Desde sempre caminho entre dois mundos...

Hilda Hilst

Escritora brasileira:
1930 - 2004



Quando tudo aconteceu...

21 de abril de 1930 – Nasce Hilda Hilst em Jaú (SP), filha de Bedelcida Vaz Cardoso e Apolonio de Almeida Prado Hilst, poeta. 1932 – Separação dos pais de Hilda. 1935 – Apolonio de Almeida Prado Hilst é diagnosticado esquizofrênico, sendo internado em um sanatório. 1937 – Hilda ingressa no Colégio Santa Marcelina, em São Paulo. 1945 – Ingressa no curso clássico da Escola Mackenzie. 1948 – Começa sua graduação em Direito na Faculdade do Largo São Francisco. 1950 – Estreia na poesia com o livro “Presságio”. 1951 – Publica “Balada de Alzira”. 1952 – Conclui o curso de Direito. 1955 – Publica “Balada do Festival”. 1957 – Viaja à Europa, de junho a dezembro. 1959 – Lança “Roteiro do silêncio” e “Trovas de muito amor para um amado senhor”. 1961 – Lança “Ode fragmentária”. 1962- Publica “Sete cantos do poeta para o anjo”, pelo qual obtém o Prêmio Pen Club de São Paulo. 1966 – Muda-se para a Casa do Sol, no terreno da fazenda de sua mãe. Neste mesmo ano morre seu pai. 1967 – Lança “Poesia (1959-1967)”. 1968 – Casa-se com o escultor Dante Casarini. 1969 – Recebe o Prêmio Anchieta de Teatro com a peça “O Verdugo”. Sua peça “O rato no muro” é apresentada no Festival de Teatro de Manizales, na Colômbia. 1970 – Estreia na ficção com o livro “Fluxo-floema”. Morre sua mãe. 1973 – Publica “Qadós”. 1974 – Publica “Júbilo, Memória e Noviciado da Paixão”. 1977 – Lança “Ficções”, pelo qual obtém o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), como “Melhor Livro do Ano”. 1980 – Lança os livros “Da morte. Odes mínimas”, “Poesia (1959-1979)” e “Tu não te moves de ti” (ficção). Recebe o Prêmio APCA pelo conjunto da obra. 1982 – Lança “A obscena senhora D” e participa do Programa do Artista Residente da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). 1983 – Publica “Cantares de perda e predileção”, pelo qual obtém os prêmios Jabuti (CBL) e Cassiano Ricardo (Clube de Poesia de São Paulo). 1984 – Lança “Poemas malditos, gozosos e devotos”. 1985 – Divorcia-se de Dante Casarini. 1986 – Publica “Sobre a tua grande face” (poesia) e “Com meus olhos de cão e outras novelas”. 1989 – Lança “Amavisse”. 1990 – Inicia sua trilogia obscena com os livros “O caderno rosa de Lori Lamby” e “Contos d’escárnio. Textos grotescos”. Em poesia, lança “Alcoólicas”.1991 – Lança “Cartas de um sedutor”. “O caderno rosa de Lori Lamby” é traduzido para o italiano. 1992 – Publica “Do desejo” e “Bufólicas”. 1993 – Publica “Rútilo Nada”, pelo qual obtém o prêmio Jabuti. 1994 – “Contos d’escárnio. Textos grotescos” é traduzido para o francês. 1995 – Lança “Cantares do sem nome e de partidas”. Seu arquivo pessoal é comprado pelo Centro de Documentação Cultural Alexandre Eulálio, da Unicamp. Sofre uma isquemia cerebral. 1997 – Publica “Estar sendo. Ter sido” (ficção). Anuncia o encerramento do seu trabalho literário. 1998 – Lança “Cascos e carícias: crônicas reunidas (1992/1995)”. 1999 – Publica “Do Amor”, coletânea de poemas. 2000 – Lança o primeiro volume de suas peças teatrais em “Teatro Reunido”. O segundo volume nunca seria publicado. 2001 – Começa a ser relançada toda a sua obra, inclusive seu teatro completo, pela editora Globo. 2002 – Recebe o Prêmio Fundação Bunge (antigo Moinho Santista) pelo conjunto de sua obra poética e o Prêmio APCA pela reedição dos seus livros. 04 de fevereiro de 2004 – Falece no Hospital das Clínicas da Unicamp. É sepultada no Cemitério das Aleias, em Campinas (SP).

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Hilda Hilst, ontem e hoje

Menos de uma década desde a morte de Hilda Hilst e seu nome surge tão frequentemente como referência literária que a falta de leitores de que ela reclamava parece nunca ter existido. No portão de ferro da sua Casa do Sol, em Campinas, hoje “Instituto Hilda Hilst”, estão as iniciais HH, emblema do seu nome, ao lado da data de 1890. Essa data, que poderia ser uma brincadeira de Hilda, simboliza uma verdade: sua poesia é inatual, precisamente no sentido que Otto Maria Carpeaux atribuiu certa vez à inatualidade da poesia de Cecília Meireles: “uma poesia de perfeição intemporal”.




Princípio

A analogia com a poesia ao mesmo tempo inspirada e disciplinada de Cecília Meireles não é gratuita. Hilda tem apenas 18 anos quando recebe por escrito, de Cecília, o incentivo de escrever. É também na companhia de Cecília que Lygia Fagundes Telles conhece pela primeira vez a jovem Hilda, em 1949, um ano antes de sua estreia na poesia com o livro “Presságio”. O encontro, que marcaria uma vida inteira de amizade, acontece durante uma homenagem à Lygia na Casa Mappin, em São Paulo, à qual Hilda comparece representando a Academia do Largo de São Francisco, onde Lygia estudou e onde Hilda se forma em 1952.

Nessa primeira fase literária, de 1950 a 1962, exclusivamente dedicada à poesia, Hilda Hilst lança sete livros, somente obtendo reconhecimento com “Sete cantos do poeta para o anjo”, em 1962. Como sempre acontece aos artistas alheios a modismos, já uma intuição poética nos versos de “Presságio” deixa entrever o caminho que Hilda descobriria por si própria, por uma fidelidade sem paralelo no âmbito de desmistificação da literatura moderna:

Amanhã serei corajosamente Cristina.
Eu, amando todos os que sofrem.
Eu...essência.

São baladas de juventude, elegias e sonetos que Hilda escreve enquanto vive um intenso período de festas, mudanças de casa e viagens, e, embora toda a efervescência da sua vida nesta época, já em sua escrita se pressente a lírica personalíssima, nunca estranha ao esplendor, dos seus poemas de trinta anos depois; uma voz que persegue os grandes temas do amor, da morte e de Deus, em uma constante aspiração de eternidade. Assim como Cecília Meireles não participou da “revolução modernista”, também Hilda Hilst passou ao largo do prosaísmo e do teor deliberadamente anti-epifânico que influenciaram os poetas do seu tempo. ..




Casa do Sol

O ano de 1966 inaugura uma nova fase, com a mudança definitiva de Hilda para a Casa do Sol. A moça loira, de pose altiva e opiniões fortes, que marcava presença em reuniões de artistas e rodas sociais paulistanas, transfere-se para a casa construída na fazenda da sua mãe, em Campinas, para escrever. Nesse mesmo ano falece seu pai, Apolonio de Almeida Hilst, figura fundamental tanto na vida como na literatura de Hilda, para quem ela dedica, mais tarde, toda a sua obra. A leitura de “Carta a El Greco”, de Nikos Kazantzakis, também é decisiva para o afastamento de Hilda do burburinho social e literário.

O aprofundamento de uma busca poética, a partir de então, reflete uma outra busca mais profunda, de natureza mística, que encontrará expressão não apenas na poesia de Hilda, mas em suas peças teatrais, que começam a ser escritas em 1967, e em sua prosa de ficção, sobretudo com o livro “Qadós”. No conto de mesmo título que integra o volume, há pelo menos dois indícios iniciais bastante sensíveis dessa busca mística de Hilda Hilst. O primeiro deles, na epígrafe escolhida para o conto: versos de “Invenção de Orfeu” (1952), de Jorge de Lima, poeta com quem Hilda nutre uma especial afinidade literária, já presente, também como epígrafe, na abertura de “Sete cantos do poeta para o anjo”.




Hilda Hilst e Jorge de Lima: “a verdadeira revolução”

Pensando naqueles versos estreantes de “Presságio”, que antecipam uma conversão, por assim dizer, vale lembrar que Jorge de Lima, juntamente com Murilo Mendes, propôs em 1935 a “restauração da Poesia em Cristo”, pelo que ambos foram muito criticados. Essa restauração, que Jorge de Lima considerava a “única, imensa, geral e verdadeira revolução”2, tem expressão na forma monumental de uma epopeia, que encena o drama do homem moderno par a par com o drama de sua queda, o campo de batalhas do século 20 como um imenso cenário apocalíptico.

Conforme diz Murilo Mendes no prefácio do livro, “‘Invenção de Orfeu’ é uma espécie de soma, em poesia, da nossa época”. Nesse campo de batalhas desfilam os problemas com os quais o homem moderno se confronta, em uma confrontação com o seu próprio futuro, e que têm a ver com o drama de “eliminação das nossas tendências místicas e contemplativas, apelo único à força telúrica”. A definição de Jorge de Lima para sua epopeia é “um livro de esperanças”, justamente em uma época que concorre para o desmoronamento de todas as promessas messiânicas.

Escolhendo como epígrafe de “Qadós” este “rei animado e anal, chefe sem povo,/tão divino mas sujo, mas falhado,/(...)/rei tão morrido da cabeça aos pés”, Hilda empreende sua própria jornada poética na voz de um personagem caído, separado, dividido, aquele que incansavelmente se pergunta e se ressente de estar entre o gozo do corpo e o grande gozo de Deus. Aqui, o erotismo é um meio para a santidade, que, tanto para Hilda Hilst como para Jorge de Lima, representa a “verdadeira revolução”3.




Qadós e Maria Zambrano: “pacto

Outro indício dessa busca de fundo místico está na própria abertura do conto “Qadós”: “Pacto que há de vir”. Não por coincidência, na biblioteca de Hilda há uma edição de “O Homem e o Divino”, de Maria Zambrano, em cujo ensaio “Do nascimento dos deuses” a palavra “pacto” aparece assinalada, ao lado da palavra manuscrita “Qadós”.

Zambrano escreve neste ensaio:

No mais fundo da relação do homem com os deuses se abriga a perseguição (...).E é sabido quando facilmente se transmuda a atitude persecutória de um homem em direção a um deus em sua adoração mais fervorosa. É que a relação inicial, primária, do homem com o divino não se dá por meio da razão, senão por meio do delírio. A razão iniciará o delírio do amor. Um delírio de perseguição. (...)
Quem sabe não seja necessário dizer que o delírio de perseguição obriga a perseguir e quem o padece não sabe, não pode discernir se persegue ou é perseguido. Seu comportamento observado desde fora é o de quem persegue, mas ele vai impelido, inocente de sua ação. E assim, quando o delírio culmine na demanda “Permita-me, Senhor, que eu veja a tua face”, ele o fará no máximo da exasperação, no limite de sua resistência depois de uma luta esgotante.
E quando poeticamente os defina, acreditará transcrever o que houve, o que se mostrou sempre assim. Então haverá terminado o delírio de perseguição; terá alcançado finalmente o pacto.

Qadós, “o ser-pergunta” de Hilda, vive esse delírio de perseguição que culmina na demanda à qual se refere Maria Zambrano, e todo o conto é uma alucinante verbalização desse conflito que, em seu paroxismo, se resolve no pacto. É emblemático que, 29 anos depois da primeira edição do livro, Hilda tenha mudado o título para “Kadosh”4 (2002), como se isto não fosse um simples ajuste fino, mas uma finalização da sua busca por meio de sua obra, uma consumação daquele pacto que contém o nome do seu personagem dentro do nome de Deus. “Qadós”, na obra de Hilda, ocupa um lugar de relevância por condensar ali aspectos fundamentais de sua trajetória, e da sua poética como um todo, desde situações dramatúrgicas em que se pode reconhecer a atmosfera de suas peças teatrais e a matéria mesma do conflito interior do homem cingido, aquele que sempre se pergunta e que está à procura da unidade, até a exuberância dos nomes com que Hilda define Deus e o erotismo com efeito de humor e lucidez que mais tarde irá predominar em sua “trilogia obscena”.




Teatro de Hilda Hilst

“A Empresa (A Possessa)” e “O rato no muro” são as primeiras peças escritas por Hilda, em 1967, às quais se seguem “O visitante”, “Auto da barca de Camiri” e “O Novo Sistema”, em 1968. Na praia de Massaguaçu, no litoral paulista, onde constrói a Casa da Lua, Hilda conclui em 1969 sua produção teatral com “As aves da noite”, “A morte do patriarca” e “O verdugo”, esta última vencedora, no mesmo ano, do Prêmio Anchieta de Teatro. Composições sóbrias de interiores, pátios e praças, com poucos mas fortes elementos simbólicos e figuras arquetípicas de poder põem em cena as inquietações de Hilda no que diz respeito a uma época de totalitarismos estupidificantes e de miséria espiritual.

Todas as peças cabem perfeitamente dentro do chamado “ciclo mimético” de René Girard, segundo o qual um personagem é eleito o bode expiatório que deverá cumprir o mecanismo vitimário do “todos-contra-um” até desembocar no escândalo da crucificação. “As aves da noite” é uma peça importante dentro desse conjunto, que traz como figura crística do século 20 o frade franciscano Maximilian Kolbe, que por vontade própria assume o lugar de um dos prisioneiros sorteados pelos nazistas para morrer de fome em represália à fuga de um dos prisioneiros do campo, no ano de 1941, em Auschwitz. Outro condenado à cela da fome, e o que primeiro morre em “As aves da noite”, é o poeta. Os versos que o personagem diz, caminhando comovido para a cela, fazem lembrar o pungente movimento lento e largo – tranquilisimo de Henry Górecki em sua Sinfonia n.º 3 (“Symphony of Sorrowful Songs”).

Como diz Nelly Novaes Coelho em um grande estudo sobre a produção de Hilda entre 1959 e 1979, “no teatro e na ficção, intensifica-se a paixão. Nos mais diferentes graus (da abjeção mais vil à grandeza mais violenta e bela), a escritora tenta expressar o corpo-a-corpo do ser humano com a passionalidade do viver, - único caminho que lhe permitia vislumbrar as possíveis respostas ao Enigma, ou pelo menos ter a efêmera sensação de participar do Absoluto ou da Eternidade”.5 E a poesia, fruto dessa passionalidade, no teatro de Hilda, aparece muitas vezes em estado puro, como na fala da Freira H, de “O rato no muro”, que se lê, inevitavelmente, na forma de um canto:

Mas tu serás assim tão velho? E tão triste?
E eu poderia ainda te cantar como um dia te cantei?
Se algum irmão de sangue, de poesia,
Mago de duplas cores no meu manto,
Testemunhou seu anjo em muitos cantos,
Eu, de alma tão sofrida de inocências, o meu não cantaria?
E antes deste amor, que passeio entre sombras!
Tantas luas ausentes e veladas fontes!
Que asperezas de tato descobri nas coisas de contexto delicado.
Andei, em direção oposta aos grandes ventos.
Nos pássaros mais altos o meu olhar de novo incandescia.
Ah, fui sempre a das visões tardias!
Desde sempre caminho entre dois mundos,
Mas a tua face é aquela onde me via...
Mas, tu serás assim tão velho e tão triste?

Ainda pouco exploradas, as peças de Hilda Hilst falam a linguagem da Cruz. A palavra do poeta contra um mundo desumanizado, sonâmbulo, seduzido pelo racionalismo científico e pela prevalência da matéria é uma palavra que se encarna em tipos martirizados, metralhados, espancados, amarrados a um poste no meio de uma praça. O teor político desses textos transcende as circunstâncias históricas em que foram produzidos, em plena ditadura militar. São peças cujo caráter revolucionário se percebe na fala do Demônio, da peça “A morte do patriarca”, anunciando a chegada de um novo tempo em que será preciso “reviver alguma verdade”, “experimentar outras palavras”, descobrir “alguma coisa que emocione novamente” o homem. Vale destacar o que Edwin Bovan escreve a Arnold Tonybee, em 1939, citação com que Hilda Hilst abre a peça “O Novo Sistema”:

Não penso que o perigo que enfrentamos seja o da anarquia, mas sim o despotismo, a perda da liberdade espiritual, o estado totalitário universal, talvez. Então o mundo poderia entrar em um período de petrificação espiritual, uma ordem terrível, que para as altas atividades do espírito humano seria a morte. Em tal estado totalitário, parece-me possível, enquanto murchassem a filosofia e a poesia, que a pesquisa científica poderia continuar com descobertas sempre novas.

Esse “período de petrificação espiritual” que Hilda leva ao palco, em uma dramatização de simbolismo escatológico, põe a nu o perigo de atrofia de um sentido poético fundamentalmente enraizado no que é belo e bom. A ironia dos seus personagens desafia a plausibilidade da experiência do mistério por uma alegoria de um combate entre o espírito dessacralizado dos tempos modernos e uma dimensão transcendental de fervor e comoção. Feita bode expiatório de uma época que rechaça o inefável, como se depois de Auschwitz a poesia, no sentido do sublime, de fato não fosse mais possível, a palavra do poeta irá ganhar na obra de Hilda um outro tom ainda mais inflamado, e agora explícito, com suas crônicas no jornal Correio Popular, de Campinas, a partir de 1992. O poema que fecha a peça “O novo sistema”, quando o elenco se reúne “não mais como personagens mas como atores”, dirigindo-se para o público, não poderia ser mais claro em seu apelo:

Ah! Nosso tempo de fúria!
Ah! Nosso tempo de treva!
(abrindo os braços para o público)
Dá-me a tua mão. Dá-me a tua mão.
(o elenco de mãos dadas)
Que os nossos homens se dêem as mãos.
Que a poesia, a filosofia e a ciência
Através de uma lúcida alquimia
Nos preparem uma transmutação:
Asa de amor Asa de esperança
Asa de espanto
(pequena pausa)
Do conhecimento.




Poesia para o futuro

O mesmo apelo se renova nos “Poemas aos homens do nosso tempo”, publicados no livro “Júbilo, Memória e Noviciado da Paixão”, em 1974. Entre eles, está o comovente poema a Frederico García Lorca, no qual Hilda declara morto o poeta, pois “o futuro é de sangue, de aço, de vaidade. / E vermelhos/ Azuis, brancos e amarelos hão de gritar: morte aos poetas! / Morte a todos aqueles de lúcidas artérias, tatuados / De infância, o plexo aberto, exposto aos lobos”. A morte que Hilda lamenta é a de um modo de ver e pensar o mundo. Hilda se reconhece em Lorca, ou seja, em uma poesia que sua época se empenha em assassinar. Oferecendo esse poema aos homens do seu tempo, sua palavra se dirige também aos poetas do futuro. Um dos seus livros mais notáveis, “Júbilo, Memória e Noviciado da Paixão” canta o amor do corpo e o amor da alma, aquele onde se mede o sofrimento de uma beleza que termina e este de onde emerge o poema, com uma beleza que perdura e desborda. Juntamente com “Da morte. Odes mínimas” (1980) e “Sobre tua grande face” (1986), Hilda compõe a face tríplice deste outro que sua poesia persegue, este que ora se mostra como o amante do amor erótico, ora como Deus, ora como o “corpo de ar e marfim” da própria morte. .




Trilogia obscena

Entre 1980 e 1990, são onze livros publicados, sete de poesia, entre eles “Cantares de perda e predileção”, com o qual Hilda vence o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, e “Amavisse”. Embora viessem outros poemas depois disso, Hilda anuncia publicamente sua despedida da poesia com “Amavisse”, em 1990, ano em que se inaugura uma nova fase literária em sua obra com o lançamento de “O caderno rosa de Lori Lamby”, o primeiro da sua “trilogia obscena”. Em entrevista à TV Cultura no mesmo ano, Hilda esclarece o sentido do obsceno que a levou a esta prosa incômoda, de humor sardônico, não inteiramente compreendida pela crítica da época: “Eu acho que a verdadeira natureza do obsceno é a vontade de converter. Henry Miller já dizia: ‘eu quero luz e castidade’. Porque, de uma certa forma, se você for consideravelmente repugnante, você faz com que o outro passe a querer a nostalgia da santidade”. Aqui se encontram conectadas de maneira radical as duas acepções do termo “escatológico”. A estratégia é a de imiscuir-se num clima apocalítpico e tirar ao homem do fim de século a sua máscara de prepotência e indiferença.

Hilda põe em prática em sua trilogia o que propõe o personagem do Juiz Jovem em sua peça “Auto da barca de Camiri”: “No fim do mundo sobre nossas cabeças uma nova esfera! A coproesfera! Sobre nossas cabeças enfim o que os homens tanto desejam: a matéria!”. É assim que Hilda espera despertar no outro o desejo do sagrado, por uma supersaturação da matéria até o nível do grotesco. Stamatius, um dos narradores-personagens de “Cartas de um sedutor” (1991), na parte do livro intitulada “De outros ocos”, diz:

Estou triste, senhores. Vou despencar daqui a pouco. Arcado, talvez deva vomitar. Vomitar esperanças, dores, o prato de amoras, aquele carré d’agneau no jantar de Karl, vomitar todas as fantasias a respeito da senhora Grand seja ela quem for, as homéricas metidas entre tafetás e sedas, as coxas marcadas pelas minhas mordidas, o batom espalhado pela boca. Beijei-a tantas vezes que os lábios cresceram machucados, os de cima e os de baixo, lambia-a pelo pescoço, a língua nas orelhas, nas narinas...senhora das minhas utopias...e eu sozinho na cama, a mão em concha, suado, metendo no nada.

Stamatius é um escritor brasileiro desdentado, miserável, que perde tudo na vida, inclusive as palavras, como que vitimado pela própria consciência que tem da boçalidade humana, boçalidade na qual Hilda inclui o mundo editorial. Esta é também uma das motivações de sua “trilogia obscena”: uma resposta aos editores, que, segundo Hilda, não fizeram mais que ignorar o seu trabalho por causa do seu “excesso de seriedade”. Aqui, Hilda se refere a todos os editores, com exceção de Massao Ohno, presença importante em sua trajetória literária, que a acompanha desde a segunda edição de “Trovas de muito amor para um amado senhor”, em 1961, quando tem início uma linda parceria, cujos frutos hoje são objetos de arte de bibliófilos, especialmente os livros de poesia, publicados em grande formato por Massao, como “Sete cantos do poeta para o anjo”, com ilustrações de Wesley Duke Lee, “Da morte. Odes mínimas”, com ilustrações da própria Hilda, e “Sobre tua grande face”, com grafismos de Kazuo Wakabayashi.




Crônicas

Vale mencionar que a sátira nos textos de Hilda desse período ganha lugar também na poesia, com o livro “Bufólicas”, de 1992. No mesmo ano, Hilda começa a escrever crônicas para o jornal Correio Popular (Caderno C), de Campinas, textos que mais tarde são reunidos no livro “Cascos e Carícias”. A obscenidade agora vem diretamente do cotidiano, é a sordidez da lógica da “tua fome pelo meu lucro”, a pornografia da pobreza e do analfabetismo, a torpeza da hipocrisia dos políticos. Hilda, que nunca esteve alheia à realidade brasileira do seu tempo, fala em suas crônicas deste país “doente famélico sedento triste pobre inflacionado demente”, extraindo daí, da realidade crua da miséria, da truculência, da depredação da natureza, da prostituição infantil, do roubo aos cofres públicos e outras “sordidezes” as múltiplas formas do grotesco. Hilda aproveita a fama de “pornógrafa e louca” para a voz desta “sexagenária articulista”, que lembra um dos personagens escritores dos seus livros. Também a Hilda poeta comparece nessas crônicas, com seu lirismo cantante, refulgente, uma e outra voz, a da pornógrafa e a da poeta, tentando despertar no leitor “um ardente coração, um dilatar-se da alma do Homem”.




O mito HH e os nomes de Deus

A figura glamourosa da jovem que frequentava rodas sociais e que se impunha por essa rara conjunção de beleza, elegância e inteligência, é uma das faces míticas de Hilda. A outra face, a da poeta da Casa do Sol, exilada do mundo, a que gravava as vozes do além e escrevia livros difíceis, é a imagem algo farsesca que se produziu de uma escritora muito bem informada, jamais alheia às questões do seu tempo, uma poeta disciplinada, segura do seu propósito de escrever, sem melindres em dizer o que pensava, em falar de inspiração e da busca de Deus presente em todo o seu trabalho. De fato, nos anos 70, Hilda desenvolve experiências no campo da transcomunicação similares às do sueco Friederich Jüergenson. Essas gravações, que Hilda dissocia de qualquer religiosidade, interessa-lhe enquanto um “fenômeno praticamente inexplicável em termos de ciência”6. Estudos os mais diversos lhe interessavam, da filosofia à física quântica. No que se refere ao sagrado, Hilda dizia não ter dúvidas sobre a imortalidade da alma e a existência da eternidade.

Mesmo afastada da cidade, a Casa do Sol costumava ser um local de encontro de artistas amigos de Hilda, como Lygia Fagundes Telles, Caio Fernando Abreu e Gisela Magalhães. O escritor José Luís Mora Fuentes, a quem Hilda dedica seus “Prelúdios-intensos para os desmemoriados do amor”, do livro “Júbilo, Memória e Noviciado da Paixão”, e a pintora Olga Bilenky, que ilustra algumas das belas capas dos livros de Hilda, foram companheiros da escritora na Casa do Sol desde o final dos anos 60 até o seu falecimento, em 2004. Ainda hoje se preserva a alameda que liga o portão de ferro até o arco de entrada da Casa, como um portal, um acesso a um outro tempo interior que não participa do ritmo convulsivo da chamada pós-modernidade. Em um dos quartos, atualmente transformado em biblioteca, um grande painel com fundo negro exibe, em letras brancas, alguns dos nomes que Hilda atribui a Deus:

Sem Nome, sutilíssimo amado, relincho do Infinito, Cara Escura, Pássaro-Poesia, brusco Inamovível, cavalo de ferro colado à futilidade das alturas, Aquele Outro decantado surdo, O Grande Rosto Vivo, Grande Obscuro, Máscara do Nojo, Cão de Pedra, Grande Incorruptível, Cara Cavada, Sorvete Almiscarado, Tríplice Acrobata, Lúteo-Rajado, Querubim Gozoso, O Mudo-Sempre, Porco-Poeta, Grande Corpo Rajado, O Sumidouro, superfície de gelo ancorada no riso, Coisa incomensurável, Grande Perseguidor e Grande Perseguido, Caracol de Fogo, Grande-Olho, Obscura Cara, O Inteiro Desejado.




Redescobrimentos

Pouco antes de falecer, Hilda finalmente percebe o redescobrimento do seu trabalho por parte do público com o início do relançamento de sua obra pela editora Globo, em 2001. Antes disso, seu reconhecimento literário atinge repercussão internacional com traduções dos seus livros para o italiano e o francês. Em 2002, Hilda obtém o Prêmio Fundação Bunge (antigo Moinho Santista) e o Grande Prêmio da Crítica, da APCA. Com sua celebrização entre os leitores e os poetas do novo século, talvez em breve também seja redescoberta a noção de uma poesia inspirada à qual Hilda se referia ao falar da sua própria obra7:

Não sei nada sobre a minha obra. Só sei que a escrevi. Durante cinquenta anos pude escrever tudo o que queria escrever. Nunca parei, apesar de dizerem que ninguém lia. Eu mesma não sei explicar o que fiz. (...) Todo mundo que escreve de um modo diferente é levado a dar explicações. Mas, para mim, tudo vem do alto. Sou apenas uma intérprete disso. Claro que eu me esforcei muito, trabalhei muito, mas a poesia é um dom divino, inexplicável.



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1 Do ensaio de Otto Maria Carpeaux intitulado “Poesia Intemporal”, no livro “Ensaios Reunidos (1942 – 1978)”, Volume 1, publicado em 1999 pela editora Topbooks.

2 Depoimento de Jorge de Lima em entrevista para Marques Gastão, no “Diário da Manhã”, Lisboa, 06 de janeiro de 1953

3 Depoismento de Hilda Hilst em entrevista para os Cadernos de Literatura do Instituto Moreira Salles, 1999

4 “Kadosh”, em hebraico, traduz-se por “Sagrado”.

5 Trecho do posfácio de Nelly Novaes Coelho publicado no livro “Poesia (1959-1979)”, de Hilda Hilst, Edições Quíron/Instituto Nacional do Livro, 1980.

6 Depoimento de Hilda em entrevista para o Programa Fantástico (Rede Globo), 18 de março de 1979. 7

Depoimento de Hilda em entrevista para a revista literária Azougue, 1999.