Obviamente, demito-o...

humberto delgado

Militar, político:
1906-01-01 - 1965-01-01



Quando tudo aconteceu...

1906: Em Brogueira, Torres Novas, nasce Humberto da Silva Delgado. - 1922: Entra na Escola do Exército. - 1925: Finaliza o Curso Militar. - 1926: Participa na Revolução de 28 de Maio. - 1939: Emissão e publicação da sua peça "O Estado Novo" - 1952: Nomeado Adido Militar em Washington - 1953: Promovido a General (o mais novo das Forças Armadas) -1958: Candidato à Presidência da República. - 1959: É suspenso e demitido das Forças Armadas; asila-se na Embaixada do Brasil e depois exila-se para aquele país. - 1961: Assume a responsabilidade pelo assalto ao "Santa Maria"; participa na Revolta de Beja. - 1962: É julgado à revelia como implicado no assalto ao "Santa Maria". - 1963: Instala-se na Argélia e assume a chefia da Junta Patriótica de Libertação Nacional. - 1964: Deixa a JPLN e funda a Frente Portuguesa de Libertação Nacional. - 1965: É assassinado pela PIDE nos arredores de Olivença. - 1990: Nomeado, a título póstumo, Marechal da Força Aérea.

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OBVIAMENTE, DEMITO-O...

O Café Chave de Ouro está repleto. Estamos a 10 de Maio de 1958, a um mês das eleições para a Presidência da Republica. Primeiro acto público com a presença do Candidato Humberto Delgado depois de iniciado oficialmente o período eleitoral.

À nossa volta personalidades de todos os matizes políticos que se opõem ao regime salazarista. E certamente não só. A Polícia Política, de uma forma ou de outra não deixará de aí ter ouvidos e olhos para, como usualmente, saber o que se passa e com quem se passa...

O professor Vieira de Almeida, o primeiro orador, com o brilhantismo que levava às suas aulas gente de todas as escolas superiores de Lisboa, depois de referir a surpresa enorme que teve pela sua investidura como Presidente da Comissão Nacional da Candidatura, considera-a explicada pela presença de tantas pessoas que representam tão diversas correntes de opinião.

Faz de seguida a apresentação de Humberto Delgado, General, candidato independente. Não procura o apoio de partido algum. Apresenta-se sem compromissos partidários. Aceita o apoio de todos os homens de boa vontade. Desassombradamente, sem desconhecer o risco que corre. Explica que tal não significa que se considerem em si mesmos ilegítimos os partidos. Pelo contrário.

Acrescenta que "a decisão de apresentar a candidatura é tanto mais meritória quanto as condições são nitidamente desfavoráveis".

Ergue-se Humberto Delgado. A expectativa não pode ser maior. A sala está suspensa do que seguirá. Os minutos seguintes justificam-na, se todo o cenário não a tivesse justificado já.

O General começa por agradecer as variadas presenças. Propõe-se responder às perguntas dos jornalistas. Critica o Governo e a União Nacional pela sonegação dos cadernos eleitorais à oposição. O que "integra a tendência de todas as ditaduras para a crueldade". Prossegue:

"O Governo não abranda as suas tradicionais perseguições à oposição".

Refuta a referência de determinado jornal à sua candidatura como sendo apoiada por uma potência estrangeira a que contrapõe o carácter indiscutivelmente nacionalista da sua posição desde sempre. Surge a primeira pergunta, do correspondente da France Press.

"Qual a sua atitude para com o Sr. Presidente do Conselho se for eleito?"

E a resposta, imediata, enérgica, sem uma hesitação, sem um tremor:

"Obviamente, demito-o".

É difícil acreditar no que estamos a ouvir. Mais que uma frase, é uma bomba. Uma revolução. Por terra a muralha que se opõe ao sacrilégio de dizer em público palavras agressivas ou menos respeitosas para com o "Chefe Supremo".

Rebentar da bomba que verdadeiramente inicia o caminho que o introduz na História, e lhe carreia o cognome de "General sem Medo".

"Sem medo" contagiante que liberta de muitos medos. E cria outros que o tempo mostrará.




O HOMEM E O PASSADO

Humberto da Silva Delgado nasce em 1906 em Brogueira, Torres Novas.

Termina o Colégio Militar em 1922 e entra na Escola do Exército onde consegue o primeiro lugar no final do curso de Artilharia em 1925. No posto de tenente frequenta o curso de piloto aviador e segue a carreira aeronáutica. Apoia o movimento de 28 de Maio, desempenha cargos na Legião Portuguesa e faz parte do Conselho Técnico da Mocidade Portuguesa.

Publica várias obras. Entre outras, "Da Pulhice Do Homo Sapiens", "Aviação, Exército, Marinha, Legião", "Aeronáutica Portuguesa", "A marcha para as Índias". Em 1939 a peça de teatro "28 de Maio", radiodifundida pelo Rádio Club Português, é publicado sob a forma de livro nesse mesmo ano.

Nomeado Director-Geral da Aeronáutica Civil, tem papel importante na criação da TAP- Transportes Aéreos Portugueses.

Desempenha com todo o mérito papel importantíssimo nas negociações para instalação das Bases Aliadas nos Açores.

Aos 47 anos é o mais novo general das Forças Armadas Portuguesas. Um ano antes ocupara o lugar de Adido Militar em Washington.

Condecorado por Ingleses e Americanos pelo apoio que dá à causa dos Aliados e pelo contributo para o bom relacionamento com Portugal.

A rotura com o Estado Novo não surge de maneira precisa, mais ou menos relacionada com factos ou situações definidas. Não se descortina claramente um possível processo evolutivo.

Em entrevista ao jornal "Republica", durante o período eleitoral de 1958, o entrevistador qualifica-o como "um dos elementos mais destacado da actual situação". Replica que as suas funções são vincadamente de tipo militar, não passam do campo profissional, militares em geral, aeronáuticas em especial. "Sou um homem do 28 e não do 29 de Maio". Explica a mudança pela "transformação da dureza do provisório em definitiva, que nunca constou do programa". A ditadura "aceita-se como um termocautério para tratar um abcesso, acção intensa mas de curta duração". Anota a influência que a estadia nos Estados Unidos teve no seu espírito, na inclinação para um sentido liberal, que já vem de trás.

Em 1950, possivelmente reagindo à prisão de Henrique Galvão, amigo de longa data, escreve algumas linhas sobre o carácter autoritário de Salazar; se não é a primeira demonstração do começo do afastamento, é certamente das primeiras.

Medeiros Ferreira dirá mais tarde, num suplemento do jornal "Publico", que já em 1956 Humberto Delgado seria falado como possível contrapeso ao excessivo e concentrado poder de Salazar e do seu Ministro Santos Costa.

O Marechal Costa Gomes irá referir, em livro, conversas com o General em que este manifesta um certo espírito democrático e refere a necessidade de mudança. A sua admiração por Salazar, porém, é patenteada em variadíssimas circunstâncias. Na página inicial de um exemplar do livro "28 de Maio" que lhe oferece (propriedade actual do Dr. José Nunes dos Santos) em dedicatória escrita pelo punho do então capitão aviador, chama-lhe "cúpula da palpitação revolucionária e patriótica do Povo Português". A peça, escrita a pedido não diz de quem, é um hino ao 28 de Maio, enaltecido e glorificado ao longo das páginas, desde o prólogo, onde lhe chama "guerra de redenção" e dia de glória, até ao final, prenhe dos usuais "quem manda" e "vivas", com o hino nacional por fundo. O conteúdo, pretendendo retratar a resistência a uma acção revolucionária contra o regime, apresenta a curiosidade de a personagem principal, o capitão Hersílio Silva, corresponder na sua devoção, na sua bravura, ao retrato que usualmente é feito de Humberto Delgado, como homem e como militar.

Uma pequena e saborosa cena: é necessário um voluntário para acção perigosíssima; vários oficiais oferecem-se. Hersílio, como comandante, decide que terá de se tirar à sorte. Usa para isso quatro pequenos bocados de papel, onde ele, Hersílio, escreve o nome de cada um. É tirado um dos papeis e cabe-lhe a ele executar a acção em causa, que terá o resultado temido. Após o trágico seguimento constata-se que ele havia escrito o seu nome em todos os bocados de papel... Cena que não destoa do conceito que lhe cria o epíteto de "General sem Medo".




O NASCIMENTO DE UMA CANDIDATURA

Não é fácil determinar as verdadeiras razões que levam o General Humberto Delgado a candidatar-se.

Mesmo voluntarista e impulsivo, como Humberto Delgado reconhecidamente é, como se propõe ele candidatar-se, tendo de enfrentar um candidato oposicionista, Cunha Leal, que congrega os votos do Partido Comunista, os do centro e da direita moderada? Ou seja: de toda a oposição. E, ao mesmo tempo, da Situação, ferozmente contra ele?

O momento e as condições que se apresentam, nos contextos mais frequentemente encarados, conduzirão, forçosamente, a um inexpressivo numero de votos. Então o General candidata-se sem base de apoio? Sabemos que parvo não é...

O Marechal Costa Gomes, mais tarde dirá, em livro, que a candidatura nasce da sua não nomeação para Director do colégio da NATO, com a saborosa peripécia de que lhe faltou o voto de um almirante ao qual o General costumava puxar os cabelos das orelhas. Mas, com o devido respeito pelo Sr.Marechal, não estamos em face de tese demasido simplista?

A figura de pseudo candidato, que surge como meteoro e procura ver o nome no jornal, coaduna-se com o seu modo de ser? Escusado é dizermos que nem de longe....

Tão pouco o mero desejo de poder e visibilidade pública, comum à generalidade dos políticos, se ajusta ao caso. Se o desejo de poder dos políticos nem sempre terá limites, sem que se pretenda que tem aqui cabimento, quanto à visibilidade pública, quem não sabe que ele a possui com largueza?

A inteligência, espírito e modo de ser de Humberto Delgado não se compatibilizam com enquadramento em que a perspectiva de derrota apresenta mais do que uma probabilidade elevada. E parvo, repetimos, não é.

Sem pretendermos encontrar uma verdade definitiva, certamente não limitável a uma só vertente, tentemos alguns caminhos para uma resposta.

As posições de Craveiro Lopes e a sua oposição às políticas e ao poderio de Santos Costa; as movimentações entre o corpo militar a vários níveis; a idade de Salazar, a aproximar-se dos setenta anos, susceptível de se traduzir em desmoronamento incontrolável, capaz de criar receio de emergência do poder comunista que inclusivamente ultrapassa as fronteiras num período não distante de Guerra Fria entre os dois grandes blocos mundiais.

A aceitação da Constituição em vigor entende-se como opção de meios. Mas não constituirá factor a ter em conta?

Não devemos esquecer as ligações de Humberto Delgado à NATO e o seu relacionamento com os governos americano e britânico.

Tenhamos ainda em conta as suas afirmações sobre o Partido Comunista, de cuja existência parece duvidar, embora pareça saber das referências que os seus militantes ou apaniguados fazem à sua pessoa. Sobretudo das que surgem já depois do pacto de Cacilhas.

Estes vários aspectos, relacionados com a expectativa de levantamento militar, presente até à votação, sugerem-nos algo de organizado, possivelmente vasta dissidência no próprio sistema, encaminhada previsivelmente num sentido mais liberal e embrionariamente democrático.

Enigmático será o conteúdo da habitual "Nota do Dia" no Diário de Lisboa do mesmo dia 10 de Maio que, a propósito da conferência, recorda um filme em que um sargento americano enviado para uma localidade japonesa como conquistador e portador de uma civilização nova, acaba por ser conquistado pelos costumes amáveis e sorridentes de uma população que vivia feliz ...

Certo é que Humberto Delgado, qualquer que seja a interpretação, acaba por arrastar consigo toda a oposição ao regime salazarista, provoca um terramoto e, quer tenha tido ou não uma vitória numérica, consegue-a nos efeitos. Pela primeira vez o Estado Novo sente-se seriamente aturdido.

E não será arriscado afirmar que essa vitória é o começo da grande caminhada que, por entre muitos escolhos e violências, entre as quais da sua própria vida, levará ao 25 de Abril de 1974.




1958 - FAZER E DESPAZER DE CANDIDATURAS

Em 1958 termina o mandato do Presidente Craveiro Lopes. Salazar receia que algo venha a mudar, em sentido negativo, na atitude do Presidente da República para com ele. Crê, o que parece ter foros de verdade, que Craveiro Lopes pretende substitui-lo e decide encontrar um outro candidato para a União Nacional. Será escolhido o Ministro da Marinha, Almirante Américo Tomaz.

Do lado da Oposição ao regime, ainda em 1957 surge o nome de Cunha Leal que congrega praticamente a unanimidade dos vários grupos e ideários.

Além do chamado Directório Democrato Social, de tendências liberais, e onde pontificam, entre outros, Azevedo Gomes, António Sérgio, Jaime Cortesão e ele próprio, Cunha Leal, tem a generalidade dos apoios, desde a Direita Moderada, até à Esquerda.

O Partido Comunista pretende uma vasta coligação anti-fascista abrangendo toda a oposição e, numa estratégia que visa prioritàriamente o derrube do salazarismo, vê na candidatura de Cunha Leal essa possibilidade Apoia-o sem reservas.

Cunha Leal não se sente propriamente irmanado com os comunistas, mas não recusa o seu apoio.

Em Fevereiro Humberto Delgado declara-se candidato.

Por alegadas razões de doença, em Abril de 1958, Cunha Leal vê-se obrigado a desistir.

António Sérgio e outros não se sentem inteiramente agradados com o apoio comunista. Henrique Galvão sugere o apoio à candidatura de Humberto Delgado.

O Partido Comunista mantém todas as reservas em relação a Delgado. Com a desistência de Cunha Leal, nomeia candidato o Dr. Arlindo Vicente.

Delgado corresponde ao Partido Comunista com determinação igual.

Logo depois da reunião do Chave de Ouro, diversos organismos ligados ao processo eleitoral, em vários pontos do país, emitem comunicados e declarações, a que alguns jornais dão publicidade, em que mostram disponibilidade para fomentar a colaboração com todos os oposicionistas que venham a apoiar a candidatura do General. É o caso da Comissão Eleitoral de Braga, da candidatura do Dr. Arlindo Vicente.

Os comunistas, em face do apoio popular que logo se começa a manifestar e das posições que entretanto o General assume, constatam que umas e outras não se desenquadram da sua estratégia. Amaciam a sua posição.

Na aproximação entre as duas candidaturas, relevo para a acção de Manuel Sertório, advogado bastante próximo do Partido Comunista, no encaminhar do processo e no limar das várias arestas.

Em artigo publicado no "República" já após o acordo entre as duas candidaturas, Sertório, como resposta a críticas do Chefe do Governo ao sistema multipartidário, sintetiza: a "unidade" não é "homogeneidade".

O processo culmina com a desistência do Dr. Arlindo Vicente a favor de Humberto Delgado e com a celebração, em 30 de Maio, já a nove dias do acto eleitoral, do chamado Pacto de Cacilhas.

Pela primeira vez o Estado Novo enfrenta um candidato na eleição para a Presidência da República. Em 1949 e 1951, os candidatos, General Norton de Matos e Almirante Quintão de Meireles, não viram reunidas condições desejáveis e desistiram antes da ida às umas.




LINHAS DE UM PROGRAMA

Voltamos ao Chave de Ouro.

As várias respostas de Humberto Delgado às sucessivas perguntas trazem alguns esclarecimentos.

Primeira preocupação: preparar consulta livre. Como? Dada a dificuldade que constitui a mordaça de 32 anos, pois então um Governo provisório, forte, com apoio militar que garanta a ordem. E uma nova lei de imprensa. O Presidente da República não governa, não legisla, mas essas são funções que lhe compete assegurar em condições de liberdade e de acordo com a vontade do povo.

No mesmo dia são publicados nos jornais dois comunicados dos Serviços de Candidatura, um originário do Norte do País, outro possivelmente mais abrangente. Quatro os principais pontos do programa:

1º. - Pacificação da família Portuguesa, pela execução de medidas concretas como a reintegração de funcionários afastados, amnistia a todos os presos políticos ou indivíduos abrangidos por medidas de segurança.

2º. - Revogação dos decretos que suspendem o artigo 8º. da Constituição, designadamente ... liberdade de expressão ... direito de associação e reunião, garantias de não ser preso sem culpa formada, inviolabilidade de domicílio, etc.

3º. - Promulgação de nova lei eleitoral e organização de novo recenseamento, a fim de serem realizadas a curto prazo eleições gerais.

4º. - Moralização dos costumes políticos e da administração publica.




A CAMPANHA

Em 15 de Maio, data em que Humberto Delgado faz 52 anos, memorável jornada no Porto, milhares e milhares de pessoas. Entre os que o aguardam, vários elementos da candidatura do Dr. Arlindo Vicente. Discursos de vários apoiantes.

Referência para o do Major David Neto, pelo seu dramático pedido de perdão "aos que sofreram, por ser um dos causadores deste estado de coisas". Refere o General, como "o homem que fará desaparecer as perseguições e implantará um regime de liberdade".

Humberto Delgado faz vários apelos. Aos Governadores, Civil e Militar, ao Senhor Bispo do Porto, ao Dr. António Luís Gomes, manifestando desejos de concórdia, pacificação e compreensão pela luta de libertação e dignificação do povo português em que está empenhado, Refere não se apresentar como homem providencial, candidato a "Fuhrer", um Hitler de desgraçada memória, mas como soldado e cidadão que se sente honrado com a confiança que lhe concedem.

Recorda o curto período de liberdades, face a uma campanha que não se improvisa. A acção da Censura, apesar da liberdade prometida. As dificuldades com os cadernos eleitorais. Introduz algumas notas de optimismo, e diz que espera sair vencedor pois o medo desapareceu. Aponta várias situações no campo social e económico. O sacrifício da classe média e a pauperização das classes trabalhadores, em resultado da repartição dos resultados nas principais indústrias portuguesas, " 39% para remuneração do trabalho contra 61% absorvidos pelo capital, rendas, juros, e dividendos" (referência a 1950). A incidência do imposto sobre o rendimento, que compara com o que se passa nos outros países, em que "as taxas progressivas chegam a atingir 90% dos rendimentos, quando entre nós não passam dos 25%". Repete: "como todos sabem os comunistas fizeram e farão campanha contra o meu nome". Uma quase obsessão. Várias referências a Salazar, à União Nacional que, como é obvio, não são elogiosas.

Termina gritando que "é tempo de saírem. Cansaram-nos! Cansaram-nos! Reformem-se! Reformem-se!"

No regresso a Lisboa é aguardado por enorme multidão. A polícia entra em acção e tenta impedir a manifestação popular. O mesmo se repete dois dias mais tarde por ocasião de Comício no Liceu Camões.

No Governo percebem-se fortes receios. Emite notas oficiosas e declara-se predisposto a evitar perturbações da ordem publica. Com esse pretexto prepara dispositivos militares e policiais repressivos.

Vários são as sessões de propaganda da candidatura em inúmeras localidades.

No dia 22 e seguintes, novos comícios, plenos de entusiasmo, em Chaves, Viseu, Aveiro, com o apoio popular crescendo em paralelo com a crispação das forças situacionistas. Os temas usuais. A ausência da necessária liberdade e democraticidade das eleições, indicações de natureza fiscal e económico-sociais, não cumprimento das promessas governamentais.

No dia 30 de Maio o jornal "República" noticia o acordo e o apoio do Dr. Arlindo Vicente ."Existe, de ora avante um único candidato da oposição: o General Humberto Delgado".

Na mesma edição o jornal publica comunicado dos Serviços da sua candidatura que vinca o carácter independente da mesma, e esclarece que o General não se ligou ou ligará a quaisquer grupos ou sectores políticos. Acrescenta que o facto do Partido Republicano Português ou do Directório Democrato-Social ou do Partido ou Frente Socialista terem afirmado o seu apoio aos princípios definidos pelo Candidato Independente não tem outro significado senão o de aconselhar ou estimular os seus partidários ou adeptos a votar nele. Recorda ainda que, pelo primeiro dos pontos básicos do programa que apresentou, se compromete a cumprir e fazer cumprir a actual Constituição da República.

A campanha ganha novas forças. Inúmeras manifestações de apoio entusiástico.

A 4 de Junho publica ainda o mesmo jornal uma nota dos Serviços de Candidatura do General. Em relação ao decidido apoio do Dr. Arlindo Vicente; esclarece:

1º. Nenhum português tem que recear.

2º. Reafirma a sua decisão de ir às umas.

3º. O programa de governo e pacificação, se ganhar, será integralmente cumprido como se os Serviços de Candidatura do Dr. Adindo Vicente não tivessem decidido apoiá-lo.

4º. Ao aceitar o apoio do Candidato Dr. Arlindo Vicente quer significar ao País apenas coerência com o seu já expresso pensamento de pacificação nacional e não quer significar mais nada.

5º. O Governo do Sr. General Humberto Delgado será militar, terá o carácter retintamente nacional e não farão parte dele elementos extremistas nem mesmo afins a estes.

6º. Uma das preocupações dominantes do Governo de Sua Excelência, o General Humberto Delgado, é preparar o País para eleições livres, e tão livres que permitam ao Povo escolher os seus legítimos representantes.

Tais declarações não impedem o apoio dos que parecem visados.

O regime não deixa por mãos alheias a atribuição de variados qualificativos às atitudes do General. Acusa que a sua campanha é financiada por bem conhecida multinacional de refrigerantes, de origem americana, o que mais tarde Manuel Maria Múrias reafirmará em livro.

À origem da sua candidatura não é estranha, segundo os meios situacionistas que lhe aporão o epíteto de General Coca-Cola, a proibição imposta por Salazar ao consumo da bebida.




AS ELEIÇÕES

A oito de Junho, como previsto, tem lugar o acto eleitoral. Sem incidentes de maior, salvo quanto à possibilidade de fiscalização, negada aos partidários de Humberto Delgado, em grande número de locais. Os resultados, publicados mais tarde pelos órgãos competentes, atribuem 758.998 votos ao candidato da União Nacional, contra 236.528 ao General Humberto Delgado.

Independentemente dos números publicados, o General e os que com ele pretendem abalar o Estado Novo, obtém uma vitória de relevo, embora não imediata.

Os resultados são contestados vivamente, com fortes razões, não faltando quem, bem informado, proclame que os números não só não correspondem à realidade, mas o resultado verdadeiro é o oposto.

Sem pretendermos tirar conclusões, parece-nos porém, quanto à última hipótese, poder admitir-se tal não ser provável.

Por um lado o número total de eleitores inscritos, cerca de 1.400.000, comparado com os possíveis cerca de três a quatro milhões, sugere não tanto um "Recenseamento Aberto" mas provavelmente um "Recenseamento Condicionado".

Uma pequena memória: uns anos antes, ensinando em escola secundária, ao mesmo tempo que presta serviço militar obrigatório, residindo, aliás fora de qualquer das duas zonas em que exerce aquelas funções, um cidadão é confrontado, no estabelecimento de ensino com a imperiosidade de subscrever requerimento para "recenseamento". Tenta esquivar-se alegando não preencher os requisitos jurídicos para tal. A entidade que dirige a escola "aconselha-o vivamente" dizendo que tem ordens nesse sentido e informa-o que corre fortes riscos de perder o seu ganha pão. Dois dias mais, situação idêntica no Estabelecimento militar, neste caso, apenas com a indicação de que a recusa tem consequências nada agradáveis.

Ao medo generalizado referido ao longo da campanha, recordado em obra recente coordenada pela filha do General, Iva Delgado, acresce a impossível politização das populações, em períodos tão curtos. Em determinada freguesia do distrito de Coimbra, na perspectiva de que desta vez o vencedor é imprevisível, os membros da mesa "optam" por um empate...

Os apoios de esquerda não só integram aqueles sobre quem recai o ónus discricionário do "Recenseamento", como originam oposições dum mundo católico e rural. A bem conhecida publicidade ao "Papão" é eficaz...

Salazar, segundo Franco Nogueira, que António Melo citará em suplemento do "Público" (3 de Outubro de 1998) admite que, com mais tempo de campanha, a Oposição acabaria por ganhar...

Independentemente dos números a vitória é inquestionável. Fica lançado o fermento da mudança que perdurará. Perde-se uma parte do medo do lado da oposição. Surge do outro, obrigando, entre outras actuações, à mudança do sistema de eleições para a Presidência da Republica... O que não é aparentemente muito, mas não parará senão em 1974. Mantém-se a imagem do General Sem Medo como símbolo da resistência ao chamado Estado Novo.




AS ELEIÇÕES

Com o fim das eleições começa o calvário de Humberto Delgado.

Cria pouco depois o Movimento Nacional Independente. Por iniciativa do Partido Comunista surge a Junta Nacional de Libertação.

O Governo sente-se desconfortado com a actividade de Humberto Delgado. Cria-lhe sucessivas dificuldades. Suspende-o do serviço activo em Janeiro de 1959.

Perante a perspectiva de ser preso refugia-se na Embaixada do Brasil.

Episódio político-saboroso: das janelas da embaixada, edifício contíguo às instalações da PIDE, em gesto bem português de exibição de masculinidade, provoca divertidamente os agentes daquela organização policial - confidencia a amigos diplomata brasileiro altamente situado.

A 21 de Abril, após negociações da Embaixada com o Governo, parte para o Rio de Janeiro.

Entretanto Arlindo Vicente é preso e sujeito às mais indignas condições.

Humberto Delgado tenta desde logo a unificação dos vários núcleos oposicionistas no exterior.

Quando em 1961, um comando dirigido por Henrique Galvão e integrando elementos da oposição espanhola antifranquista, captura o paquete "Santa Maria", Delgado assume a responsabilidade.

Em 1961 entra clandestinamente em Portugal, acompanhado pela sua secretária brasileira Arajaryr Campos para participar no assalto ao quartel de Beja. Em face do insucesso consegue escapar e, através de inúmeras barragens efectuadas pelas diferentes polícias, atinge a fronteira de Espanha ... Verdade ou não conta-se que, como disfarce, terá introduzido no calçado uma pequena pedra, que o força a manquejar.

Volta ao Brasil. As autoridades brasileiras mostram-se descontentes pelo que consideram quebra das regras do Asilo Político.

Em 1963 deixa o Brasil e segue para a Argélia. Assume a chefia da Junta Revolucionária Portuguesa, que pretende congregar os vários ideários no exílio.

Está dentro em pouco em rotura com a Frente Patriótica de Libertação Nacional organização de predomínio comunista, aberta a toda a Oposição, deteriorando-se continuamente as suas relações com as variadas personalidades. O posicionamento com o Partido Comunista, e seus membros, mantém as dificuldades de sempre. E, no seguimento, funda a Frente Portuguesa de Libertação Nacional.

Entra frequentemente em conflito com correligionários e mesmo amigos de longa data: Henrique Galvão, Sarmento Pimentel, Manuel Sertório e vários outros.

Em 1964 passa a defender a autodeterminação dos povos das colónias ultramarinas. Anteriormente defendera uma federação de estados composta pelos mesmos territórios.

A Pide entretanto consegue colocar elementos seus junto do General. Ludibria a sua boa-fé, obtém a sua confiança e empurra-o para um certo isolamento.

É assassinado, conjuntamente com a sua secretária Arajaryr Campos, em Fevereiro de 1965, nas proximidades de Olivença, por um grupo de agentes daquela polícia, atraído por esta para imaginária reunião com militares portugueses.

Os cadáveres são encontrados pouco depois junto de Vila Nueva del Fresno, próximo da fronteira portuguesa.

É promovido a título póstumo, já depois do 25 de Abril, ao posto de Marechal.