Em toda a parte há um pedaço de mim que se quer dar...

josé dias coelho

Artista plástico, antifascista:
1923-01-01 - 1961-01-01



Quando tudo aconteceu...

1923: José António Dias Coelho nasce em Pinhel, pequena cidade do Distrito da Guarda. É o quinto de nove irmãos. Juliana Augusta Coelho é a sua mãe e Alfredo Dias Coelho (escrivão de Direito) é o seu pai. 1936: Início da Guerra Civil de Espanha.

1938: A família Dias Coelho passa a residir em Lisboa, depois de ter morado em Coimbra e Castelo Branco por exigências da profissão de Alfredo, o pai. «» No Colégio Académico José Dias Coelho faz amizade com a sua professora Berta Mendes, esposa do escritor Manuel Mendes. É ela quem o conduz a uma casa na Rua Angelina Vidal (em Lisboa) para participar em tertúlias com Abel Salazar, Bento de Jesus Caraça, Manuela Porto, Carlos de Oliveira, João José Cochofel, Keil do Amaral, Abel Manta e outros intelectuais antifascistas.

1939: A imprensa elogia as caricaturas de Dias Coelho na exposição do Colégio Académico. «» Fim da Guerra Civil de Espanha, Franco implanta a sua ditadura. «» Os nazis dão início à II Guerra Mundial.

1942: Bento Gonçalves, que fora Secretário Geral do Partido Comunista Português, morre em Cabo Verde, no campo de concentração do Tarrafal. «» Depois de frequentar a Escola António Arroio, José Dias Coelho ingressa na EBAL (Escola de Belas Artes de Lisboa); com ele também entram Júlio Pomar, Vítor Palla, Marcelino Vespeira, Fernando Azevedo e Sá Nogueira. «» José Dias Coelho, orientado pelo seu amigo Francisco Castro Rodrigues, adere ao PCP (Partido Comunista Português). Francisco revela e fascina José com os textos marxistas. Dias Coelho dedica-se depois a auxiliar refugiados de guerra e famílias de presos políticos, angariando e distribuindo medicamentos, roupas, alimentos e mobilizando, quando necessário, a assistência médica do Prof. Pulido Valente.

1944/5: José Dias Coelho presta Serviço militar em Tancos.

1945: Em Lisboa, a família Dias Coelho muda-se para o bairro Campo de Ourique e instala-se num prédio ao lado daquele onde reside o Prof. Bento de Jesus Caraça. «» José Dias Coelho e outros antifascistas entram na SNBA (Sociedade Nacional de Belas Artes); vão assumir a direção e oferecer aos artistas outro local para exporem as suas obras, que não o salazarento Secretariado Nacional de Informação. «» José Dias Coelho não se cansa de promover tertúlias (inclusive no Café Chiado) para discutir problemas de cultura e político-sociais. «» A Alemanha e a Itália são as derrotadas da II Guerra Mundial.

1946: José Dias Coelho passa a lutar no MUD Juvenil (Movimento de Unidade Democrática, ala Juvenil). «» Conclui o 1.º ano da EBAL, porém abandona Arquitetura e matricula-se em Escultura. «» Não pára de fazer desenhos e gravuras, nem de esculpir cabeças de familiares e amigos. 1947: A PIDE invade a SNBA e, na exposição organizada por José Dias Coelho (entre outros), apreende obras de Avelino Cunhal, José Viana, Mário Dionísio, Júlio Pomar, Maria Keil, Arnaldo Louro de Almeida, Lima de Freitas, Manuel Filipe, Nuno Tavares e Rui Pimentel.

1948: José Dias Coelho leciona Desenho na Escola Industrial Machado de Castro. «» Morre o Prof. Bento de Jesus Caraça. Apesar da vigilância da PIDE, o MUD, com José Dias Coelho, organiza o imenso cortejo fúnebre do Prof. Caraça rumo ao Cemitério dos Prazeres.

1949: As potências ocidentais toleram Salazar e Portugal é admitido na NATO. «» Em Lisboa, durante a campanha presidencial do oposicionista General Norton de Matos, José Dias Coelho é apanhado a distribuir panfletos e a pintar frases nas paredes; preso pela PIDE, fica na cadeia do Aljube durante largos dias. «» José Dias Coelho apaixona-se por Margarida Tengarrinha, sua colega na EBAL. «» Partilha um atelier na Praça da Alegria com Maria Barreira, Vasco da Conceição e Júlio Pomar.

1950: José Dias Coelho esculpe a cabeça de Fernando Namora. «» Em Estocolmo o Congresso Mundial dos Partidários da Paz lança um apelo para a interdição da bomba atómica. Em Portugal, José Dias Coelho é um dos líderes que promove a recolha de 100 mil assinaturas para o Apelo de Estocolmo. «» José Dias Coelho passa a dar aulas na Escola Veiga Beirão. «» Esculpe a cabeça de Alves Redol e ilustra contos de Cardoso Pires para a revista Vértice.

1951: José Dias Coelho passa a integrar a Direção Universitária do MUD Juvenil. «» Dá aulas na Escola Francisco Arruda. «» Faz o retrato do escritor goês Orlando da Costa. 1952: Por motivos políticos José Dias Coelho é expulso da Escola de Belas Artes de Lisboa e impedido de ingressar em todas as faculdades do país. É também proibido de lecionar em qualquer Escola pública. «» Trabalha como desenhador para o arquiteto Keil do Amaral. «» Passa a viver com Margarida Tengarrinha.

1953: Nasce Teresa, a primeira filha de Dias Coelho e Margarida Tengarrinha.

1954: José Dias Coelho desenha a Morte de Catarina Eufémia, a camponesa de Baleizão assassinada pela GNR.

1955: Como funcionário do PCP, José Dias Coelho entra na clandestinidade, organizando e dirigindo uma oficina de documentos falsos para os camaradas clandestinos. Também irá repaginar o Avante, jornal do PCP. Cria profundos laços de amizade com Júlio Fogaça, velho quadro do Comité Central.

1957: José Dias Coelho segue para Paris e Berlim Leste a fim de apurar as técnicas (entre as quais a micro-fotografia) para falsificar ou minimizar documentos. 1959: Nasce Margarida, a segunda filha de José Dias Coelho e Margarida Tengarrinha. «» O casal entrega Teresa, a filha mais velha, aos avós paternos, para que a garota possa frequentar a escola primária.

1960: Álvaro Cunhal, Secretário Geral do PCP, foge da prisão e José Dias Coelho aproveita a oportunidade para com ele trocar ideias.

1961: Em Dezembro, numa rua do bairro de Alcântara, em Lisboa, cinco agentes da PIDE cercam e assassinam, com dois tiros, José Dias Coelho.

1974: Depois do 25 de Abril é publicado o livro A Resistência em Portugal de autoria de José Dias Coelho e da sua companheira Margarida Tengarrinha.

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SEMENTES LANÇADAS À TERRA

Ó Zé Dias Coelho! Penso em ti e ouço-me a falar contigo como se ainda fosses vivo...

Sei que em 1939 o Colégio Académico, onde estudavas, fez a sua habitual mostra de trabalhos dos alunos. Foi quando o diário O SÉCULO escreveu: “... de entre os desenhos, destaca-se a exposição de caricaturas do aluno Dias Coelho.” Terias apenas uns 16 anos...

Habilidade é contigo, não só com as mãos mas também com os pés, invulgar domínio de bola, o teu. Não tiveste vontade, ó Zé, mas poderias ter sido um futebolista famoso...

Para além das nossas conversas no Café Chiado, em Lisboa, acabámos por viver perto um do outro, pois eu, com os meus pais, passei a morar no bairro de Campo de Ourique, no mesmo prédio em que residia o Prof. Bento de Jesus Caraça. Dois edifícios geminados, o teu e o meu, no final da Rua Almeida e Sousa, frente à Rua Azedo Gneco... Lembras-te Zé?

Em 1948, quando o Prof. Caraça morreu com um ataque cardíaco, bem te vi, com outros militantes do MUD, a organizar o imenso cortejo fúnebre rumo ao Cemitério dos Prazeres. O meu pai, na varanda do 2.º andar, filmava tudo. Fez depois uma cópia do filme para a Cândida, a viúva do Caraça. E outra para ti. Não, não, o meu pai não era comunista, era apenas um republicano, um democrata. Tanto bastava para que muito o considerasses porque, embora fosses do PCP, o teu objetivo primeiro era o antifascismo.

No Café Chiado rias a abraçavas o Mário Henrique Leiria que não parava de fazer surrealistas e divertidas provocações. Até com monárquicos liberais tu convivias. Um dia apresentei-te um colega meu que era forcado amador em Vila Franca de Xira. Abriste os braços, desafiaste:

- Avança, a ver se consigo fazer-te uma pega de caras...

Gargalhadas, amizade, convivência. A tua boa disposição levou alguns camaradas teus a rosnar que estavas a desviar-te para a direita. Porém outros irão aclamar-te como o Che Guevara Português; e eu direi: bravo, é assim mesmo, coice no sectarismo, viva a intuição!...

Muito te doía o sofrimento do próximo. Não foi por acaso que fizeste o retrato da Catarina Eufémia, aquela ceifeira grávida, com um filho de oito meses ao colo, e mesmo assim fuzilada, nas terras de Baleizão, pelo Tenente Carrajola da GNR. Ainda te ouço a dizer:

- Das sementes lançadas à terra, é do sangue dos mártires que nascem as mais copiosas searas.

Depois sumiste, clandestinidade. Um dia fui à tua procura no atelier da Praça da Alegria. Quem me atendeu foi o pintor Júlio Pomar e disse-me que raramente aparecias. Porquê? Certamente porque temias que a PIDE estivesse por ali à tua espera...

Mas acabei por te caçar no Jardim da Parada, em Campo de Ourique. Apontei a estátua da Maria da Fonte, de pistola levantada, e perguntei: -

E tu, ó Zé, quando é que dás uns tirinhos? Levantaste os ombros, respondeste:

- No meu arsenal só há palavras e desenhos, não há balas...

Gargalhadas, um abraço e depois fomos tomar café numa pastelaria junto ao cinema Europa.

Casei em fins de 1953. Através de amigos comuns convidei-te a estar presente. Temeste que a PIDE, ao seguir-te, desembocasse na minha festa conjugal. Por isso preferiste ser representado por uma das tuas irmãs e um dos teus irmãos. Presente também esteve o José Manuel Tengarrinha, meu amigo pessoal e irmão da tua companheira Margarida. O teu cunhado dirá um dia:

- Sem o José Dias Coelho, o PCP teria tido dificuldade de um relacionamento tão regular e tão amplo com os grandes artistas plásticos do seu tempo, pois o diálogo que estabelecia nunca foi fechado ou redutor, mas sempre aberto e estimulante.

Ó Zé, a PIDE considerava-te um dos homens mais espinhosos da Oposição porque, contra a ditadura do Estado Novo, facilmente conseguias fundir e rearmar opiniões divergentes. Os esbirros localizaram a vizinhança do teu refúgio, seguiram-te e em 19 de Dezembro de 1961 cinco deles cercaram-te na Rua da Creche (bairro de Alcântara, Lisboa) e assassinaram-te com dois tiros à queima-roupa.

Recordo que uma vez disseste:

- Em toda a parte há um pedaço de mim que se quer dar...

Retomo e reformulo a tua frase:

- Para o Zé Dias Coelho há sempre um pedaço de mim que lhe quero dar!