Diz o pai de Machado Santos, apontando o filho: quando ele se mete numa coisa leva-a até ao fim...

António Maria de Azevedo Machado Santos

O fundador da República Portuguesa:
1875 - 1921



Quando tudo aconteceu...

1875: Nasce em Lisboa a 10 de Janeiro. – 1891: Alista-se na Marinha em 29 de Outubro. – 1892: Aspirante de 2.ª classe ou 2.º comissário. – 1895: Comissário naval de 3.ª classe ou 3.º comissário. – 1908: Em Junho é iniciado na Carbonária; participa na revolta do 28 de Janeiro. – 1910: Tem o posto de 2.º tenente ou comissário de 2.ª classe, na altura da Revolução de 5 de Outubro de que é o principal protagonista; a 12 de Novembro funda o jornal o Intransigente. – 1911: É eleito deputado para a Assembleia Constituinte; galardoado com o posto de capitão-de-mar-e-guerra. – 1913: Tentativa revolucionaria de 27 de Abril. – 1914: Distúrbios em Lisboa na noite de 26 de Janeiro. – 1915: Movimento das Espadas. – 1915: Ditadura de Pimenta de Castro; é preso e deportado para os Açores. – 1916: A 13 de Dezembro chefia a revolta de Tomar; novamente preso vai para a prisão do Fontelo em Viseu. – 1917: Ministro do Interior no primeiro governo de Sidónio Pais. – 1918: Secretário de Estado das Subsistências e Transportes no segundo governo sidonista até 11 de Maio; em ruptura com Sidónio Pais propõe no Senado uma amnistia. – 1919: Organiza um grupo de combatentes que se bate contra os revoltosos monárquicos acampados na serra de Monsanto; salva a República, recolhe à vida privada e retira-se da actividade política. – 1921: Morre, assassinado, em Lisboa na noite de 19 de Outubro.


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Pequena nota sobre o narrador imaginário desta biografia:

Meu nome é José Carlos da Maia, sou oficial de Marinha, nascido em Olhão a 16 de Março de 1878 e tenho a honra de vir aqui falar do meu companheiro de sempre António Maria de Azevedo Machado Santos. Na vida e na morte estivemos sempre juntos. A Marinha, a Carbonária, o movimento revolucionário de 28 de Janeiro de 1908, a Revolução de 5 de Outubro de 1910, o Sidonismo de 1917-1918 e, por fim, a derradeira Noite Sangrenta de 19 de Outubro 1921, são alguns dos momentos da História de Portugal que vivemos em comum. É deles que é feita a vida de António Maria de Azevedo Machado Santos que passo a recordar:




VIR AO MUNDO

É um rapaz!.. Gritava satisfeito Maurício Paulo Vitória dos Santos.

Maria de Assunção Azevedo Machado Santos acabava de dar à luz. Ali, na velha rua da Inveja, entre a Mouraria e o Campo de Santana, nascia António Maria de Azevedo Machado Santos.

Chama-se Machado Santos, e não «Machado dos Santos», quer deixar bem claro o progenitor.

Nascido num meio social modesto Machado Santos depressa se dá conta das dificuldades da vida. O pai é um pequeno comerciante de poucas posses e deseja outros horizontes para o filho. Vou para a Marinha!... decide depois de ter liceado nas Portas de Santo Antão.

Alista-se com 16 anos, fazendo carreira na administração naval, não ostentando, portanto, nos galões o óculo que distinguia emblematicamente os chamados «combatentes». É um militar de secretaria sem formação de combate. Lá o vou encontrar quando, em 1897, também eu me decido pelo alistamento na Armada.

Ao que sei, politicamente Machado Santos começa por militar nas fileiras dos «dissidentes» de José de Alpoim, o grupo de «esquerda» monárquica que progressivamente se ia arredando das hostes da realeza para se aproximar das fileiras republicanos. Pouco dado a meias tintas, depressa procura melhores fileiras para o seu ritmo de marcha. O seu feitio intrépido em favor da causa republicana valera-lhe já, por parte dos camaradas de escola, a alcunha de «Presidente da República do Cartaxo».

Quando em Agosto de 1907 o capitão-tenente João José Serejo Júnior o procurou, expondo-lhe a necessidade de uma revolta, e mais tarde, Marinha de Campos e Mascarenhas Inglez, o procuraram com o mesmo intuito, já Machado Santos está mais do que conquistado para a revolução republicana.

Por causa de um artigo publicado no jornal O Radical, de que era director Marinha de Campos, Machado Santos responde em conselho de guerra, tendo como patrono o Dr. António Macieira. Absolvido, foi mandado para Angola no «Pêro de Alenquer», e ali se demorou 6 meses.

A sua adesão à causa republicana e a sua rápida e fulgurante carreira de conspirador e carbonário resultaram da oposição à ditadura franquista, iniciada em 1907 e rematada com o regicídio de 1 de Fevereiro de 1908.

Uns dias antes deste acontecimento, projectara-se a eclosão de uma revolução, estando esta marcada para 28 de Janeiro de 1908. Nessa altura combinei com Machado Santos algumas acções a desenvolver que, para infelicidade nossa, resultaram num enorme fracasso que leva à prisão de muitos camaradas envolvidos na revolta.

Machado Santos, António Granjo e eu próprio, todos bem implicados na revolta, tínhamos conseguido escapar. Outros, como o chefe dos monárquicos dissidentes José de Alpoim, puseram-se em fuga para Espanha.

A conspiração do Elevador, como passou a ser conhecido o movimento de 28 de Janeiro de 1908, saldou-se num desaire total para os intuitos dos amotinados.

Nem João Franco tinha sido aprisionado pelos revoltosos, nem Machado Santos consegue ocupar o Palácio Real das Necessidades.

Mas, apesar do desaire, a vida vai correndo de feição para os que almejam o fim da Monarquia.

Entre 1908 e 1909, a Carbonária Portuguesa quase dobra o número dos seus efectivos.

Por esta altura, já a C. P. contava com o contributo de Machado Santos, António Maria da Silva, Cândido dos Reis, António Granjo e tantos outros, como eu, que entravam nas fileiras carbonárias dispostos a não dar trégua à monarquia. O grão-mestre era Luz de Almeida.

Foi em Junho de 1908 que Machado Santos é iniciado neste exército secreto da revolução. Da Maçonaria, o irmão Championnet passa-se para a Carbonária disposto a levar as coisas mais a sério.

Contemporâneo de Luz de Almeida nas lides do liceu, Machado Santos contou-me como se processou a sua iniciação:



«Voltando no navio a Lisboa, em Junho, o primeiro camarada a quem procuro é Luz de Almeida.

(…)

Numa noite, conduz-me à Rua do Benformoso, depois de me obrigar a dar várias voltas, conseguindo perceber que no caminho trocava sinais, quase imperceptíveis, com vários indivíduos estrategicamente postados. Depois de me demorar uma boa meia hora, numa casa de espera, conduz-me, vendado, à sala onde se ia proceder à minha iniciação; ali se consumou o acto, parece que a contento de todos os mascarados.

Terminada a cerimónia, fui evasivamente abraçado por todos os presentes, sendo grande o meu desapontamento por não ficar conhecendo nenhum.»



No dia seguinte, num jardim da cidade, Luz de Almeida põe Machado Santos em contacto com António Maria da Silva e combinam uma reunião para essa noite, numa casa para os lados do Calhariz. Nessa reunião, com a presença de mais seis carbonários, Machado Santos é informado de que fora nomeado para fazer parte da Alta Venda, no seio da qual se encontrava nesse momento.

«Como é da praxe», contou-me ainda Machado Santos, «fizeram-se discursos, e por votação unânime elegeram-me presidente da mesma. Na primeira reunião deste alto corpo dirigente, combinou-se reunirmo-nos todos, o menor número de vezes possível, para não despertar suspeitas e, depois de aprovarmos um plano de acção maduramente estudado, resolveu-se que estivessem em contacto permanente: Luz de Almeida na qualidade de grão-mestre, António Maria da Silva como representante da Venda Jovem Portugal (o nosso corpo legislativo) e Machado Santos como representante da Alta Venda (poder executivo).

Todos os três, pelas 4 horas da tarde, largávamos da Câmara Municipal e, como pacatos burgueses, íamos a caminho do Rossio e Avenida, combinando acção, distribuindo trabalho, tanto quanto as nossas forças podiam comportar.

Na primeira reunião magna da Alta Venda consegui orientar o trabalho da Carbonária e por unanimidade resolveu-se recomendar a todos os associados o seguinte: Que cada um de per si tomasse à sua conta um soldado, de qualquer das armas ou serviços, fazendo-se seu amigo, falando-lhe ao coração, atraindo-o por todas as formas, de maneira que se identificasse por completo com a população de Lisboa.»

Umas vezes em casa de Machado Santos, na Rua de José Estêvão, outras no Jardim de S. Pedro de Alcântara ou onde calhasse fazíamos reuniões abertas a potenciais filiados, as quais não deixavam de produzir os seus frutos. O café A Brasileira, ao Chiado, era tido como o mais frequentado pelos carbonários, embora nunca se soubesse quem eles eram.

Nos aquartelamentos militares, os adeptos cresciam a olhos vistos. Luz de Almeida redige um pequeno folheto, intitulado A Cartilha do Cidadão — Diálogo entre o Médico Militar Dr. Ribeiro e o João Magala —, que tem enorme sucesso (três edições) entre os soldados, cabos e sargentos.

Dentro do mesmo objectivo, foram elaboradas outras publicações entre as quais os Barbadões, de Machado Santos, que consta de estrofes para serem cantadas com a música da Marselhesa.

Estes folhetos caem no agrado dos soldados que se vão republicanizando, ao mesmo tempo que servem para angariar fundos destinados a auxiliar as famílias dos carbonários que se encontram encarcerados.

A Polícia, porém, não conseguia grandes êxitos na sua acção repressiva. Quando assaltaram a casa de Machado Santos e lhe arrombaram os móveis, esquadrinhando por todos os cantos na busca de documentos, a Polícia tinha sido pouco feliz. Os agentes enganaram-se no andar e, em vez de arrombarem a porta de Machado Santos, arrombaram a porta do seu vizinho Ardisson Ferreira.

Apesar de parecer mais fácil passar um camelo pelo buraco de uma agulha do que um polícia entrar no reino da Carbonária, houve uma ou outra tentativa de se pretender fazer crer que a Polícia estava no bom caminho na luta pelo extermínio total da C. P.

Foi com essa intenção que se procurou comprometer a Carbonária, e principalmente Luz de Almeida, num homicídio que deu muito que falar em 1909 e que ficou conhecido como o «crime de Cascais». António Maria da Silva garante que a Carbonária nada teve a ver com o caso, e muito menos Luz de Almeida, que desconhecia totalmente o assunto. Contudo, este é obrigado a abandonar rapidamente o País, dado que a sua vida estava em grande perigo se continuasse em Portugal.

Luz de Almeida morava perto de S. Vicente. Poucas horas depois de ter abandonado a casa, a Polícia assaltava-lhe a residência, mas a essa hora já o grão-mestre vai a caminho da fronteira espanhola, atravessando o distrito de Castelo Branco.

«Partiu imensamente pesaroso», recorda António Maria da Silva. «Foi o maior desgosto da sua vida o não assistir à última etapa da sua acção revolucionária.»

Antes de partir, entregou a António Maria da Silva um documento em que o nomeava apto a desempenhar as funções de grão-mestre da Carbonária Portuguesa. A Alta Venda, que até aqui era formada por Luz de Almeida, António Maria da Silva e Machado Santos, passava agora a contar apenas com os dois últimos. Estava-se em vésperas da revolução que iria trazer a República para Portugal.




NO 5 DE OUTUBRO

Pouco faltava para a uma da manhã de dia 4. Do Centro Republicano de Santa Isabel, situado nas proximidades do quartel de Infantaria 16, em Campo de Ourique e onde combinara encontro com o grupo carbonário chefiado pelo civil Meireles, Machado Santos sai para cumprir a missão que lhe fora confiada. Apenas dispõem de catorze armas. Mesmo assim não hesitam, nem sequer esperam o quarto de hora que ainda falta para a hora combinada. Tomam Infantaria 16 onde os sargentos tinham sido já conquistados na totalidade por Machado Santos.

Não muito longe dali, em Artilharia 1, o capitão Afonso Pala procura cumprir a parte que lhe coubera nesta jornada histórica. É ele a quem cabe dar ordem de fogo aos canhões que vão anunciar o início da revolução. Este está marcado para a uma da manhã.

Se em Infantaria 16 os carbonários não esperam pela hora, em Artilharia 1 ainda não era meia-noite e meia hora e já esses revolucionários civis estavam dentro do quartel.

Porém, a tarefa de Afonso Pala encontra dificuldades com que não contava. A antecipação do ataque ao quartel de Campo de Ourique fizera accionara o alarme geral por parte do Comando Militar da Divisão.

Entretanto, chega a informação do suicídio do Almirante Cândido dos Reis, carbonário e chefe militar da sublevação.

Seriam cerca de 7 horas da manhã do dia 4 quando a notícia da morte do almirante Cândido dos Reis chegou à Rotunda. O velho militar republicano e chefe carbonário aparecera morto, para os lados de Arroios. Suicidara-se ao julgar que a Revolução voltara a falhar.

No acampamento revolucionário a noticia causa grande abalo. Os oficiais presentes decidem reunir em conselho. Ao todo não chegam a ser uma dúzia. Na cocheira do palacete do conde de Saborosa reúnem duas vezes para avaliar a situação. Concluem que não há nada a fazer e votam por abandonar o local. Há apenas um voto contra: Machado Santos.

Vestem-se à civil e partem cada para seu lado. Um é teimoso e fica: Machado Santos.

Os que partem alegam que o plano geral tinha falhado e que o Governo podia dispor de forças mais que suficientes para esmagar a concentração da Rotunda. Os 4470 soldados e os 3771 polícias controlados pelo estado-maior monárquico chegavam e sobravam para dar cabo das quatro centenas de carbonários civis e militares que estavam no Parque. A Marinha tardava em dar sinal de si. Os dirigentes políticos do Directório tinham faltado nos locais combinados.

Agora sem oficiais, Machado Santos manda tocar a sargentos. Respondem nove. Estão para o que der e vier. São todos carbonários. Vão ficar na História: serão os comandantes dos menos de 200 militares que restam depois da saída dos oficiais. Alguns jovens cadetes da Escola de Guerra estão lá também. O reduto revolucionário dispõe de oito peças para sustentar a sua defesa pesada. As barricadas são aquilo que se pode arranjar: toscas, improvisadas, incapazes de resistir a um ataque a sério das forças monárquicas.

Ao meio-dia e meia hora começam a chover as primeiras granadas que anunciam a chegada de Paiva Couceiro à frente das baterias de Queluz. A pontaria não é de aprendiz de artilheiro. Caem em cheio sobre a primeira linha de fogo. O duelo de peças é feroz e intensa a fuzilaria que envolve por completo a Rotunda. No meio do combate, Machado Santos olha para o lado e vê, ainda vestido a paisana, um dos oficiais que tinha abandonado o acampamento revolucionário. Era o alferes Camacho Brandão, que regressava para se pôr ao lado dos que aquela hora já morriam pela República. De volta a Rotunda, é-lhe confiado comando das peças que vão conseguir suster o ataque de Paiva Couceiro. Durante toda a luta, dirigiu o tiro de artilharia com um tal convencimento que pôs as tropas monárquicas em completo desnorteio. Comandava o fogo das peças com «tanta serenidade e com um movimento de braços tão compassados como se estivesse dirigindo a orquestra de S. Carlos!»

Por volta das quatro da tarde, as baterias de Queluz entendem que o melhor é voltarem para as frescas bandas da Serra de Sintra e com este ânimo põem-se a caminho da respectiva unidade.

Ao romper da alvorada de dia 5 já a República podia ser dada como certa em Portugal. Finalmente a Marinha estava onde era ansiosamente esperada pelos resistentes do Parque.

Os «doidos» da Rotunda tinham mesmo conseguido pôr fim a oito séculos de Monarquia. A teimosia do seu chefe fizera-se História.

Às oito e trinta da manhã de dia 5, Machado Santos desce pela Avenida a caminho do quartel-general monárquico instalado no Palácio do Almada, no Largo de S. Domingos. Vai acontecer o último acto do regime real.

«O herói levava a farda desabotoada, poeirenta, barba de três dias e só uma dragona.» No meio de uma multidão, que o arranca de cima do cavalo e o leva ao colo até a entrada do Palácio, Machado Santos vem acompanhado de uma guarda de honra de soldados, marujos e civis, «num desalinho impressionante, mas empunhando as carabinas com aquela decisão e desenvoltura de quem iria vender a vida pelo preço de um por dez.» — Diz quem viveu esse momento ao seu lado.

«Aos que ficaram na Rotunda tremeu-lhes a passarinha durante aquela meia hora de ausência do Chefe, até a população surgida de toda a parte coalhar como um mar de gente a Avenida da Liberdade de lés-a-lés.» — Recorda o herói.

Seriam para ai umas três da tarde, quando Machado Santos volta a Rotunda: — «e então que caras eu lá vi!»

«Todos me tratavam democraticamente por tu, mesmo pessoas que eu nunca vira; todos desejavam tornar-se vistos por mim para mais tarde eu poder certificar que haviam estado na Rotunda! Mas os valentes, os heróis, esses quedaram-se muito sossegados à sombra das árvores como que envergonhados da vitória alcançada e que só ao seu heroísmo era devida!»

Mas se a Revolução estava ganha e a República triunfante, começava todavia o drama republicano, a longa e laboriosa tragédia do regime que havia de ser decapitado dezasseis anos depois daquela madrugada esplêndida. Antes de mais, o Governo cuja composição foi anunciada nas varandas da Câmara Municipal não correspondia àquele que Machado Santos e outros desejavam.

O Governo que acompanha a proclamação solene da República, do alto das varandas da Câmara Municipal de Lisboa, põe logo indisposto o comandante revolucionário. Estava quase todo trocado. Ainda durante a manhã do dia 5, Machado Santos volta para junto dos seus carbonários na Rotunda, e, não fora a feliz ideia de Brito Camacho de promover a ida do novo Governo ao acampamento do alto do Parque Eduardo VII, talvez as comemorações da Revolução republicana não fossem hoje exactamente no dia 5 desse mês.

As suas primeiras palavras, ainda na Rotunda de 5 de Outubro de 1910: «Já não há inimigos! Hoje todos os portugueses, trocando abraços fraternais, vão colaborar na obra de regeneração da Pátria! Já não há inimigos! Há só irmãos!» São palavras que não deixam adivinhar o destino trágico de onze anos mais tarde mas serão as primeiras e as últimas pronunciadas neste tom de crença.

No dia 1 de Dezembro, O Intransigente, jornal fundado por Machado Santos, dava a estampa o artigo «Revolucionários para arranjarem emprego», onde me recordo de ler o seguinte:

«Muita gente imagina que isto da República é empregar toda a gente de afogadilho.

Machado Santos, entretanto, ainda com a mochila da Rotunda por desarmar, ia assistindo a este rosário de conversões e a todo o desenrolar do que estava a acontecer a sua jovem República.

Na recepção na tarde de dia 8 de Outubro no Ministério da Guerra, no Terreiro do Paço, Teófilo Braga, então presidente do Governo Provisório, enaltece o principal obreiro do Cinco de Outubro e, levando-o à varanda do Ministério, apresenta-o ao povo:

— Eis a alma da Revolução e da vitória. Foi Machado Santos quem, nos momentos de maior perigo, incutia a todos que o rodeavam a coragem necessária para continuar a luta que foi tão gloriosa.

A apresentação ao povo tinha sido precedida de uma das estiradas e confusas digressões da enfadada e sonolenta filosofia, que tanto caracterizavam Teófilo Braga.

Do homem que passara tranquilamente instalado na sua casa os dias decisivos da Revolução e que a ela se referia mais tarde dizendo «que ouvira uns tiritos para o lado de Lisboa» — mas que era agora o chefe do primeiro ministério republicano — escutará ainda Machado Santos estas célebres palavras:

— O senhor é como um bom sapateiro que, depois de acabar a obra, a vai entregar ao freguês, mas tem o direito de ver o seu nome à esquina de uma rua.

Machado Santos riu-se e respondeu a Teófilo Braga:

— Olhe, senhor doutor. Eu estou a achar muita piada a tudo quanto se tem passado depois do 5 de Outubro...

Tinha 35 anos incompletos, este comissário naval de terceira classe, que nunca mais iria calar a sua voz de protesto até que as balas do Dente de Ouro a silenciem para sempre em 19 de Outubro de 1921.

Com o Governo Provisório anunciado do alto da mais solene varanda destinada as aclamações alfacinhas começara oficialmente a República e, simultaneamente, uma nova luta para aquele que era, afinal, o maior responsável por essa possibilidade do 5 de Outubro de 1910.

«Aquilo» que era apresentado como Governo não correspondia com o que tinha ficado assente nas reuniões preparatórias da Revolução.

Machado Santos levará o resto da vida — até ser assassinado em 19 de Outubro de 1921 — num constante e permanente estado de revolta indignado com a «traição» dos grandes caudilhos do Partido Republicano que planearam o «golpe do Governo Provisório» enquanto ele e meia dúzia de audazes se batiam na Rotunda.

As alterações de surdina ao Governo Provisório inicialmente consensado foi a estreia a amostra e o desnudar das grandes linhas por onde se vai coser o futuro da I República Portuguesa.

A começar precisamente pelo pai, fundador, implantador, herói e tudo o mais que se entenda para o papel de Machado Santos em 5 de Outubro de 1910, a sua República morreu quase antes de ter nascido.

Heróis daquela histórica epopeia era agora algo a que pouco se ligava ou respeitava. A Machado Santos chamam-lhe herói de merda. Já não se canta com gosto aquela trova com que o povo expressava o seu ódio ao monarca espanhol apoiante das tentativas couceiristas, e que começava assim: «O rei de Espanha tem só meio bigode e a rainha não é com ele que…»

— Mas um ano de República — ou, antes, onze meses revolucionários de Outubro a mais profunda das desilusões, a mais cruel decepção... Não era isto que todos sonhavam; não era isto o que a todos arrastou ao combate...

Com apenas 365 dias de revolução era assim que falava o principal obreiro do 5 de Outubro de 1910.




COM SIDÓNIO PAIS

Estamos agora no dia 9 Dezembro de 1917; Machado Santos chega à estação de Campolide, onde Sidónio Pais o vai receber em apoteose depois do sucesso do seu golpe militar de 5 de Dezembro.

Sidónio tinha conseguido o concurso de figuras gradas da Revolução Republicana. No quarto n.º 33 do Hotel Borges, na Rua Garrett, Sidónio Pais chega a receber um grupo de oficiais fugidos dos cárceres de Fontelo, em Viseu, onde estavam detidos juntamente com Machado Santos, o herói do 5 de Outubro de 1910, por com ele terem participado na revolta de Tomar, em Dezembro de 1916.

Nessa noite, da chegada de Machado Santos, o capitão Eurico Carneira, os tenentes Teófilo Duarte e Sá Guimarães e o alferes Santos Ferreira irão a Belém entregar ao presidente da República um documento em que lhe é proposta a renúncia.

Bernardino Machado é obrigado a levantar-se da cama, sendo-lhe participado que a Junta Revolucionária, presidida pelo major Sidónio Pais, decidira depô-lo de presidente da República, ficando, desde já, detido e incomunicável, bem como toda a família, secretários, criados e guardas.

No dia 12, o Diário do Governo publica a destituição de Bernardino Machado; assinam-na: Sidónio Pais, Machado Santos e Feliciano Costa.

Machado Santos, o heróico revolucionário de 5 de Outubro de 1910, justamente tido como o pai da República, eu próprio, José Carlos da Maia, também protagonista célebre da Revolução Republicana, Vasconcelos e Sá, igualmente um dos principais obreiros do 5 de Outubro de 1910 e alguns outros republicanos de primeira estirpe, dávamos ao movimento de Sidónio Pais uma certa credibilidade republicana e faziam do sidonismo algo em que se podia confiar à primeira vista.

Mas nem tudo são rosas no presidencialismo sidonista.

Logo nos primeiros dias, pelo menos 242 marinheiros vão parar a Caxias e só voltarão a entrar num navio quando Sidónio decide enviá-los para África, mais como desterrados do que como combatentes.

Pereira dos Santos, um chefe da Polícia deste tempo, conta, no livro das suas Memórias, que Machado Santos, então ministro do Interior, o mandara chamar para que fossem arranjadas as coisas de forma a, pouco a pouco, se restituir os marinheiros à liberdade.

Fala em 460 marinheiros presos e alega ter solto alguns que se encontram detidos na cidadela de Cascais. Por este trabalho não esconde ter recebido uma recompensa de 800$00, que o ministro do Interior lhe envia como prémio.

Pouco se sabe da credibilidade das Memórias deste polícia, contudo, Machado Santos não será daqueles que se mostraram mais indiferentes perante a escalada da repressão sidonista.

Os dias vão passando, e, ao mesmo tempo que no Porto o delegado da Junta Revolucionária sidonista, Belchior de Figueiredo, se declara contra o Governo, Machado Santos, o eterno insatisfeito da I República, começa a pensar melhor a sua posição. Problemas originados por uma greve nos caminhos-de-ferro são o primeiro pretexto para que, no dia 14 de Junho, abandone também o Governo de Sidónio Pais.

O sidonismo estava já a rebentar pelas costuras, que nunca cosera suficientemente.

Por esta altura, Machado dos Santos entrava abertamente na contestação ao sidonismo. A excessiva abertura que Sidónio estava a conceder aos monárquicos levava o promotor da República a ficar preocupado.

Ultimamente, defendia a opinião de que era necessário estabelecer urgentemente relações com os verdadeiros republicanos.

O homem da República já não podia suportar mais o que se estava a passar. Lamentava-se das ingerências do Conselho Económico, organismo todo-poderoso que Sidónio criara para contento de meia dúzia de super-ricaços, entre os quais se contavam o industrial Alfredo da Silva, o poderoso lavrador António Cidrais, o visconde Ferreira Lima e o antigo ministro da Fazenda do último Governo monárquico, Anselmo de Andrade.

Machado Santos desliga-se de tudo o que o prende ao Governo sidonista e abandona, até, o partido de Sidónio, recolhendo-se a uma pequena casa que consegue para os lados do Estoril.

Estamos, então, em Julho de 1918. Quando o Verão se fazia sentir na tranquilidade dos seus dias, Sidónio estava intranquilo na sua aventura. Ao fim e ao cabo, talvez a quisesse republicana, mas, na verdade, só os monárquicos a apoiavam.

O meu nome: José Carlos da Maia, deixa a pasta da Marinha. Desgostoso com determinados aspectos da política seguida pela nova situação que eu ajudara a fundar, mas que não via levar o caminho que sonhava, escrevi uma carta a Sidónio, pedindo que me dispensasse, e afastei-me.

Em Outubro dá-se o caso da «Leva da Morte» que resulta no assassinato do histórico dirigente republicano visconde da Ribeira Brava.

De entre as razões apontadas pela imprensa republicana destacam-se os factos de tudo isto se ter passado a uma meia dúzia de metros da sede da Polícia, de ser inadmissível que Ribeira Brava fosse portador de qualquer pistola (que, aliás, nunca foi encontrada) e, acima de tudo, o insólito caso de esta coluna de presos tão rigorosa ser precedida de toques de corneta e tambores, como que a referenciar bem a sua localização.

Em Dezembro, quando o sidonismo estava a poucos dias de perder o seu chefe, Machado Santos lança um impetuoso libelo contra a monstruosidade da repressão sidonista, referindo, em particular, as traiçoeiras prisões de combatentes da Grande Guerra apanhados a gozar as suas férias ou regressados definitivamente das trincheiras.

Foi na sessão de abertura do Senado, em 3 de Dezembro, que Machado Santos haveria de deixar lavrada a seguinte passagem do seu protesto:

«...Factos revoltantes como este posso citá-los aos centos e invocar o testemunho dos dez mil e tantos presos políticos que se encontram nas cadeias, com a seguinte nota de culpa: «preso às tantas horas do dia tal pelo agente fulano»...

Sidónio estava, de facto, a caminho do fim. Aos poucos, tinha sido abandonado pela maior parte dos seus mais dedicados colaboradores e agora poucos eram os que se dispunham acompanhá-lo no seu «desvairo messiânico».

Entretanto, a situação no Porto tornava-se cada vez mais confusa. Sidónio decide ir ele próprio à capital do Norte e tentar resolver pessoalmente os problemas levantados pelas Juntas Militares.

— «Mataram o Sidónio! Mataram o Sidónio!»

Um homem de capa alentejana, que umas horas antes jantara no Restaurante Silva, tinha acabado de disparar contra o presidente Sidónio Pais.

É tudo tão rápido que só por mero acaso o autor dos disparos foi preso no local. Na infernal confusão, a Polícia e a Guarda acometem o justo e o pecador, distribuindo coronhadas ao acaso e desencadeando um furioso tiroteio, que atinge tudo o que está perto.

No chão, Sidónio Pais agonizava, perante os esforços infrutíferos do capitão Carneira, que tenta, a todo o custo, salvar a vida do presidente, protegendo-o com o seu corpo do tiroteio a que se assiste.

«Morro bem! Salvem a Pátria!», afirmam alguns que Sidónio teria dito ao despedir-se deste mundo. Contudo, sobre a autoria destas últimas palavras parece já a maioria estar certa não ter sido Sidónio quem as proferiu.

Estava-se, então, já a muitos dias da data gloriosa para a causa republicana. A I República aproximava-se do fim. No final estavam, porém, desde há muito, quase todos os que se haviam destacado nesses dias de Outubro.






NA NOITE SANGRENTA DE 1921

Eram duas horas da madrugada. A Camioneta Fantasma estava parada junto ao n.º 14 da Rua de José Estêvão, no Bairro da Estefânia. António Maria de Azevedo Machado Santos, o Machado Santos do 5 de Outubro de 1910, tem a sinistra viatura à sua espera. No segundo andar do prédio que habita, está já cabo Olímpio, o Dente de Ouro.

À ordem dos marinheiros, o guarda-nocturno abrira a porta da escada aos invasores. As coronhadas nos degraus acordam todo o prédio sob sono da madrugada. Um cunhado de Machado Santos, a ler na cama, ouve a barulheira. Pressentindo desgraça, apressa-se em proteger a família.

Na casa de Machado Santos, a esposa do almirante acorrera ao toque da campainha, procurando saber quem é àquelas horas da madrugada:

— Marinheiros! — Respondem de fora, com arreganho. — Queremos o Sr. Machado Santos. Tem de ir falar com o capitão Procópio de Freitas!

O almirante, já ao lado da esposa, vestido como calha, segreda que é melhor ela dá-lo por ausente de Lisboa.

— Ou abrem ou bombardeamos o prédio — ameaçam os intrusos, face à desculpa que os pretende iludir.

Seguidamente, um enorme fragor estremece a porta do almirante, ressoando por todo o prédio. Um tiro disparado no patamar era aviso de que o grupo do Dente de Ouro não se ralaria nada em fazer aquilo que ameaçava.

Machado Santos abre a porta, decidido a enfrentar a horda. A esposa treme em soluços de aflição.

— O que me querem?

A única resposta à vista são as armas engatilhadas dos marinheiros.

Pergunta de novo o que lhe querem.

Dizem-lhe que têm de o levar ao Arsenal, onde o capitão Procópio de Freitas pretende falar-lhe.

— É de mais! — protesta Machado Santos, já sem paciência. — Vocês esquecem-se de que sou vosso superior! De que sou almirante!

Um dos marinheiros começa a bufar de irritação:

— Ai... ai...

O Dente de Ouro, sem cerimónia e já experiente neste tipo de situações, toma a iniciativa de levar, fosse de que maneira fosse, a sua nova vítima. Arrogante, sabendo tudo o que pode fazer, bate com a coronha no sobrado, reforçando a ordem de marcha.

O almirante verifica ser inútil e perigosa qualquer resistência, em especial para as pessoas da família ali presentes. Um filho de Machado Santos estava, de pijama, no corredor, de pistola em punho e disposto a defender o pai.

Depois de acabar de se vestir, o distinto oficial da Marinha de Guerra Portuguesa mete tabaco no bolso, abeirando-se da esposa, que chora convulsivamente. Aperta-a numa última despedida e beija-a com veemência. Ela, em desespero, agarra-o pelos braços e pede-lhe que não vá. As lágrimas correm-lhe a fio, os soluços mal deixam perceber as suas palavras:

— Ai que mo vão matar! Ai que mo matam!

— Qual matar! Olha que ideia! — comenta cinicamente o Dente de Ouro.

— Nós levamo-lo ao Arsenal e trazemo-lo já — afirma outro dos criminosos.

— Não! Não o levem!

— Acabemos com isto. Vamos! — atalhou o Dente de Ouro, determinado em acabar com a conversa.

Faltavam alguns minutos para as duas da madrugada. Machado Santos entra na camioneta que tem à porta. Senta-se ao lado do condutor. O cabo Olímpio ajeita-se e senta-se ombro a ombro com o almirante.

A menos de 50 metros situa-se o Quartel de Cabeço de Bola, cuja porta de armas fica mesmo no enfiamento directo da casa de Machado Santos. As sentinelas desta unidade da GNR, onde se encontravam bem armadas duas companhias de Infantaria e um esquadrão de Cavalaria, assistem a tudo sem esboçar qualquer vontade de intervir.

A Camioneta Fantasma leva mais um condenado à traiçoeira morte que desde o princípio da noite espalhava o terror sobre Lisboa.

Pela Avenida Almirante Reis abaixo rola em direcção ao Arsenal da Marinha, transportando o mais famoso oficial da Armada republicana para a derradeira viagem da sua vida de pouco mais de quarenta e seis anos cheios de grandeza e de glória.

— Desça, almirante, que vai ser fuzilado!

Junto ao Largo do Intendente, uma avaria súbita no motor da camioneta impedira-a de continuar a marcha com destino ao Arsenal.

Os facínoras não perdem tempo:

— E se a gente o matasse já aqui? Temos de voltar cá a trazê-lo— adianta um dos marinheiros, aludindo às proximidades da morgue. Machado Santos não se deixa impressionar com as ameaças. Fala, discute, protesta: «E a voz daquele ingénuo, que quis ser político, jornalista, revolucionário e vai ser, de encontro a uma parede, um farrapo humano a escorrer sangue por todas as feridas, responde:

— Veja — diz ele para o bandido que lhe fala — que as minhas pulsações não aumentaram.»

No silêncio e solidão da Noite Sangrenta, um carro de aluguer, cedido pelo seu ocupante — um empresário de teatro que, mais tarde, aparecerá envolvido num famoso crime de estrangulamento —, leva para o necrotério o corpo do almirante. Os marinheiros que o transportam, ao apeá-lo do carro, sentem gemer e estrebuchar. Antes de entregarem o moribundo aos maqueiros da morgue, dão-lhe o golpe de misericórdia, acabam a obra cruenta à coronhada e a tiro.

Era manhã de mais um dia de Outubro de 1921. Neste mês fazia onze anos que o destemido oficial subalterno da Marinha gravara o seu nome na mais brilhante página da história republicana portuguesa.

Na verdade, não podia o destino reservar-lhe pior sorte. Um movimento revolucionário comandado pelo principal herói da que tinha sido, em 1891, a primeira grande revolta pela República, acabava, agora, em 1921, com a vida daquele que tinha conseguido levar aos apogeus do triunfo essa mesma República.




Nota final sobre o autor imaginário desta biografia

Poucas horas antes da morte de Machado Santos, José Carlos da Maia é também assassinado pelo bando do Dente de Ouro.