A última moda em matéria de dicionários...

Antônio Houaiss

Dicionarista:
1915 - 1999



Quando tudo aconteceu...

1915: Nasce em Copacabana, na Cidade do Rio de Janeiro, antigo Distrito Federal, Brasil, em 15 de Outubro, quinto dos sete filhos dos imigrantes libaneses Habib Assad Houaiss e Malvina Farjalla Houaiss , o humanista Antônio Houaiss, professor, latinista, filólogo, diplomata, político, acadêmico, enciclopedista, dicionarista, bibliólogo, ensaísta, crítico literário, teórico da literatura, tradutor, jornalista, perito em gastronomia.- 1934: É professor de Literatura, Latim e Português no curso secundário no Rio de Janeiro. – 1942: Forma-se em Letras Clássicas na Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil. – 1942: Casa-se com a professora de Latim baiana Ruth Marques de Salles - 1945: Entra para o Instituto Rio Branco, de formação de diplomatas, do Itamaraty - 1947: Assume posto no Exterior, sendo Vice-Cônsul do Consulado brasileiro em Genebra, na Suíça, até 1949 - 1949: Assume posto em Santo Domingo, República Dominicana, até 1951. - 1951: Assume posto em Atenas, na Grécia, até 1953. - 1953: Regressa ao Brasil. - 1956: Publica as Obras, de Lima Barreto, com Francisco de Assis Barbosa e Manuel Cavalcanti Proença – 1956: Secretário Geral do Primeiro Congresso Brasileiro de Língua Falada no Teatro, em Salvador, Bahia. - 1957: Publica o primeiro dos volumes sistematizados da documentação da Presidência da República, seguindo sistema seu. De 1957 a 1960 são lançados 83 destes volumes. - 1959: Publica Tentativa de descrição do sistema vocálico do português culto na área dita carioca, dialectologia e ortofonia. - 1960: É eleito membro da Academia Brasileira de Filologia. – 1960: Assume posto na delegação brasileira permanente na ONU, em Nova York, onde chega a Ministro de 2ª classe e onde fica até 1964. - 1964: Tem seus direitos políticos cassados pela Junta Militar que assumiu a direção do país. Nos dez anos que se seguem lança a sua monumental tradução de Ulisses (1966), de James Joyce; desenha, dirige e dá ao público a extraordinária Grande Enciclopédia Delta-Larousse, pela Editora Delta S/A; inicia os trabalhos da Enciclopédia Mirador Internacional, nas dependências da Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda., patrocinado por Waldomiro de Sá Putsch e Dorita Sá - todas tarefas para as quais não tem tempo em sua dedicação integral ao Serviço Público Brasileiro. – 1971: É eleito para a Academia Brasileira de Letras para a cadeira nº17, de Álvaro Lins. – 1978: É eleito presidente do Sindicato Brasileiro de Escritores. – 1979: Lança A Magia da Cozinha Brasileira, um marco na editoria de culinária no Brasil. Nos anos seguintes, até sua morte, ainda lança outros livros sobre a matéria. – Funda os Companheiros da Boa Mesa, segunda organização gastronômica sob sua direção. A primeira, Confraria dos Gastrônomos, organizada em 1958, com regabofes semanais, é aonde permanece até a aprovação da entrada para seus quadros do General Garrastazú Médici, ex-presidente da República. – 1983: É presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira de Imprensa. – 1984: Membro da Comissão do Ministério da Justiça para estudar a legislação censória e suas práticas no Brasil, e propor medidas anticensórias. – 1985: Membro da Comissão para o Estabelecimento de Diretrizes para o Aperfeiçoamento do Ensino/ Aprendizagem da Língua Portuguesa. – 1986: Secretário-Geral e Delegado Porta-Voz do Brasil ao Encontro Para a Unificação Ortográfica da Língua Portuguesa, no Rio de Janeiro. - Inicia o desenho de seu maior sonho, o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. As pesquisas são interrompidas de 1992 a 1997 por falta de fundos. – 1988: Organizador, Vice-Presidente e Secretário-Executivo do Congresso Internacional de Tradutores, em Campos, no Estado do Rio de Janeiro. – 1990: É agraciado com o Prêmio Moinho Santista, categoria Língua. – 1993: É Ministro da Cultura do Governo do Presidente Itamar Franco. – 1994: Membro e Vice-Presidente do Conselho Nacional de Política Cultural do Ministério da Cultura. – 1996: É eleito Presidente da Academia Brasileira de Letras. – 1997: Inaugura o Instituto Antônio Houaiss, para continuar a elaboração e feitura do Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, tarefa a que se dedica até sua morte. – 1999: Em 7 de março Antônio Houaiss morre na Cidade do Rio de Janeiro, de pneumonia.

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CICLÓPICO

Antônio Houaiss é gerado por imigrantes libaneses. Mas sua aplicação e tamanho são tão grandes, que seus pulos do armarinho dos pais para os embates lingüísticos e daí para os embates políticos mundiais têm visibilidade pervagante, e inscreve seu nome nas constelações consagradas antes proibidas, estas já agora democraticamente liberadas. Sua energia estelar é proveniente de um tino comercial afiadíssimo, de mascate mesmo, que se junta à curiosidade de desafiar posições constituídas e estabelecidas pela preguiça da população carioca como um todo, de governantes a governados, à beira-mar sentados, vendo o mundo passar…

Prefeitura do Distrito Federal, Cidade do Rio de Janeiro, 1936. Abre-se concurso para preenchimento de uma vaga de Português no seu quadro de magistério. Inscrevem-se 23 candidatos, entre os quais Antônio Houaiss. Ponto sorteado: a ortografia portuguesa e seus fundamentos históricos. Na comissão examinadora estão Sousa da Silveira (presidente), Daltro Santos e Marieta Castagnino da Mota. Corrige-se as provas.

Selecionam-se 6 candidatos e mais um sétimo, porque escreve mais de trinta páginas sobre ortografia latina; pensa-se em não aprová-lo sob o pretexto de fugir ao assunto. Intervém em favor do candidato o presidente Sousa da Silveira, argumentando que, quem escreve tanto sobre ortografia latina, se lhe sobrar tempo, fará outra boa exposição acerca da ortografia portuguesa e seus fundamentos históricos. E assim são 7 os candidatos aprovados, alcançando o 1.º lugar no concurso o candidato Sílvio Elia.

Portanto, aos 21 anos, Antônio Houaiss já fulgura entre as estrelas da Língua Portuguesa, dando carta de Latinista. No entanto, não leciona só Português, mas também Latim e Literatura. Os estudantes secundários do antigo Distrito Federal são brindados com as genialidades docentes de um Grande Mestre, sem o saberem.




FILÓLOGO

Seus trabalhos na área da Filologia, ora individualmente, ora com Francisco de Assis Barbosa, Antenor Nascentes, Celso Cunha, José Oiticica, Silvio Elia, Rocha Lima, Matos Peixoto, Aurélio Buarque de Holanda, são exemplos do trabalho incessante desta alma nervosa, curiosa, realizadora. Sem esta plêiade de homens de letras a Língua Portuguesa continuaria estagnada, apesar dos esforços dos homens de letras da velha Europa, do velho Portugal. Os brazuquinhas e os turquinhos, muito estudiosos e conscientes, surpreendem os conservadores com o constante jorrar de obras e mais obras técnicas, de crítica, de análise, de ações e recomendações. Enxergam longe, associam-se à luta anticolonial dos intelectuais africanos de Moçambique, Angola, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau, Cabo Verde, querem a modernidade, desejam que a mola da História catapulte a Língua Portuguesa para muito longe, para encravar-se na cabeça dos lusófonos de hoje.

Produz nesta época obras como Anais do Primeiro Congresso Brasileiro de Língua Falada no Teatro (1956); Obras, de Lima Barreto, em colaboração com Francisco de Assis Barbosa e Manuel Cavalcanti Proença (1956); O texto dos poemas, in Gonçalves Dias, poesia e prosa escolhida (1959); Tentativa de descrição do sistema vocálico do português culto na área dita carioca, dialectologia e ortofonia (1959); Sugestões para uma política da língua (1960); O Serviço de Documentação da Presidência da República (1960); Crítica avulsa (1960); Augusto dos Anjos, poesia, antologia, introdução e notas (1960); Introdução filológica às Memórias póstumas de Brás Cubas, fixação do texto crítico (1961); e muitos outros




EPICURISTA

O gênio do Mestre não pára nas lides filológicas, nos embates lingüísticos, nas preocupações diplomáticas do seu dia-a-dia. Como viajante internacional, assessor do presidente Juscelino Kubitschek, filho de imigrantes de notório gosto culinário, seu paladar aprimora-se e requinta-se, apoiado domesticamente pelo paladar baiano extremamente brasileiro de Ruth Houaiss.

Funda em 1958 a Confraria dos Gastrônomos, associação privada de elite, que conta entre seus membros embaixadores, professores, acadêmicos, diplomatas, intelectuais, jornalistas, banqueiros e homens de negócios. Com regabofes semanais cobertos pela mídia da época, degusta-se foie gras do bom, caviar do melhor, whisky escocês, champagne francês, caipírinhas com a melhor cachaça encontrável, vinhos dos mais finos e de trânsito nas melhores mesas do globo, enfim, tudo do melhor para apaziguar a fome dos ilustres comensais. Passada a fase dos aperitivos acima, adentra o grupo na pesquisa e apreciação dos pratos mais requintados, vatapá baiano, peixes assados inteiros e recheados do melhor, escalopinhos dos mais delicados ao mais tenro molho Madeira, lagostins e pitús, camarões imensos submetidos aos mais espetaculares tratamentos e sauces, leitoas assadas, arroz de cuxá, carne de sol, e o que mais se prepare para o dia marcado. Em 1975, no entanto, Antônio Houaiss despede-se dos colegas de mesa, porque eles aprovam o nome do ex-presidente da República, General Emílio Garrastazú Médici, para fazer parte da Confraria.

Com muitos afazeres, Antônio Houaiss não se deixa abater pelo percalço e segue em sua intensa faina, sem pestanejar. Em 1979, porém, resolve montar um outro grupo de prazeres comestórios e bibitórios, a que dá o nome de Companheiros da Boa Mesa. Seguindo sua trajetória vencedora, o filho de imigrantes donos de armarinho resolve lançar livros de culinária. E mesmo na culinária não arrefece seu furor lexicográfico. Mestre Houaiss acha muito erudito os novos vocábulos que cria – comestório e bibitório - tanto que não os dicionariza, mas como são provenientes do Latim - beber 'bibere’, comer ‘comedere’ - escreve e fala assim mesmo. Talvez até não os tenha dicionarizado por modéstia ou por medo que achem seu dicionário algo como 'do autor' e não para 'a posteridade lusófona’. Esperando, evidentemente, que no futuro alguém os dicionarize.

No mesmo ano de fundação dos Companheiros da Boa Mesa, lança em espetacular e cinematográfico coquetel no Hotel Rio-Palace, em Copacabana, seu livro ‘A Magia da Cozinha Brasileira”, juntamente com o fotógrafo francês Alain Draeger, encarregado da arte iconográfica. Os convidados e compradores do livro naquela noite de autógrafos são brindados com uma vasta mesa de comes-e-bebes, que inclui vatapá baiano, acarajés, caipirinhas, vinhos finos, e um tanto mais de coisas deliciosas.

Em lançamentos posteriores, dá ao mercado o livro “Receitas Rápidas-81 receitas de (até) 18 minutos” (1985) e “A Cerveja e Seus Mistérios” (1986), complementando a gama de conhecimentos publicados na matéria.

Dono de fino paladar, freqüenta a residência de amigos e colaboradores para saborear pratos diferentes e sempre dá sugestões para a feitura e/ou melhoria deste ou daquele acepipe.




INTERNACIONAL

Gradua-se em 1942 na Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil e, no mesmo ano, casa-se com Ruth Marques de Salles, professora de Latim, baiana. É aprovado no concurso do Instituto Rio Branco em 1945, curso preparatório dos diplomatas brasileiros. Continua a lecionar até 1946 quando opta pela carreira diplomática. De 1947 a 1953 pega três postos no Exterior, consecutivos, a saber, Genebra, Santo Domingo e Atenas, onde provavelmente já entabula planos para elevar a Língua Portuguesa aos píncaros de sua própria envergadura. O Princípio de Peter nunca lhe será aplicado Passa-lhe a anos luz de distância.

Ainda no Exterior, ocupa cargo na Delegação Permanente do Brasil na Assembléia Geral das Nações Unidas em Nova York, onde chega a Ministro de 2ª Classe do Ministério das Relações Exteriores brasileiro.

Em 1964 é perseguido e tem seus direitos políticos cassados por 10 anos pela Junta Militar que usurpou o poder das mãos civis. Precocemente aposentado, dedica-se à inciativa privada com um furor lexicográfico de deixar boquiabertos seus inimigos mais diuturnos.

Consecutivamente traduz e lança uma tradução de vanguarda do Ulisses(1966), de James Joyce, é contratado Superintendente Editorial da Editora Delta S/A, onde desenha, dirige, edita e lança a Grande Enciclopédia Delta-Larousse, o grande bálsamo cultural que faltava na Língua Portuguesa moderna. Daí em diante firma-se como dicionarista, lexicógrafo, enciclopedista, um verdadeiro gênio da Língua Portuguesa, capitão da indústria editorial lusófona, mentor intelectual de tudo que se produziu no Brasil e nos outros países lusófonos desde aquela época. O nome a seguir, o nome a ser imitado, a estrela inalcançável.

Colabora em dicionários bilíngües Inglês>Português, Português>Inglês para a Barsa (1964 com Catherine B. Avery), lança o Pequeno dicionário enciclopédico Koogan-Larousse (1979); é relator do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (1981) da Academia Brasileira de Letras; Webster’s dicionário inglês-português, 2 vols., em colaboração com Ismael Cardim, James Taylor e outros (1982) para a Editora Record.

Empreende uma revolução que, embora silenciosa, abrange todos os setores culturais brasileiros, todos os setores étnicos, todos os setores econômicos, artísticos e políticos. Afinal de contas é uma revolução pela liberdade da Língua e, conseqüentemente, pela liberdade de todos os povos que a utilizem. E é tão gigantesca, que seu tsunami cultural atinge Portugal e todas as ex-colônias ultramarinas africanas e da Ásia, transformando o mapa lusófono de algo espalhado e ininteligível para um bloco uno e indivisível.

Para gáudio das novas gerações inicia em 1970 o desenho da Enciclopédia Mirador Internacional, patrocinado pela Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações S/A, respaldado por Waldomiro de Sá Putsch e Dorita de Sá, grandes admiradores e financiadores do projeto. Dos verbetes telegráficos estilo Larousse, Antônio Houaiss parte para um avançadíssimo desenho de verbetes longos e assinados por autores, como na Encyclopaedia Britannica inglesa, sem paralelo na indústria editorial lusófona.

Em sua equipe editorial encontra-se o que há de melhor na intelectualidade lusófona da época. Escritores, cientistas, poetas, pintores, técnicos iconográficos, filósofos, diplomatas, editores, técnicos, lexicógrafos, tradutores, políticos, a fina flor da ciência vocabular, brasileiros, lusos, mestiços, africanos. Há de tudo, de tudo se fala, aquele nono andar da Avenida Rio Branco no Rio de Janeiro passa a ser não a Encyclopaedia Britannica Publicações, mas a Enciclopédia Camoniana dos séculos passados, deste século e dos séculos vindouros. É arriscado dizer que contribui para o fim da ditadura da Junta Militar, mas seu ribombar é tão ensurdecedor que os canhões iniciam a retirada logo depois ou mesmo antes de seu lançamento, passando a administrar uma ‘glasnost’ brasileira. Afinal de contas os perseguidos e cassados haviam conquistado a grande batalha pelo comando civilizado da nação, chefiados pelo grande mestre das coisas literárias, Antônio Houaiss.




LEXICÓGRAFO

As contribuições de Antônio Houaiss para a lexicografia lusófona não se limitam às suas monografias iniciais, às suas colaborações com outros grandes nomes de gramáticos e estudiosos durante sua vida, à sua tradução do Ulisses, aos dicionários bilíngües, às obras de culinária ou, se preferirem, às obras de conhecimento bibitório e comestório, ou mesmo aos grandes lançamentos editoriais enciclopédicos, como a Grande Enciclopédia Delta-Larousse ou a Enciclopédia Mirador Internacional.

Não. Sua preocupação vai mais longe. Está preocupado com o entendimento da língua pelos seus falantes, seus usuários diuturnos. Com a vida moderna, poucos momentos temos para nos enfurnarmos pelas entranhas da língua, pelas bases do idioma, por línguas mortas, semimortas ou moribundas. Estas línguas formam uma base inconsciente, desapercebida, quase invisível, a estrutura do idioma vivo, aquele que falamos. Se não forem trazidas à tona do hemisfério cerebral onde o cognitivo junta-se ao emotivo e, ambos, impulsionados pelo volitivo, traduzem-se em vocábulos inteligíveis, não seremos capazes de pronunciar nem uma só palavra. Da mesma forma, se o semi-alfabetizado não lê e não pratica o conhecer palavras, ficará eternamente falando aquele punhado de regionalismos herdados através da transmissão oral, da leitura de tablóides populares, do disse-me-disse dos botecos, barbearias, cabeleireiros, ruas e mercados.

O sonho do Professor é açambarcar todas as faixas de conhecimentos práticos para a formação da língua culta e encapsulá-los num dicionário. Não é sonho pequeno. O mercado já tem um Caldas Aulete, um Aurélio, um Léllo & Irmão. Para quê outro? É a pergunta de seus interlocutores. Quem vai comprá-lo? Indagam eventuais candidatos a financiadores. A todos o Professor olha com respeito, assim como respeita todas as opiniões de seus concorrentes, de seus amigos ou de seus inimigos. Ele sabe o tamanho do sonho que tem nas mãos. Ele quer incluir origem das palavras, datação vocabular. Antônimos, sinônimos, etimologia, dados de uso, conjugação verbal. Ele quer a última moda em matéria de dicionários.




O SUPER-LUSÓFONO

Em 1986 ele inicia a desenhar o seu sonho. Porém não consegue financiamentos à sua altura e pára em 1992. O sonho não o larga, porém. Persegue-o.

- “Nem que seja a última coisa que faço nesta vida”, parece dizer-lhe o seu volitivo.

Em 1997, com 81 anos, funda o Instituto Antônio Houaiss de Lexicografia e Banco de Dados de Língua Portuguesa S/C Ltda. com seu sobrinho Mauro de Salles Villar, técnico iconográfico e lexicógrafo e seu amigo Francisco Manoel de Mello Franco, lexicógrafo. Apoiado pela Editora Objetiva e pela FAPERJ (Fundação Carlos Chagas Filho de Apoio à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro), ou seja, tanto pela iniciativa privada quanto pelo poder estatal, o super-lusófono retoma seu sonho e parte para a reconquista do tempo perdido.

Seu esforço não é em vão. Mesmo sofrendo de enfisema pulmonar há quase quarenta anos, seu fôlego é espetacular e ele consegue ficar à frente de seu Instituto por mais dois anos. Os planos agora ampliam-se. Vai ter lançamento também em CD-ROM, comenta-se à boca pequena. O Mestre inventou até uma fonte própria para impressão de sua obra prima, a fonte Houaiss. A Academia de Ciências de Lisboa aprovou o projeto de lançamento de uma versão da obra em território português, com a norma ortográfica em uso naquele país. É o sucesso. O sonho toma forma. O entusiasmo, a antecipação, a angústia de uma língua que, afinal de contas, vai conseguir sobreviver sem machucar ninguém, sem guerras nas épocas modernas, está prestes a tornar-se realidade pelas mãos do seu maior conhecedor, um oriundo das Arábias, cujos pais professam sua fé através de uma seita católica obscura, a Maronita, e que agora, aos 83 anos, depois de uma luta intensa e insana consegue o dinheiro necessário para publicar ‘o’ dicionário de língua portuguesa de todos os tempos, dos passados, dos presentes e dos futuros.

Mas a interferência divina faz-se sentir. Afinal de contas, aquele turquinho tinha ido longe demais. E ainda vai conseguir realizar seu maior sonho…!?

- “Não. Deus não quer assim. Internado seja ele com pneumonia e tenha uma chance de sobrevida”, são as ordens vindas de cima. “Se ele sobrevive é deus ele mesmo, em pessoa. Se não sobrevive, é homem.”

“Que perigo!”, dizem as divindades!

Enfim, a doença vence-o e o Professor, Embaixador, Acadêmico, Ministro Antônio Houaiss falece em 7 de março de 1999, aos 83 anos de idade, sem ver seu sonho ir para as prateleiras dos livreiros, para as estantes empoeiradas das bibliotecas, para as mesas bagunçadas dos estudantes, para as listas de casamento de noivas e noivos que pretendem ter prole, para os escritórios e bancas de tradutores, para a vida, em última análise.

A FAPERJ tem um texto elucidativo sobre o Dicionário Houaiss, que merece sua inserção aqui:

“O "Houaiss" estabelece um marco na língua portuguesa, no Brasil e em Portugal, país em que também tem previsão para ser publicado em Lisboa, no próximo ano, 2002. Trata-se do maior empreendimento do mercado editorial brasileiro nos últimos tempos e maior mergulho realizado na língua portuguesa nos últimos cem anos.

Depois da morte do filólogo e ex-ministro da Cultura, Antônio Houaiss, em 1999, Mauro de Salles Villar tornou-se o cabeça do negócio, que levou 15 anos para ser concluído e exigiu o trabalho de cerca de 150 especialistas. Ao todo, o dicionário oferece 228 mil verbetes. A iniciativa é pioneira porque a publicação busca abranger toda a língua portuguesa, não apenas a que se fala no Brasil, mas em todos os países lusófonos - Portugal e as antigas colônias da África e da Ásia.

Além de caçar palavras em todo o mundo, a equipe do Instituto Antônio Houaiss busca apresentar suas raízes etimológicas, seguindo o manual estabelecido pelo filólogo, um dos mais profundos conhecedores da língua portuguesa. O novo dicionário teve primeira tiragem de 60 mil exemplares.

O Dicionário é lançado em 2001.