o “Prémio Ricardo Malheiros” pelo livro de contos Um Passo em Frente. - 1980: Grito no Outono, teatro. - 1982: O Tritão, romance. Tempos Difíceis, teatro. - 1983: O Andarilho das Sete Partidas, teatro. - 1984: Recebe o “Prémio de Teatro 25 de Abril”, atribuído pela Associação Portuguesa de Críticos de Teatro. - 1989: Cais do Ginjal, novela. - 1995: A Palmatória, teatro. - 1996: Em Almada, Romeu Correia morre a 12 de Junho.

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LITERATURA: ESQUIVAR E REVIDAR

Nos fins de Setembro de 1961 eu e o Romeu Correia estamos em Cacilhas, num tasco à beira-rio. Ali, no Cais do Ginjal. Ao longe, Lisboa entornada sobre todas as colinas da margem oposta. Em 1982, no seu romance O Tritão, Romeu escreverá:

“Que imenso é o rio Tejo, essa massa de água de tantas e inesperadas cores e rebeldias, habitado por peixes e mistérios sem fim que maravilhara desde sempre o meu entendimento! Rio generoso, rio velhaco, ora a correr para a barra, ora a subir para a nascente, consoante o capricho das marés.”
E em 1947, no Sábado sem Sol, evocara a fábrica de gelo para os frigoríficos de bordo, com aquela ponte em cimento tracejada de rails para vagonetas... Também o relógio da torre, em Almada, e as cinco badaladas no bronze do sino, logo o apito para a saída do pessoal da Companhia Portuguesa de Pesca.

Mas eu não estou aqui para contemplar paisagens fluviais ou reencontrar os locais típicos da velha Almada. Estou aqui à beira-Tejo porque há uma coisa que me intriga: o Romeu tem apenas a instrução primária e frequentou, de raspão, a escola industrial. Como é que se tornou escritor, como é que isso foi possível? Passo ao ataque:

- Romeu, para ti, na literatura portuguesa quais são as melhores obras de ficção? (1)

Não gagueja, não se esquiva, apara, logo revida:

- Para mim são As Novelas do Minho e o Amor de Perdição, do Camilo; o Primo Basílio e Os Maias, do Eça; a Maria Adelaide, do Teixeira Gomes; as Terras do Demo, do Aquilino; os Bichos e a Montanha, do Torga; A Curva da Estrada do Ferreira de Castro; a Fanga do Redol; Onde A Noite Se Acaba do Miguéis; os Retalhos da Vida de um Médico do Namora; a Prisão do Domingos Monteiro e a Sedução, do Marmelo e Silva.

Parece saber os terrenos que pisa. Insisto:

- E o que há de comum entre todas essas obras? Ou seja: o que é que diferencia a ficção portuguesa das outras ficções?

Dispara:

- Na nossa literatura espalha-se a fibra romântica, a inclinação melancólica, saudosista, passadista, e a centelha irónica, sarcástica, inconforme e revoltada que caracterizam o homem português. Subjectivismo lírico e realismo irónico ou irreverente, são as duas constantes da literatura nacional.

Não afrouxo:

- Mas qual a corrente que melhor vingou nos nossos dias?
- A grande, impetuosa e invencível corrente que vem do naturalismo, que triunfa no realismo e dá o neo-realismo.

Provoco:

- Mas tu não achas que em Portugal o realismo e o neo-realismo estão em crise?
- Não há crise. Nunca houve um movimento assim pujante na ficção portuguesa. Apesar de tudo - e esse tudo é muito - os neo-realistas são a
maioria e a maioria dos melhores.




VÉRTICE

Contorno:

- Neo-realismo, neo-realismo... Sabes quem inventou essa expressão?

Abana a cabeça, encolhe os ombros, é a primeira vez que nele descubro hesitação.

- Romeu, tu conheces o Namorado?
- O poeta Joaquim Namorado, o director da revista Vértice, de Coimbra?
- Esse mesmo.
- É claro que conheço. Não te esqueças que eu sou colaborador da Vértice.
- Dizem, não sei se é verdade mas dizem que foi o Namorado quem, para iludir a PIDE e a Censura, camuflou de “neo-realismo” o tão falado “realismo socialista” apregoado pelo Jdanov...

Ri-se, abana afirmativamente a cabeça.

- É capaz de ser verdade, o Namorado sempre gostou de brincar às escondidas com a PIDE e a Censura... Lembras-te daqueles pensamentos na contracapa de cada número da Vértice?
- Sim, estou a ver.
- Pois o Namorado, durante alguns números, publicou pensamentos do Karl Marx mas assinados com o pseudónimo Carlos Marques. E um dia aparece na redacção um agente da PIDE a intimidar: “ó Senhor Doutor Joaquim Namorado, avise o Carlos Marques para ter cuidadinho, que nós já estamos de olho nele”...

Gargalhadas e bato com o copo no tampo da mesa, entorno o vinho. Mando vir outra garrafa.




VOLTEMOS À LITERATURA

- Romeu, voltemos à literatura!
- À minha colaboração na Vértice, queres tu dizer?
- Não, não é isso.
- Então o que é? À minha colaboração na Sílex ou no Suplemento Literário d’O Comércio do Porto?

Com o indicador recuso o rumo da conversa, esclareço:

- Nada disso, Romeu, é outra coisa. Na tua opinião, de que factores depende o desenvolvimento do romance, entre nós?

Não se engasga:

- Depende predominantemente da existência de romancistas. Claro que os romancistas serão melhores se puderem ser escritores de profissão e não heróis que roubam ao repouso merecido e à vida convivente as horas em que sonham e criam e escrevem.
- Tentas portanto ser um escritor profissional.
- Sim, tento, mas não consigo viver só do que escrevo. No nosso país poucos conseguem. Além do Ferreira de Castro e talvez do Aquilino, nenhum vive, ou pode viver, do valor do trabalho da sua pena.
- Por isso é que fazes jornalismo desportivo. E também és bancário, não és?
- Sim, comecei como cobrador do Banco Nacional Ultramarino.
- Como é que foi aquela brincadeira com a tua mulher?

Sorri:

- A serviço do BNU fiz uma cobrança de centenas de contos, em dinheiro. Cheguei a casa e a Almerinda estava a dormir. Espalhei todas as notas em cima do seu corpo. Acordou mas pensou que ainda estava a dormir. Esfaimados que nós andávamos, todo aquele dinheiro assim à mão, só podia ser um sonho maravilhoso...

Gargalhadas, desmancho-me sempre com esta história.

- Também foste artista de circo, não é?
- Sim.
- Que número é que tu fazias?

Respira fundo, cerra os punhos, finge disparar uns socos, evoca:

- Com um holofote atrás de mim, jogo de pernas e de braços, eu a jogar ao boxe contra a minha própria sombra.

Mordo um naco de pão com uma fatia de queijo de cabra e bebo meio copo de tinto. Volto ao principal:

- Bem, Romeu, já falaste na obra dos outros. E como é que caracterizas a tua?

Respira fundo, toma balanço, dispara:

- No Sábado Sem Sol fiz análise e crítica de costumes. No Trapo Azul fixei reflexos do quotidiano.
- A costureirinha violada pelo patrão, não é?
- Isso! Baseei-me num caso real, que bem conheço.
- E os outros livros?
- No Calamento fiz caracterologia moral e psicológica. Na Gandaia abordei problemas da infância e da adolescência e também reflexos do quotidiano. No Desporto-Rei foquei um processo social em curso.
- O futebol a alienar o povo, não é?
- Exactamente! No Casaco de Fogo, na Isaura e no Sol na Floresta estudei problemas da mulher. Um escritor vai deixando na sua obra, numa construção voluntariosa e difícil, a sua visão da vida, a sua compreensão dos homens e da sociedade em que vive. Não escreve tratados de teoria literária, ou estética, ou política, ou sociológica. Nos meus livros - e nas minhas peças - tenho desejado fixar pedaços da vida e a minha grande alegria é que há pessoas que os têm achado quentes e prementes da vida real que me inspirou e eu quis servir.
- E onde é que escreves? Em casa?
- Em casa e fora de casa. Olha, em Lisboa, passo horas a escrever no BOM, um Café que fica ali na esquina da Betesga com o Poço do Borratem. Conheces?

- Sim, conheço, já te vi por lá algumas vezes. Diz-me uma coisa: acabaste de publicar Bonecos de Luz. É um romance sobre o Chaplin, não é?

- De homenagem ao Chaplin.
- E o que é que estás a escrever agora?
- Uma peça.
- Como é que se chama ou vai chamar-se?
- O Vagabundo das Mãos de Oiro.

Chega! Para mim, por agora chega, dou-me por satisfeito. Levanto-me, despeço-me, damos um grande abraço. Ele não quer mas eu insisto e pago a conta.

Tomo o barco para Lisboa e ele regressa à sua velha Almada.




NA VIDA COMO NUM RINGUE

Aqui vou eu a atravessar o Tejo enquanto ele vai, certamente, a trepar até à Boca do Vento, aquele mirante lá nos altos de Almada.

É um gajo lixado, o Romeu Correia. Ungido apenas pela instrução primária, logo a ignorância quis abafá-lo. Mas não fugiu, nem se agachou. Esquivou-se e depois virou-se contra ela. Comprou livros e leu, leu muito, digeriu a leitura e acertou dois murros valentes na abafadora. Atirada contra as cordas, terceiro murro e ela tomba lentamente, desaba, knock-out.

Romeu movimenta-se na vida como em cima de um ringue. Não é por acaso que se chega a vencedor, em pugilismo...




ATLETISMO

Com boa compleição física, Romeu, ainda rapaz, dedica-se à ginástica e ao atletismo. Ele, e um grupo alargado de jovens almadenses.

Almerinda, a sua mulher, por 5 vezes é campeã nacional de atletismo. E Romeu, além de correr e saltar, também pratica o boxe amador, em Lisboa, no Grupo Desportivo da LISGÁS.

Na década de 40 o casal cria no Almada Atlético Clube um núcleo de raparigas praticantes de atletismo. Para os “moraleiros” é o grande escândalo, pois as meninas, descontraídas, correm e saltam vestindo camisolas de manga curta e calções de meia perna... Para elas não há constrangimento, esbanjam alegria e saúde.

Pensando sempre nos outros Romeu, sem qualquer interesse financeiro, desloca-se a várias cidades e vilas do país para dar aulas de cultura física.

Já com mais de 50 anos, em 1963, o seu interesse pelo boxe ainda o leva a participar num torneio, no Pavilhão dos Desportos, em Lisboa.




DINAMIZADOR CULTURAL

Romeu não se deixou apanhar pela ignorância e também não consente que ela, impunemente, abafe os outros. Tem o verbo fácil, é um dinamizador. Intervém, mobiliza e começa a liderar o movimento associativo de Almada.

Ainda durante a II Guerra Mundial, em 1943, com um grupo de jovens antifascistas funda a Biblioteca Popular da Academia Almadense e reorganiza a da Incrível Almadense. Numa e noutra colectividade promove recitais e conferências.

Em 1947 publica o seu primeiro livro Sábado sem Sol, contos. Encaminha o lucro das vendas, não para o seu bolso, mas para as tesourarias da Academia e da Incrível.

Dois meses depois do lançamento do livro a PIDE, alertada, tenta apreender a edição mas, dos 1500 exemplares distribuídos pelas livrarias, não consegue apanhar mais que 50...




NEO-REALISMO, SEMPRE?

Generosidade, preocupação com o próximo, intervenção social, a luta contra a exploração e a tirania... O reflexo literário dessa atitude será sempre o neo-realismo! Será sempre? Os dogmáticos garantem que sim. Mas em 1962, com a peça O Vagabundo das Mãos de Oiro, Romeu Correia ousa mostrar que diferente pode ser o reflexo...

Lufada varre o palco, sopra a ingenuidade e o encanto dos “romances de cordel”. Na feira, Mestre Albino arma a barraca. É ele o vagabundo criador dos fantoches de trapos e serradura. O seu boneco mais conseguido é Hortense. E não é que, só para seduzir e perturbar os humanos, de repente Hortense acorda, anima-se e toma vida própria?


Romeu acaba de entrar na antecâmara de um “realismo fantástico à portuguesa”. Pena que não tenha tempo, ou apetência, para esquadrinhar todas as possibilidades do reino cuja porta acabou de abrir...




FORUM

Cruzo o Tejo, desço em Cacilhas, chego a Almada.

Já me aproximo do Forum Municipal Romeu Correia, assim denominado em 1998, em homenagem ao atleta, ao escritor, ao cidadão exemplar.

Romeu Correia faleceu a 12 de Junho de 1996. Foi-se o lutador, foi-se o amigo. Do Além, ele a jogar ao boxe contra esta saudade minha.

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(1) - As opiniões de Romeu Correia sobre literatura foram colhidas das suas respostas a um inquérito do suplemento Cultura e Arte do jornal O Comércio do Porto.