IMPERADOR DA PEDRA DO REINO, REI DO MARACATU

Ariano Suassuna

Escritor:
16-06-1927 - 23-07-2014



Quando tudo aconteceu...

Ariano Vilar Suassuna nasceu num palácio a 16 junho de 1927 . Seu pai, João Suassuna, era governador da Paraíba, e três anos mais tarde, na Revolução de 30, foi assassinado pelas costas por um desafeto, e a família se mudou para a cidadezinha interiorana de Taperoá, fonte de toda sua obra. Ali assistiu a peças de mamulengos, repentistas violeiros, descobriu a raiz da cultura regional nordestina e nunca se afastou dela. Dramaturgo, romancista, ensaísta, ator, professor famoso das aulas-espetáculo, criador dos Movimentos Armorial e Romançal, irradiou e propagou a arte que mesclava elementos da cultura popular nordestina com os mais elaborados ícones da cultura universal. Influenciou gerações de músicos, artistas plásticos, coreógrafos, escritores, arquitetos, foi Secretário de Cultura de Pernambuco, secretário de Assessoria do governador Eduardo Campos até abril de 2014 e, membro da Academia Brasileira de Letras, foi quando morreu a 23 de julho de 2014 deixando três dúzias de romances, poesias, peças que se tornou verdadeiramente imortal.

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COMO SUASSUNA ENGANOU A ONÇA CAETANA

No austero quarto de dormir de Ariano Suassuna um quadro pousava numa das paredes. Trazia duas parcas, divindades gregas que teciam e fiavam o vestido até cortar o fio e a pessoa morria. No quadro um carro cortava o fio mas Suassuna avisava que não pretendia morrer. “A ‘onça Caetana’ [como chamava a morte] não vai me devorar”, dizia, e logo contava uma piada para justificar a descrição que fazia dele próprio, metade rei, metade palhaço. “Uma vez Garrincha ouviu do técnico brasileiro as instruções sobre como driblar e passar a bola para o Brasil ganhar de goleada. Perguntou, ‘‘ tudo bem, mas o adversário está de acordo?’ Não sei o que o time da morte pensa disso, mas não pretendo morrer, já fiz minhas contas, não é bom negócio.”
Suassuna morreu de um AVC no dia 23 de julho de 2014 e manter as parcas bem debaixo do olho foi sua forma de driblar a onça que o apanhou aos 87 anos. Alguém como Ariano morre?
“Tenho duas armas para lutar contra o desespero, a tristeza e até a morte: o riso a cavalo e o galope do sonho. É com isso que enfrento essa dura e fascinante tarefa de viver...Também tenho outro jeito de enfrentar essa ‘maldita’ Caetana: penso que ela é uma mulher linda, ela se encanta e assim driblo mais uma pouco”
Disposto a se manter vivo bem depois da ação das parcas, um pouco antes do dia 23 de julho de 2014 Suassuna terminou um novo romance, O Jumento Sedutor, uma referência a O Asno de Ouro lançado pelo escritor romano Apuleio no século 2. Era o livro que nas últimas três décadas ele vinha escrevendo, burilando, reescrevendo. Saíu depois do 23 de julho. Com ou sem a Caetana, Suassuna não morre mais.




ALUMIOSO COMO ELE SÓ, SUASSUNA EDUCAVA PELO RISO

Escrevia à mão, desenhava e pintava as molduras de cada página. Como fez com o romance de sua vida, A Pedra do Reino, que levou 12 anos para terminar. Depois de lançado e esgotado, levou mais 24 anos para ganhar o desfecho em nova edição. Explicava finalmente o que aconteceu ao príncipe que veio salvar a cidade de Taperoá montado num cavalo branco. A tragédia, real, aconteceu em 1838 no sertão pernambucano onde mais de 50 pessoas foram sacrificadas para lavar com sangue as pedras do reino.

Seria uma trilogia mas os outros dois romances ele deu por terminados lendo em voz alta para os alunos os textos de O Rei Degolado e Sinésio, o Alumioso. Não lançou. E também se recusava a fazer mais do que um exemplar de O Jumento e a Cascavel, precioso projeto com as letras desenhadas a mão.

Agora as editoras vão lançar as poesias de Suassuna, um caderno de pinturas, as fotos onde ele é qualificado como “O Decifrador” e o escritor surge como mago entre as imagens do seu dia-a-dia. E passam e repassam ciclos dos filmes sobre ele, como O Sertâmundo de Suassuna (Douglas Machado), as mini-séries de TV ou longas sobre sua obra como A Pedra do Reino, A Farsa da Boa Preguiça, Uma Mulher Vestida de Sol, todos dirigidos por Luis Fernando Carvalho. Além de Quaderna de Alexandre Montoro, A Princesa do Sertão, de Deraldo Goulart, O Santo e a Porca, de Maurício Farias. E vão continuar a sair ensaios, roteiros de dança, estudos de música, um deles em filme, Música Armorial, de Ana Paula Campos.

Desde 1947 quando lançou o primeiro romance, Uma Mulher Vestida de Sol -- que esperou 47 anos para ser encenada em 1994 -- e até a chegada da “Caetana”, ele produziu três dúzias de romances, peças, poesias, registrou sons quase esquecidos. Atuou como ator de suas próprias peças. “Em A Pedra do Reino vou encarnar Sinésio, o Alumioso, mas também vou ser Quaderna, que é palhaço. Todo mundo tem vários polos de personalidade, só em mim já contei uns sete”, dizia. Brincava também com o personagem Cervonegro que na ficção é pseudônimo de um poeta mas na realidade é tradução do nome indígena Suassuna (veado negro), adotado num rasgo de nacionalismo pelo avô de Ariano durante a independência. O nome luso da família é Cavalcanti de Albuquerque.

Eletrizou alunos, ouvintes, o público que chegava de qualquer lado para ouvir as aulas-espetáculo porque Suassuna era um performer, um encantador de sereias Brasil a fora. Acreditava na educação pelo riso. Começava as palestras já dizendo “eu gosto muito de doido, deve ser por identificação...Meu pai construíu um hospício quando era governador da Paraíba e, na cidadezinha onde nasci, Taperoá, tinha como de costume o herege de plantão e o doido oficial, que era Manoel Bento. O doido ficava o dia inteiro com o ouvido grudado num muro, e as pessoas viam aquilo e íam se chegando curiosas, meia dúzia com o ouvido grudado no muro até que um perguntou, ‘eu não estou ouvindo nada’, e o doido ‘desde de manhã que está assim’”




IMPERADOR DA PEDRA DO REINO, RECUSOU PREMIOS AMERICANOS, COMO O DA SHARP

“Qual é o espanto?”, ele perguntava quando seus métodos medievais provocavam franzidos na testa. “Dante também escreveu A Divina Comédia à mão, em um só volume”. Mas assombrava ver um escritor tão apaixonado pela literatura a ponto de desprezar o mercado. “Literatura não tem nada a ver com mercado, para mim é festa, missa, vocação”. Por causa da devoção aos temas nordestinos ele recusou prêmios com nomes estrangeiros, como o Sharp. “Mas tenho orgulho de ser O Imperador da Pedra do Reino na Cavalgada”. É a festa oferecida aos mortos da tal tragédia de 1838. “Ou ser o Guerreiro e Rei de Honra do Maracatu Piaba de Ouro”. Ele fazia questão de mostrar o manto que ganhou todo bordado com vidrilhos dourados e lantejoulas, exposto na sala de sua casa no Recife.
“Tenho fama de arcaico por causa dessas coisas”, dizia. Mas não se cansava de afirmar que o que o seduzia no teatro era, justamente, a pobreza. Tentou durante anos encenar uma ópera nordestina, O Homem da Vaca e o Poder da Fortuna, disse que um dia conseguiria, e conseguiu. “Êxito para mim é isso, e não estou me comparando com Homero, mas ele escreveu a Odisséia antes de Cristo, e hoje, no século 21, ainda é lido”. Suassuna relia obsessivamente Odisséia, A Divina Comédia de Dante, Guerra e Paz de Tolstoi. E Os Sertões de Euclydes da Cunha. Além de Eu do poeta paraibano morto aos 29 anos, Augusto dos Anjos que, sem encontrar editor, financiou a própria obra.
“Como a Odisséia, Os Sertões e Eu nunca saíram de moda, êxito é isso”





O POP STAR DA PERNAMBUCANIDADE PERDIDA

Tosco e erudito, rudimentar e moderníssimo, Suassuna alcançou um sucesso em Pernambuco só comparável no Brasil aos atores da Globo. Ele resgatou o orgulho da pernambucanidade perdida. Quando foi secretário de Cultura do governo Arraes, de 1991 a 1995, rivalizou com o movimento “manguebit” e o maracatu eletrizado de Chico Science. Trouxe de volta para a literatura velhos cordelistas que, mortos de fome, já partiam para os folhetos eróticos na Feira de Caruaru. Premiou a todos com dinheiro, cordelistas de peso, repentistas, grupos de bumba-meu-boi, caboclinho e mamulengo, o teatro de bonecos mais tradicional da terra.
“Resolvi dar força a tudo que o mercado não dava”, vangloriava-se.
Foi uma forma de prestar homenagem ao pai, João, assassinado pelas costas no Rio de Janeiro aos 34 anos quando Ariano tinha três. A tragédia aconteceu 15 dias depois da posse de seu inimigo mortal na Paraíba, João Pessoa, que deu nome à capital do estado. Antes, quando era governador da Paraíba, João Suassuna já escandalizava a capital levando ao palácio violeiros e cantadores, e Ariano ficou encantado ao encontrar na biblioteca do pai coleções de folhetos de cordel. Seguiu a mesma trilha.
“Os cordelistas me influenciaram tanto quando Lorca, que tem um mundo de cavalo, boi, cigano e romanceiro popular parecido com o meu. Ou Calderón de la Barca”
Foi esse apego ao cancioneiro popular, ao teatro de títeres e à pura arte nordestina que deu a Suassuna o status de pop star, aplaudidíssimo e saudado com assovios e gritos simplesmente ao entrar na sala de um Congresso de Jornalismo no Recife. Brincava sobre seu sucesso mesmo sem usar a Internet. “É que meu computador não dá pane, ali não entra vírus, e tem o bom senso de não aceitar outro português que não o nordestino”, ensinava. E, baixinho, “como dizia Eça de Queiróz, temos de falar patrioticamente mal a língua dos outros”
Para provar que dizia a verdade recitava de cor um poema dedicado a Camões por Manuel Bandeira.





A VISÃO MÍTICA, COLORIDA, DO NORDESTE

A obra de Suassuna vem carregada dessa visão mítica do Nordeste. Mas bem distante da miséria de Vidas Secas enxergada por Graciliano Ramos. Justamente o projeto Armorial que marca seu caminho é a fusão do popular e do erudito, baseado nas raízes medievais do Nordeste.
“Porque chamo atenção para o aspecto mítico, festivo da cultura popular nordestina, parece que pretendo ocultar a pobreza...não entendem que minha admiração vem daí. Como um povo que passa tanta dificuldade cria uma arte tão forte, imaginosa, bonita. Você vê, os países ricos, globalizados, são nivelados pelo gosto médio cinzento. Colorido?, não tem mais”.
Suassuna queria voltar à Idade Média? Só para quem não enxergava o mesmo que ele via.
“Vi muitas Cavalhadas no alto sertão de Pernambuco, em São José do Belmonte, onde existem as Pedras do Reino que deram origem ao meu romance”. Ele descrevia as festas que até hoje acontecem no último domingo do mês de maio, uma Cavalgada e uma Cavalhada. “Na Cavalhada há duas alas de cavaleiros, os do cordão azul e os do encarnado, o azul representando os cristãos, os azuis, os mouros, e essa foi a luta travada na Península Ibérica durante a Idade Média”
Ela convidava as pessoas a penetrar 30 quilômetros a oeste de Pernambuco. Na estrada, o século 21. Cem metros acima, o século 18 do Nordeste. “O tempo real lá é outro”
Suassuna foi cobrado a vida toda para ser tão realista como João Cabral de Melo Neto e Jorge Amado, de quem era amigo. Não se afetava. “Somos pessoas diferentes, sou influenciado por Gil Vicente que viveu no século 16 mas é um dramaturgo da Idade Média. Presto homenagem ao povo de outra fora, capto o medievalismo”





O QUINTETO ARMORIAL E A FAMA DE ALIENADO

“Sempre fui de esquerda, mas nunca admiti enquanto Stalin era vivo. Também nunca fui marxista, o que, para a esquerda ocidental, era pecado capital. Chegaram a chamar o Quinteto Armorial, que criei, de alienado. Como se juntar dó com ré pudesse ser alienado”.
O Quinteto Armorial deu frutos. O Quinteto Romançal, entre outros. E Suassuna não dava trégua, fazia estourar nomes como Antônio Madureira e retirou da sala de aula um “armorial” típico como Antônio Nóbrega, que o professor insistia em querer fazer um virtuoso, tocando Bach.
“Bach é universal como Stravinski e Eric Satie e adoro os três, mas Antonio Nóbrega é Antônio Nóbrega e as pessoas ficam confusas, acham, que música universal só pode ser uma. Por exemplo, acham universal o imbecil do Elvis Presley”
Suassuna era ainda mais radical que o critico musical José Ramos Tinhorão para quem música brasileira vai só até a Bossa Nova, e acusa Tom Jobim de americanizado. Suassuna dizia e repetia em alto e bom som, “eu gosto de um violeiro de Minas, Roberto Corrêa, autêntico, só não pude engolir o falso tocador de rabeca imposto pelo Cussy de Almeida no Quinteto Armorial: era um mau violinista urbano, e por isso saí do Quinteto, criei o Romançal”
A partir de ingredientes típicos da cultura popular, Suassuna elaborou uma arte erudita que apresentou em 1970 na Igreja de S. Pedro dos Clérigos, bairro de São José, Recife. Vinha acompanhada por uma mostra de artes plásticas e pela apresentação da Orquestra Armorial de Câmara, da qual Cussy de Almeida era maestro. Sintetizava elementos e figuras da cultura do povo nordestino e obras clássicas da literatura universal. O objetivo era derreter a influência do Império cultural norte-americano aflorando valores legítimos regionais. Agregava música, dança, literatura, artes plásticas, teatro, cinema, arquitetura e todas as capas dos trabalhos vinham manufaturados com a técnica própria da xilogravura.
E por que “armorial”, que na língua portuguesa sempre teve o sentido de livro de registro dos brasões? Suassuna ria mas respondia que foi proposital, conferindo ao substantivo um caráter adjetivo. “Assim o ‘armorial’ definiu qualitativamente o canto do violeiro, os acordes da viola, deu uma dimensão a todos os elementos que tecem o movimento”, explicava, e o movimento se estendeu à cultura brasileira, atingindo a moda, o comportamento.





TROPICALISMO E JOVEM GUARDA: DERROTISMO PURO

Nunca engoliu o tropicalismo inaugurado por ícones da MPB como Gil e Caetano. “No fim das décadas de 50, 60, a música brasileira se dividiu em dois grupos: a MPB verdadeira, com quem eu fiquei, e os tocadores de guitarra da Jovem Guarda, como Roberto Carlos. Os tropicalistas estavam do nosso lado mas passaram para o lado de lá. Não tem importância, eu teria uma vergonha profunda mas Caetano se orgulha de ter colocado a Coca-Cola na música brasileira” [‘...eu tomo uma Coca-Cola, ela pensa em casamento..’.”(Alegria, Alegria, 1967)]
Derrotismo puro, para ele. “Os americanos espalharam no mundo uma visão negativa do homem latino – costeleta, bigode preto, requebro ao som de rumba debaixo de uma cacho de banana e a mulher, caricata, Carmem Miranda com abacaxi na cabeça...Por isso criei o Movimento Armorial”
Para ele o processo de descaracterização e vulgarização tinha a cumplicidade dos tropicalistas, e de Tom Jobim. Coitado do Tom, não tinha nada a ver com os tropicalistas mas Suassuna não arredava pé. “Não gosto da música dele, compare com Cartola, Pixinguinha, Paulinho da Viola e veja o que sobra... Dizem que ele renovou o samba, para mim ele amenizou e enfraqueceu partindo de uma arte que eu gosto muito, mas na origem, o jazz negro. O jazz que a Bossa Nova adotou é falsificado”
Foi chamado de inimigo da humanidade. Bem-humorado, Suassuna se esquivava dos dardos cravados no peito. “Para mim a humanidade se divide em dois grupos, os que concordam comigo e os equivocados”. Radical quando dizia que qualquer telenovela era melhor do que assistir a um enlatado americano. Mas nada radical quando afirmava adorar autores americanos como Herman Melville, William Faulkner, Ernest Hemingway, Henry James. “E irlandeses como James Joyce que, ainda por cima, se baseou em Homero”.
E para chocar mais ainda os que o taxavam de medieval, se dizia monarquista de esquerda, quixotesco e nacionalista agressivo.
O imortal, no dia seguinte à sua posse na Academia Brasileira de Letras foi convidado para um jantar na casa de um casal do Rio de Janeiro. “Fiquei preocupado com as idéias frívolas e a visão superficial, uma coisa perigosa. Não é que a primeira pergunta que me fizeram foi ’você já foi à Disney?’— eu nunca tinha ido aos Estados Unidos--, e me olharam como se dissessem ‘como esse sujeito que nunca foi à Disney entrou para a Academia?”




DOSTOIEVSKI E AS GUARDIÃS ESCULPIDAS NO JARDIM

Como as parcas mantidas debaixo do seu olho no quarto de dormir, três guardiãs esculpidas à semelhança da imagem das Nossas Senhoras da Conceição, Aparecida e Assunção enfeitavam seu jardim. “Não sou santarrão mas já tinha abandonado a idéia de Deus quando li uma frase de Dostoiévski, que nem católico era, em Os Irmãos Karamazov. ‘Se Deus não existe, tudo é permitido’.
Era um apaixonado pela Espanha da época de Dom Quixote – “foi depois de ler um ensaio de Unamuno sobre o quixotismo,” explicou — e o próprio Unamuno o levou para o cristianismo noutro ensaio onde citava Santa Tereza Dávila. Filho de protestantes, passou a católico assumido. Por isso no mesmo jardim está a escultura da Ilumiara Coroada. Ilumiara é um nome retirado por Suassuna das itaquatiaras, pedras pintadas ou lavradas em baixo relevo que compõem o passado rupestre nordestino. Entre as inúmeras esculturas de cor ocre armoria, elas homenageiam Nossa Senhora. “Mas também Santa Sofia, e Zélia, minha mulher”
“Meu mito e meu poder – minha mulher” é um verso do poema A Mulher e o Reino feito para Zélia, que esculpiu no jardim, onde há esculturas com três faces, santas Cecília e Sabedoria. E mosaicos feitos pelo genro, quadros pintados pelo filho, cerâmicas do sobrinho, a família toda abrigada em várias casinhas no mesmo jardim. Na casa mestra, de Suassuna, a portão nunca foi trancado, aberto dia e noite para atrair todas as correntes que este criador queria para amalgamar seu projeto.
Foi João Cabral de Melo Neto quem o reverenciou no lançamento de A Pedra do Reino,
“Sertanejo, nos explicaste
Como gente à beira do quase,
Que habita caatingas sem mel
Cria os romances de cordel:
O espaço mágico e feérico,
Sem o imediato e o famélico,
Fantástico espaço Suassuna
Que ensina que o deserto funda”

E para chegada de Ariano Suassuna no céu os cordelistas Klévisson Viana e Bule Bule prepararam uma edição completa.
Nos palcos do firmamento
Jesus concebeu um plano
De montar um espetáculo
Para Deus, pai soberano,
E, ao lembrar de um dramaturgo,
Mandou buscar Ariano

Jesus mandou-lhe um convite
Mas Ariano não leu.
Estava noutro idioma,
Ele num canto esqueceu
Nem sequer observou
Quem foi que lhe escreveu.
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A morte colonizada,
Pensando em lhe agradar,
Uma faixa com uma frase,
Ela mandou preparar:
Dizendo: Welcome, Ariano,
Mas ele não quis entrar.
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Eu não sei se Ariano
Morreu de raiva ou de medo,
Que era contra estrangeirismos,
Isso nunca foi segredo.
Certo é que a morte o matou
Sem lhe tocar um dedo.
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Suassuna que, na vida,
Sonhou em ser imortal,
Entrou para Academia,
Mas percebeu, afinal,
Que imortal é a vida
No plano celestial

Jesus explicou seus planos
De fazer uma companhia
De teatro e ele era
O escritor que queria
Para escrever suas peças,
Enchendo o céu de alegria.

Ariano dedicou-se
Àquele projeto novo,
Ao concluir sua peça,
Jesus deu seu aprovo
E a peça foi encenada
Finalmente para o povo.

Na peça de Ariano,
Só participa alma pura.
Ariano virou santo,
Corrigiu sua postura.
Lá no céu ganhou o título
Padroeiro da Cultura