Onde os discípulos da Parasitologia?

Carlos França

Médico, militar, investigador, criador da Par:
1877-01-01 - 1926-01-01



Quando tudo aconteceu...

1877: Nasce em Torres Vedras a 9 de Junho, filho de Ignácio França e de Maria Filomena França. 1887: Instrução primária e secundária em Torres Vedras. 1892: Ingressa, com 15 anos de idade, na Real Escola Médico Cirúrgica de Lisboa. 1895: Publica «Contribuição para o estudo das alterações cadavéricas das células radiculares da medula espinhal». 1898: Licenciatura em Medicina, defendendo a tese «O método de Nissl no estudo da célula nervosa». Em 10 de Setembro assenta praça como Cirurgião Ajudante. 1899: Publica «Sur le rôle joué par les leucocytes dans la destruction de la cellule nerveuse». Em 7 de Setembro foi promovido a Tenente Médico. Em 23 de Dezembro foi abatido ao Quadro dos Médicos militares, por ter sido requisitado pelo Ministério do Reino para missão de serviço. 1900: Publica «Relatório sobre o estudo clínico e bacteriológico da peste bubónica» e mais 3 trabalhos. 1901: Publica «Trabalhos sobre a raiva» e mais cinco trabalhos. 1902: Em 20 de Março, o director do Real Instituto Bacteriológico de Câmara Pestana, Dr. Aníbal Bettencourt elogia o seu trabalho. Publica cinco novos trabalhos. Em 14 de Outubro requer ao Rei autorização para casar. Em 2 de Novembro regressa ao Quadro dos Médicos militares, por ter terminado missão de serviço. Em 9 de Dezembro casa com Maria do Carmo d’Albuquerque Mazziotti, filha de António Maria Dias Pereira Chaves Mazziotti e de Heloísa d’Almeida e Albuquerque Mazziotti. 1903: Publica quatro novos trabalhos científicos. 1904: Publica cinco novos trabalhos. Em 12 de Setembro nasce o seu filho António. 1905: Publica 16 trabalhos científicos. Em Julho entra em inactividade temporária de serviço, por incapacidade, provável início dos seus problemas de saúde. 1906: Em 12 de fevereiro a Direcção Geral de Saúde comunica a impossibilidade de acumular o lugar no Real Instituto Bacteriológico de Câmara Pestana com o de Tenente médico em actividade. Em 24 de fevereiro passa à situação de fora do Quadro dos Médicos militares. Em 18 de Setembro nasce a sua filha Alda. Publica 20 novos trabalhos científicos. 1907: Publica mais 13 trabalhos. 1908: Em 2 de Julho foi promovido a Capitão Médico. Publica mais sete trabalhos. 1909: Publica mais 10 trabalhos. 1910: Parte para a Madeira como Director dos Serviços Sanitários para resolver a epidemia de cólera. Publica sete trabalhos. 1911: Publica oito trabalhos, entre os quais «A epidemia colérica da Madeira 1910-1911. Relatório apresentado ao Ministério do Interior». 1912: Em 2 de Março regressa ao Quadro dos Médicos militares. Nesta data é nomeado clínico especialista e director do Laboratório de Bacteriologia e Análises Clínicas do Hospital Militar de Lisboa. Nomeado vogal da comissão técnica do serviço de saúde militar. Publica cinco trabalhos. 1913: Em 8 de Junho, nomeado vogal da comissão encarregada da regulamentação do Depósito geral de material sanitário. Publica quatro trabalhos. 1914: Solicita ao Ministério do Interior o pagamento de 440$00 que lhe eram devidos. Publica «La flagellose des Euphorbes». 1915: Em 29 de Maio, louvado pelo inexcedível zelo (…) com que desempenhou o serviço clínico de cirurgia (…) durante a revolução de 14 de Maio de 1915. Em 19 de Junho, requer autorização do Ministro da Guerra, para concorrer ao lugar de Assistente do grupo de sciencias biológicas na Faculdade de Sciencias da Universidade de Lisboa (Naturalista no Museu Bocage). Publica dois trabalhos. 1916: Publica «Quelques observations sur les « Triconymphidae». (Jubilé E. Metchnikoff)». Em 21 de Junho, foi nomeado para a comissão encarregada da reorganização do serviço de saúde militar. 1917: Em 27 de Janeiro, é colocado na situação de reformado por decreto desta data. Publica dois trabalhos. 1918: Publica nove trabalhos. 1919: Publica dois trabalhos. 1920: Em 10 de Setembro, foi-lhe atribuída a reforma extraordinária. Publica três trabalhos. 1921: Publica sete trabalhos. 1922: Publica dez trabalhos. 1923: Em 30 de Abril, solicitar autorização para se deslocar a Luan

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FAMÍLIA E DESCENDÊNCIA

Fernando Carlos França nasce em Torres Vedras a 9 de Junho de 1877, filho de Ignácio França e de Maria Filomena França, ele médico militar e ela doméstica.
Em 09.12.1903, casa com Maria do Carmo d’Albuquerque Mazziotti, filha de António Maria Dias Pereira Chaves Mazziotti e de Heloísa d’Almeida e Albuquerque Mazziotti.
Casa na capela particular da noiva, sendo oficiante o Abade de São Thiago d’Antas, do Arcebispado de Braga, Monsenhor António Ribeiro dos Santos Viegas, Par do Reino.
Para que o casamento se realizasse foi entregue atestado de «exemplar comportamento moral e civil da noiva», passado pelo Conde de Mesquitella, administrador do concelho de Cintra. Por sua vez, Carlos França requer ao Rei, em 14.10.1903, autorização para se casar, nos seguintes termos – «Senhor! Carlos França, tenente médico do exército, desejando contrair matrimónio com D. Maria do Carmo d’Albuquerque Mazziotti e necessitando para isso da respectiva autorização, Pede muito respeitosamente a Vossa Majestade a graça de deferir como requer». Concedido em 28.10.1903.
Em 12.09.1904 nasce o filho, que recebe o nome de António e em 18.09.1906, nasce uma filha que recebe o nome de Alda.




O ESTUDANTE

Concluída a instrução primária na escola oficial, inicia os estudos secundários em Torres Vedras, residência de seus pais. Em 1892, matricula-se nos preparatórios médicos da Faculdade de Ciências de Lisboa. Ingressa ainda com 15 anos, na Régia Escola Médico Cirúrgica de Lisboa. Em 1898, conclui a licenciatura em Medicina, com 21 anos de idade. Foi sempre aluno brilhante em todos os graus de ensino, como comprova a certidão passada pela Escola Médico Cirúrgica de Lisboa, em que as notas obtidas nas cadeiras fundamentais foram sempre de «aprovado plenamente, com louvor».
Ainda durante o curso publicou em Arquivos de Medicina, o trabalho Contribuição para o estudo das alterações cadavéricas das células radiculares da medula espinhal, 1.ª comunicação. Lesões do Protoplasma, em colaboração com Mark Athias.
Foi o aluno mais novo do seu Curso. A sua Dissertação inaugural, versou o tema O método de NISSL no estudo da célula nervosa.




O MÉDICO

No mesmo ano em que se licenciou concorre ao Quadro de Médicos militares e começa a trabalhar também no Hospital de S. José, no Banco e no Instituto Bacteriológico de Lisboa, sob a direcção de Câmara Pestana.
Pouco tempo depois parte para o Porto, acompanhando Câmara Pestana e Gomes de Resende para combater e estudar a epidemia de peste bubónica que grassava naquela cidade, passando a trabalhar no Hospital do Bonfim, também conhecido por Goelas de Pau. Câmara Pestana, chefe da missão, foi apanhado pela peste e não se apercebe imediatamente, acaba por morrer em Lisboa, no Hospital de Arroios.
Carlos França é também contaminado mas consegue salvar-se graças à vacina que Câmara Pestana e ele próprio tinham preparado. Elabora, juntamente com Gomes de Resende, o Relatório da Epidemia. Em 1910 parte para a Madeira, como director dos Serviços Sanitários, para combater e resolver a epidemia de cólera que ali se iniciara. Resolve a epidemia e elabora um extenso Relatório sobre a acção desenvolvida. Em vez do agradecimento e reconhecimento merecidos, demite-se de Subdirector do Instituto Bacteriológico Câmara Pestana e isola-se na sua residência na Quinta Mazziotti, seu local privilegiado de trabalho, mais tarde conhecido por Universidade de Colares.
Exerce clínica privada e nos hospitais. Em todos os cargos que exerce (chefe dos serviços de difteria e raiva e depois subdirector do Instituto Bacteriológico Câmara Pestana, Director do Hospital de Arroios durante a epidemia, director dos serviços sanitários da Madeira) e na que desenvolve particularmente, foi sempre um investigador apaixonado pela ciência e sempre ao seu serviço, até à morte.




O MÉDICO MILITAR

Seu pai era médico militar o que seguramente viria a ser condicionante da escolha dessa carreira, após ter terminado o seu curso.
Termina o curso com 21 anos, em 1898, e logo assenta praça como cirurgião ajudante em 10.09.1898. Foi promovido a Tenente Médico em 07.09.1899. Em 23.12 foi abatido ao quadro por ter sido requisitado para desempenhar missão de serviço dependente do Ministério do Reino, regressando ao quadro em 02.11.1903.
Esteve em Inactividade temporária por incapacidade para o serviço em 07.1905, talvez o primeiro sinal dos problemas de saúde que viria a ter durante a sua vida.
Em 12.02.1906 a Direcção Geral de Saúde e Beneficência Pública do Ministério do Reino oficia ao Secretário do Ministério da Guerra que «Não permitindo o serviço actual do Real Instituto Bacteriológico Câmara Pestana, que o médico Carlos França acumule o lugar de médico auxiliar daquele Instituto com o de tenente médico do exército em actividade, encarrega-me S. Ex.ª o Ministro do Reino de rogar a V.ª Ex.ª se digne providenciar, para que o referido médico seja colocado na situação de fora do quadro». Em 24.02.1906, é atendida a determinação do Ministério do Reino e passou novamente à situação de fora do quadro, por ter sido requisitado pelo Ministério do Reino.
Foi promovido a Capitão Médico em 02.07.1908.
Regressa ao Quadro de Oficiais Médicos em 02.03.1912, vindo do Ministério do Interior. Nomeado clínico especialista e director do laboratório de bacteriologia e análises clínicas do Hospital Militar de Lisboa. Nomeado vogal da comissão técnica do serviço de saúde militar. Em 08.06.1913 nomeado vogal da comissão encarregada da regulamentação do Depósito geral de material sanitário.
Em 19.06.1915, requer autorização do Ministro da Guerra, para concorrer ao lugar de Assistente do grupo de sciencias biológicas na Faculdade de Sciencias da Universidade de Lisboa. Deferido em 26.06. Em 21.06.1916 foi nomeado para a comissão encarregada da reorganização do serviço de saúde militar.
Colocado na situação de reformado por decreto de 27.01.1917.
Em 10.09.1920 foi-lhe atribuída a reforma extraordinária de 90$00, sendo 37$14 de 9 anos e 323 duas de serviço no Ministério do Interior e 52$86 do Ministério da Guerra por 13 anos e 188 dias de serviço. A este tempo foi somado o tempo de curso médico (cinco anos) perfazendo assim os 23 anos e 146 dias contabilizados.
Apesar de ser o homem exemplar que sempre mostrou ser, nem sempre mereceu da parte daqueles que lhe solicitaram ajuda e colaboração, o melhor ou mais correcto procedimento. Embora se centre numa questão material não deixa de ser significativa a questão burocrática que se arrastou três anos para ser solucionada. Em 1914 iniciou-se uma troca de impressões entre Carlos França, os Ministérios do Interior e o da Guerra, a propósito de um requerimento em que Carlos França solicita que o Ministério do Interior lhe pague 440$00 que lhe eram devidos, correspondentes aos nove meses (de 29.06.1911 a 01.03.1912), em que esteve sem receber por parte daquele ministério e sem os poder receber igualmente do Ministério da Guerra por ainda não ter tido vaga para regressar ao quadro de onde tinha saído, por ter sido requisitado pelo Ministério do Interior. O Ministério do Interior afirma que Carlos França nada tinha a receber, uma vez que tinha sido demitido a seu pedido em 29.06.1911 e, desde aí, nunca mais ali trabalhara. Carlos França e o Ministério da Guerra contrapõem que tinha a receber aquela importância, pois só foi readmitido no Quadro de Oficiais Médicos em Março e até aí tinha de ser pago pelo Ministério do Interior, de acordo com a lei, que dizia que a responsabilidade do pagamento é do ministério ao serviço de quem esteve até à véspera do reingresso no antigo lugar. Três anos se passaram até isto ser resolvido.
Não admira pois que Carlos França se isolasse cada vez mais na sua casa de Colares.
O seu estado de saúde passou também a ser um incómodo na sua vida e acabará por conduzi-lo a uma reforma da carreira militar antecipada. Dos documentos consultados pode concluir-se que os problemas de saúde de Carlos França andaram entre a neurastenia, a pleurisia chimica seca e a osteíte destrutiva, suspeita de bacilar, das 2.ª, 3.ª, 4.ª e 7.ª costelas esquerdas, agravadas pelo esforço e frio que sofreu na missão de estudo na França e Inglaterra onde recrudesceu a sua antiga doença. Um atestado de 18.01.1917, assinado pelo major médico José Gomes Ribeiro (chefe do serviço de saúde da divisão de instrução), atesta que «Carlos França sofreu em Junho de 1916, em Tancos, perturbações gastrointestinais graves e pleurisia seca cuja causa principal foi sem dúvida o excesso de trabalho que ali teve como chefe da secção de higiene e bacteriologia, acrescido das diferenças de temperatura próprias da região, tendo-se-lhe ultimamente agravado os seus padecimentos pulmonares pelos grandes frios e humidade a que teve de se sujeitar no norte de França e de Inglaterra no desempenho da missão de estudo que chefiei. E por ser verdade, o passo e juro se necessário for, pela fé dos meus graus».
Nenhum dos papéis existentes no Arquivo Histórico Militar (AHM), refere a nomeação para esta missão e, evidentemente, desconhece-se a data. Existe, no entanto, um documento da 5-ª Repartição (Saúde) que diz concordar com a reforma extraordinária requerida por Carlos França e refere que Carlos França fez parte da Divisão de Instrução e da missão a Inglaterra e a França. Assim, tendo em conta este documento, bem como o atestado de José Gomes Ribeiro, tudo indica que esta missão e esta visita se situarão entre Junho de 1916 e Janeiro de 1917. Poderá concluir-se também que Carlos França não foi mobilizado para servir na guerra, mas sim para uma missão de estudo de média duração.
Requer a reforma extraordinária em Março de 1917, e a Repartição de Saúde informa «ser de justiça que o vencimento de reforma seja aumentado de 39$60 para 55$00».
Apesar de reformado, Carlos França teve de solicitar autorização para se deslocar a Luanda, como se pode ler no seguinte requerimento de 30.04.1923 – «Il.mo e Ex.mo Snr. Ministro da Guerra, Carlos França, capitão médico reformado, tendo sido convidado pelo Alto Comissário de Angola, Ex.mo Snr. General José Mendes Ribeiro Norton de Matos a ir trabalhar até ao Congresso de Medicina Tropical na nossa África Ocidental e tendo, para garantir o sucesso das suas pesquisas, que levar como seu ajudante o Alferes médico com a graduação de Tenente Afonso Henriques Marques Manaças, roga a V.ª Ex.ª se digne conceder licença para se ausentarem para o Ultramar». Deferido em 07.05.1923.




O INVESTIGADOR

Embora considerado o pai da Parasitologia em Portugal, investiga outros ramos do saber. Investigador nato, investiga tudo que desconhece e quer entender, mesmo que para isso não disponha das mínimas condições de trabalho. Sabe-se que na maioria das investigações feitas na sua casa de Colares, se servia de um modesto e velho microscópio e que utilizava como estufas de aquecimento das culturas em estudo, as axilas das aves da sua quinta. Embora se possam salientar os trabalhos sobre a raiva, a cólera, a meningite, devem referir-se as investigações sobre a paralisia geral, a doença do sono, os plasmazellen nas infiltrações perivasculares na meningite cérebro-espinhal, as punções lombares como tratamento, com lavagens do canal raquidiano com lisol (foi director do Hospital de Arroios e do serviço de bacteriologia, durante a epidemia de meningite, elaborando um relatório que continha a descrição de 103 casos clínicos), a relação da lepra com a varíola, a «chapa» de Read, a malária, a leishmaniose, os leucocitozoários, os protozoários Triconinfas, que classifica em famílias e géneros (descreve uma nova espécie que nomeia Leydia mechnikovi, (homenageando Illya Illych Mechnikov, Copley Medal, 1906 e Prémio Nobel da Medicina, 1908), os piroplasmas e flebotomas, o hemíptero para protecção das vinhas, as plantas carnívoras e a biologia vegetal. Descreve e nomeia o Drosophylum lusitanicum, em homenagem a Portugal e difundiu as descobertas portuguesas dos séculos XV a XVII, percursoras da Medicina Tropical. Desempenha especial papel no combate às epidemias de peste bubónica (Porto, 1899), meningite (Lisboa, 1902) e cólera (Madeira, 1910), ficando ligado a essas epidemias pelo trabalho desenvolvido e por ter sido o relator oficial dessas epidemias.
Organiza o 1º Congresso de Medicina Tropical na África Ocidental, em Luanda (1923), onde conta com a presença de muitos investigadores europeus. Para além dos trabalhos que apresenta, teve o encargo de proferir o Discurso de Encerramento.




LOCAIS DE TRABALHO

Hospital Militar de Lisboa, de 1898 a 1917, com nove anos fora do serviço, por requisição civil.
Instituto Bacteriológico de Lisboa, de 1898 a Novembro de 1903. Instituto Bacteriológico Câmara Pestana, de Fevereiro de 1906 a Março de 1912.
Museu Bocage, de Junho de 1915 a finais de 1923.
Instituto Bento da Rocha Cabral, de Novembro de 1925 a Julho de 1926.
Quinta Mazziotti, em Colares, sua residência – de Dezembro de 1903 a Julho de 1926.





O PROFESSOR UNIVERSITÁRIO

Carlos França foi nomeado em 1924, professor livre de parasitologia, na Faculdade de Medicina de Lisboa, tendo sido dispensado das provas de concurso, por distinção (proposta por unanimidade do Conselho da Faculdade de Medicina de Lisboa, ao Governo).
Carlos França exerce essas funções durante dois anos, até à sua morte, mas queixando-se amargamente de não ter tido discípulos a quem «pudesse transmitir as suas ideias e amor pela parasitologia».




SOCIEDADES CIENTÍFICAS






TRABALHOS PUBLICADOS

Nos 49 anos que viveu, em que apenas 27 foram de investigação, publicou cento e oitenta e sete (187) trabalhos científicos, o que representa uma excepcional produtividade, tendo em conta a época (1899 a 1926), as condições de trabalho rudimentares, os problemas de saúde que teve e as epidemias que enfrentou e combateu.
Esta longa lista de trabalhos encontra-se num trabalho de Celeste Assunção Pedroso, intitulado A vida e obra do Dr. Carlos França, com a cota S.A. 15707/8 V. Na Biblioteca Nacional.

Como exemplos da sua preciosa e extensa obra, ficam aqui registadas algumas:

Contribuição para o estudo das alterações cadavéricas das células radiculares da medula espinhal, 1.ª comunicação. Lesões do Protoplasma Arquivos de Medicina, 1893. Era ainda estudante.
O método de NISSL no estudo da célula nervosa. Tese de Licenciatura. Lisboa, 1898.
Relatório sobre o estudo clínico e bacteriológico da peste bubónica. Lisboa, 1900.
Trabalhos sobre a raiva. Rev. Port. Med. e Cir. Práticas, 1901.
Relatório da Comissão para o estudo da malária. Jor. Soc. Sc. Medicas, 1902.
Sobre o tratamento das meningites pelas injecções intra-raquidianas de lisol. Gazeta Hosp. Porto, 1909.
A epidemia colérica da Madeira 1910-1911. Relatório apresentado ao Ministério do Interior, 1911.
Quelques observations sur les «Triconymphidae». (Jubilé E. Metchnikoff). Ann. Inst. Pasteur, 1916 (classificou Leydia Mechnikovi, em homenagem a Metchnikoff).
Ma contribution à la connaissence des Triconymphides. (Réponse au Prof. Battista Grassi), Ann. Sc. Fac. Med. Porto, 1918.
Recherches sur le «Drosopliyllun lusitanicum» et remarques sur les plantes carnivores. Arch. Port. Sc. Biolog., 1922 (classificou-o em homenagem a Portugal).
Os portugueses e a Medicina Tropical. A “Framboesia trópica”. Med. Contemporânea, 1925.
Quelques considérations sur les «Leishmania», Memoires et Etudes Mus. Zool. Univers. Coimbra, 1926. Seu último trabalho.




ACTIVIDADE INTERNACIONAL

Em toda a sua vida de investigador manteve intensa actividade internacional. Não só publica grande parte dos seus trabalhos em francês, inglês, italiano e alemão, como manteve uma rede epistolar por toda a comunidade científica. São também inúmeros os trabalhos publicados em revistas estrangeiras.




O AGRADECIMENTO OFICIAL

Apesar da sua carreira brilhante de investigador respeitado pelos pares nacionais e internacionais, o ‘Poder’, civil ou militar, foi parco em conceder-lhe o merecido destaque.
Na sua folha de assentos militar constam apenas dois louvores, distanciados no tempo e por razões muito diferentes e que se referem a duas situações especiais e não a uma visão clara e ampla da sua vida profissional.

- Louvado pelo inexcedível zelo, continuado esforço e educada dedicação com que desempenhou o serviço clínico de cirurgia aos feridos entrados no Hospital Militar de Lisboa durante a revolução de 14 de maio de 1915 (Louvor com data de 29.05.1915).
- Louvado pela grande competência, dedicação e espírito de sacrifício demonstrados no 1.º Congresso de Medicina Tropical, realizado em Luanda de 15 a 22 de Julho de 1923, onde representou o Serviço de Saúde do Exército metropolitano, acumulando com o cargo de membro da Comissão Executiva Organizadora do mesmo congresso, evidenciando mais uma vez os seus vastos conhecimentos científicos e a sua muita competência profissional (OE de 14.02.1925).

Na folha de informações assinada pelo director do Real Instituto Bacteriológico Câmara Pestana, Dr. Aníbal Bettencourt, consta que Carlos França tem óptimo comportamento, toda a competência profissional, procura aumentar a sua instrução e é muito dedicado pelo serviço. E, no Juízo Privativo, escreve – «O tenente médico Carlos França tem desempenhado o lugar de Chefe do Serviço antirrábico deste Instituto de uma maneira distinta e intocável. Os seus trabalhos e estudos sobre vários problemas interessantes no domínio da histologia, sobretudo os centros nervosos, dão-lhe, com toda a justiça um nome citado e apreciado no estrangeiro, onde tais assuntos merecem toda a importância. É notório o zelo, dedicação e inteligência, que consagrou ao estudo da meningite cérebro-espinhal-epidémica». (20.03.1902).