Retirar a emoção à razão é desalmar a prosa...

Fernando Correia Da Silva

Escritor e resistente antifascista:
1931 - 2014



Quando tudo aconteceu...

1931: Fernando Correia da Silva nasce em Lisboa, no dia 28 de Julho.

1948/1949: Participa na campanha das eleições presidenciais de Norton de Matos. Milita no MUD Juvenil. É detido na prisão de Caxias. Frequência de Económicas, na rua do Quelhas.

1950: Publica COLHEITA, um livro de poemas.

1952: Uma novela infantil, AS AVENTURAS DE PALHITA, O TOURO. No mesmo ano, com Alexandre O'Neill, publica A POMBA, jornal clandestino de poesia militante.

1953: No exterior, com Agostinho Neto, Marcelino dos Santos e Vasco Cabral, declara-se pró independência das futuras pátrias africanas. Regressa a Portugal furando as malhas da polícia política. Faz parte da delegação MUD Juvenil no Festival Mundial da Juventude e, Bucareste onde conhece a pianista brasileira Rosa Feldman, com que se casa.

1954: Perseguido pela PIDE, abandona Económicas e salta para o Brasil como exilado político.

1956: Na FOLHA DE S. PAULO concebe e dirige a FOLHINHA, o suplemento infantil publicado ainda hoje.

1960/63: dois livros de sucesso, biografias, várias edições, OS DESCOBRIDORES e OS LIBERTADORES. Durante cerca de quatro anos é coordenador editorial da DIFEL. Em S. Paulo, é um dos fundadores do jornal antifascista PORTUGAL DEMOCRÁTICO. Com Jorge de Sena, Casais Monteiro, Sidónio Muralha, Fernando Lemos e escritores e artistas brasileiros tais como Maria Bonomi, Guilherme Figueiredo e Cecília Meireles, funda em S. Paulo a GIROFLÉ, editora infantil. Lança O SINDICATO DOS BURROS, contos infantis.

1964/65: Em 64 a golpada militar no Brasil. Arranja um emprego numa indústria em Fortaleza do Ceará. Por dois anos o Nordeste, a verificação in loco da ostentação e da miséria, vampirismo sem disfarces. Regressa a S. Paulo. Aprende e aplica as técnicas da racionalização industrial.

1974: O regresso a Portugal: o 25 de Abril, a liberdade e a euforia, garanti-las para sempre... Trabalha, a tempo inteiro, no movimento das cooperativas de produção. Entretanto continua a publicar livros:

1978: Um livro de divulgação, historietas, 25 CONTOS DE ECONOMIA.

1986: Um romance: MATA-CÃES, o herói pícaro a desembarcar em pleno Abril de 74.

1989: LORD CANIBAL, outro romance, novas aventuras do Mata-Cães.

1996: É um dos autores e coordenador editorial do colecionável do jornal Público, OITENTA VIDAS QUE A MORTE NÃO APAGA, concisão. No mesmo ano lança ainda o romance QUERENÇA, o contador de histórias e estas a reinventarem a sua vida, despojamento.

1998: Escreve MARESIA, novo romance. Nesse ano, passa a coordenar VIDAS LUSÓFONAS, site na Internet.

2000: Lança o romance LIANOR.

2004:QUERENÇA, o mais autobiográfico dos seus romances, foi passado ao cinema com realização de Edgar Feldman.

2014: Fernando Correia da Silva faleceu dia 18 de Julho a dez dias de completar 83 anos..

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UMA TRISTE NOTÍCIA.

Sexta-feira, 18 de Julho de 2014 13:19


Queridos amigos,
É com tristeza que comunico o falecimento de meu pai, hoje de manhã.
Ele vai estar, a partir das 15h00, na casa mortuária da Igreja do Campo Grande, junto à Av. Brasil. O funeral será amanhã às 14h30.
Ethel Feldman

Desta forma a filha de Fernando Correia da Silva dava a conhecer a morte de seu pai.
Poucos dias depois Ethel Feldman vem reafirmar a determinação da família de manter a obra de Fernando Correia da Silva:


Queridos amigos,
Peço-vos desculpa por só agora ter encontrado espaço e coragem para vos escrever.
No próximo dia 28 de Julho seria o seu aniversário - 83 anos.
Meu pai defendeu e lutou como poucos pela sobrevivência do site das Vidas Lusófonas.
Vocês eram o seu porto de abrigo. Cabe-me a agora a mim agradecer-vos.
O site Vidas Lusófonas continuará com a V/ajuda. (...)
- Não deixes morrer o site.
Não o deixaremos, herdamos a teimosia do meu pai.
Até já.
Ethel Feldman


Desde 1998, Fernando Correia da Silva coordena Vidas Lusófonas, um site na Internet que já quase atingiu os 30 milhões de visitas. Nele constam 169 biografias de vários autores nacionais e estrangeiros.


Fernando Correia da Silva colabora com as seguintes biografias:


Adolf Hitler, Alexandre O'Neill, Ana Neri, António Aleixo, Bartolomeu Dias, Brites de Almeida, Cândido Rondon, Castro Alves, Cesário Verde, Cristóvão Colombo, Fernão de Magalhães, Fernão Mendes Pinto, Inês de Castro, Infante D. Pedro, Infante D. Henrique, Jesus Cristo, João Ramalho, Manuel Sepúlveda, Manuelinho, Mário-Henrique Leiria, Mário Pinto de Andrade, Osvaldo Cruz, Patrão Lopes, Pedro Álvares Cabral, Pero da Covilhã, Romeu Correia, Salazar, Simón Bolívar, Sousa Mendes, Vasco Cabral, Vasco da Gama, Zumbi dos Palmares , Joan Roiz de Castel-Branco, José de Anchieta, Rainha Jinga. Bartolomeu de Gusmão, A Ferreirinha, Agostinho Neto, Caramuru, Sousa Martins, Dom Hélder Câmara, Samora Moisés Machel, Joshua Benoliel, D. Pedro I do Brasil, José Dias Coelho, Catarina Eufémia




O PAI DAS VIDAS LUSÓFONAS

Em Outubro de 1998 na sequência da experiência bem-sucedida de Oitenta Vidas que a Morte Não Apaga – um conjunto de biografias de vultos mundiais distribuído em fascículos pelo Jornal “Público” – Fernando Correia da Silva, escritor e responsável por aquele projeto cria o site Vidas Lusófonas:


“Somos uma equipa de jornalistas e escritores de língua portuguesa. Neste ancoradouro propomo-nos ir contando um sem fim de vidas lusófonas (...). Em cada biografia iremos aliar o rigor da informação ao fascínio da intriga romanesca no presente do indicativo, tudo é atual, meia dúzia de páginas por vulto, concisão. (...) Este website não é um manual de História. É sim uma galeria de retratos recriados a partir de pistas que a História nos legou. Plutarco e Tácito desbravaram: cada vida, cada conto” (in Fernando Correia da Silva).


As Vidas Lusófonas de Fernando Correia da Silva acumulam sucessos atras de sucessos.


Em 27/6/2003 já soma 1.531.000 visitas e conta com 75 biografias.
Em 16/11/ 2003 – 1.870.000 visitas – 78 biografias.
Em 21/02/2005 – 3.600.000 visitas – 87 biografias.
Em 29/11/2005 – 5.400.000 visitas – 94 biografias.
Em 30/05/2007 – 11.900.000 visitas – 106 biografias.
Em 04/05/2008 – 14.700.000 visitas, 113 biografias.
Em 26/02/2012 – 25.200.000 visitas – 145 biografias.
Em 29/05/2012 – 25.700.000 visitas – 148 biografias.
Em 02/11/2012 – 26.200.000 visitas – 153 biografias.
Em 27/02/2014 – 27.900.000 visitas – 166 biografias.
Em 10/06/2014 – 28.602.990 visitas – 169 biografias.

As Vidas Lusófonas de Fernando Correia da Silva tornam-se uma presença obrigatória no mundo da Internet.


Com este site ganhou prémios como: Nordeste Web, PNN e WOOOW.
De 5 de outubro de 1998 a 10 de junho de 2014, soma 28.602.990 visitas às 169 biografias do site.




FERNANDO CORREIA DA SILVA. SECTARISMOS.

«Em 1949 tinha eu uns 17 anos. Contra o Estado Novo de Salazar o General Norton de Matos candidatou-se à Presidência da República. Integrei-me num bando de estudantes e jovens operários que saíram pelas ruas de Lisboa a colar cartazes com o retrato do Norton. Aqui e ali fomos cercados por soldados da GNR comandados pela PIDE. Arrastados para a António Maria Cardoso, ali sofremos enxerto de porrada. Depositaram-nos depois no presídio de Caxias. A mim e a mais 20, calhou uma gaiola no rés-do-chão, virada a nascente.
Numa das manhãs, para além da janela gradeada, em contraluz vi dois soldados da GNR a patrulhar o terreno junto à nossa jaula. Dei um estrondoso pum e gritei:
- Já matei um!
Toda a malta acordou às gargalhadas. Houve inquérito para saber quem fora o engraçado. Ninguém se descoseu. Quanto mais apanhavam, mais riam.
Por ordem do Salazar o general Carmona foi reeleito. Só depois de conhecido o resultado é que me soltaram. Voltei a militar no Juvenil. Na primeira reunião contei o acontecido em Caxias e garanti que, nos tempos que corriam, até um peido podia ser revolucionário. A rapaziada matou-se a rir. Só o controleiro é que ficou sério e mandou que todos se calassem. Insisti. Gritou:
- Silêncio!
O que é que se há-de fazer? Sectarismos...




MATA CÃES OU A UTOPIA INDESTRUTÍVEL

Este artigo de Nelly Novaes Coelho, catedrática de Literatura Portuguesa da Universidade de S. Paulo, foi publicado em 1987 no diário brasileiro «O Estado de S. Paulo» e depois transcrito pelo semanário português «Jornal de Letras».

«Ponto alto, em meio à excelente safra de romances que, nestes últimos anos, nos tem chegado de Portugal, O Mata Cães de Correia da Silva está fundamente arraigado no lastro dececionante deixado pela revolução do 25 de Abril de 74, em Portugal.


Escolhendo a perspetiva do humor ou da blague irreverente, para "filtrar" a dramática falência dos objetivos revolucionários, o romancista desenvolve, ao nível dos fatos, uma burlesca "crónica de vencidos". E, ao mesmo tempo, deixa entrever que, sob os fracassos, permanece viva a Esperança, a crença de que o Sonho ou a Utopia são os verdadeiros propulsores da vida autêntica. É essa a certeza que, da primeira à última página, escapa pelos interstícios do fluxo narrativo, e acaba por sobrepor o Sonho à Realização concreta dos atos ou fatos.


Tal visão de mundo (que dá maior ênfase ao sonho utópico do que à ação concretizadora) seria impensável, anos atrás, em um romance politicamente engajado, como é este Mata Cães. Entretanto, em nosso tempo, essa ambiguidade já se vai tornando natural e se transformando em um novo estilo de narrar, principalmente para aqueles escritores atentos à sua "circunstância histórica" e desejosos não só de a testemunhar, mas de atuar sobre ela para transformá-la.


Fernando Correia da Silva é bem um desses escritores. Inquieto e idealista "descobridor de mundos" (inclusive, viveu 20 anos no Brasil, entre 54 e 74, depois de escapar das "malhas da Pide"), ele confirma, neste romance, a fecundidade de uma das tendências mais originais da literatura contemporânea - a linha que funde duas diretrizes anteriores, aparentemente inconciliáveis: a realista (que se quer testemunho ou representação objetiva das realidades) e a surrealista ou experimentalista (que se assume como ficção e se empenha na transgressão ou questionamento do mundo histórico/social, defendido pela tradição).


Como sabemos, a primeira, de natureza visceralmente ética, e a segunda, radicalmente estética, surgiram e se desenvolveram, ora em choque entre si, ora independentes uma da outra. Até que nos últimos anos começaram a aparecer embaralhadas, dando origem a uma forma romanesca labiríntica, de estrutura descontínua, essencialmente dialógica, que exige a participação ativa do leitor, para que seja possível a descodificação final do discurso narrativo.


Em Portugal, esse "embaralhamento" de atitudes, essa quebra de fronteiras entre realidade e ficção, começa a aparecer nos anos 50/60, diretamente impulsionado por uma consciência política que a censura salazarista impedia de se manifestar. E, de maneira aparentemente paradoxal, se aprofunda em ambiguidades, no pós-25 de Abril, quando a censura já deixara de existir. »

«FICÇÃO, ESPAÇO DE LUTA


Contradição? Não. Simplesmente a maneira de reagir a circunstâncias aparentemente distintas, mas igualadas pela natureza das forças restritivas, que nelas atuaram ou atuam. Se antes, devido à Censura imposta pela Ditadura, a escrita ficcional se tornara o único espaço de resistência, após a Revolução, com os desencontros e desacertos sobrevindos e o fracasso da esperada Liberdade com Justiça Social, a escrita ficcional volta a ser o único espaço que resta à luta ou que permite o verdadeiro exercício da liberdade e da consciência histórica.»


«Optando pelo riso aberto, pela chulice às escâncaras (em lugar do humor ou da fina ironia que vem servindo aos romancistas dessa linha, para neutralizar os efeitos corrosivos da tragédia, nestes tempos de mudança), Correia da Silva substitui a seriedade inerente ao fazer histórico/heroico pelo burlesco das ações "baixas", rudes, comezinhas, presas às contingências quotidianas. A essa substituição se alia o ritmo desordenado de sua escritura viril e desabrida, de cepa aquiliniana que, de imediato, nos agarra e nos obriga a segui-la.
"Dizem à boca pequena que sou matolas ou tenho um parafuso desapertado. Pena será não ter dois... A propósito contam duas histórias que tudo explicariam. Uma ou outra, cada cor o seu paladar.


Numa, estava eu posto em Sta. Apolónia a dar vivas ao Delgado. Por detrás vem um guita e acerta-me espadeirada na carola. /.../ Noutra, estava eu um dia... Não, não é assim. Lá muito no fundo do tempo quem estava um dia à sombra de um imbondeiro no coração de Angola era o Norton de Matos e caluda! que a cena merece todo o respeitinho." (p. 9/10)



SERIEDADE «A BRINCAR»


Romance que atesta a maturidade criadora de seu autor, Mata Cães revela, em suas raízes, uma densa reflexão acerca do homem e da realidade portuguesa, de ontem e de hoje.»
(Entrevista a Cremilda Medina in Viagem à Literatura Portuguesa).




OS AMIGOS

Carlos Loures, grande amigo de Fernando Correia da Silva, conta alguns episódios do seu relacionamento entre ambos:

MATA-CÃES OU O CRIADOR E A CRIATURA (POESIA & ETC.)
Carlos Loures - 24/02/2010


«Em meados dos anos 80, entre as muitas coisas que fazia, tinha a meu cargo a leitura de originais de uma pequena editora – a Salamandra, do Bruno da Ponte e do Veiga Pereira. Como sempre acontece a quem tem essa responsabilidade, era obrigado a ler muitos textos sem qualquer interesse, muitas vezes sem qualidade e, portanto, sendo de gente desconhecida, sem viabilidade de edição. Fazia um pequeno relatório de leitura e depois os donos da editora tomavam as suas medidas.


Muito raramente, era surpreendido pelo aparecimento de textos que se distinguiam no meio dessa amálgama de lixo produzido por infatigáveis escrevinhadores. Devo abrir um parêntesis para vos confessar que o ler grandes doses de má literatura, acaba por embotar a capacidade crítica. Começa-se a ler um texto já com a ideia de que se vai ler mais uma pessegada. O pior é que quase sempre se acerta.


Por isso, quando me apareceu um original de um escritor de que nunca ouvira falar, um tal Fernando Correia da Silva, li as primeiras páginas com a má vontade aliada ao espírito de sacrifício com que sempre começava a ler um novo texto. A certa altura percebi que o Mata-Cães, assim se chamava o romance, não se enquadrava na tipologia habitual. Voltei ao princípio e, surpreendi-me a dar gargalhadas com as saídas da personagem do Chico, por alcunha o Mata-Cães e com as alhadas em que ele se ia metendo, criando um ambiente caoticamente ordenado.


A respeito deste romance, disse depois António José Saraiva que Correia da Silva revelava ao leitor desprevenido «um mundo caótico», através de uma «escrita viril e desabrida». Leitor desprevenido, eu, pude verificar que o livro era muito pouco literário no sentido que o termo costuma assumir. O autor não parecia minimamente preocupado em seguir as regras do jogo em moda – malabarismos formais, viagens de circum-navegação em torno da palavra.


Perguntava o grande historiador da Literatura: «Que é isto? Um poema? Um conto picaresco? Uma recordação onírica? Um testemunho realista? Uma reflexão sobre a história recente? “O livro há-de ser”, como dizia o Bernardim – “do que vai escrito nele”. Só abrindo se poderá julgar o “Mata-Cães”, que não é decerto um tranquilizante». Ainda em 1986, a propósito do mesmo romance, António José Saraiva declarou ao Diário Popular: «Parece-me um livro importante e autêntico. Não é nada de postiço, de congeminação literária sobre a nossa situação. Os portugueses têm o vício da literatice e o livro de Correia da Silva não é um livro literato.


Talvez por isso os nossos críticos estejam distraídos a respeito dele. Os nossos críticos são como aqueles que olham para o balão: – Ó patego, olha o balão! E não veem o que lhes passa diante do nariz. O nosso meio gosta muito de olhar para o balão.»
Fiz um relatório muito favorável e o livro foi publicado em 1986. Tive ocasião de conhecer o Correia da Silva e tornámo-nos amigos. O curioso é que a personalidade do Fernando se confunde com a do seu herói, o Chico «Mata-Cães», quando leio os romances é-me sempre fácil imaginar os protagonistas – identificam-se sempre com o autor. Lord Canibal, para aumentar a confusão, entre criador e criatura, é assinado por Francisco Mata-Cães, criando não um processo pessoano de heteronímia, mas o contrário desse desdobramento de personalidade – uma concentração semelhante à que existiu entre Alfred Jarry e o seu Ubu-Roi.


Fernando Correia da Silva, um nome que devia ser mais conhecido. Enchemos a cabeça com nomes de gente medíocre – políticos, futebolistas, atores de telenovela, o povo do jet set e das revistas «do coração» e, naturalmente, depois falta-nos espaço de memória para, por exemplo, sabermos quem é, o que escreve e como escreve o Fernando Correia da Silva.»
Carlos Loures, 2010.

No site A Viagem dos Argonautas, Carlos Loures destaca as qualidades do seu amigo e companheiro como se pode ver em CONTOS & CRÓNICAS – OLIVEIRA SALAZAR: – (4ª parte) – Fernando Correia da Silva:


O nosso querido e saudoso amigo Fernando Correia da Silva, que nos deixou no passado dia 18, tinha, como era seu hábito, a sua colaboração entregue com antecedência.




FERNANDO CORREIA DA SILVA E O OLHAR DE ETHEL FELDMAN

Para valorizar esta biografia de Fernando Correia da Silva a filha Ethel Feldman recorda passagens que o pai deixou nas Vidas Lusófonas afirmando:

“Selecionei textos que ele fez em algumas biografias de amigos comuns que talvez contextualizem o seu passado político e literário:”

A POMBA, DE PICASSO. NA BIOGRAFIA DO ALEXANDRE O’NEIL

(...)
- O’Neill, ouve lá: a poesia desta malta não pode ficar açambarcada aí, tem que estar ao alcance de toda a gente.
- Também acho!
Assim nasce a ideia de um jornal clandestino de poesia militante. Em homenagem à pomba de Picasso vai chamar-se A POMBA. Das traduções cuidas tu. Da impressão cuido eu porque o meu pai tem um mimeógrafo no seu escritório na Praça dos Restauradores. Imprimo à noite e ele nem dá por isso...

PASSAPORTES
Ainda em 53 decido casar e tu, é claro, és um dos convidados para a festa. Bem sabes que eu e a minha mulher acabámos de dar um giro pela Europa. Puxas-me de lado. Perguntas, surdina:
- Os vossos passaportes ainda estão válidos?
- Sim.
- Então pirem-se enquanto é tempo, que as coisas vão apertar por aqui.
(…)

DA BIOGRAFIA DE AGOSTINHO NETO FESTIVAL DA JUVENTUDE

Em Agosto de 1953 voltamos a encontrar-nos, mas em Paris. Ali, entre portugueses e africanos somos dez. Num avião romeno, de Paris seguimos todos juntos para Bucareste, onde vai ocorrer mais um Festival da Juventude, de inspiração comunista.
No cortejo inicial pretendes desfilar sozinho empunhando um cartaz com o nome ANGOLA. Aviso:
- Ó Agostinho, põe-te a pau, olha que vais ser um petisco para os fotógrafos. Para que a PIDE não te reconheça nos jornais, o melhor é usares óculos escuros e uma barba postiça muito comprida.
Recusas:
- Eu sou quem sou, nunca me disfarço.
- Tu lá sabes...


SEMENTES LANÇADAS À TERRA - NA BIOGRAFIA DO JOSÉ DIAS COELHO

(…)
Para além das nossas conversas no Café Chiado, em Lisboa, acabámos por viver perto um do outro, pois eu, com os meus pais, passei a morar no bairro de Campo de Ourique, no mesmo prédio em que residia o Prof. Bento de Jesus Caraça. Dois edifícios geminados, o teu e o meu, no final da Rua Almeida e Sousa, frente à Rua Azedo Gneco... Lembras-te Zé?

Em 1948, quando o Prof. Caraça morreu com um ataque cardíaco, bem te vi, com outros militantes do MUD, a organizar o imenso cortejo fúnebre rumo ao Cemitério dos Prazeres. O meu pai, na varanda do 2.º andar, filmava tudo. Fez depois uma cópia do filme para a Cândida, a viúva do Caraça. E outra para ti. Não, não, o meu pai não era comunista, era apenas um republicano, um democrata. Tanto bastava para que muito o considerasses porque, embora fosses do PCP, o teu objetivo primeiro era o antifascismo.

Casei em fins de 1953. Através de amigos comuns convidei-te a estar presente. Temeste que a PIDE, ao seguir-te, desembocasse na minha festa conjugal. Por isso preferiste ser representado por uma das tuas irmãs e um dos teus irmãos. Presente também esteve o José Manuel Tengarrinha, meu amigo pessoal e irmão da tua companheira Margarida. (…)

Recordo que uma vez disseste:
- Em toda a parte há um pedaço de mim que se quer dar...

Retomo e reformulo a tua frase:
- Para o Zé Dias Coelho há sempre um pedaço de mim que lhe quero dar!




“Retirar a emoção à razão, é gripar o carácter, é desalmar a prosa.” Ethel conversa com Fernando






- Ó Fernando, diz-me o que seriam das outras partes sem esta onde começa a tua família?

Conheces a Rosa no Festival Mundial da Juventude em Bucareste, em meados de 1953. És um jovem escritor do Mud Juvenil e ela a doce e jovem pianista da célula judia da delegação do Partido Comunista Brasileiro. Tu és o João Pequeno atrevido que se acompanha dos amigos Alexandre O’Neil, Aurélio dos Santos, Agostinho Neto, Orlando da Costa, José Manuel Tengarrinha, entre outros.

A vida para ti nasce em cada gargalhada, na algazarra, ainda mais quando o assunto é sério. Tu e a Rosa encantam-se. Em Paris, Maria Lamas diz que outra coisa não espera senão o vosso casamento. A Rosa abandona os camaradas e diz que parte contigo para Lisboa. Em Santos, os teus futuros sogros tomam conhecimento da loucura da filha.

Porque a internet é coisa de ficção científica e o tempo e o espaço têm a distância de um oceano, só passado um mês a Rosa recebe o telegrama que ordena regresso imediato a casa.

Boa filha judia, cumpre o prometido, mas regressa casada.

A Rosa garante-me que um amor como este ensina a crescer.

És filho único de uma família de ferroviários. O teu avô é chefe de estação. És irrequieto e provocador. Atiças as primas beatas com piadas anticlericais.

- Ó Fernando, descubro-te a cisma em toda a tua escrita. Inventaste o Tareco, um robot que diz ter descoberto como se libertar da lei da morte.

- Eu, tal como sou, vou deixar de existir.
- Assim? A seco? Chegas aqui, aqueces a paisagem, obrigas-me a pôr os corninhos ao sol e logo te piras para trás das nuvens? Justamente quando eu mais contava contigo? Não está certo. Não falo só por mim, falo também por ti. Sem mágoas, vais deixar que te apaguem? Sem revolta, Tareco, sem revolta?
(...)
- Fernando: eu gravei todas as nossas conversas desde a primeira, os sons e as imagens. Já combinei com a Dolores e ela vai duplicar as cassetes, também as dos programas. Ficarão em teu poder. Ou seja: ficarás com a minha alma em arquivo. Mais tarde, quando um dia puserem o corpo de um outro tareco ao teu dispor, por favor não te esqueças: anima-o com a minha alma e fica junto de mim. O patinho e a mãe-galinha, lembras-te?

- Ó pai, deixaste tudo escrito. As piadas que repetias nas festas de família, os romances e os poemas, as dedicatórias à companheira, aos filhos e aos netos.

Deste-nos o mapa e o território. Sejamos nós capazes de não os confundir!

Era assim este homem que nos deixou no passado dia 18. Além de pai de Ethel Feldman, foi pai e avô dos cineastas Edgar Feldman e João Salaviza.
Casado com Rosa, teve três filhos Ethel, Paula e José.

Todos o recordam com saudade.