São raros os homens que trabalham com ardor e entusiasmo

António Manuel da Cunha Belém

Médico militar, escritor, político, polemista:
1834 - 1905



Quando tudo aconteceu...

1834: Nasce no dia 17 de Dezembro, na cidade de Lisboa, filho de Manuel António da Cunha Belém e de Maria Angélica Amália de Sá Pereira Carneiro. 1853: Casa a 1 de Fevereiro com Madalena Emília do Carvalhal de Miranda da Silveira Vasconcelos. 1854: Nasce a 18 de Fevereiro o filho César. «As folhas caídas apanhadas a dente». 1856: Nasce a 25 de Junho a filha Esther. «Poesias». 1857: «Adeus! Ao insigne artista dramático Sr. Taborda». «Novas Poesias». 1858: Aprovado Nemine Discrepante nas disciplinas do 5.º ano de Medicina da Universidade de Coimbra. «Estreia literária: jornal recreativo» 1859: Ingressa a 19 de Setembro no Quadro dos Facultativos Militares e é colocado no Regimento de Infantaria n.º 11. Nasce a 10 de Dezembro o filho Basílio. 1860: «Adeus a Cassurães». 1861: Nasce a 12 de Dezembro a filha Clotilde. «Cenas contemporâneas da vida académica». 1865: «Onde está a infelicidade!». 1866: «O mau senso e o mau gosto: carta mui respeitosa». «Horácios e Curiácios ou mais um ponto e vírgula». 1867: «Les contemporains». 1869: «Le Grand Orient Lusitanien». 1870: A 18 de Maio é eleito Grande Secretário das Relações Externas da Maçonaria Portuguesa, cargo criado pela primeira vez. 1871: Promovido a Cirurgião Mor em 28 de Maio e é colocado no Batalhão de Caçadores 4. 1874: «História do Corpo Humano». 1876: A 30 de Junho é admitido na Classe de Ciências da Academia das Ciências de Lisboa. A 7 de Julho é eleito sócio ordinário da Sociedade de Geografia de Lisboa e recebe o n.º 101. Levada à cena a peça de sua autoria «O Pedreiro Livre», no Teatro do Ginásio, ainda antes da sua edição em livro. «Amores de Primavera». «Chuva e Bom Tempo». 1877: Congresso Internacional de Higiene em Viena d'Austria, em Setembro. «O Pedreiro Livre». 1878. Congresso Internacional da Higiene e Ciência Médico Militar, em Paris. 1879: Edição francesa de «O Pedreiro Livre», com tradução de Ernest Séguin. Congresso Periódico Internacional das Ciências Médicas, em Amsterdão. «A vida médica no campo de batalha». 1881: Congresso de Londres. «Os Arrozais». 1882: Congresso de Genebra. 1883: «Visconde de Paço d’Arcos». 1884: «Quinze dias na Holanda». 1885: «Luciano Cordeiro». 1886: «Os lazaretos terrestres de fronteira». 1887: «O desfalque da Câmara dos Deputados». 1888: Promovido a Cirurgião de Brigada a 1 de Fevereiro e colocado no Hospital Militar Reunido de Chaves, como director. «La prophylaxie internationale du choléra en Portugal». «Afirmações e dúvidas sobre os últimos progressos da Higiene». «Estudos sobre os Serviços Sanitários de Campanha». 1890: «Questões médico militares: estudo sobre os Quartéis». «Factos e comentos relativos à defesa sanitária». 1892: Promovido em 30 de Junho a Cirurgião de Divisão. 1894: «Questões médico militares: o material sanitário». «La faux choléra à Lisbonne». 1896: «Breves Noções de Higiene Militar». 1897: Promovido em 23 de Junho a Cirurgião em Chefe do Exército e Chefe da 6.ª Repartição da Direcção Geral da Secretaria da Guerra, lugar primeiro na hierarquia dos Médicos Militares. «Projecto de Regulamento para construção das Esquadras de Maqueiros». «A lição da experiência sobre o simulacro dos serviços sanitários». Em 11 de Setembro passa a ser designado Coronel do Corpo de Médicos Militares. «A Junta de Saúde e a Peste». 1900: «Escola Maria Pia: notícia para o Congresso Pedagógico». 1904: Em 24 de Dezembro passa à situação de Reserva. 1905: Morre, em Lisboa. 1910: Publica-se em Lisboa a sua obra póstuma «Lições explicativas de álgebra para a 7.ª classe».

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AS ORIGENS

Nasce em Lisboa, em 17 de Dezembro de 1834, filho de Manuel António da Cunha Belém e de Maria Angélica Amália de Sá Pereira Carneiro. Casa, ainda estudante, com a idade de 18 anos, com Madalena Emília do Carvalhal de Miranda da Silveira Vasconcelos e nove anos depois já têm 4 filhos: César (18.02.1854), Esther (25.06.1856), Basílio (10.12.1859) e Clotilde (12.12.1861).

Este casamento em idade tão jovem, e o número de filhos nascidos, talvez possam explicar os vários pedidos de adiantamento de dinheiro apresentados à Repartição de Contabilidade, que se encontram no seu processo individual; a carreira médica militar que escolheu foi sempre mal paga, o que ajuda a entender o equilíbrio financeiro que se exigia e, por vezes, o recurso ao crédito a que o Dr. Cunha Belém se vê obrigado desde novo e até nos postos mais elevados.

Atente-se nos requerimentos que apresenta em 18.02.1879 e em 17.05.1881, nos quais solicita que lhe seja pago o vencimento do soldo, acrescido da gratificação a que tem direito por ser Deputado da Nação desde 1 de Abril de 1878…

Ou neste outro em que o Cirurgião em Chefe do Exército, Chefe da 6.ª Repartição, Augusto Carlos Teixeira de Aragão, solicitava ao Ministro que «seja concedida a medalha militar de prata de bons serviços ao Cirurgião de Divisão António Manuel da Cunha Belém porque tendo sido este cirurgião convidado pelo Ministro da Guerra a escrever um livro para o uso das Escolas Regimentais do Ministério da Guerra, o fez, sob o título «Breves noções de Higiene militar».E que como recompensa do zelo, superior ilustração e dedicação com que escreveu tão interessante obra, bem como outros importantes e múltiplos trabalhos, merece ser agraciado». E mais propunha que «lhe fosse conferida a Comenda da Antiga Nobilíssima e Esclarecida Ordem de São Tiago do Mérito Científico, Literário e Artístico, porque em poucos peitos ficaria melhor colocada tão distinta venera», mas só «se lhe puder ser concedida isenta dos respetivos encargos pecuniários».




O ESTUDANTE

Segundo consta em vários documentos, sabe-se que entregou para efeito de registo no Livro dos Facultativos Militares um documento da Universidade de Coimbra que atesta que conforme consta dos respectivos Livros de Exames, Actos e Graus, o suplicante fizera exame das disciplinas de quarto e do quinto ano de Medicina em Junho e Julho de 1858 e fora aprovado Nemine Discrepante, recebendo o grau de Bacharel.




A CARREIRA MÉDICA MILITAR

Ingressa no Quadro de Facultativos Militares com o posto de cirurgião ajudante, em 19 de Setembro de 1859 e é colocado no Regimento de Infantaria n.º 11, sendo Cirurgião Mor desse Regimento o Dr. Paulo Pereira e Horta.

É promovido a Cirurgião Mor em 28 de Maio de 1871 e colocado no Batalhão de Caçadores n.º 4 e tendo como Ajudante de Cirurgião o Dr. Luiz de Azevedo Melo e Castro. Em 1 de Fevereiro de 1888 é promovido a Cirurgião de Brigada e colocado no Hospital Militar Reunido de Chaves, como Diretor.

Em 30 de Junho de 1892 é promovido a Cirurgião de Divisão.

Em 23 de Junho de 1897 é promovido a Cirurgião em Chefe do Exército, e Chefe da 6.ª Repartição da Direção Geral da Secretaria da Guerra, lugar primeiro na hierarquia dos Médicos Militares. Em 11 de Setembro de 1899, e por disposição inserta na Ordem do Exército n.º 9 (1.ª série) dessa data, passa a ser designado Coronel, para o Corpo de Médicos Militares (CMM).

Vemos assim, que o Dr. Cunha Belém demorou 40 anos a percorrer os vários lugares da hierarquia até atingir a chefia do Corpo dos Médicos Militares, que nessa altura comportava a existência de 154 médicos, dos quais só um era coronel. (Oficialmente o Quadro comportava 130 médicos). Assim, o Dr. Cunha Belém foi coronel médico do Corpo dos Médicos Militares de 11 de Setembro de 1899 a 24 de Dezembro de 1904, data em que passou à reserva, sendo pois este o posto mais elevado que teve durante a sua vida de médico militar.




O MISTÉRIO CHAMADO GENERAL

No plinto que sustenta o busto em bronze de Cunha Belém existente na Direcção do Serviço de Saúde do Exército pode ler- se, gravado em letras de ouro: General Médico António Manuel da Cunha Belém, 1834 – 1905. Homenagem dos Médicos Militares, 1954.

Grande terá sido a importância do homenageado para que, quarenta e nove anos depois da sua morte, uma centena de médicos (que não o terão conhecido), decidisse perpetuar-lhe a memória, homenageando-o daquele modo.

Mas, como se explica que neste busto de memória e homenagem se leia que o Dr. Cunha Belém foi General médico quando na realidade, e como se pode confirmar pela sua nota de assentos, terminou a sua vida militar em Coronel?

A razão é simples. Quando em 1904, o Coronel médico Cunha Belém passou à situação de Reserva, contava 45 anos de serviço activo, o que por força de uma lei que então regulava as reformas dos Oficiais do Exército (Tarifa e Alvará de 16 de Dezembro de 1790) o promovia ao posto imediato, General de Brigada e não General como no plinto se pode ler.

Essa lei, dispunha que todos os oficiais que passassem à Reserva com 25 a 35 anos de serviço fossem promovidos ao posto imediato mas continuando a vencer pelo posto que realmente tinham quando passavam à reserva. Dispunha também que todos os oficiais que tivessem entre 35 a 45 anos de serviço fossem promovidos ao posto imediato com as regalias e vencimento do novo posto.

Conclui-se então que o Dr. António Manuel da Cunha Belém, enquanto na efetividade de serviço, nunca foi General de Brigada e muito menos General e que só o foi quando passou à Reserva por força de disposição burocrática e legal. E pode alargar-se o leque desta conclusão, dizendo que não foi só o Dr. Cunha Belém a aproveitar desta disposição legal e que houve vários outros Generais de Brigada médicos de que até hoje ninguém falou ou parece saber. Terá havido, pelo menos, os médicos militares Emílio Oliveira, Eduardo Pessoa, Joaquim Leite, Francisco Fino, António Vasconcelos, Aníbal Pereira, Guilherme Ennes, Nicolau Camolino, etc… (Alguns destes chegaram mesmo a ser chamados generais, uma vez que, por alteração havida na designação dos postos, passou a haver os generais de divisão e os generais (estes, os antigos generais de Brigada). (Ordem do Exército n.º 1 de 1911 – 1.ª série).

E não é pelo facto de Cunha Belém estar acompanhado por vários colegas no posto de General de Brigada que perde importância o tê-lo sido. Muito pelo contrário, só ganha. Pois se houve vários e só dele se fala, é porque algo o distinguia dos seus colegas.




O POLÍTICO

Foi Deputado nas legislaturas de 1875 a 1878 e de 1882 a 1887, pelos Partidos Regenerador e pela Esquerda Dinástica.

Na sua atividade política e no desempenho das suas funções de Deputado, lançaram sobre ele um enxovalho de tal dimensão, que só homens de grande estatura, dele conseguiriam sair limpos.

Por uso indevido de dinheiro da Câmara dos Deputados, após um inquérito e um julgamento apressados e bem dirigidos, sofre a pena de expulsão de Deputado.

De imediato Cunha Belém publica um livro intitulado «O desfalque na Câmara dos Deputados», em que explica claramente que foi alheio a qualquer processo ilícito e que, a ter havido ilicitude, dela seria responsável o Tesoureiro da Câmara, Conselheiro Francisco Cabral Mettelo.

Cunha Belém limitou-se a pedir dinheiro emprestado ao Senhor Jaime Alegro, que lho emprestou como fazia com outros Senhores Deputados, desconhecendo que esse dinheiro que lhe era emprestado, não era do próprio emprestador, mas dos fundos da Câmara.




A MAÇONARIA

É iniciado com o nome simbólico de Remo e virá a ser Venerável da Loja Esperança, atingindo apenas com 35 anos de idade o grau 33º do Rito Escocês Antigo e Aceite e passa a pertencer ao Supremo Conselho.

Dentro do Grande Oriente Lusitano e de acordo com os ideais do Grão Mestre João Inácio Francisco de Paula de Noronha, 2º Conde de Parati, Cunha Belém é personagem importante no desenvolvimento das relações internacionais desta organização, tendo sido nomeado (em 18 de Maio de 1870) Grande Secretário das Relações Externas, cargo criado pela primeira vez na Maçonaria portuguesa.

Não parece que tenha sido essa a razão dos pseudónimos que usou, pois embora tivesse nome simbólico na Maçonaria, nunca escondeu que era maçon. Aliás foi autor dos livros «O Grande Oriente Lusitano» e «O Pedreiro Livre», tendo sido esta última obra levada a cena no Teatro do Ginásio, em 1876, ainda antes da sua edição em livro. Em 1879, teve uma edição francesa, com tradução de Ernest Séguin.




OUTRAS ATIVIDADES

Cunha Belém também é jornalista, dirigindo a «Revolução de Setembro» e colaborando em numerosos periódicos do seu tempo, para além das prestigiadas revistas de medicina militar «Escholiaste Médico» e «Gazeta dos Hospitais Militares», onde é redator.

É educador, escreve um livro de divulgação médica, «História do Corpo Humano», uma espécie de «Medicina para todos» do seu tempo, mas bastante mais original do que as que agora se escrevem.

Vem a ser director da Escola Maria Pia, presidente da Junta Escolar de Lisboa e estudioso dos problemas de administração da saúde.

Em tudo intervém com muita qualidade e força. Produz muitas intervenções escritas, cheias de qualidade, sobre assuntos puramente literários, como por exemplo a sua intervenção na célebre «Questão Coimbrã» que opôs Castilho a Antero de Quental e que assina com o pseudónimo de «Gaveta Mendes Amaro, literataço e poeta».

Fica célebre a sua famosa disputa com o Arcebispo Bispo Conde de Coimbra sobre a questão dos arrozais, textos que assina com o pseudónimo de «Amaro Mendes Gaveta, no concelho de Soure».

Colabora no Livro de Homenagem ao actor Santos, com um extenso poema dedicado a António Feliciano de Castilho. Neste álbum de homenagem ao actor Santos, é um desenho de Rafael Bordalo Pinheiro (a Bengala), que antecede o poema de Cunha Belém. Este poema é lido pela primeira vez em cena aberta do Teatro D. Maria II em Junho de 1875, com toda a companhia em cena, diante do retrato a óleo do Visconde de Castilho, falecido havia pouco. Este quadro foi pintado pelo Miguel Ângel Lupi (1826-1883), pintor de reis, que começara como amanuense de contadoria e acabara como professor efetivo da cadeira de pintura histórica da Academia das Belas Artes.

Porque razão usaria ele estes pseudónimos?

Sempre trabalhou e escreveu, como médico, militar, escritor e homem, de peito aberto e em inteira liberdade. Nunca escondeu que era maçon.

Porquê assinar Amaro Mendes Gaveta ou de Gaveta Mendes Amaro, se toda a gente sabia que eram pseudónimos de Cunha Belém? Talvez porque não os usou como pseudónimos, mas como heterónimos.




OS LAZARETOS TERRESTRES

Nos finais do século XIX (1884), a Europa é assolada por uma epidemia de cólera que parece ter entrado por Toulon, em França e que rapidamente passa a outros países. A Espanha é uma das suas maiores vítimas e grande parte da sua população é atingida com grande mortalidade (numa população de 10.396.839 habitantes são atingidos 6.575.641, o que representa 60% da população. A mortalidade é de 1.82 por cada 100 habitantes sujeitos à epidemia e de 35.32 por cada 100 afectados).

Desta forma a única solução que resta para proteger Portugal é estabelecer cordões sanitários ao longo da fronteira, para impedir que qualquer doente ou contaminado a atravesse.

E ao mesmo tempo criar ao longo dela instalações sanitárias, designadas por lazaretos, locais onde os doentes despistados, ou com forte presunção de doença, fossem internados e ficassem de quarentena.

Lamentavelmente há figuras ilustres da medicina que, em congressos, em tribunas ou no próprio seio da prestigiada Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa, combatem a instalação do cordão sanitário e dos lazaretos, não com verdadeiros argumentos científicos, mas com franco empenhamento político e económico.

Chega a assistir-se à vergonha de personalidades ilustres dizerem o contrário do que anteriormente afirmavam ou cientificamente defendiam, em nome de interesses puramente políticos e económicos.




CONDECORAÇÕES E LOUVORES

* Na sua folha de serviço e nota de assentos constam treze louvores – quatro dos quais dados por El-Rei – que na sua redacção referem sempre o trabalho desenvolvido nas diversas comissões de estudo e planeamento, como as que estudaram o Formulário de medicamentos, o Formulário das Dietas, a Bolsa de maqueiro etc…

* Medalha Militar de Prata de comportamento exemplar

* Comendador Ordinário da Real e Distinta Ordem de Carlos III e Isabel a Católica.

* Cavaleiro da Ordem da Corôa da Prússia

* Cavaleiro da Ordem da Rosa do Brasil

* Oficial da Ordem de S. Tiago do Mérito Científico, Literário e Artístico

* Cavaleiro da Ordem Militar de S. Bento de Avis

* Cavaleiro da Ordem Militar da Torre e Espada, Valor, Lealdade e Mérito

* Comendador da Ordem Militar de S. Bento de Avis

* Medalha de Prata de Bons Serviços

* Medalha de Prata de Bons Serviços

* Medalha Militar de Ouro de Bons Serviços (Substituindo as duas de Prata)

* Medalha Militar de Prata de Bons Serviços

* Medalha da Cruz de Bronze

Para que se entenda a razão da atribuição de algumas destas condecorações veja-se uma carta do Embaixador da Alemanha (de Kleist) ao Ministério Português dos Negócios Estrangeiros, pedindo para ser informado sobre o cargo e a posição social de Cunha Belém, para que o Imperador da Alemanha lhe possa dar o grau devido na condecoração que pretendia atribuir-lhe.

Porquê esta condecoração? A mesma razão porque já em 1871 tinha sido agraciado com a Ordem da Coroa da Prússia (3ª classe) - por ter oferecido a sua Majestade, o Imperador da Alemanha, o livro de sua autoria «O Grande Oriente Lusitano» e por ter oferecido novamente quatro exemplares do seu novo livro «O Pedreiro Livre», ao Imperador da Alemanha e da Prússia. Estes quatro exemplares foram acompanhados de uma tradução em língua francesa, a língua mais internacionalizada e influente culturalmente nesse tempo.

Vistos estes factos, com os olhos de hoje, somos levados a pensar que escrever um livro (ou por pertencer à Maçonaria? ) naquele tempo, era ganhar uma Comenda, pelo menos do Imperador da Alemanha.

O francês devia ser uma língua que Cunha Belém dominava bem, pois escreveu outras obras nesta língua, como é o caso de «Les contemporains – François Lallement», obra em que conta a biografia do tipógrafo e industrial François Lallement, o elogia e lhe presta homenagem pela medalha de prata com que a sua «Tipografia Franco Portuguesa» tinha sido premiada na Exposição de Paris de 1867.




ESPADA

Ter-lhe sido atribuído o Grau de Cavaleiro da Ordem da Torre e Espada, Valor, Lealdade e Mérito, a mais importante Ordem portuguesa, só atribuída em condições de heroicidade, levantava curiosidade, porque na sua Nota de Assentos, na rubrica «campanhas que tem feito» está escrito nada e na rubrica «batalhas a que tem assistido e ferimentos» está igualmente escrito nada. Qual a razão, então?

Num requerimento a El-Rei o Dr. António Manuel da Cunha Belém solicita-lhe autorização para que seja ouvido e deponha a seu favor, o Coronel de Infantaria n.º 11, José Freire de Andrade, para que possa atestar a forma como «com risco próprio, o suplicante se comportou no dia 4 de Abril de 1868, por ocasião de um grande motim popular na feira de Guimarães, sendo então cirurgião ajudante do Regimento de Infantaria 16 e fazendo serviço na ala esquerda do Corpo, comandada então por aquele oficial que era a esse tempo Tenente Coronel d’ele».

Em seguimento, o Coronel José Freire de Andrade atesta que «António Manuel da Cunha Belém o acompanhou aos lugares de maior risco, chegando a evitar que os desordeiros agredissem traiçoeiramente pelas costas o abaixo assinado, abrindo passagem e permitindo assim inutilizar os projectos dos desordeiros».

Este documento parecia ter sido a razão justificativa da atribuição da Torre e Espada. Mas, na verdade, o Grau de Cavaleiro da Ordem Militar da Torre e Espada foi-lhe atribuído por «bons serviços prestados na organização e inspecção dos lazaretos terrestres» (Ordem do Exército n.º 6 de 22 de Março de 1886). Isto mostra como a faceta organizativa do médico militar também tinha importância e não só a sua capacidade técnica...




BIBLIOGRAFIA

* As folhas caídas apanhadas a dente …, por Amaro Mendes Gaveta, 1854

* Poesias, 1856

* Adeus! Ao insigne artista dramático o Sr. Taborda: poesia, 1857

* Novas poesias, 1857

* Poesia ao exímio ornamento do Teatro Académico, 185-

* Estreia literária: jornal recreativo, 1858-1860

* Adeus a Cassurães: versos, 186-.

* Cenas contemporâneas da vida académica: quasi romance da atualidade. 1863

* Onde está a infelicidade! : romance original, 1865

* O mau senso e o mau gosto: carta mui respeitosa ao… senhor António Feliciano de Castilho, por Amaro Mendes Gaveta, 1866

* Horácios e Curiácios ou mais um ponto e vírgula na atual questão literária, 1866

* Les contemporains, 1867

* Le Grand Orient Lusitanien : son origine, son existence, ses droits d’ainesse... :abregé de l’histoire de la maçonnerie en Portugal, 1869

* Visconde de Castilho por Cristovam de Sá, 1872

* Joaquim Henriques Fradesso da Silveira por Christovam de Sá, 1873

* História do corpo humano, 1874

* Amores de primavera: comédia em 1 ato em verso, 1876

* Chuva e bom tempo, in Educação Popular, Enciclopédia Instrutiva e Amena dedicada À Mocidade Estudiosa de Portugal e Brasil, com a colaboração dos Principais Homens de Letras, sendo Diretor literário, M. Pinheiro Chagas, 2.º ano, n.º 15 – 5.ª série, 1876. * O Pedreiro Livre: drama em quatro atos, 1877

* A Vida Médica no campo de batalha, 1879

* Os arrozais, 1881

* Visconde de Paço d’Arcos, in As Colónias Portuguesas, 1883, Lisboa, 1.º Ano, n.º 11

* Quinze dias na Holanda: (notas de viagem do Sena ao Amstel), 1884

* Luciano Cordeiro, in As Colónias Portuguesas, 1885, 3.º ano, n.º 3.

* Os lazaretos terrestres de fronteira nos anos 1884 a 1886: Marvão, Elvas, Vilar Formoso, Valença, Vila Real de Santo António: relatório / A. M. Da Cunha Belém e Guilherme José Ennes, 1886

* O desfalque da Câmara dos Deputados, 1887

* La prophylaxie internationale du choléra en Portugal : mémoire présenté au Congrés d’Hygiéne de Vienne, 1888

* Afirmações e dúvidas sobre os últimos progressos da Higiene: ecos do Congresso de Viena, 1888

* Estudo sobre os Serviços Sanitários de Campanha no exercício da Brigada Mista de Manobra em Setembro 1888, 1889

* Questões médico-militares: estudo sobre os quartéis da guarnição de Lisboa, 1890

* Factos e comentos relativos à defesa sanitária em 1890, 1891

* Projecto de regulamento para instrução das esquadras de maqueiros regimentais, 1892

* Questões medico-militares: o material sanitário e os respectivos serviços nos exercícios do Outono de 1893, 1894

* Le faux-choléra à Lisbonne au Printemps de 1894, 1894

* Breves noções de Higiene Militar, 1896

* A lição da experiência sobre o simulacro dos serviços sanitários do campo de batalha, 1897

* O filho do padre cura: romance original, 18--

* Emília Adelaide: esboço biográfico, 18--

* Imperador do Brasil: esboço biográfico, 18--

* A Junta de Saúde e a peste: páginas de História que parecem romance, 1899-1900

* Escola Maria Pia: notícia para o congresso pedagógico de Madrid de 1892, 1900

* Lições explicativas de álgebra: para a 7.ª classe, 1910 (publicado 5 anos após a sua morte)




O RECONHECIMENTO PÓSTUMO

Em 1954 o General Chefe do Estado Maior do Exército, o Diretor do Serviço de Saúde Militar e os Médicos Militares deste Serviço inauguraram o Busto de Homenagem ao Dr. António Manuel da Cunha Belém que ficou colocado ao cimo da belíssima escadaria de pedra do Palacete da Alfarrobeira, em Benfica. No plinto que sustenta o busto, pode ler-se em letras de ouro – General Médico António Manuel da Cunha Belém, 1834 – 1905. Homenagem dos Médicos Militares, 1954.

Grande terá sido a importância do homenageado para que quarenta e nove anos depois da sua morte, duas centenas de médicos (que o não terão conhecido) decidissem perpetuar-lhe a memória, homenageando-o daquele modo. Foi dado o seu nome a uma rua da Amadora, na Urbanização do Neudel, com o código postal 2720-757 Amadora.