Sofro por me sentir acomodada...

Ana Neri

Matriarca da Enfermagem no Brasil:
1814 - 1880



Quando tudo aconteceu...

1814: Em 13 de Dezembro, Ana Justina Ferreira nasce em Cachoeira de Paraguaçu, interior do Estado da Bahia, Brasil. – 1837: Casa com Isidoro Antônio Néri, capitão de fragata. – 1843: Fica viúva, com três filhos para cuidar. – 1864: Tratado da Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai) contra o Paraguai, começa a Guerra; os três filhos de Ana Néri são mobilizados. – 1865: Ana oferece-se como enfermeira voluntária e parte para o Paraguai, onde a sua abnegação e eficiência a todos impressiona. – 1870: Termina a Guerra do Paraguai; Ana regressa à pátria, com quatro órfãos brasileiros; é condecorada pelo Imperador D. Pedro II e recebe uma pensão vitalícia. – 1880: Ana Néri falece em 20 de Maio. – 1923: É dado o nome de ANA NÉRI à primeira escola oficial brasileira de enfermagem de alto padrão.

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A GUERRA DO PARAGUAI

Séculos XVII e XVIII: Portugal e Espanha lutam pelo domínio sobre a região do Rio da Prata, destruição e morte. Independências sul-americanas e o conflito é transferido: o Brasil para um lado, a Argentina, o Uruguai e o Paraguai, para o outro.

No Paraguai nunca houve escravidão. A maioria do povo até sabe ler e escrever, o que facilita a sua mobilização para promover o desenvolvimento económico do país. Sob a direcção de Carlos Solano López, é o que acontece na primeira metade do século XIX.

A Carlos sucede o seu filho Francisco Solano López. Este, a partir de 1862, começa a comprar armas e a reorganizar as estruturas militares. Ambiciona escoar os excedentes de produção através do Rio da Prata e por isso prepara-se para uma guerra que sabe inevitável, porque o seu país está entalado entre o Brasil e a Argentina. Como já possui um exército forte e aguerrido, quer passar a ter voz activa na política da região. Aproveita uma escaramuça territorial entre o Brasil e o Uruguai para se oferecer com mediador. O Brasil recusa a mediação e, no Uruguai, as suas tropas depõem Aguirre, o governante blanco (conservador). É o pretexto para, em Novembro de 1864, Francisco Solano López capturar o navio brasileiro Marquês de Olinda que navegava no rio Paraguai e declarar guerra ao Brasil, logo invadindo os territórios de Mato Grosso e Rio Grande do Sul. Dado o sucesso da operação Solano López precipita-se e as suas tropas, em Março de 1865, também invadem a Argentina. Apoderando-se de uma fatia do território brasileiro e outra do argentino, o seu objectivo é conquistar um porto marítimo.

Mas toda a acção tem retorno. As guerras desencadeadas pelo Paraguai provocam em 1 de Maio de 1865 um Tratado de Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai). Transcrevem-se os parágrafos iniciais desse Tratado:

- O governo de Sua Majestade o Imperador do Brasil, o governo da República Argentina e o governo da República Oriental do Uruguai;

- Os dois primeiros em guerra com o governo da República do Paraguai, por lhe ter este declarado de fato, e o terceiro em estado de hostilidade e vendo ameaçada a sua segurança interna pelo dito governo, o qual violou a fé pública, tratados solenes e os usos internacionais das nações civilizadas e cometeu actos injustificáveis, depois de haver perturbado as relações com seus vizinhos pelos maiores abusos e atentados;

- Persuadidos de que a paz, segurança e prosperidade de suas respectivas nações se tornam impossíveis, enquanto existir o atual governo do Paraguai e que é uma necessidade imperiosa, reclamada pelos mais elevados interesses, fazer desaparecer aquele governo, respeitando-se a soberania, independência e integridade territorial da República do Paraguai;

- Resolveram com esta intenção, celebrar um tratado de aliança ofensiva e defensiva e, para esse fim, nomearam seus plenipotenciários, a saber... etc.

O exército paraguaio, com cerca de 64 mil homens, nos primeiros tempos consegue deter a investida da Tríplice Aliança. Mas em Junho de 1866 a esquadra brasileira, no Riachuelo (passo do rio Paraná), sob o comando dos Almirantes Tamandaré e Barroso, destroça e afunda toda a força naval paraguaia. Acção conjugada com as forças argentinas comandadas pelo general Paunero.

Em consequência, as forças de Solano López passam da ofensiva à defensiva. Em 1866, sob o comando do argentino Bartolomeu Mitre, os aliados vencem a batalha de Tuiuti e invadem o Paraguai.

Em 1869 o Duque de Caxias assume o comando dos aliados. Toma a fortaleza de Humaitá e invade Assunción (a capital) em Janeiro de 1870. Passa o comando ao conde d’Eu, marido da Princesa Isabel. A batalha final (em que perde a vida Solano López) ocorre em Cerro Corá, em 1 de Março de 1870.

Balanço da Guerra do Paraguai: estima-se que 50 mil brasileiros, 35 mil argentinos, 80 mil paraguaios e mil uruguaios tenham perdido a vida durante os seis anos de combates.

Outras consequências para o Brasil: para recrutar os soldados que faltam para as operações militares, tem que alforriar escravos para substitui-los. Circunstância que vem incentivar a causa abolicionista.

Também o fortalecimento do Exército começa a seduzir os militares para a causa republicana; mais manda quem mais pode, o que não é o caso do Imperador...

O Brasil está assim em vésperas de grandes mudanças.

Mas o grande vencedor da Guerra do Paraguai é o Banco Rothchild, de Londres, porque as autoridades brasileiras com ele assumiram dívida de 10 milhões de libras...




CACHOEIRA DO PARAGUAÇU

Em 1814 Ana Justina Ferreira nasce em Cachoeira de Paraguaçu, interior do Estado da Bahia, Brasil. Com 23 anos casa com Isidoro Antônio Néri, capitão de fragata da Marinha. Ele passa a maior parte do tempo no mar. Mesmo assim, por três vezes Ana concebe e dá à luz três meninos: Isidoro Antônio, Antônio Pedro e Justiniano.

Em 1843, no Maranhão, a bordo do brigue Três de Maio, António Néri é fulminado por uma meningite. A viúva tem apenas 29 anos e três filhos para criar. Para não se acomodar à lamúria, passa a dedicar-se a acções sociais. Sente-se feliz quando Isidoro Antônio e Justiniano decidem formar-se em Medicina. Já Pedro António opta por seguir a carreira das armas.




VOLUNTARIADO

Em 1864 a Tríplice Aliança do Brasil, Argentina e Uruguai contra o Paraguai. Os três filhos de Ana e dois irmãos seus são mobilizados para a Guerra.

Proprietária de fazendas de fumo (tabaco), cana-de-açúcar e algodão, Ana poderia ter ficado acomodada como qualquer outra rica e devota senhora. Porém, espicaçada pelo amor materno, interroga-se: a guerra é pecado mortal ou heroísmo patriótico? Hesita na encruzilhada existencial mas acaba por se decidir: escreve a Manuel Pinto de Souza Dantas, Presidente da Província da Bahia:

"Eu me chamo Ana Justina Ferreira Néri. Sou mãe de três rapazes que acabaram de partir para a guerra. Eles eram tudo o que tinha, pois o pai morreu quando eu estava com 29 anos. Não podendo resistir à saudade deles, suplico-lhe que me deixe acompanhá-los. Prometo que trabalharei como enfermeira em qualquer hospital e em defesa de todos aqueles que sacrificarem sua vidas pela honra nacional e a integridade do Império".

Dois dias depois Souza Dantas dá ordens ao comandante do Conselho das Armas para que Ana Néri seja contratada como a primeira enfermeira brasileira na Guerra do Paraguai. Consequências: ela virá a ser Matriarca da Enfermagem, precursora da Cruz Vermelha no Brasil.




S. VICENTE DE PAULO

Em Salvador da Bahia, com as irmãs de caridade da Ordem de São Vicente de Paulo, Ana aprende a prestar os primeiros socorros, a dar injecções, a controlar as hemorragias, a cauterizar feridas com uma lâmina quente. Mas quando uma vicentina lhe apresenta um anti-inflamatório derivado de um pimentão amarelo, Ana diz para as atordoadas irmãs da caridade:

- Isso eu já sabia, quem me ensinou foi vovó. Conheço um vasto jardim de plantas terapêuticas, umas para chás, outras para banhos, outras para compressas, outras para óleos, outras ainda para inalações.
- Ana, dê um exemplo.
- Dou mais do que um, dou muitos: as folhas do girassol são anti-asmáticas, a alfazema é anti-séptica e cicatrizante, a arnica é anti-inflamatória e cicatrizante, a camomila é anti-inflamatória, as queimaduras podem ser tratadas com bananas, o agrião é expectorante, a alcachofra é boa para o fígado, o tomate é um fortificante, o alecrim é muito bom contra o esgotamento físico e mental, a alface é óptima contra as irritações intestinais, as barbas de milho são excelentes contra as pedras renais e infecções na bexiga, os coentros são preciosos contra as dores nervosas. E mais, muito mais, é um jardim terapêutico que não tem fim... Chega?
- Chega, chega!

As freiras benzem-se mas o que mais as espanta não são os conhecimentos de plantas medicinais de Ana, mas a sua capacidade de facilmente espicaçar com a esperança o ânimo dos pacientes desfeitos por traumas orgânicos e psicológicos. Ana será não só uma enfermeira dos corpos mas também, e fundamentalmente, das almas. Por tudo isso as freiras vicentinas dão-lhe o cognome de Grande Irmã de Caridade Leiga...




ASSISTIR OS FERIDOS

13 de Agosto de 1865: lá vai a Grande Irmã de Caridade Leiga assistir os feridos de guerra. Não só os da Tríplice Aliança, mas também soldados paraguaios, todos os que precisam de amparo e de uma palavra de esperança. Em Corrientes, em Salto, Humaitá, Curupaiti e, finalmente, em Assunción, a capital paraguaia já ocupada pelo exército do Brasil.

Ali, com os seus próprios recursos financeiros, Ana monta e dirige uma enfermaria exemplar.

Ali se queda até ao final da guerra.

Ali sabe da morte em combate do seu filho Justiniano e também a de um sobrinho; não fica revoltada nem deprimida, abençoa-os, reverencia-os por terem defendido a pátria, dever cumprido.

Ali sofre a ciumeira do médico-chefe que não suporta os seus conhecimentos de plantas medicinais a mitigarem os sofrimentos dos feridos.

Ali, sem instrumentos adequados, e para espanto de muitos médicos, opera com sucesso a perna do garoto Tayti, esmagada durante uma das batalhas.

Ali, diariamente enfrenta a morte para salvar vidas.

Ali, Ana não importa se o ferido é amigo ou inimigo, todos são homens e merecem cuidados.

Dali, invade um hospital de campanha para libertar dois jovens oficiais paraguaios que estavam a ser torturados por soldados brasileiros.
Avisam-na que, por causa dessa sua atitude, pode ser submetida à Corte Marcial e fuzilada. Responde:
- Se isto é crime de lesa-pátria e, para limpar a honra, eu tenha de ser morta, tudo bem. Morro tranquila.

O inconformismo de Ana Néri também a leva, num inquérito militar, a denunciar o chefe de uma equipe médica que se recusa a operar um soldado ferido, sabe-se lá porquê...

- Mãe dos brasileiros! (é o nome que lhe dão os soldados em campanha).

Cuidar do corpo e da alma do próximo, abnegação, militância – essa é a enfermagem praticada por Ana Néri!




REGRESSO

Terminada a guerra, Ana Néri regressa ao Brasil em Julho de 1870, no vapor Arino. Leva consigo três órfãos de residentes brasileiros no Paraguai e que irá cuidar e educar como seus filhos.

Ana desce no Rio de Janeiro e, por onde passa, é aclamada pelo povo.

As senhoras baianas que moram na capital oferecem-lhe uma coroa de ouro onde está gravada “À heroína da caridade as baianas agradecidas”.

O Imperador D. Pedro II condecora-a com a Medalha Humanitária e a Medalha da Campanha do Paraguai e concede-lhe uma pensão vitalícia de um conto e duzentos por ano.

Ana segue depois para Salvador da Bahia e daqui para Cachoeira de Paraguaçu. Retoma a gestão das suas fazendas e reinicia as suas acções sociais, mas desta vez sem os sobressaltos da guerra.

Morre no Rio de Janeiro, em 1880, com 66 anos de idade.

Em 1923, em plena República, é dado o nome de Ana Néri à primeira escola oficial brasileira de enfermagem de alto padrão.