cruz e sousa

Poeta:
1861-01-01 - 1898-01-01



Quando tudo aconteceu...

1861: Nasce João da Cruz, em Nossa Senhora do Desterro (hoje Florianópolis, capital do Estado de Santa Catarina), a 24 de Novembro. Filho de Guilherme da Cruz, mestre pedreiro, e Carolina Eva da Conceição, lavadeira, ambos negros e escravos, alforriados por seu senhor, o coronel Guilherme Xavier de Sousa. Do coronel, o menino João recebeu o último sobrenome e a proteção, tendo vivido em seu solar como filho de criação. - 1869: Aos oito anos, recita versos seus em homenagem a seu protetor, que voltava, promovido a marechal, da Guerra do Paraguai. - 1871: Matricula-se no Ateneu Provincial Catarinense, onde estudou até o fim de 1875, tendo aprendido francês, inglês, latim, grego, matemática e ciências naturais. Essa última disciplina fora-lhe ensinada pelo naturalista alemão Fritz Müller, amigo e colaborador de Darwin e Haeckel. Além das palavras do amigo Virgílio Várzea: “Distinguiu-se acima de todos os seus condiscípulos”, Cruz e Sousa mereceu elogios de Fritz Müller, para quem a inteligência do jovem negro era a prova de que suas opiniões anti-racistas estavam corretas. - 1881: Funda, com Virgílio Várzea e Santos Lostada, o jornal Colombo, no qual proclamavam adesão à Escola Nova (que era o Parnasianismo). Parte para uma viagem pelo Brasil, acompanhando a Companhia Dramática Julieta dos Santos, na função de ponto. Realiza conferências abolicionistas em várias capitais. Lê Baudelaire, Leconte de Lisle, Leopardi, Guerra Junqueiro, Antero de Quental. - 1884: O presidente da província, Dr. Francisco Luís da Gama Rosa, nomeia Cruz e Sousa Promotor de Laguna. O poeta não pôde tomar posse do cargo, pois a nomeação fora impugnada pelos políticos locais. - 1885: Publica Tropos e Fantasias, em colaboração com Virgílio Várzea. Dirige o jornal ilustrado O Moleque, cujo título provocativo revela o caráter crítico e contundente das idéias veiculadas. Tal jornal era francamente discriminado pelos círculos sociais da província. - 1888: A convite do amigo Oscar Rosas, parte para o Rio de Janeiro. Durante os oito meses de permanência no Rio, conhece o poeta Luís Delfino, seu conterrâneo, e Nestor Vítor, que seria o grande amigo e divulgador de sua obra. Lê Edgar Allan Poe e Huysmans, entre outros. - 1889: Retorna a Desterro, por não ter conseguido colocação no Rio de Janeiro. Lê Flaubert, Maupassant, os Goncourt, Théophile Gautier, Gonçalves Crespo, Cesário Verde, Teófilo Dias, Ezequiel Freire, B. Lopes. Inicia a conversão ao Simbolismo. - 1890: Vai definitivamente para o Rio de Janeiro, onde obtém emprego com a ajuda de Emiliano Perneta. Colabora nas revistas Ilustrada e Novidades. - 1891: Publica artigos-manifestos do Simbolismo, na Folha Popular e em O Tempo. Pertence ao grupo dos “Novos”, como eram chamados os “decadentes” ou simbolistas. - 1882: Vê pela primeira vez Gavita Rosa Gonçalves, também negra, em 18 de Setembro. Colabora em A Cidade do Rio, de José do Patrocínio. - 1893: Publica Missal (poemas em prosa) em Fevereiro, e Broquéis (poemas), em Agosto. Dia 09 de Novembro, casa-se com Gavita. É nomeado praticante e, posteriormente, arquivista da Central do Brasil. - 1894: Nasce Raul, seu primeiro filho, a 22 de Fevereiro. - 1895: recebe a visita do poeta Alphonsus de Guimaraens, que viera de Minas Gerais especialmente para conhecê-lo. A 22 de Fevereiro, nasce seu filho Guilherme. - 1896: Em março, sua esposa Gavita apresenta sinais de loucura. O distúrbio mental durou seis meses. - 1987: Evocações (poemas em prosa, que seriam publicados postumamente) encontra-se pronto para o prelo. Nasce Rinaldo, seu terceiro filho, a 24 de Julho. Ano de sérias dificuldades financeiras e de comprometimento da saúde. - 1898: Morre a 19 de Março, em Sítio (Estado de Minas Gerais), para onde partira três dias antes, na tentativa de recuperar-se de uma crise de tuberculose. Tinha 37 anos. Seu corpo chega ao Rio de Janeiro num vagão destinado ao transporte de cavalos. José do Patrocínio encarrega-se dos funerais. O enterro realiza-se no Cemitério de S.

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PORQUE TODO O POETA (COMO TODO CANTO) É NEGRO

Rio de Janeiro: numa confeitaria elegante, nos anos de 1890, um grupo de escritores saúda, em voz alta, o jovem que se encontra à porta:

- Entra, ó Cruz e Sousa! Entra, ó grande poeta!

A ênfase dada à saudação explica-se por se tratar de um jovem negro, que corre o risco de ser ofendido, ou até escorraçado da confeitaria. A escravidão já fora abolida oficialmente, mas contra o preconceito não houve decreto, não houve lei...

João da Cruz e Sousa ouve a saudação dos amigos, até entende sua intenção de evitar-lhe uma situação constrangedora, mas fita-os com olhos tristes, como se pensasse: “Canalhas!” Tanto mais que, próximo ao grupo dos amigos e fiéis admiradores, encontra-se um rosto estranho, que o observa com olhar curioso, o que chega a ser irritante... Quem é esse homem desconhecido, que perscruta o poeta? Seria mais um dos seus contendores, provocadores, mais alguém prestes a repudiá-lo abertamente nos jornais?

Toda sua vida fora, até então, permeada por essa mesma sensação de discriminação, de rebaixamento. Até o modo afetivo como alguns de seus “seguidores” a ele se referem – o Poeta Negro – parece um estigma. Ninguém diz “poeta branco”. No Brasil escravocrata, “poeta” e “negro” são elementos que não se casam, indicam uma verdadeira aberração... Mas a dor de ser discriminado pode não ser muito diferente da grande Dor de ser homem.

Qual é a cor da minha forma, do meu sentir? Qual é a cor da tempestade de dilacerações que me abala? Qual a dos meus sonhos e gritos? Qual a dos meus desejos e febre?

Uma revolta amargurada o paralisa e, por algum (quanto?) tempo, suas atenções se deslocam do exterior, da confeitaria, do constrangimento, das amarras sociais, para o interior, sua alma, presa num cárcere severo. Às vezes é preciso invocar o ódio para suportar a dor:

Ò meu ódio, meu ódio majestoso,
Meu ódio santo e puro e benfazejo,
Unge-me a fronte com teu grande beijo,
Torna-me humilde e torna-me orgulhoso.
(...)
O poeta lembra-se de que sempre precisara de um escudo. Podia ser o Ódio. Podia ser a crença em si mesmo, na própria sensibilidade superior. Podia ser a Dor. O desdém pelos chamados “detentores” do poder e do saber, o desprezo pelos ditadores de regras. Podia ser a Arte, esse escudo, esse Broquel: esses Broquéis.




«ÓDIO SÃO, ÓDIO BOM! SÊ MEU ESCUDO!»

O homem estranho, no interior da confeitaria, continua a fitá-lo. Agora, sussurra alguma coisa ao ouvido de Oscar Rosas. A sensação incômoda de Cruz e Sousa cresce, mais uma vez ele sente que precisa de um escudo.

Seria possível que o escudo existisse desde Nossa Senhora do Desterro, desde os idos de 1861, ano de seu nascimento? Seu nome deveu-se então ao santo do dia, São João da Cruz, místico e visionário. Como também mística, metafísica e transcendental seria sua poesia; como o poeta estaria sob o signo da cruz.

De outros Gólgotas mais amargos subindo a montanha imensa, - vulto sombrio tetro, extra-humano! – a face escorrendo sangue, a boca escorrendo sangue, o flanco escorrendo sangue, os pés escorrendo sangue, sangue, sangue, sangue, caminhando para tão longe, para muito longe, ao rumo infinito das regiões melancólicas da Desilusão e da Saudade, transfiguradamente iluminado pelo sol augural dos Destinos!...

A imagem da tortura é bíblica ou real, empírica? É de Cristo o sangue vertido, ou do escravo na senzala? Ou se trata de uma metáfora da condição do poeta, que sofre por ser “maldito” entre os malditos? Ele se recorda da mãe, que fora escrava:

Em fundo de tristeza e de agonia
O teu perfil passa-me noite e dia

Aflito, aflito, amargamente aflito,
Gesto estranho que parece um grito.
(...)
Mas, de repente, eis que te reconheço,
Sinto da tua vida o amargo preço.

Eis que te reconheço, escravizada,
Divina Mãe, na Dor acorrentada.

Que reconheço a tua boca presa
Pela mordaça de uma sede acesa.

Presa, fechada pela atroz mordaça
Dos fundo desesperos da Desgraça.
(...)
(“Pandemonium”)
E pensar que uma parte da crítica futura o acusaria de ficar alheio às causas abolicionistas, trancafiado na “Torre de Marfim” do hermetismo simbolista, por puro desconhecimento de textos inéditos, verdadeiros gritos de denúncia e de repúdio às injustiças sociais. Poemas em que a revolta chega a sufocar o transcendentalismo, através de distorções que bem poderiam ser chamadas de expressionistas. Como este (“Escravocratas”), em que o senhor de escravos é o animal rastejante, o animal que merece ser torturado:

Oh! Trânsfugas do bem que sob o manto régio
Manhosos agachados – bem como um crocodilo,
Viveis sensualmente à luz dum privilégio
Na pose bestial dum cágado tranqüilo.
(...)
Eu quero em rude verso altivo adamastórico,
Vermelho, colossal, d´estrépito, gongórico,
Castrar-vos como um touro – ouvindo-vos urrar!)




FAZ-SE UM POETA SINGULAR

O homem desconhecido, agora, não apenas sussurra ao ouvido de Oscar Rosas, como também aponta para o poeta. A face de Cruz e Sousa ilumina-se: poderia ser um editor, interessado em publicar novos livros seus! Poderia ser a Sorte, que lhe sorrira na infância, para nunca mais se dar a ver...

Infância... tempos felizes, até. Realmente, foi sorte que o negrinho, diferentemente do que ocorria com os outros de sua raça, vendidos tão logo crescessem o suficiente, recebesse o carinho paternal de seus donos, um casal sem filhos: D. Clarinda, que o iniciou nas letras; o Marechal Xavier de Sousa que, ao morrer, legou a seus ex-escravos algum dinheiro, suficiente para o sustento do menino vivo e inteligente. Outras recordações de Desterro vêm-lhe à mente: a instrução sofisticada; o contato direto com um dos grandes nomes das ciências naturais, Haeckel; o conhecimento de idiomas: a educação típica da elite branca. Que, longe de fazer do poeta um conformado, iria fornecer-lhe o substrato para uma postura crítica, uma cultura universalizante, uma arte revolucionária.

Chega a idade adulta e, com ela, os problemas. O negrinho esperto já não é visto como espetáculo engraçadinho, pitoresco. É já um jovem inconformado, consciente de que é preciso transformar. Uma nação que sustenta a monarquia e a escravidão não é digna de ser chamada civilizada, diziam os republicanos e abolicionistas, dissera CASTRO ALVES, diz Cruz e Souza:

Vai-se acentuando,
Senhores da justiça – heróis da humanidade,
O verbo tricolor da confraternidade...
E quando, em breve, quando

Raiar o grande dia
Dos largos arrebóis – batendo o preconceito...
O dia da razão, da luz e do direito
- Solene trilogia -

Quando a escravatura
Surgir da negra treva - em ondas singulares
De luz serena e pura;

Quando um poder novo
Nas almas derramar os místicos luares,
Então seremos povo!
(“Dilema”)
Bem que soubera aproveitar algumas chances oferecidas pelo destino. Como a decisão que tomou de seguir uma companhia de teatro em suas apresentações pelo Brasil. Tinha que partir, ainda que fosse no obscuro cargo de ponto, pois a vida “real” começava a sufocar. Posteriormente, sua obra não faria quase nenhuma referência ao teatro. Alguns falariam em aversão à arte dramática... talvez um trauma, depois da dissolução da Companhia, que fizera o poeta voltar à terra natal, à mesquinhez, à ignorância? O soneto “Acrobata da Dor” vale-se de imagens teatrais:

Gargalha, ri, num riso de tormenta,
Como um palhaço, que desengonçado,
Nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
De uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
Agita os guizos, e convulsionados
Salta, gavroche, salta clown, varado
Pelo estertor dessa agonia lenta...

Pedem-te bis e um bis não se despreza!
Vamos! Retesa os músculos, retesa
Nessas macabras piruetas d’aço...

E embora caias sobre o chão, fremente,
Afogado em teu sangue estuoso e quente,
Ri! Coração, tristíssimo palhaço.




O SABER DE ALTOS SABERES

Que remédio? Estando de volta a Desterro, é preciso provocar a ordem, a política e os costumes vigentes na província, abalar a literatura local. Para tanto, o poeta dirige os jornais Colombo e Tribuna Popular. Depois, O Moleque. Quem é esse, o moleque negro, metido a intelectual, poeta e, ainda por cima, a dândi, com suas roupas bem cortadas? Quem, o atrevido? Indicado para a promotoria pública? Impossível!!! Ele evoca a sensação de saber-se capaz, até superior, às vezes, e ser impedido, barrado, excluído, impugnado: é a experiência de “sentir todas as forças contra si, sabendo-se idealmente superior”. (Ivan Teixeira).

Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro,
Ó ser humilde entre os humildes seres.
Embriagado, tonto dos prazeres,
O mundo para ti foi negro e duro.

Atravessaste num silêncio escuro
A vida presa a trágicos deveres
E chegaste ao saber de altos saberes
Tornando-te mais simples e mais puro.

Ninguém te viu o sofrimento inquieto,
Magoado, oculto e aterrador, secreto,
Que o coração te apunhalou no mundo.

Mas eu que sempre te segui os passos
Sei que cruz infernal prendeu-te os braços
E o teu suspiro como foi profundo!
(“Vida obscura”)
Uma vez mais, a imagem da prisão, reiterada tantas vezes: aqui, são os braços presos na cruz. Em seu testamento literário, o poema em prosa “Emparedado”, o poeta aprisionado em muros sociais implacáveis. Num de seus últimos sonetos, a alma encontra-se presa no cárcere do corpo. E agora, aquela figura estranha prende o poeta com sua curiosidade, provocando-lhe um mal-estar desconcertante.




CONTRA AS NORMAS ESTÉREIS, AS FORMAS ETÉREIS

Cruz e Sousa evoca sua chegada ao Rio de Janeiro, quando experimentara o mesmo mal-estar: tudo era novo e hostil. Quanta ilusão pensar que a capital do país, como uma cidade mais intelectualizada, mais moderna que Desterro, iria reconhecer-lhe o talento. Na primeira vinda ao Rio de Janeiro, bem que tentara estabelecer-se. Foram oito meses de portas fechadas, de dificuldades. Pelo menos, conhecera Nestor Vítor, seu grande amigo, o fiel divulgador de sua obra (quem, diz a lenda – e disso o poeta nem desconfia – iria acender-lhe velas diante do retrato, após sua morte). Pelo menos, há cada vez mais a poesia, há Charles Baudelaire, há Edgar Allan Poe: seus refúgios.

Lá, dentro da confeitaria, Oscar Rosas continua dando ouvidos ao desconhecido. Cruz e Sousa fixa os olhos no amigo; graças a ele e a outros, como Emiliano Perneta, conseguira estabelecer-se definitivamente no Rio de Janeiro, onde a moda literária é então o Parnasianismo. A poesia oficial, reconhecida pela intelectualidade, pela imprensa, pelos escritores já consagrados, é aquela produzida pela tríade formada por Olavo Bilac, Raimundo Corrêa e Alberto de Oliveira. Uma poesia cujo “realismo” volta-se para a objetividade pictórica de sabor neoclássico, que prima pelo culto à forma. Cruz e Sousa foi o seu tanto parnasiano, esteta da “Arte pela Arte”:

Como eu vibro este verso, esgrimo e torço,
Tu, Artista sereno, esgrime e torce:
Emprega apenas um pequeno esforço
Mas sem que a Estrofe a pura idéia force.
Tantas contendas com o grupo dos Parnasianos, mas quem pode negar a semelhança entre esses versos e os de “Profissão de Fé”, o hino parnasiano, de autoria Olavo Bilac? Mas, à preocupação com a forma, tão tipicamente parnasiana:

Assim terás o culto pela Forma,
Culto que prende os belos gregos da Arte
E levarás no teu ginete, a norma
Dessa transformação, por toda a parte.
vem somar-se uma musicalidade estranha:

Enche de estranhas vibrações sonoras
A tua Estrofe, majestosamente...
Põe nela todo o incêndio das auroras
Para torná-la emocional e ardente.
e uma sensorialidade inusitada, sinestésica, contrária à impassibilidade parnasiana:

Derrama luz e cânticos e poemas
No verso e torna-o musical e doce
Como se o coração, nessas supremas
Estrofes, puro e diluído fosse.
(...)
("Arte")

Diluir é o passo para sublimar, para ascender, ou transcender: “Para atingir o mundo das Essências, é preciso primeiramente destruir o mundo concreto, é preciso, partindo do Parnaso, que é a apologia das formas duras, sólidas de linhas bem talhadas, e da indestrutibilidade, mármore, metal , marfim, ultrapassá-lo, para misturar as linhas, mergulhar relevos, extinguir os contornos.” (Roger Bastide)




“ARTISTA! PODES LÁ ISSO SER SE TU ÉS D’ ÁFRICA, TÓRRIDA E BÁRBARA?”

O Parnasianismo é oficial e Cruz e Sousa sente que sua poesia é marginal. Menos descritiva, mais sugestiva; menos racional, mais sensorial; menos pictórica, mais musical; menos referencial e mais indireta, ou seja, mais simbólica: com ela surge entre nós o Simbolismo.

Herdeiro de Blake, Poe e do decadentismo de Baudelaire, o Simbolismo é ofuscado pelo beletrismo parnasiano. Entretanto, o poeta segue seu credo. Os modismos não o atraem, as concessões o irritam, a bajulação o enoja. Daí uma postura independente, aparentemente orgulhosa, que tanto provoca os inimigos. E lega ao poeta um lugar parecido com aquele celebrado por Charles Baudelaire como o do Poeta amaldiçoado.

Não só na temática do poeta maldito e na teoria das correspondências encontram-se as influências de Baudelaire, mas também no culto de um gênero literário novo: o poema em prosa.

- Charles, meu belo Charles voluptuoso e melancólico, meu Charles nonchalant, nevoento aquário de spleen, profeta muçulmano do tédio, ó Baudelaire desolado, nostálgico e delicado!

(“No inferno”)

Cruz e Sousa já não tem mais esperança de que o desconhecido da confeitaria seja um editor. Caso contrário, já teria vindo até ele, entusiasmado, com a alguma proposta a fazer-lhe. Pelo visto, a sorte de encontrar quem publicasse seus livros ocorrera uma única vez, graças à iniciativa de Domingos de Magalhães que, ousadamente, publicara dois livros seus:

Fevereiro de 1893: os poemas em prosa de Missal. Incompreendidos. Criticados. Execrados. Árdua é a sina de ter de aturar juízos míopes, como o do ilustre e respeitadíssimo crítico José Veríssimo:

“[Missal] é um amontoado de palavras, que dir-se-iam tiradas ao acaso, como papelinhos de sorte, e colocadas umas após outras na ordem em que vão saindo, com raro desdém da língua, da gramática e superabundante uso de maiúsculas. Uma ingênua presunção, nenhum pudor em elogiar-se, e, sobretudo, nenhuma compreensão, ou sequer intuição do movimento artístico que pretende seguir, completam a impressão que deixa este livro em que as palavras servem para não dizer nada.”

(José Veríssimo não imagina que anteviu, na poética de Cruz e Sousa, o que Tristan Tzara proporia como “Receita para se fazer um poema dadaísta”, em 1920... E pensar que esse mesmo crítico, após a morte de Cruz e Sousa, faria sua retratação, dizendo ser a poesia do Dante Negro “o ponto culminante da lírica brasileira em quatrocentos anos de existência.”)

Agosto de 1893, Broquéis. Apesar de bastante parnasiano, sob alguns aspectos, inaugura no Brasil uma nova linguagem poética, marcada pela rarefação do referente e pela musicalidade sugestiva. Teve sorte um pouco melhor, recebeu algumas linhas elogiosas por parte da imprensa. Quase todos reconheceram a musicalidade inovadora dos versos de Broquéis. O que não quer dizer que as portas da cúpula literária abriram-se para o poeta. José Veríssimo (de novo!) viu como principal característica dos poemas de Broquéis a “falta de emoção real” (!!!) E surgem outras vozes, como a de Artur de Azevedo, também de formação positivista, naturalista e parnasiana, que até apreciaram o ritmo ..., mas não podiam entender os versos do poeta negro: o que tal imagem significa? Qual a lógica de tais e tais idéias? O que quer dizer “sonho branco de quermesse”?, pergunta Artur de Azevedo? Sem atinar para o fato de que o ilogismo poderia ser a chave para o encontro da verdadeira Arte, os críticos chegam a uma conclusão: Cruz e Sousa é um poeta de poucas idéias.




ARTISTA: O SUPERCIVILIZADO DOS SENTIDOS

Todas essas críticas, recentes, encontram ainda ressonância na sensibilidade do poeta. Talvez isso explique seu receio de finalmente entrar na confeitaria e cumprimentar seus amigos. É Domingo, e naquele lugar reúne-se não só o grupo dos “Novos”, mas também o dos escritores consagrados: Bilac, Coelho Neto (sobre quem recaem as suspeitas do poeta a respeito da autoria de um soneto hediondo, que satiriza seu estilo); às vezes, até MACHADO DE ASSIS. Por outro lado, ali estavam aqueles cuja alma era receptiva às suas inovações poéticas, aqueles que, mesmo sem “entender” sua poesia, sentiam-na como a bruma envolvente e redentora. Aqueles que lhe elogiaram até mesmo o poema “Antífona”, abertura do livro Broquéis: mais que profissão de fé do Simbolismo, “Antífona” revelou a Arte Poética do “Dante Negro”. É a celebração do inefável, do imponderável, como resultado alquímico da mistura de cores, sons, cheiros, sensações, sentimentos. O substrato da poesia é o mesmo da alma: mistério. O que não elimina a plena consciência estética. O rigor apolíneo - com pulsação dionisíaca. O Branco e suas metáforas. O negro que idealiza o Branco: sublima sua condição? Ou o Branco como materialização da diafanidade suprema e reveladora? A magia de “Antífona” ultrapassa qualquer entendimento:

Ó Formas alvas, brancas, Formas claras
De Luares, de neves, de neblinas!...
Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas...
Incensos dos turíbulos das aras...

Formas do Amor, constelarmente puras,
De virgens e de Santas vaporosas...
Brilhos errantes, mádidas frescuras
E dolência de lírios e de rosas...

Indefiníveis músicas supremas,
Harmonias da Cor e do Perfume...
Horas do ocaso, trêmulas, extremas,
Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume...

Visões, salmos e cânticos serenos,
Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes...
Dormências de volúpicos venenos
Sutis e suaves, mórbidos , radiantes...

Infinitos espíritos dispersos,
Inefáveis, edênicos, aéreos,
Fecundai o Mistério destes versos
Com a chama ideal de todos os mistérios.
(...)




ARTISTA: O DESOLADO ALQUIMISTA DA DOR

Hoje, os poemas que Cruz e Sousa traz para mostrar aos companheiros são diferentes: ainda o branco, mas também o vermelho e negro. Ainda o transcendentalismo, mas também muita dor e revolta. Talvez eles estejam no volume Faróis; ou então, nos Últimos Sonetos. E, pairando sobre seus textos, a imagem do poeta como um desajustado, um inadaptado em relação à sociedade:

Desde que o Artista é um isolado, um esporádico, não adaptado ao meio, mas em completa, lógica e inevitável revolta contra ele, num conflito perpétuo entre sua natureza complexa e a natureza oposta do meio, a sensação, a emoção que experimenta é de ordem tal que foge a todas as classificações e casuísticas, a todas as argumentações que, parecendo as mais puras e as mais exaustivas do assunto, são, no entanto, sempre deficientes e falsas. Ele é o supercivilizado dos sentidos (...).
(“Emparedado”)

(Daí vem que Cruz e Sousa seja duas vezes maldito, no sentido de ser marginalizado e discriminado: pela raça e pela poesia. Daí que tenha tido que suportar críticas e sátiras por parte de quem analisou sua obra protegido pelo preconceito racial e literário. E daí que não tenha passado nem perto da Academia Brasileira de Letras, então recém-fundada, em 1896.)

A rejeição nos meios literários e na imprensa alimenta sua mágoa, que alimenta seu verso. A mágoa se destila, vira matéria-prima da poesia. A experiência concreta articula-se com a retórica, ou seja, o cotidiano ingrato converte-se na tópica decadentista do poeta maldito:

Tu és o louco da imortal loucura,
O louco da loucura mais suprema.
A terra é sempre a tua negra algema,
Prende-te nela a extrema Desventura.

Mas essa mesma algema de amargura,
Mas essa mesma Desventura extrema
Faz que tu’alma suplicando gema
E rebente em estrelas de ternura.

Tu és o Poeta, o grande Assinalado
Que povoas o mundo despovoado,
De belezas eternas, pouco a pouco.

Na Natureza prodigiosa e rica
Toda a audácia dos nervos justifica
Os teus espasmos imortais de louco!
(“O Assinalado”)

“Poucas vezes terá havido tamanha identidade entre uma tópica de natureza universal e um traço da condição individual. Retórica e existência fundiram-se perfeitamente nessa união, constituindo-se num caso singular na poesia brasileira. Essa fusão de categorias diferentes produziu um discurso em que o fingimento poético se disfarça com perfeição na sinceridade emocional, transmitindo ao leitor a impressão de autenticidade expressiva.” (Ivan Teixeira)

Cruz e Sousa sabe que atingiu a maturidade artística plena, consciente: a capacidade de transformar o sofrimento em Arte; de abandonar o puro confessionalismo, a auto-piedade romântica. A dor é sublimada e, pela Arte, transforma-se em Redenção.

Ainda à porta da confeitaria, o poeta até agora não se lembrou de Gavita. Caso contrário, já teria ido embora. Quantas vezes não faltara ao encontro dos “Novos” para estar mais tempo ao lado dela!




MUSA NEGRA

A vida dera-lhe Gavita, a mulher, a negra, a mãe de seus filhos. Chega o tempo da musa real, as musas alvas, “tudescas”, sidéreas, inatingíveis, já são passado; como aquela “Alda”, “Alva, do alvor das límpidas geleiras”, ou a dona daqueles “Braços” leitosos:

Braços nervosos, brancas opulências,
Brumais brancuras, fúlgidas brancuras,
Alvuras castas, virginais alvuras,
Lactescências das raras lactescências.
Gavita é o canto à mulher negra, ao colo real, em que o poeta repousa de seus dissabores. Agora, o espiritual não elimina o carnal:

Amar essa Núbia – vê-la entre véus translúcidos e florentes grinaldas, Noiva hesitante, ansiosa, trêmula, tê-la nos braços como num tálamo puro, por entre epitalâmios; sentir-lhe a chama dos beijos, boca contra boca, nervosamente – certo que é, para um sentimento d’Arte, amar espiritualmente e carnalmente amar.

Beleza prodigiosa de olhos como pérolas negras refulgindo no tenebroso cetim do rosto fino; lábios mádidos, tintos a sulferino; dentes de esmalte claro; busto delicado, airoso, talhado em relevo de bronze florentino, a Núbia lembra, esquisita e rara, esse lindo âmbar negro, azeviche da Islândia.
(“Núbia”)

No entanto, uma vez mais o carnal não se justifica por si só, ele se funde ao prazer estético. No fim e no fundo de tudo, a Arte, com quem o poeta se casara desde sempre:

No entanto, amar essa carne deliciosa de Núbia, ansiar por possuí-la, não constitui jamais sensação exótica, excentricidade, fetichismo, aspiração de um ideal abstruso e triste, gozo efêmero, afinal, de naturezas amorfas e doentias.

Senti-la como um desejo que domina e arrasta, querê-la no afeto, para fecundá-lo e flori-lo, como uma semente d’ouro germinando em terreno fértil, é querer possuí-la para a Arte, tê-la como uma página viva, veemente, da paixão humana, vibrando e cantando o amor impulsivo e franco, natural, espontâneo, como a obra d’arte deve vibrar e cantar espontaneamente.




BALADA DE LOUCOS

Mas a vida dera-lhe também a loucura de Gavita. A companheira dócil aliena-se em rezas e ladainhas incompreensíveis, bárbaras... E foi como se os dois enlouquecessem; foi como se ambos morressem, estando vivos: “A pouco e pouco – dois exilados personagens do Nada – parávamos no caminho solitário, cogitando o rumo. Como, quando se leva a enterrar alguém, as paradas rítmicas do esquife...”. Enfim, ela volta do universo da demência, que se parecia com a Morte:

Alma! Que tu não chores e não gemas,
Teu amor voltou agora.
Ei-lo que chega das mansões extremas,
Lá onde a loucura mora!

Veio mesmo mais belo e estranho, acaso,
Desses lívidos países,
Mágica flor a rebentar de um vaso
Com prodigiosas raízes.

Veio transfigurada e mais formosa
Essa ingênua natureza,
Mais ágil, mais delgada, mais nervosa,
Das essências da Beleza.
(...)
(Ressureição)




"ABRE-ME OS BRAÇOS, SOLIDÃO PROFUNDA"

Já se faz tarde, alguns dos intelectuais seus amigos fazem menção de se levantar para sair. O poeta, no limiar entre o fora e o dentro de si, o fora e o dentro da confeitaria, sente um impulso para entrar. É novamente saudado, recebe o sempre terno e sincero abraço de Nestor Vítor. É este quem lhe apresenta o desconhecido que há pouco apontava para Cruz e Souza.

- Cruz, quero que conheça o poeta Alphonsus de Guimarães, que acaba de chegar de Minas Gerais especialmente para vê-lo.

Entre lisonjeado e envergonhado, Cruz e Sousa emudece. Tem sempre atitude reservada e desconfiada diante de quem não conhece. Gosta da homenagem, mas a presença do poeta mineiro adia uma necessidade urgente: o pedido de dinheiro a Nestor Vítor. Os 250 mil réis mensais recebidos da Central do Brasil, onde é arquivista, já não chegam para o aluguel, o sustento dos filhos, e, agora, para o tratamento de sua saúde, que, ele sabia, não ia bem. Nesse encontro, apenas Nestor Vítor reparou na opacidade do olhar do poeta, no tom muito baixo de sua voz, na perda de peso, na angústia decorrente da dependência de um cargo medíocre e burocrático, que, se o sustentava, também o obrigava a escrever até às altas horas da noite.

Enredado pela admiração de Alphonsus de Guimarães, Cruz e Sousa declama alguns de seus recentes poemas. Todos percebem que, em comum, aqueles sonetos apresentam os temas do sofrimento, da morte, da redenção, como ocorre no famoso “Cárcere das almas”.

Realizado, o poeta mineiro recolhe-se. Satisfez o seu desejo de conhecer o “Cisne Negro”, poderia voltar para Mariana e lá viver ainda muito tempo, escrevendo seus poemas romântico-simbolistas; o grupo se desfaz. Cruz e Sousa parte para casa, sem o dinheiro de que precisava.

Dali a algum tempo, naquela mesma confeitaria, Cruz não teria nada a pedir a ninguém, nem dinheiro. Apenas entregaria a Nestor Vítor a trilogia de sonetos “Pacto das Almas”, em que professa a crença no encontro com o amigo em outra dimensão, e um volume inédito de poemas em prosa, Evocações. Era uma despedida. Um sinal do agravamento de sua tuberculose, doença que lhe causou enorme sofrimento, e enorme comoção por parte da intelectualidade brasileira. Para quê tanta mobilização em torno da situação precária de um poeta extraordinário, agora que sua doença não tem mais cura? E os donativos, as contribuições, as manifestações de apoio não seriam nem metade da atenção dada à sua obra após a sua morte. Ali, com os originais de Evocações nas mãos, prestes a serem entregues ao amigo, o poeta nem suspeita – ou tem como certa? – a glória que seu nome alcançaria.

Era mister que me deixassem ao menos ser livre no Silêncio e na Solidão. Que não me negassem a necessidade fatal, imperiosa, ingênita, de sacudir com liberdade e com volúpia os nervos e desprender com largueza e com audácia o meu verbo soluçante, na força impetuosa indomável da Vontade.

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Bibliografia:

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MURICI, Andrade. “Atualidade de Cruz e Sousa”. Introdução à Obra Completa de Cruz e Sousa. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1995.

MUZART, Zahidé Lupinacci. “Cruz e Sousa e a crítica”. Revista Cult n º 08. São Paulo, Editorial Lemos, Março de 1998.

RUFINONI, Simone Rossinetti. “O Satã Negro”. Revista Cult n º 08. São Paulo, Editorial Lemos, Março de 1998.

TEIXEIRA, Ivan. “Metafísica e exílio”. Revista Cult n º 08. São Paulo, Editorial Lemos, Março de 1998.