Se V. tiver a bondade de me ouvir a respeito dos ordenados...

josé feliciano de castilho

Médico militar:
1765 - 1826



Quando tudo aconteceu...

1765 -JOSÉ FELICIANO DE CASTILHO nasceu em 21 de Abril, em Aguim 1788 – Matricula-se em Física e Matemática 1789 – Recebe ordens de prima tonsura 1790 – Inicia o curso de Medicina na Universidade de Coimbra 1795 – Conclui o Curso de Medicina 1796 – Faz Doutoramento em Medicina na Universidade de Coimbra 1797 – Primeiro Médico Inspector dos Hospitais Militares no Acantonamento das Tropas no Alentejo 1798 – Casa com Domicilia Máxima Doroteia da Silva Castilho. Serviu no Hospital Militar de S. João de Deus, em Lisboa 1800 – Nomeado Lente substituto da Universidade de Coimbra 1801 – Estabelece em Portalegre o Hospital de S. Francisco, por força da Campanha militar. Estabelece e abre o Hospital Militar do Beato António, em Lisboa 1803 – Colocado como Inspector no Hospital de Elvas 1804 – Colocado no Hospital do Beato, em Lisboa 1805 – Manda colocar Caixa das Esmolas na entrada do Hospital de Coimbra. Desterrado para Couto de Aguim. 1806 – Passa a Professor efectivo da Universidade de Coimbra 1809 – Nomeado Delegado do Físico Mor do Reino 1812 – Eleito Sócio da Academia Real das Sciencias e membro da Instituição Vacínica (de que viria ser secretário e depois director). Funda o Jornal de Coimbra 1815 – Na noite do dia 26 para 27 de Junho sofre agressão 1818 – Parte para o Brasil 1819 – Despronunciado pela Relação no processo que lhe tinha sido levantado por ordem do Reitor da Universidade de Coimbra 1820 - Aviso Régio manda reintegrar na Universidade os Lentes Jerónimo Figueiredo e Ângelo Dinis, que haviam sido suspensos conjuntamente com Castilho, por acusação de divulgação de folhetos difamatórios (Lanterna Mágica). Termina a publicação o Jornal de Coimbra 1821 – Regressa a Lisboa acompanhando o Rei D. João VI. Exerce o cargo de Censor Régio do Desembargo do Paço. Fr. Francisco de S. Luís (Cardeal Saraiva) foi nomeado bispo-coadjutor e futuro sucessor no Bispado de Coimbra. D. Francisco de Lemos demite-se de reitor da Universidade 1823 - Abona dinheiro aos Hospitais da Universidade, em plena luta liberal, para não os encerrarem. Vai morar para o edifício do Pátio do Castilho que hoje é Escola de Almedina. 1825 - O Hospital Militar ocupa parte do edifício do Colégio de S. Bento 1826 - Morre a 5 de Março, em Castanheira do Vouga, em casa de seu filho Augusto Frederico de Castilho.

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AS ORIGENS

Nasce a 21 de Abril de 1765, em Saguim, filho de José Barreto de Castilho e de Maria Luísa Gomes de Sampaio (filha de Domingos Francisco de Sampaio, abastado proprietário de Anadia).
José Feliciano de Castilho casou em 1798, já com 33 anos de idade com Domicilia Máxima Doroteia da Silva Castilho.
Do casal nasceram três filhos – António, Augusto e José. Destes, celebrizou-se o primogénito António Feliciano de Castilho que apesar de ter ficado cego aos 6 anos, após ter tido sarampo, se tornou um dos mais celebrados escritores da língua portuguesa e autor do «Método Castilho para o ensino rápido e aprazível do ler impresso, manuscrito, e numeração e do escrever – obra tão própria para as Escolas como para uso das Famílias, editada pela Imprensa Nacional». O irmão Augusto foi padre e morreu cedo, de tuberculose e o irmão José foi Juiz Desembargador, Conselheiro, Director da Biblioteca Nacional e polemista.




O ESTUDANTE

José Feliciano de Castilho, por desejo e decisão de seus pais, estava destinado à carreira eclesiástica. Opôs-se quanto pôde à vontade deles, contrariando o destino que lhe tinham marcado. Conseguiu matricular-se nas Faculdades de Física e Matemática, mas a luta (principalmente com seu pai) arrastou-se até 1789, chegando a receber ordens de prima tonsura. A luta entre a vontade dos pais e o seu desejo íntimo, acabou por lhe atrasar a entrada na Universidade de Coimbra no curso de Medicina. Fez o curso com distinção, tendo concluído em 1795, com 30 anos de idade.




O MÉDICO E O PROFESSOR

Após a sua licenciatura, conclui o seu doutoramento em 1796. Em 1800 foi nomeado Lente substituto, passando em 1806 a Lente efectivo.
Acumula as funções docentes com as de Director dos Hospitais Reais da cidade de Coimbra e em ambas depende do Arcebispo Bispo Conde Reformador Reitor de Coimbra. Numa e outra teve problemas que se arrastaram anos.




O MÉDICO MILITAR

Como médico militar dedicou-se, de alma e coração, ao esforço quase totalmente impensável de organizar a saúde militar, disciplinar a vida hospitalar e, sobretudo, convencer os responsáveis de que o investimento na saúde era um bom, necessário e lucrativo investimento.
Tentou ensinar e convencer os colegas de que não era a mesma coisa (e continua a não ser), gastar dez ou gastar mil para tratar bem um doente e tentou convencer o Poder, de uma forma lógica e sem demagogia, que era fundamental pagar bem aos Empregados dos Hospitais e da Saúde em geral, para que todos eles se dedicassem completa e totalmente ao serviço deles.
A este propósito escreveu assim –
«Eu pedirei a V. pelo maior obséquio, que não faça ordenados pequenos; que dê a todos os Empregados quanto lhes baste para viverem conformemente às suas graduações, sem lhes ser necessário mendigar a sua subsistência por outra parte…. O número dos Empregados seja tal que cadaúm d’elles tenha que fazer todo o dia; prescrevão-se-lhes as suas obrigações; e se algum faltar a ellas, castigue-se sem remédio; porém os seus interesses sejão taes, que elles temão perdellos, e que os-fação independentes.» E numa nova carta, insistiu –
«Se V. tiver a bondade de me ouvir a respeito dos ordenados, não hão-de-elles ser muito pequenos; hão-de ser capazes de sustentar os Empregados; hão-de ser tais que os-temão de perder; he só assim que o Serviço irá bem e pode haver economia: que importa que se-gastem mais 10 por uma parte, se se-pouparem 100 por outra?»




A QUESTÃO COM A ORDEM DE S. JOÃO DE DEUS

José Feliciano de Castilho enquanto Inspector dos Hospitais Militares no Hospital de Elvas teve grandes problemas com os frades da Ordem Hospitaleira de São João de Deus. Tudo terá começado com um problema de competências e terá continuado com outros atritos que passaram pela atribuição de funções e pela sua limitação exclusiva à actividade dentro das enfermarias; passou ainda por um caso de abandono de lugar e desobediência de um frade com quem o Superior se solidarizou, impedindo ou querendo impedir que Castilho o despedisse do lugar que tinha; continuou ainda com uma acesa discussão acerca de umas obras feitas pelos frades sem que Castilho as tivesse autorizado e tudo terá terminado com a tal gota que faz transbordar tudo e que foi a ordem que Castilho deu e foi muito mal acatada pelos frades, de diminuir o número de frades daquele Hospital de quinze para dez, por entender que estes eram bastantes. Muita correspondência se trocou, de parte a parte e para os seus respectivos superiores. É natural que as relações de Castilho com os frades não fossem realmente das melhores. Só com Frei Banazol, que era médico naquele Hospital Militar, mantinha boas relações. Eram amigos e respeitavam-se mutuamente. Com os outros frades as relações eram apenas de serviço e sempre dentro de uma velada luta de galos, em disputa de um qualquer poleiro.
Devem ter começado aqui as raízes da árvore que mais tarde viria a dar a madeira com que se fez a Caixa das Esmolas.




O ESTRANHO CASO DA CAIXA DAS ESMOLAS OU A CONTESTAÇÃO AO REITOR E A LANTERNA MÁGICA

No princípio do mês de Abril de 1805, resolveu Castilho mandar colocar à porta do Hospital de Nossa Senhora da Conceição de Coimbra, uma Caixa para Esmolas, para auxílio aos doentes do mesmo Hospital. O Arcebispo Bispo Conde Reformador Reitor mandou, de imediato, arrancar e desmanchar a dita Caixa das Esmolas, e mandou levantar um Auto a José Feliciano de Castilho. Qual terá sido a verdadeira razão? As Caixas de Esmolas eram monopólio da Igreja e só esta as podia mandar colocar? Desconhecia o Bispo o fim a que se destinavam as esmolas? Terá considerado a ordem uma provocação ao Poder, já que ela demonstrava o abandono económico a que este votava os Hospitais?
A propósito da última destas hipóteses escreveu Castilho -
«ha por aqui voto, que a coisa irá mal todas as vezes, que a escolha do Almoxarife se-tire do trilho estabelecido: a Camara nomear homens abonados, que o-sejão; escolher um d’elles, que será sempre rico, e a mesma Camara responder a todo o tempo pela Fazenda, de que elle não der conta. Digo eu porém, que Almoxarife deve ser um homem, que necessite dos interesses de Almoxarife; que viva d’elles; que tema perdêllos; e que dê fiadores seguros do que se-lhe-entregar». E cinco dias depois voltou a escrever que
«Pronosticão os políticos, que a não ser o Almoxarife rico a ponto de poder adiantar muito dinheiro ao Hospital, elle ha-de faltar muitas vezes: e as consequências hão-de ser terríveis e que resultará desta retardação aos Hospitais, em que ordinariamente he irremediável a falta às oito horas e meia de uma coisa cuja necessidade se conheceu às oito e um quarto? A não haverem nos Hospitais Empregados, que possão adiantar dinheiro, elle deve vir do Erário determinadamente para este artigo. Mas a coisa não deve andar sempre com esta exacção? Pode ser por ventura bom pagar hoje por 20 aquillo, que se eu o-pagasse ha um anno me custaria 1? Se por esta dúvida me esperassem muitos annos não seria tão grande o prejuizo; mas se me não esperão senão mezes, e poucos mezes ordináriamente! Julgo eu que do Erário deve vir dinheiro determinadamente para os Hospitais; que se-lhes-deve dar adiantado, fiscalisando então miudíssimamente a sua applicação»
No dia 6 de Abril mandou o Bispo ao Hospital uma Alçada de Vice Conservador, Escrivão e Meirinho para tornarem a examinar o caso da Caixa. E nesse mesmo dia mandou examinar «por um modo descarado e desrespeitoso»(como disse Castilho) a Congregação das Contas que José Feliciano de Castilho devia prestar apenas no dia 11 de Abril, da importância de quarenta mil cruzados. Essas contas foram aprovadas, sem uma única objecção, o que significava que estavam certas e que José Feliciano era homem de boas contas.
Apesar disso, o Bispo Reformador Reitor ordenou, por Portaria do mesmo dia em que as contas foram aprovadas, que «se examinasse no Hospital por via de testemunhas o comportamento de José Feliciano de Castilho, como Lente Catedrático da Primeira Cadeira e como Director dos Hospitais Reais», «bem como de outros dois Lentes, seus amigos, Jerónimo Joaquim de Figueiredo, Encarregado da Regência da Cadeira do 3º ano e Ângelo Ferreira Dinis, da 2ª Cadeira de Prática, e que estes ficassem desde já suspensos das suas funções académicas e inibidos de entrar no Hospital, enquanto durasse aquela averiguação».
E no dia 17 de Abril, foi preso José Paulo da Silva Monteiro, estudante do 6º ano médico e Joaquim José Verdelho, estudante do 5º ano médico por terem relações de amizade com José Feliciano de Castilho.
No dia 23 de Abril, pelas três horas da tarde, o Vice Conservador da Universidade de Coimbra, transmitiu a José Feliciano de Castilho a nova ordem que o Bispo tinha dado - Castilho devia, no prazo máximo de vinte e quatro horas, retirar-se para seis léguas de distância do Distrito de Coimbra, com a possibilidade de escolher a terra para se instalar, desde que fosse distante seis léguas, podendo mudar de terra desde que respeitasse a distância e o comunicasse previamente ao Senhor Bispo Conde. E, cinismo máximo, concedia-lhe o direito de não respeitar as seis léguas, desde que fosse para mais longe.
Castilho escolheu Lisboa e preparou-se para partir no dia 24 para apresentar uma representação a sua Majestade por via do Governo d’estes Reinos, por tão violenta e circunstanciada perseguição.
Contudo, ainda a 23 de Abril e pelas 20 horas da noite, recebe Castilho uma carta do mesmo Vice Conservador transmitindo nova ordem do Bispo Conde - a distância fixada não era arbitrária, mas taxativa. A sua nova residência foi fixada em Couto de Aguim distante quatro léguas de Coimbra e ali se devia conservar e aguardar novas ordens.
E tudo se passou sem processos nem sentenças, tal como o Arcebispo o determinou, mesmo tratando-se de decisões sobre um cidadão que não era propriamente comum, mas alguém que desempenhava elevadas funções e para as quais tinha sido nomeado pelo agora acusador e juiz.
As ordens estenderam-se aos outros dois Lentes Jerónimo Joaquim de Figueiredo a quem fixou residência em Lavos e Ângelo Ferreira Dinis que foi desterrado para Ararede.
No dia 8 de Maio, José Feliciano de Castilho fez e enviou, uma representação a Sua Majestade em que lhe dava conta destes e de outros factos e onde pedia que -
«se chegar ao Real Throno alguma representação do Ex.mo Bispo Conde Reformador Reitor para desvantagem do supplicante, Vossa Majestade suspenda toda a decisão e procedimento em consequência della até se informar com pessoas imparciaes e rectas da justiça da Representação; e pede sobre tudo a Vossa Majestade que o supplicante seja ouvido sobre tudo quanto se allega contra elle, pois que com tal destreza se pinta às vezes um facto indiferente e até muito virtuoso que parece um horrivel crime».
José Feliciano de Castilho diz saber que as investigações começadas no dia 11 de Abril tinham acabado no dia 27 do mesmo mês, sem que até à data tenha tido alguma notícia sobre o seu resultado nem tão pouco sobre o seu desterro e dos seus colegas Lentes. E diz que não tinha conseguido que o Bispo Conde o ouvisse, como seria normal, apesar das grandes diligências que tinha feito e das grandes protecções a que tinha recorrido. E o Bispo não só nunca o quis ouvir como não deu nenhum despacho aos requerimentos que lhe fez. A certa altura da sua representação diz que -
«o supplicante tem a doce satisfação de se persuadir que a fama pública não só o não argue de um só crime mas o sentençêa um fiel servidor de Vossa Majestade, e um promotor enérgico do Bem público: têm pois motivos occultos e sem relação com o serviço de Vossa Majestade os violentos procedimentos do Ex.mo Bispo Conde; que até ao princípio do mez passado achou o supplicante próprio para os principaes e mais árduos trabalhos da sua Faculdade; constantemente lhe prodigalisou os maiores elogios e sem lhe fazer nunca a mais leve advertência sobre o seu serviço passou de repente à Caixa para as esmolas dos doentes do Hospital (Caixa que, se tinha inconvenientes, desapareceria a um simples recado de Sua Excelência ao supplicante) – à suspensão de três Lentes, a um tempo ficando só dois e quatro oppositores (não há mais) sobrecarregados de serviço à proibição do supplicante e seus companheiros de entrarem no Hospital, chamados estudantes a jurar contra seus Mestres; perguntando-se-lhes até se o supplicante e seus Companheiros cumprião com as suas obrigações, lendo-lhes para isso o Estatuto; e se os remédios que applicavão erão os convenientes às moléstias; à prisão de toda a pessoa que soltava uma palavra a favor do supplicante – Não havendo na Corporação uma única pessoa (como consta de muitas cartas que o supplicante tem em seu poder) que em tal conjuntura se-atreva a falar ao Ex.mo Bispo Conde a favor do supplicante. – ao retiro de Coimbra cujos fins são vilipendiar o supplicante e seus companheiros no Magistério e no trabalho e tirar-lhes occasião de consultar sobre os seus terriveis requerimentos e indagar meios de se-defender, à proibição que fossem para Lisboa na certeza de que exporião a Vossa Majestade (por via do Governo destes Reinos) tão violentas vexações – a desterrá-los para lugares certos de que devem não sair; continuando neste degredo tanto tempo depois de acabada a averiguação do Hospital, que se-dava por causa do Retiro».






O caso da Caixa das Esmolas parece um mero e bem aproveitado pretexto para desancar o Director dos Hospitais Reais de Coimbra pessoa pouco querida da Igreja por razões que se prendem com a actuação de José Feliciano de Castilho enquanto Inspector dos Hospitais Militares no Hospital de Elvas.
Castilho, na representação ao Rei, avançou um dado possível - uma luta pouco honesta pelas cátedras da Faculdade de Medicina. Ao serem desterrados três Lentes, outras tantas vagas eram criadas para aqueles que as ambicionavam. Pouco honesto, tenebroso mesmo, mas possível, sendo Castilho o responsável pela ordem e pela colocação da Caixa, não se percebe a pena de desterro aplicada aos outros dois Lentes, nem a prisão dos dois estudantes e de todos aqueles que defenderam e abonaram a favor de Castilho. O próprio José Feliciano de Castilho o sugere quando diz que
«não pode demorar-se muito o trabalho da Faculdade; e convem a não poucos, que alguns dos actuaes Lentes saião, ou sejam preteridos: Dos seis Lentes Proprietários de que a Faculdade se compõe, três estão absolutamente impossibilitados para continuarem e não podem deixar de ser jubilados, no próximo despacho da Faculdade a saber João de Campos Navarro, 1º Lente da Faculdade, não há na Universidade esperanças de que volte para ella – 2º Joaquim Navarro de Andrade, 2º Lente, cruelmente doente de gota, quasi sempre de cama, com frequentes e terriveis ataques, que por isso não serve há uns três annos; he patente e elle mesmo o tem declarado, que nunca mais sobe à Cadeira; e finalmente está despachado por Vossa Majestade Director da Academia do Porto – 3º Pedro Joaquim da Costa Franco, 5º Lente, com estupor há annos, não só não servindo, mas não se podendo agora esperar que volte – António de Almeida Caldas, Lente substituto foi despachado por Vossa Majestade Deputado do Physico Mor do Exército, e como tal reside em Lisboa desde o anno passado – José Carlos Barreto; Lente substituto; Physico Mor do Exército reside sempre em Lisboa – Eis aqui pois effectivamente vagas três Propriedades e duas substituições, a continuar o mesmo número d’estas. Tal estado da Faculdade precisa pronto remédio. A serem despachados como he da Lei Novíssima, que regula este objecto, Os Lentes que restão, a ordem é a seguinte : 1º José Feliciano de Castilho, 2º Francisco de Sousa Loureiro, 3º Francisco Soares Franco, 4º Jerónimo Joaquim de Figueiredo, 5º Ângelo Ferreira Dinis. Continuando depois pelos Oppositores para um Proprietário que ainda falta, Substitutos, Demonstradores e Praticos dos Hospitais».
José Feliciano de Castilho não só insinua duma forma bastante afirmativa que «convém a não poucos, que alguns dos actuaes saião», como lembra ao Rei que «tal estado da Faculdade precisa pronto remédio».
A razão de todos estes episódios pode, contudo, ter sido apenas a consequência natural do episódio que ficou conhecido como Lanterna Mágica e corresponde a um acto de contestação ao Reitor através da afixação em Janeiro de 1817 de folhas manuscritas numa esquina do Convento da Trindade com o título deLanterna Mágica. Esses papéis foram copiados e divulgados por toda a cidade. Eram um conjunto de sátiras ao Reitor D. Francisco de Lemos (e a outras pessoas que o auxiliavam no governo da Universidade), especialmente a sua ida em 1808 a Bayonne (e a estadia prolongada) para saudar Napoleão, os gastos na ampliação do Jardim Botânico, o atraso no pagamento do ordenado aos lentes. Para descobrir os culpados foi instaurada uma devassa pelo Vice Conservador Bernardo José de Carvalho. Este concluiu que artigos publicados no “Jornal de Coimbra” tinham termos idênticos aos dos folhetos. Concluiu daí que os culpados eram os lentes de Medicina Ângelo Ferreira Dinis, Jerónimo Joaquim Figueiredo e José Feliciano de Castilho, que, de imediato, foram acusados de desleixo, incúria no tratamento dos doentes e má administração. Foram condenados ao afastamento das suas funções.




DOS CASTIGOS ÀS AGRESSÕES

Em 1815, exercia ele as funções de Lente da 1ª Cadeira de Prática de Medicina na Universidade de Coimbra, D. Miguel Pereira de Forjaz dirige um ofício ao Marechal Lorde Beresford, Marquês de Campo Maior, em que lhe dá conta que todas as diligências efectuadas no sentido de descobrir os culpados do insulto feito a José Feliciano tinham sido infrutíferas, não sendo possível descobrir os culpados.
O insulto prende-se com um caso de agressão física a José Feliciano de Castilho, que lhe terá causado feridas contusas no couro cabeludo e não se sabe se em outras partes do corpo. Várias testemunhas declararam que tinham sido soldados dos Batalhões n.º 6 e n.º 9 que em passagem por Coimbra e a caminho de Lisboa, o tinham agredido. Mas nenhuma das testemunhas os conseguia identificar. A condição de militares dos agressores é que justifica o referido ofício ao Marechal Lorde Beresford.
A agressão deu-se na noite de 27 de Junho de 1815 e Castilho imediatamente a participou. A Universidade iniciou uma devassa através do seu Conservador, que a nada conduziu, como se lê no ofício que José António de Oliveira, Lente da Universidade dirigiu a Manuel de Brito Mouzinho (ou Mozinho), Ajudante General, para que este desse conhecimento desta matéria a Beresford.
Por outro lado, há outro ofício dirigido igualmente a Manuel de Brito Mouzinho, para que este comunique ao Marechal Beresford que o Conselho de Investigação, tendo em atenção o relato e a acusação que o Desembargador do Paço e Auditor Geral do Exército faz de que os culpados seriam os soldados dos Batalhões n.º 6 e n.º 9, o não pôde provar.
Como se vê, foram várias as tentativas de investigação para apurar e declarar culpados os agressores de José Feliciano de Castilho. E a nada levaram essas investigações, mesmo partindo do pressuposto que os agressores eram soldados. As duas Devassas concluíram que os factos não foram provados e, se o fossem, não poderiam identificar-se os agressores.
Mas fica-nos a pergunta – porque teria sido agredido Castilho? E agredido de tal forma que não foi possível arranjar culpados, havendo testemunhas?
Fica a hipótese de tudo isto ter a ver com a acusação que sobre José Feliciano de Castilho tinha sido lançada de agitar a Universidade contra o seu Reitor. Seriam razões políticas? A agressão teria sido, e mais uma vez, um ajuste de contas? Ficam as dúvidas, mas não as respostas.




A PARTIDA PARA O BRASIL

Não existe nenhum documento que refira quando terminou o seu desterro. José Feliciano de Castilho acabou por ir ao Brasil pedir justiça a D. João VI, e sabe-se que terá recebido do Rei inúmeras provas de estima e consideração. Não sei se por interferência directa do Rei D. João VI, foi despronunciado em 1819 e regressou a Lisboa em 1821, acompanhando o Rei.
Esta ida ao Brasil para pedir justiça ao Rei nada terá a ver com o desterro a que foi condenado, mas com outros pronunciamentos de que Castilho foi vítima, nomeadamente a acusação que sobre ele tinha caído de ser o responsável pela agitação dos Lentes da Universidade de Coimbra contra o seu Reitor, D. Francisco de Lemos de Faria Pereira Coutinho.
Foi uma partida atribulada. Castilho embarca numa galera que partia a caminho do Rio de Janeiro, mas que teve de arribar a S. Tiago de Cabo Verde para reparações várias.
Nessa forçada estadia, Castilho aproveitou para estudar a fauna, os usos e a corografia da região e escreveu uma «Memória sobre a província de Cabo Verde» que ficou incompleta.




O JORNAL DE COIMBRA

Existem várias obras na Biblioteca Nacional e noutras, catalogadas com a autoria de José Feliciano de Castilho, mas a maioria dessas obras não foi escrita por ele, mas pelo seu filho mais novo que assinava como José Feliciano de Castilho e, algumas vezes, como hum português. Curiosamente, este filho viria a ocupar o cargo de Director da Biblioteca Nacional, onde existe um magnífico retrato seu, coisa que não existe relativamente a seu pai.
Em 21 de Junho de 1804, José Feliciano de Castilho solicita autorização a El-Rei para a publicação de duas obras intituladas «História do Governo de Medicina Militar desde a Prodigiosa Aclamação do Senhor Rei D. João 4º até hoje» e a «Importância do Departamento Médico-Militar Português pelo que diz respeito à Fazenda». Afirma Castilho nesse requerimento que essas obras serão impressas à sua custa e apenas pretende que «elas possam ser publicadas sem terem de levar a autorização das Censuras ordinárias».
E à margem deste requerimento de José Feliciano de Castilho a El-Rei, alguém de quem não se identifica o nome ou a função escreveu novamente o pedido de Castilho de «os seus trabalhos serem isentos das Censuras ordinárias», o que levou a que outra pessoa, também não identificada, tenha escrito à laia de despacho que «parece inadmissível a primeira parte de sua requisição, huma vez que não está admittida nestes Reinos a liberdade de imprensa, cujas consequências poderiam algumas vezes ser funestas».
O que levaria Castilho a solicitar uma autorização de despacho pouco
viável? Colocar em cheque as instituições obrigando-as a escrever e fundamentar um indeferimento que ele de antemão já sabia condenado ao insucesso? Pretendia com isso tirar algum dividendo político? Essas obras só vieram a ser publicadas dezoito anos depois, aquando do seu regresso do Brasil acompanhando o Rei.
Todas as suas obras se podem consultar nos vários números do Jornal
de Coimbra que fundou em 1812 (conjuntamente com Ângelo Ferreira Dinis) e publicou durante oito anos e se tornou talvez a publicação mais respeitada e influente dessa época. Não se pode ter uma noção correcta do que foram aqueles tempos, especialmente no que diz respeito à Saúde, sem uma consulta minuciosa ao Jornal de Coimbra que se pode encontrar especialmente na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, na Biblioteca Municipal de Coimbra e do Porto e na Biblioteca Nacional.
Da luta por este Bem Público sempre ele se reclamou. Numa carta de 29 de Novembro de 1812, vamos encontrá-lo novamente em luta, por problemas financeiros do Jornal de Coimbra, por via dos custos de impressão, despesas de Correio e preço baixo de cada exemplar, incapaz de cobrir as despesas, razão porque pede ao Erário que lhe garanta a compra de 50 exemplares, o que iria diminuir os custos na Impressão Régia. Nessa carta diz «eu e os meus desejamos fazer coisas muito boas, queira Deus que acertemos sempre. Se alguma coisa lhe desagradar ou poder ser melhor, rogo a V.ª Ex.ª por mui particular mercê m’o-faça comunicar». E diz ainda que os seus três filhos estão a acabar para publicação no mês seguinte, uma peça poética de Aclamação A Sua Majestade.




O QUE O PODER PENSAVA DELE

«Dom Francisco Xavier de Noronha do Concelho de Sua Alteza Real, e do de Guerra, Tenente General dos Seus Exércitos, Governador da Torre de Outão, Deputado da Junta dos Três Estados, Attesto que na Revista que passei no anno de mil oitocentos e hum ao Hospital militar d’Elvas, Praça que governei por Comissão Régia desde o anno de mil sete centos noventa e sete, e a que me restitui no anno de mil oito centos e hum, dando Sua Alteza Real por finda, a Licença com que eu tinha sahido d’ella, e estava na Corte; achei que os doentes estavao entregues a hum pernicioso abandono; a Fazenda Real administrada de uma maneira bem pouco conducente aos seus legítimos destinos, e levados a um incrível desleixamento o acceio e a polícia da Caza. Não sendo possível apezar das minhas activas diligencias, que o Serviço melhora-se em alguns dos pontos, por se acharem fora da minha jurisdição as fontes do mal, eu cheguei ao desgosto de ver de cento e quinze doentes do Hospital setenta e três sem lençoes; muitos sem enxergas taobem, e alguns até no chão; admirando isto tanto mais, porque não muito antes havia ali tudo o necessário para duzentos doentes, e havia além disso um muito bom sobrecellente sendo em proporção daquella disgraça o resto do serviço do Hospital. Neste afflitivo estado de couzas tão importantes escrevi d’officio no anno de mil oito centos e dois ao Inspector Geral sobre todas as Repartiçoens Civis do Exercito Francisco de Almada Mendonça, rogando-lhe as providencias, que tão necessárias se faziam; de quem tive imediatamente em resposta o Doutor José Feliciano de Castilho Primeiro Médico, e Inspector dos Hospitaes Militares, encarregado de examinar o estado do daquella Praça, de prove-lo de toda a gente, e Fazenda necessária, e de dar-lhe finalmente a Ordem que julga-se conveniente aos doentes, e à mesma Fazenda. Este Médico Inspector, em quem eu reconhecia tanta inteligência e, practica acerca dos Hospitaes militares, e de cuja honra, e zelo pelo Real Serviço eu me fiava tanto, que no anno de mil nove centos e noventa oito o tinha já encarregado de melhorar no que fosse possível o Hospital de São João de Deos da Corte, que então inspeccionava, como Deputado da Junta dos Três Estados, entrou immediatamente em matéria; fez-se senhor da forma do governo do Hospital; proveo-o de toda a Fazenda, e gente necessária; reformou-o sem violência, ou queixa de pessoa alguma; porem com mais de serviço de demora em Elvas, e reformou-o em todos e cada hum dos seus pontos, edifício, saúde, Fazenda, e Ordem; communicando-me sempre, altercando algumas vezes, e até nos conformarmos, e dillucidando-se em todo o cazo os seus passos de serviço, construindo, e deixando afinal um Regulamento interino para o mesmo Hospital, que era rigorozamente huma cópia da muito útil pratica nos pontos essenciais do mesmo serviço. Continuando aquelle Medico na Inspecção dos outros Hospitaes da Província d’Allentejo, e recolhido depois à Corte concervou comigo por alguns mezes huma activa correspondência a respeito do Serviço, que a pratica foi ainda mostrando meios de melhorar, e que effectivamente melhorou em alguns pontos; e foi a tal estado de perfeição assim em Ley, como em facto, que não podendo por tal sistema occultar-se o máo serviço do Hospital por insignificante, que fosse o seu objecto, eu cheguei a persuadir-me, que nunca decahiria. Antes porem de acabar o anno de mil oito centos e três eu tive a mágoa de ver tudo quasi perdido; tive necesidade de fazer advertência a este respeito de mão tratamento de doentes, fallando-se-me até em mortes por essa cauza; bem como em falta de Fazenda. Conhecendo eu então ao entrar no exame das cauzas da recahida, que o Regulamento interino do Doutor José Feliciano de Castilho hia perdendo todos os dias da sua observância; chegando a nem se parecer com a pratica daquelle Doutor a pratica que então havia no Hospital: confirmando-me ainda mal que hum sistema antes de exacta, e practicamente compreendido he um outro systema muito differente em outras mãos, que as do seu Author; prevendo-se que hum systema, que fazia marchar tudo tanto a descuberto, que seria absolutamente impossível occultar-se hum abuzo, quando o houvesse, havia de padecer grandes encontros; sendo regra de pouca excepçõens, que a virtude disfruta ordinariamente louvores; mas que os sucessos são pela maior parte a favor dos inimigos da virtude. E para constar aonde convier mandei passar a prezente por mim assinada debaixo do sinete das minhas Armas. Lisboa quatro de Abril de mil oito centos e quatro».




O RECONHECIMENTO

Fidalgo da Casa Real
Cavaleiro professo da Ordem de Cristo
Lente da Universidade de Coimbra
Primeiro Médico e Inspector dos Hospitais Militares das Províncias do Alentejo, Minho, Beira e Trás-os-Montes
Primeiro Médico da Câmara de D. João VI
Censor Régio do Desembargo do Paço
Sócio da Academia Real das Ciências
Membro da Instituição Vacínica
Primeiro Médico e Subinspetor da Colónia dos Suíços da Nova Friburgo (Comarca do Rio de Janeiro)




A MORTE

Morre a 5 de Março de 1826, em Castanheira do Vouga, em casa de seu filho padre Augusto Frederico de Castilho.