Sei que pareço um ladrão...

António Aleixo

Poeta:
1899 - 1949



Quando tudo aconteceu...

António Aleixo nasce em 18 de Fevereiro de 1899 em Vila Real de Santo António e falece em 16 de Novembro de 1949 em Loulé.

Foi guardador de cabras, cantor popular de feira em feira, soldado, polícia, tecelão, servente de pedreiro em França, “poeta cauteleiro”.

Apesar de semi-analfabeto deixa a seguinte obra escrita que o Dr. Joaquim Magalhães teve o cuidado de passar a limpo: «Este livro que vos deixo», «O Auto do Curandeiro», «O Auto da Vida e da Morte», o incompleto «O Auto do Ti Jaquim» e «Inéditos».
Em homenagem ao Poeta e à sua obra, no parque da cidade de Loulé foi levantado um monumento frente ao “Café Calcinha”, local outrora frequentado pelo Poeta.

O antigo Liceu de Portimão passou a chamar-se Escola Secundária Poeta António Aleixo.

Há alguns anos também passou a existir uma «Fundação António Aleixo» com sede em Loulé e que já usufrui do Estatuto de Utilidade Pública, o que lhe permite atribuir bolsas de estudo aos mais carenciados.

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JOÃO DE DEUS E "A VIDA"

Um outro poeta algarvio, não do litoral mas da meia-encosta - S. Bartolomeu de Messines - nascido em 1830 e falecido em 1896, de seu nome João de Deus Ramos, escrevera “A VIDA”, elegia que talvez seja a sua obra-prima. Transcrevem-se alguns trechos dessa elegia:

A vida é o dia de hoje,
A vida é ai que mal soa,
A vida é sombra que foge,
A vida é nuvem que voa;
A vida é sonho tão leve
Que se desfaz como a neve
E como o fumo se esvai;
A vida dura um momento,
Mais leve que o pensamento,
A vida leva-a o vento,
A vida é folha que cai!

A vida é flor na corrente,
A vida é sopro suave,
A vida é estrela cadente,
Voa mais leve que a ave;
Nuvem que o vento nos ares,
Onda que o vento nos mares,
Uma após outra lançou.
A vida - pena caída
Da asa de ave ferida -
De vale em vale impelida
A vida o vento a levou!
(...)

Repetições, elipses, mudança brusca do sentido gramatical de uma palavra, exclamações, improvisações à viola sobre o cancioneiro popular e estudantil (de Coimbra), poesia simples e expressevidade rítmica. Com este material tão pobre, ou nada se faz, ou então é-se arrastado e navega-se pela torrente do cancioneiro popular. Por intuição, João de Deus aproxima-se de Camões, de Petrarca e Dante, vai mesmo beber os versículos da Bíblia. Mas isso porque é um homem letrado. Pergunto: e quem não bebeu das letras impressas, quem não passou horas numa biblioteca a folhear livros? Simplicidade verbal... Seja! Mas estará este remansoso ribeirinho ao alcance de quem nele queira simplesmente navegar?