Agora, Portugal é todo o território de língua portuguesa...

Agostinho Da Silva

Filósofo:
1906 - 1994



Quando tudo aconteceu...

1906: Filho de Francisco José Agostinho da Silva e Georgina do Carmo Baptista da Silva, George Agostinho Baptista da Silva nasce no Porto, freguesia da Campanhã, a 13 de Fevereiro – 1906: Muda-se para Barca D’Alva, onde vive os primeiros da sua vida - 1912/1913: Regressa ao Porto, onde ingressa no ensino primário (Escola de São Nicolau) – 1909: Nasce a irmã Estefânia Estrela, a 27 de Janeiro – 1910: Nasce a irmã Maria Cecília, a 5 de Janeiro. Estefânia Estrela morre com apenas 18 meses - 1913: Faz o exame de primeiro grau com distinção – 1914: Faz o exame da 4ª Classe e ingressa na Escola Industrial Mouzinho da Silveira – 1916: Ingressa no Liceu Rodrigues de Freitas – 1919: Com o esmagamento da «monarquia do Norte», o pai, Francisco José Agostinho da Silva, é preso e demitido da função pública – 1924: Conclui o curso geral dos liceus com a classificação de 20 valo­res e ingressa na Faculdade de Letras do Porto para cursar Românicas mas, transfere-se, no mesmo ano lectivo, para Filologia Clássica – 1928: Licencia-se em Filologia Clássica com 20 valores, defen­dendo uma tese sobre o poeta latino Catulo. Insurge-se con­tra a extinção da Faculdade de Letras do Porto e com um decreto que impõe a separação dos sexos nas escolas em todos os locais onde existisse mais de uma escola; começa a colaborar na Revista Seara Nova – 1929: Defende, com distinção, a sua dissertação de doutoramento: O Sentido Histórico das Civilizações Clássicas – 1930: Parte para Lisboa, onde frequenta a Escola Normal Superior. Contrai matrimónio com Berta David – 1931: Parte para Paris, com uma bolsa, e faz uma pós­-graduação na Sorbonne com uma tese sobre Mon­taigne. Paralelamente, frequenta o Collège de France, onde aprofunda os seus conhecimentos em história e literatura francesa. Na capital francesa convive com exilados polí­ticos famosos: António Sérgio, Jaime Cortesão e Jacinto Simões – 1933: Regressa a Portugal. Concorre para professor efectivo dos liceus e é aprovado, classificando-se em 1.° lugar, sendo colo­cado no Liceu José Estevão, em Aveiro – 1935: Candidata-se, através de concurso público, para leccio­nar em Moçambique e é aprovado. Não assina a declara­ção de fidelidade ao Estado Novo que os normativos que regem a Lei Cabral impõem e é demitido do ensino público. Desempregado e desencantado com o clima político que se vive em Portugal, aceita um convite de Joaquim de Carvalho e fixa-se em Madrid como bolseiro do Ministério das Relações Exteriores, onde frequenta o Centro de Estudos Históricos de Madrid, investigando sobre o misticismo espanhol – 1936: Regressa a Portugal devido à iminência da Guerra Civil Espanhola e é convidado a leccionar no ensino secun­dário particular. O Colégio Infante de Sagres é um dos poucos locais onde consegue trabalho – 1938: Nasce-lhe o primeiro filho, Pedro Manuel. Abandona a Revista Seara Nova – 1939: Participa na criação do Núcleo Pedagógico Antero de Quental. Nasce a filha Maria Gabriela. – 1940: Começa a compor a série Iniciação – Cadernos de Informação Cultural – 1943: A edição de O Cristianismo, o endereçamento de uma carta ao cardeal Cerejeira e a realização de algumas palestras em locais conotados com a esquerda levam à sua prisão pela polícia política de Salazar. Detido no Aljube, é ordenada a confiscação da sua biblioteca. É libertado, por pressão de um grupo de intelectuais, umas semanas depois. Triste e des­motivado, suspende a publicação das séries dos cadernos que dirigia – 1944: Abandona Portugal e parte para a América do Sul. Entra pelo Rio de Janeiro e depois dirige-se para São Paulo – 1945: Abandona o Brasil e instala-se no Uruguai. Inicia um novo percurso afectivo com Judite Cortesão, filha do historiador Jaime Cortesão – 1946: Nasce a filha Carlota, fruto desta última ligação (de Judite Cortesão, terá mais cinco filhos). Vive na Argentina e aceita o convite da Escola de Estudos Superiores de Buenos Aires para organizar cursos de Peda­gogia Moderna – 1947: Regressa definitivamente ao Brasil. Instala-se em São Paulo mas, em seguida, fixa-se na Serra de Itatiaia – 1948: Abandona a Serra e instala-se no Rio de Janeiro. Nesta cidade, trabalha no Instituto Oswaldo Cruz (dedicando-se ao estudo de entomologia), ensina na Faculdade Fluminense de Filosofia e colabora com Jaime Cortesão, na Biblioteca Nacional – 1949: Seu pai morre em Portugal, após prolongada doença – 1952: Integra o corpo docente da Universidade de Paraíba (João Pessoa) e lecciona também em Pernambuco – 1953: Trabalha no Instituto de Biologia Oswaldo Cruz – 1954: Participa, ao lado de Cortesão, na organização da Exposição do 4º Centenário da Cidade de São Paulo – 1955: Desloca­-se a Portugal para visitar os filhos do primeiro casamento e passa, quase clandestinamente, por óbvias razões políticas, uma curta temporada de férias no Baleal. É empossado como director de Cultura do Estado de Santa Catarina. Funda a Universidade Federal de Santa Catarina. – 1957: Sua mãe morre em Lourenço Marques, Moçambique – 1958: Naturaliza-se cidadão brasileiro. Integra a Comissão Instaladora da Universidade de Brasília – 1959: Cria o Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO) e ensina Filosofia do Teatro na Universidade da Bahia – 1961: Torna-se assessor para a política externa do Presidente Jânio Quadros. Após uma curta passagem pelo Rio de Janeiro e Santa Catarina, fixa-se em Brasília – 1962: Colabora na fundação da Universidade de Brasília e cria o Centro de Estudos Portugueses na mesma Universidade. Desloca-se a Portugal a fim de discutir os estatutos desse Centro de Estudos. – 1963: Equiparado a bolseiro da UNESCO, visita o Japão. Em Tóquio dá aulas de português. Aproveita a sua ida ao Oriente para conhecer Macau e Timor. No mesmo ano vai aos Estados Unidos da América. Regressa posteriormente ao Senegal – 1964: Fixa-se em Cachoeira (Baía) e Salvador (onde congemina a formação do Museu do Atlântico Sul no Forte de São Marcelo). Em Cachoeira funda a Casa Paulo Dias Adorno – 1965: Publica em Lisboa, na revista O Tempo e o Modo, o ensaio «Aqui falta saber, engenho e arte» – 1968: É eleito membro da Academia Internacional de Cultura Portuguesa – 1969: É autorizado a regressar a Portugal com um visto provisó­rio de um ano – 1972: Inicia uma colaboração regular na revista Vida Mundial – 1975: Já reinstalado em Portugal, visita a Galiza – 1976: Requer a aposentação como professor titular das universi­dades federais brasileiras – 1983: É nomeado director do Centro de Estudos Latino-Ame­ricanos do Instituto de Relações Internacionais da Universi­dade Técnica de Lisboa – 1984: Desempenha funções como consultor do ICALP (instituição antecessora do Instituto Camões – 1985: É nomeado delegado no nosso país da Universidade de Santa Catarina – 1987: É condecorado pelo Presidente da República português Mário Soares, por serviços prestados à cultura nacional, com a Grã-Cruz da Ordem de Santiago da Espada. Visita Olivença com um grupo de amigos, onde é inaugura um centro cul­tural com o seu nome – 1988: Desloca-se a Moçambique. É lançado no Mosteiro dos Jeróni­mos, com a presença do Presidente da República, o livro Dispersos. É eleito membro efectivo da Academia de Marinha a 11 de Maio – 1989: Participa nas conferências dos Estados Gerais, no Museu de Arte Antiga – 1990: Em Março, protagoniza na RTP uma série de treze episó­dios com a designação «Conversas Vadias» – 1991: Gozando de aparente boa saúde, apesar de já contar 84 anos, é operado de urgência a uma peritonite no Hospital de S. Francisco Xavier – 1992: Readquire a cidadania portuguesa a 12 de Março – 1993: Um inesperado acidente vascular de certa gravidade, a 17 de Outubro, impõe-lhe internamento hospitalar. Semanas mais tarde, já parcialmente recuperado, regressa a casa – 1994: Um agravamento do seu estado de saúde, a que sobrevém uma pneumonia, provoca-lhe a morte, que ocorre a 3 de Abril, Domingo de Páscoa.

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I – Agostinho, Filósofo da Viagem.

George Agostinho Baptista da Silva (Agostinho da Silva) nasceu na cidade do Porto, no dia 13 de Fevereiro de 1906. Poucos meses depois, porém, vai viver para Barca de Alva (pequena aldeia alfandegária da Beira Alta, junto à fronteira com Espanha), onde passa os primeiros anos da sua infância e aonde ficará para sempre ligado – como ele próprio veio, depois, a dizer: “Fiz o curso no Porto, andei por toda a parte quanto é mundo, mas a minha terra continua a ser Barca de Alva.”.

Agostinho andou, de facto, “por toda a parte”. Percorreu os cinco continentes. Foi um Viajante. Daí o seu “prazer de embarcar, embarcar sempre, acreditando cada vez menos nos pontos de chegada”, de “embarcar num navio que nunca chegará, rumar por mapa e bússola ou goniómetro para o porto que não existe” – dado que, como escreveu ainda: “Não me tentam nada as estradas que vão de um ponto a outro, de que sabemos, à partida, a quilometragem e a direcção; tentam-me as estradas que não vão dar a nenhum ponto (…).”. Daí, em suma, o seu culto da viagem, da viagem sem fim.




II – Agostinho, Filósofo da Liberdade.

À cidade do seu nascimento regressa, aos seis anos, para realizar o ensino primário e, em seguida, o Liceu, findo o qual ingressa, em 1924, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto – primeiro em Filologia Românica, depois, por desentendimentos com um professor, em Filologia Clássica. Durante a Licenciatura, colabora com a Acção Académica, publicação monárquica portuense, e com A Águia, célebre revista da “Renascença Portuguesa”, onde, entre outros, se salientaram o poeta Teixeira de Pascoaes e o filósofo Leonardo Coimbra, grande Mestre da sua geração. Nas palavras do próprio Agostinho, contudo, a real Licenciatura que ele obteve na Faculdade Letras do Porto foi uma Licenciatura em “Liberdade”, dado que, ainda nas suas palavras, essa Faculdade era, sobretudo, “uma escola de liberdade”, reflexo da “largueza de espírito de Leonardo” – por isso mesmo, porém, “o governo não gostava dela e fechou-a”.

Em Agostinho, essa Faculdade nunca veio, contudo, a fechar-se. E por isso foi sempre ele, ao longo de toda a sua vida, reconhecidamente, um Filósofo da Liberdade.






III – Agostinho, Filho dos Gregos.

Logo após a Licenciatura, concluída em 1928 com a nota de 20 valores, obtém o Doutoramento, igualmente com o “maior Louvor”, com uma dissertação intitulada Sentido histórico das civilizações clássicas, onde contestou os argumentos de Oswald Spengler sobre a alegada falta de “sentido histórico” da civilização greco-latina. Sobre esta, publica ainda, nos anos seguintes, as obras Breve Ensaio sobre Pérsio (que havia sido a sua dissertação de Licenciatura) e A Religião Grega (estas três obras foram recentemente republicadas na colectânea Estudos sobre Cultura Clássica, org. de Paulo Borges, Lisboa, Âncora, 2002).

Filósofo de formação clássica, Agostinho começou por ser um ardente defensor dos Gregos, defendendo inclusive que “dos gregos veio tudo o que hoje faz belo o catolicismo”. Gradualmente, contudo, veio a reconhecer a novidade cristã do Amor e da Graça – como ele próprio depois afirmou, na sua Conversação com Diotima: “A Grécia, que me encanta, tem todas as qualidades, Diotima, mas falta-lhe talvez a do Amor.”




IV – Agostinho, Filósofo sem Mestre.

Entretanto, inicia uma prolongada colaboração com a igualmente célebre revista Seara Nova, onde se salientaram, entre outros, António Sérgio, Raul Proença e Jaime Cortesão (com quem Agostinho da Silva se reencontrará, já nos finais da década de quarenta, no Brasil). A relação com António Sérgio só viria, contudo, a cimentar-se, mais tarde, em Paris – onde António Sérgio se encontrava como exilado político e onde Agostinho da Silva igualmente esteve, entre os anos de 1931 e 1933, enquanto bolseiro (nessa condição, frequentou a Sorbonne e o Collège de France).

Tal como nunca foi “leonardesco”, apesar de sempre ter reconhecido o insigne magistério de Leonardo Coimbra, Agostinho também nunca foi sergiano, em sentido estrito. Aliás, como o próprio Agostinho declarou numa entrevista concedida a Francisco da Palma Dias, “ele [Sérgio] não me ensinou o racionalismo: ensinou-me antes o irracionalismo, por reacção minha.”. Se seguiu Sérgio, foi, sobretudo, na sua defesa do “cooperativismo”, “ponto máximo e válido de sua doutrinal”.




V – Agostinho, Homem de Acção.

Regressado a Portugal em 1933, é colocado, como professor, em Aveiro – por, contudo, se ter recusado a assinar uma declaração de não pertença a sociedades secretas, é demitido do ensino público, tendo então passado a leccionar no ensino particular. Em 1935, volta a sair de Portugal – desta vez, Madrid foi o destino. Logo no ano seguinte, dada a eminência da Guerra Civil em Espanha, regressa, porém, a Portugal. Em 1937, inicia, na Seara Nova, a sua série de Biografias, e, em 1940, a dos seus Cadernos de Informação Cultural, primeira grande marca do seu activismo cultural, social e político.

Contrariando o estereótipo do Filósofo como ser tão-só contemplativo, Agostinho foi um homem de acção, tomando inúmeras iniciativas em prol da qualificação de todos nós – daí a sua série de Biografias, nas quais procurou propor exemplos éticos, daí ainda os seus Cadernos de Informação Cultural, com os quais procurou difundir toda a espécie de conhecimentos, daí, enfim, as suas múltiplas traduções, antologias, etc. De resto, Agostinho gostava dos homens de acção – considerava-os os “oleiros de Deus”.




VI – Agostinho, Filósofo do Paradoxo.

No ano de 1942, publica o opúsculo O Cristianismo e, logo no ano seguinte, o opúsculo Doutrina Cristã. Estes dois opúsculos são violentamente contestados por alguma imprensa católica da época, sob a acusação de “heresia”. Também por via disso, o cerco por parte do regime político de então vai-se apertando cada vez mais. De tal modo que Agostinho da Silva chega inclusivamente a ser preso, no dia 24 de Junho de 1943. Durante 18 dias permaneceu encarcerado no Aljube. Nos meses seguintes, ficou obrigado a viver sob residência fixa, em vários locais do país.

Apesar de, conforme o referido, ter vindo a reconhecer “a novidade cristã do Amor e da Graça”, Agostinho teria que ser sempre um cristão heterodoxo ou, como ele próprio diria, “paradoxal” – recordemos que esse sempre foi o lado onde preferiu estar: “nem do lado do ortodoxo nem do heterodoxo, mas do paradoxo”. Por isso, de resto, sempre foi olhado com suspeita – no plano religioso, quer pelos cristãos quer pelos ateus, no plano político, quer pelas “direitas” quer pela “esquerdas”.




VII – Agostinho, Teórico do Brasil.

Tendo-se tornado insustentável a sua permanência em Portugal, parte, em 1944, para o Brasil. Nos dois anos seguintes, ainda deambula pelo Uruguai e pela Argentina. Em 1947, contudo, fixa-se naquela que será, doravante, a sua “terra de eleição” e de “acção”. Prova disso foi a imensa actividade que desenvolveu nos anos seguintes, nomeadamente, no plano universitário. Agostinho da Silva teve um papel crucial na criação de quatro Universidades – as Universidades Federais de Paraíba, Santa Catarina, Brasília e Goiás –, bem como de múltiplos Cursos e Centros de Estudos.

De tal modo fez Agostinho do Brasil a sua nova Pátria que ensaiou uma teoria – “a Teoria do Brasil”, precisamente –, na qual equacionou a sua “capacidade de liderar o futuro humano, quando se desembaraçar de tudo quanto lhe foi útil na educação europeia e exercer (…) as suas capacidades de simpatia humana, de imaginação artística, de sincretismo religioso, de calma aceitação do destino, de inteligência psicológica, de ironia, de apetência de viver, de sentido da contemplação e do tempo”.




VIII – Agostinho, Filósofo Trans-Português.

A ida de Agostinho da Silva para o Brasil não significou, contudo, um corte com Portugal. Ao contrário, dir-se-ia que foi no Brasil que Agostinho verdadeiramente veio a conhecer o sentido histórico do seu país de origem, da sua Mátria. Prova disso é a obra Reflexão à Margem da Literatura Portuguesa, publicada no ano de 1957, em que Agostinho, em linhas luminosas, nos mostra o que Portugal foi, ao longo da sua história, e, sobretudo, o que Portugal pode ainda ser – nas suas próprias palavras, “uma ideia a difundir pelo mundo”, a ideia de um “reino de irmandade, de compreensão, de cooperação que se devia estender pelo universo”. Eis o que, na esteira de António Vieira e Fernando Pessoa, entre outros, designará como “Quinto Império”.

Essa “ideia a difundir pelo mundo” não podia já ser, contudo, portuguesa, não podia já ser, no entanto, Portugal. Paradoxalmente, como não poderia deixar de ser, essa ideia só poderia continuar a ser portuguesa na exacta medida em que o não fosse já. Por isso, de resto, escreveu Agostinho, na sua própria Mensagem, que “só então Portugal, por já não ser, será”.




IX – Agostinho, Teórico do “Quinto Império”.

Eis a ideia que, Agostinho da Silva, dois anos depois, em 1959, irá desenvolver na sua obra Um Fernando Pessoa. Comentando a obra deste poeta, em particular, a sua Mensagem, irá desenvolver uma ideia de Portugal que, nas suas palavras, “não tem seu centro em parte alguma e cuja periferia será marcada pela expansão de sua língua e da sua cultura”. Eis, de resto, a “ideia” que Agostinho da Silva não apenas teorizou, mas procurou levar à prática – inclusivamente enquanto assessor para a política externa do então Presidente do Brasil, Jânio Quadros, promovendo a relação com África.

Define Agostinho esse “Quinto Império” como uma “União Internacional de Povos”, união inteiramente livre e não, de forma alguma, “imperialmente” imposta. De resto, nas suas palavras, “paradoxalmente, apenas haverá um 5º Império se não existir um 5º Imperador”, mais do que isso, se não existir “império nenhum”, dado que “o Reino de Deus surgirá pela transformação interior do homem”, de cada um de nós, estando, nessa medida, o “Paraíso” na “alma”, “não na natureza ou na sociedade”.




X – Agostinho, Inspirador da CPLP.

As condições políticas no Brasil foram-se, também elas, deteriorando. De tal modo que, em 1969, já sob a Ditadura Militar, Agostinho da Silva regressa, 25 anos depois, a Portugal. Em Portugal vai ficar os últimos 25 anos da sua vida. Já na condição de “aposentado”, continua como sempre a escrever: ainda sobre a civilização greco-latina, e demais civilizações, ainda sobre o cristianismo, e demais religiões, ainda sobre Portugal, e demais países irmãos. A sua reflexão sobre essa “irmandade” foi, aliás, como é consensualmente reconhecido, fonte maior de inspiração da actual Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Se há, de resto, Filósofo que possa personificar o espírito com que foi criada a Comunidade de Países de Língua Portuguesa, esse Filósofo só pode ser Agostinho da Silva. Sempre procurou pensar o sentido mais fundo da língua portuguesa e da mundividência que lhe subjaz. Nunca o fez, contudo, de forma impositiva ou “imperialista”. Na sua visão, Portugal é apenas um entre iguais: apenas um entre os demais Países de Língua portuguesa.




XI – Agostinho, Filósofo do nosso Futuro.

Em 1988, é publicada a primeira grande colectânea de textos seus, Dispersos (ICALP). Em 1990, participou nas Conversas Vadias, programa televisivo que lhe granjeou grande popularidade. A 3 de Abril de 1994, falece. De então para cá, os seus muitos amigos, a maior parte reunidos na Associação Agostinho da Silva, têm procurado preservar a sua memória e a sua obra. Daí a recente edição, tematicamente estruturada, de doze volumes. A totalidade da sua extensa obra – enquanto filósofo, poeta, filólogo, pedagogo, biógrafo, historiador, novelista, tradutor, etc. – está, actualmente, a ser inventariada (ver: www.agostinhodasilva.pt).

Se o fundamento dos países é a sua Língua, a sua Cultura – e não a Economia, por mais necessária que esta seja –, o futuro de Portugal será, tão-só, o futuro da sua Cultura, da sua Língua. Nessa medida, aqueles que mais garantem o nosso Futuro são aqueles que mais cultivam a nossa Língua, aqueles que mais dão voz à nossa Cultura. Nessa medida, Agostinho da Silva será sempre um dos Filósofos – senão o Filósofo – do nosso Futuro.




XII –Agostinho, Filósofo da Pátria Lusófona.

Se, inquestionavelmente, Agostinho da Silva passou por um “fase integralista”, entre 1925 e 1927, e depois, a partir de 1928, por uma “fase europeísta”, de franca adesão ao ideário sergiano e da Seara Nova em geral, no Brasil começa um nova fase, já não assente na preocupação de difundir uma “cultura geral”, de que são expressão os seus Cadernos dos anos 30 e 40. A partir daqui e até ao final da sua vida, será a “cultura portuguesa”, no seu alcance universal, o horizonte primacial do seu questionamento. A nosso ver, a obra Reflexão à Margem da Literatura Portuguesa (1957) é a primeira grande expressão desse questionamento: sobre a cultura portuguesa, sobre o seu sentido histórico. Questionamento esse que culmina numa outra ideia de Pátria: “Do rectângulo da Europa passámos para algo totalmente diferente. Agora, Portugal é todo o território de língua portuguesa. Os brasileiros pode­rão chamar-lhe Brasil e os moçambicanos poderão chamar-lhe Moçambique. É uma Pátria estendida a todos os homens, aquilo que Fernando Pessoa julgou ser a sua Pátria: a língua portuguesa. Agora, é essa a Pátria de todos nós.”