Morrer, se for preciso; matar, nunca!

Cândido Rondon

Explorador, geógrafo, pacificador:
1865 - 1958



Quando tudo aconteceu...

1865: Nascimento de Cândido Mariano da Silva Rondon, em Mato Grosso, Brasil. - 1881: Ingressa na Escola Militar do Rio de Janeiro. - 1888: É promovido a alferes. - 1889, 15 de Novembro: participa na implantação da República. - 1890: Bacharel em Ciências Físicas e Naturais; promovido a tenente; professor de Astronomia, Mecânica Racional e Matemática Superior; abandona o ensino e passa a servir no sector do Exército dedicado à construção de linhas telegráficas pela vastidão do interior brasileiro. - 1892: Casa com Francisca Xavier. - 1898: Ingressa na Igreja da Religião da Humanidade (positivista). - 1901: Pacifica os índios Bororo. - 1906: Estabelece as ligações telegráficas de Corumbá e Cuiabá com o Paraguai e a Bolívia - 1907: Pacifica os índios Nambikuára. - 1910: É nomeado 1º director do Serviço de Protecção aos Índios. - 1911: Pacificação dos Botocudo, do Vale do Rio Doce (entre Minas Gerais e Espírito Santo). - 1912: Pacificação dos Kaingáng, de São Paulo. - 1913: Acompanha e orienta o ex-presidente americano Theodore Roosevelt na sua expedição ao Amazonas. - 1914: Pacificação dos Xokleng, de Sta. Catarina; recebe o Prémio Livingstone, concedido pela Sociedade de Geografia de Nova Iorque. - 1918: Pacificação dos Umotina, dos rios Sepotuba e Paraguai; começa a levantar a Carta de Mato Grosso. - 1919: É nomeado Director de Engenharia do Exército. - 1922: Pacificação dos Parintintim, do rio Madeira. - 1927/30: Inspecciona toda a fronteira brasileira desde as Guianas à Argentina - 1928: Pacificação dos Urubu, do vale do rio Gurupi, entre o Pará e o Maranhão. - 1930: Revolução no Brasil; Getúlio Vargas, o novo presidente, hostiliza Rondon que, para evitar perseguições ao Serviço de Protecção aos Índios, logo se demite da sua direcção. - 1938: Promove a paz entre a Colômbia e o Peru que disputavam o território de Letícia. - 1939: Reassume a direcção do Serviço de Protecção aos Índios. - 1946: Pacificação dos Xavante, do vale do rio das Mortes. - 1952: Propõe a fundação do Parque Indígena do Xingu. - 1953: Inaugura o Museu Nacional do Índio. - 1955: O Congresso Nacional brasileiro promove-o a Marechal e dá o nome de Rondónia ao território do Guaporé. - 1958: Morte de Cândido Rondon.

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Entrevista que o brasileiro Diaí Nambikuára concedeu à jornalista portuguesa Aurora Matos

É um índio brasileiro, homem culto, licenciado em Sociologia. Entroncado, rosto redondo, olhos negros e repuxados, tez acobreada, cabelos escorridos, terá talvez uns sessenta anos. Apoiado pelos Verdes e outros grupos ecologistas, também pelo S.O.S. Racismo, pela Amnistia Internacional e por múltiplas organizações de defesa dos direitos humanos, há seis meses que anda pelas capitais da Europa a tentar mobilizar a opinião pública do Velho Continente contra o extermínio dos povos indígenas da América Latina. Fala perfeitamente a nossa língua. Mas, do seu discurso, por vezes irrompem inesperadas palavras em tupi-guarani que nos laçam e arrastam para a vastidão do Amazonas e Mato Grosso. E é justamente aí que ele nos revela um outro Ghandi do século XX, que a soberba europeia tentou sempre ignorar. Esta é a segunda entrevista que Diaí Nambikuára nos concede:

- Senhor Dr. Diaí, por favor esclareça-me: quem foi esse Rondon de quem está sempre a falar?

- Aurora, tenha dó, nem senhor, nem doutor...

- Mas devo tratá-lo como?

- Por Você, como normalmente os brasileiros se tratam uns aos outros.

- Seja então! Apesar do morticínio, Você ainda se considera brasileiro?

- Aurora, quando portugueses e outros europeus arribaram ao Brasil, nós já ali vivíamos há muitos e muitos séculos. Por isso os índios são os mais brasileiros dos brasileiros. Quem o disse foi Rondon.

- Mas afinal quem é, ou quem foi, esse Rondon?

- Não posso crer, Você não sabe mesmo? Ao menos sabe o que é Rondónia?

- É um Estado brasileiro, não é?

- Sim, é o antigo Território do Guaporé crismado de Rondónia em homenagem a Rondon. É um pequeno Estado, apenas com a dimensão da Itália...

- Fico na mesma.

- Estou vendo que o Curupira continua soprando as neblinas do Esquecimento, forma nova de confundir os viajantes... Não só em Portugal, não só na Europa, até mesmo no Brasil...

- Curupira? Mas o que é isso?




CURUPIRA

- Curupira é o espírito maligno da mata, equivalente ao vosso Diabo. Ser disforme, de grandes orelhas, calvo, com as pernas às avessas, calcanhares para a frente e dedos para trás. Marcha com firmeza do abismo para a vida. Por causa das pegadas invertidas, quem pensa seguir-lhe a pista, acaba por cair no tal abismo ou noutra qualquer arapuca.

- Arapuca? O que é isso?

- Armadilha.

- Estou a ver, mitologia indígena...

- Não só indígena...

- Vai desculpar-me, mas o que é que isso tem a ver com a Europa?

Diaí Nambikuára abre os braços, sorri, diverte-se:

- Você acha que não tem? Então me diga uma coisa: não foi o Curupira que vos atraiu desde o "ama o próximo como a ti mesmo" até aos autos de fé da Inquisição? Não foi o Curupira que vos atraiu desde o comunismo, bem comum, até ao desterro e às matanças do Goulag? Não foi o Curupira, esse diabo, que invadiu e destroçou os vossos Paraísos? Se não, então quem foi?

Também sorrio, não sei o que responder, tento uma esquiva:

- Não me diga que o Rondon também seguiu as pegadas do Curupira...

- Não, nessa não caiu. A vingança do Curupira é agora soprar sobre ele as neblinas do Esquecimento. Sobre ele e sobre os seus antepassados espirituais...

- Que foram...

- Augusto Comte e Benjamim Constant.




POSITIVISTAS

- Dois franceses?

- Um francês, Augusto Comte. E um brasileiro, Benjamim Constant Botelho de Magalhães.

- Comte, eu sei que foi o fundador do Positivismo. Benjamim Constant Magalhães não sei quem seja, confesso a minha ignorância.

- Foi o militar brasileiro que em 15 de Novembro de 1889 promoveu a transição pacífica da Monarquia para a República. Antes dessa data já abrira caminho para a abolição da escravatura, que veio a ocorrer em 13 de Maio de 1888.

- Uma figura...

- Um positivista convicto. Ainda moço, lê, estuda e analisa o Curso de Filosofia Positiva de Augusto Comte. Entusiasma-se, adere ao Positivismo. O ideal desta Filosofia era unir todas as Culturas, até então separadas, do Ocidente e do Oriente, sem que nada se perdesse e tudo se somasse. Para Comte, cada homem vale não pelo que tem, mas pelo que é, mais do que a fortuna vale o mérito. Tentou alcançar o Guajupiá através do...

- O quê?

- Paraíso.

- Por que é que Você, volta e meia, usa palavras tupis? É tupi, não é?

- Sim, é tupi-guarani. É só para que Você saiba que os índios não são alheios a certos conceitos metafísicos, não somos os selvagens broncos que nos pintam.

- Estou a ver... Mas Comte pensava alcançar o Paraíso através...

- Através do progresso do espírito humano, três estádios, o teológico, o metafísico e, finalmente, o positivo. Neste, vingariam máximas como "agir por afeição e pensar para agir", "induzir para deduzir, a fim de construir", "saber para prever, a fim de prover". Está entendendo?

- Mais ou menos.... E Marx? Como pensava ele alcançar o Paraíso?

- Através da luta de classes; justamente para aboli-las e acabar de vez com a exploração do homem pelo homem.

- De boas intenções está o Inferno cheio, não é?

- Se eu fosse positivista ou marxista dir-lhe-ia: Aurora, deixe-se de metafísicas! Mas isso, por agora, não interessa. Repare: curiosamente, é no Brasil que mais fundo se enraíza o Positivismo. Não em França, nem sequer no resto da Europa. Já lhe disse que foi um positivista brasileiro que promoveu a transição pacífica da Monarquia para a República. Na nossa bandeira ainda hoje permanece inscrita a máxima positivista Ordem e Progresso. Aurora: nas movimentações políticas do 15 de Novembro de 1889, sabe quem foi o homem de confiança do Benjamim Constant?

- Não faço ideia.

- Foi o alferes matogrossense Cândido Rondon.

- Finalmente o Rondon! Já não era sem tempo...





NOS CAMPOS DO MIMOSO

- Menina, Você é muito impaciente, tenho que falar com o seu maracá...

- O meu quê?

- Maracá, anjo da guarda. Tenha calma, repare, entenda: foi o ouro de Cuiabá que atraiu os bandeirantes paulistas a Mato Grosso. Mas depois as reservas esgotaram-se e os seus descendentes, já misturados com índios e negros, ficaram pasmados nos campos do Mimoso, palmais, florestas, rios, lagoas e mais lagoas. Sem ouro para minerar, o que iriam eles fazer naquela região tão isolada? A alternativa foi criar gado porque sem estradas, nem caminhos, só o gado consegue locomover-se através de milhares de quilómetros até aos mercados do litoral. Em linha recta, Você sabe, Menina, qual é a distância de Cuiabá até ao litoral atlântico?

- Uns mil quilómetros?

- Diga antes dois mil. Mais ou menos a distância de Lisboa a Praga.

- É um mundo, o seu Brasil...

- É quase um continente. Foi nos campos do Mimoso, na sesmaria de Monte Redondo, que a 5 de Maio de 1865 nasceu Cândido Mariano da Silva Rondon. Da sua vertente paterna recebeu sangue de portugueses e espanhóis, também de índios Guaná; da materna, sangue de índios Terena e Bororo. Nele, tudo se soma, nada se perde.

- Família rica?

- Gente pobre. E ele, aos dois anos, já é órfão de pai e mãe. Um tio paterno é quem toma conta dele e o leva para Cuiabá. Ali cresce, ali estuda e conclui com distinção o curso secundário. Um fora de série em Matemática.

- E havia universidade em Cuiabá?

- Não, não havia, mas Cândido quer continuar os estudos, a sua ambição é o Rio de Janeiro. Para um menino pobre há apenas duas saídas: ou Escola Militar, ou Seminário. Pede licença ao tio e opta: antes murubixaba do que pajé.

- Desculpe, não percebo.

- Antes chefe guerreiro do que padre.





FAZER A PAZ

- O alferes Cândido Rondon tem 23 anos quando auxilia Benjamim Constant a implantar o regime republicano. E no ano seguinte, em 1890, é graduado bacharel de Ciências Físicas e Naturais e promovido a tenente. A convite do seu mestre Benjamim Constant, na Escola Militar começa a leccionar Astronomia, Mecânica Racional e Matemática Superior. Mas, pouco tempo depois, convidado para o serviço mais árduo do Exército, que é a construção de linhas telegráficas pelo interior do Brasil, não hesita em abandonar a sua promissora carreira de magistério. E ei-lo, com a sua tropa, a abrir picadas, a abater árvores, a levantar postes, a instalar fios atravessando as matas de Goiás até ao seu Mato Grosso natal. No meio da selva, apavorados, os soldados querem reagir com violência às sucessivas ameaças dos bugres.

- Bugres? O que é isso?

- Bugre é o índio dito selvagem, no linguajar dos brancos. E bugreiro é o caçador de índios. Normalmente é um mestiço que, através da violência contra os seus parentes indígenas, tenta cativar o favor dos brancos. Os índios que se opunham ao avanço dos usurpadores sobre os territórios tribais, eram dizimados e as suas tabas e malocas incendiadas. Para isso é que serviam os bugreiros, muitos deles pagos pelos próprios governos estaduais.

- Tabas?

- Aldeias. O objectivo de Rondon não era matar, mas pacificar.

- Princípio positivista?

- Exactamente.

- Talvez por influência de Benjamim Constant, não?

- Acertou. Em 1898 Rondon irá aderir à Igreja da Religião da Humanidade.

- Mas o Positivismo é uma Religião e tinha Igreja?

- Menina: a palavra "religião" deriva de "religar". Nesse sentido, o Positivismo é uma Religião, porque ambiciona religar os Homens. E a sua Igreja é diferente das outras. No Positivismo, a crença em seres e fenómenos sobrenaturais é substituída pela adoração e entendimento de uma nova Trindade: não mais o Pai, o Filho e o Espírito Santo, mas sim a Humanidade, a Terra e o Espaço. A sua Fórmula Sagrada é O Amor por Princípio, a Ordem por Base, o Progresso por Fim. E a sua Fórmula Moral é Viver para Outrem.

- E Você? Também é positivista?

- Não vim à Europa para falar de mim.

- Mas como é possível pacificar um povo em armas, estando os seus guerreiros, com razão, indignados e furiosos?

- Essa é, justamente, a grandeza de Rondon. Foi sempre rigoroso na aplicação da sua máxima "Morrer, se for preciso; matar nunca!". Dezenas de oficiais e mais de centena e meia de soldados e trabalhadores civis foram mortos porque desistiram de matar. Melhor dizendo: deixaram-se matar. Neles, a força de uma ideia suplantou o instinto de conservação. O humanismo, levado a sério, tem custos altos.

- O princípio teórico, eu compreendo. Mas, na prática, como é que Rondon o aplicava?

- Aurora: antes compreenda, como Rondon o compreendeu, que os índios são homens a viver no neolítico. Mas somos homens e, como todos os homens, ambicionamos viver melhor. Súbitas e maravilhosas ferramentas de metal postas à nossa disposição, facas, facões, cunhas, alavancas, anzóis, tesouras, machados e machetes, podem ser o chamariz que nos decida à caminhada da pré-história à civilização. Quando cercado e atacado pelos índios, Rondon deixa os presentes numa clareira e trata de recuar com a sua tropa. Sinal evidente de que deseja a paz e, no dia seguinte, torna. Uma, duas, três vezes, as que forem necessárias até que os índios se disponham a ir à fala...

- E todos eles aceitavam o diálogo?

- Nem todos, alguns são muito renitentes. Rondon explica-nos porquê: "Eles nos evitam; não nos proporcionam ocasião para uma conferência, com certeza por causa da desconfiança provocada pelos primeiros invasores que profanaram seus lares. Talvez nos odeiem também porque, do ponto de vista em que estão, todos nós fazemos parte dessa grande tribo guerreira que, desde tempos imemoriais, lhes vem causando tantas desgraças, das quais as mais antigas revivem nas tradições conservadas pelos anciães." Eis porque um dos meus antepassados, da tribo dos Nambikuára, quase o mata à frechada; uma das setas raspa-lhe o rosto, a outra crava-se na bandoleira da carabina.

- E ele?

- Limita-se a disparar dois tiros para o ar. Assim nós, os Nambikuára, estamos vendo que aquele guerreiro, da tribo dos brancos, não quer matar.

- E os soldados?

- Exigem vingança. Um oficial grita que é uma vergonha se o Exército não der um correctivo exemplar àqueles selvagens. Rondon corta-lhe a palavra: "Quem representa aqui o Exército sou eu, e o Exército não veio aqui para fazer guerras. Os Nambikuára não sabem que a nossa missão é de paz. Se esta terra fosse vossa e alguém viesse roubá-la e, ainda por cima, vos desse tiros, o que é que os senhores fariam apesar de civilizados?" Mão firme e palavras como estas é que travam a tropa.

- Isso aconteceu durante a primeira expedição de Goiás a Mato Grosso?

- Não, isto acontecerá mais tarde, em 1907, se não me falha a memória. Pela mesma época também descobre o rio Juruena; alguns duvidavam que existisse, seria apenas lenda... Durante as primeiras expedições ele pacifica outras tribos. Mas se é difícil fazer a paz, mais difícil é mantê-la.




MANTER A PAZ

Diaí Nambikuára levanta-se, parece um felino a deslizar pela sala. Estaca de súbito, imobiliza-se, fita-me, diz-me:

- Da pré-história à civilização... Viagem no tempo, rumo ao futuro, e Rondon cuidando sempre do bem-estar dos viajantes... Você pode imaginar o que é atravessar milénios em apenas duas ou três gerações? Menina, imagine-se a correr a Maratona. Aos cinco quilómetros Você já está exausta e ainda falta tanto para chegar ao fim... Para nós é viagem cansativa mas fascinante. Deslumbrados, lá vamos nós em frente, talvez mesmo hipnotizados. Se não houver escolta que proteja a nossa marcha, seremos presa ainda mais fácil para os bugreiros. Em 1916 dirá Rondon: "Sertões onde nunca pisou homem civilizado já figuram nos registos públicos como pertencentes aos cidadãos A ou B; mais tarde ou mais cedo, conforme lhes soprar o vento dos interesses pessoais, esses proprietários expelirão dali os índios que, por uma inversão monstruosa dos factos, da razão e da moral, serão então considerados e tratados como se fossem eles os intrusos salteadores e ladrões."

- Premonições...

- Eu diria antes: realismo! Por essas e por outras Rondon exige que cada tribo pacificada fique sob a protecção do Exército e, depois, sob a protecção do Estado. Demarca cada território tribal e tenta registá-lo como propriedade colectiva da tribo. E trata de garantir-nos o direito de vivermos as nossas próprias vidas, de professarmos as nossas próprias crenças e de evoluirmos segundo o ritmo que formos capazes de alcançar, sem nunca estarmos sujeitos a qualquer açoite ideológico.

- Nem da catequese católica?

- De nenhuma catequese. Professores sim, sacerdotes não. Para quê outros pajés? Para mais nos confundirem, cortando as nossas raízes tradicionais? Repare nos mortos-vivos em que os missionários jesuítas, Anchieta e Nóbrega incluídos, transformaram os índios catequizados. Os coitados perderam a civilização a que pertenciam sem terem conseguido entrar naquela para onde os queriam levar... Algo de semelhante se passa hoje em África. Por ali, mortos-vivos, rapinantes e bugreiros, é o que não falta...

- Mas Diaí, bugreiros, em África?

- Chame-lhe negreiros, se quiser, qual seja a cor que tiverem. Ali, é a cobiça que fomenta as lutas inter-tribais, mortos em cadeia, hecatombe. Apenas sobrevivem os mortos-vivos, errantes de raiz cortada... Hoje, não só em África, mas em todos os continentes, precisaríamos de um punhado de homens com a têmpera do Rondon... Lutou sempre pela paz, não só entre índios e brancos, mas entre índios e índios.

- Por exemplo...

- Olhe, não vá mais longe, entre os Paresi e os Nambikuára, a minha tribo.

- Entendo... Mas nós estávamos era a falar do programa do Rondon...

- Menina, tenha calma, foi um aparte, já estou encarreirando: todo o programa do Rondon é sistematizado em 1910 com a fundação do SPI - Serviço de Protecção aos Índios, dependência do Ministério da Agricultura que acabará por ter 67 postos de assistência aos índios distribuídos pelo interior do Brasil. O 1.º director é, obviamente, Cândido Rondon. Nem ele, nem o SPI, nos pespegam ideias feitas, apenas nos fornecem meios para podermos evoluir: ferramentas de metal para facilitar os nossos trabalhos na mata; as artes de fiar, tecer, cortar e coser para melhor nos vestirmos; o sal e a gordura para melhor conservarmos os alimentos; remédios, preceitos e produtos de higiene; a arte de levantar uma casa de pau a pique, etc. Apenas meios para começarmos a viver melhor, não ideias preconcebidas. De entre nós, só os que mostram ânsia de saber mais, é que são alfabetizados.

- Como Você?

- Sim, como eu. E apesar de eu já ter estudado muito, saudades tenho ainda de correr nu pelas minhas matas e banhar-me nos meus igarapés... Não se atravessa, impunemente, milhares de anos numa só vida...

- Quantas tribos pacificou Rondon?

- Muitas! Não só Rondon, mas também os seus colaboradores do SPI... Assim de cor, não sou capaz de dizer todas. Cito apenas algumas: os Bororo, os Caiamo, os Guaicuru, os Uachiri, os Cavaleiros, os Ofaié, os Terena, os Quinquinau, os Paresi, os Kaingáng, os Xokleng, os Botocudo, os Umutina, os Nambikuára, os Tirió, os Pianocoti, os Kepkiriwát, os Parnawát, os Urumi, os Arikén, os Rama-Rama, os Urubu, os Parintintim e, por último, os Xavante, em 1946. Rondon morreu com 93 anos. Desses, mais de 57 foram dedicados à defesa dos direitos dos povos indígenas do Brasil. Firmeza, nunca desistiu de alcançar a Yuí Marane’i.

- O que é isso?

- Yuí Marane’i, a Terra Sem Mal... Quando hoje eu vejo a Amazónia a arder, incendiada pela ganância de madeireiros e seringueiros e criadores de gado; quando vejo os seus bugreiros apostados em chacinar até ao último índio, ou à bala, ou com veneno como a estriquinina, ou com doenças contagiosas como a varíola, disseminadas de maloca em maloca, pergunto-me onde estaríamos hoje nós, povos indígenas, se não tivesse existido um Rondon. Embora muitos de nós tenham sido e continuem a ser chacinados, dezenas de milhares foram salvos por ele.

- Um grande missionário! Leigo, mas um grande missionário...

Diaí Nambikuára irrita-se, parece furioso com a minha observação. Não me espantará se arrancar camisa e calças para, desnudo, iniciar uma dança guerreira. Já me atira um dardo com ponta de sílex:

- Menina, não diga bobagem! Apesar desse "leigo" metido a adversativo, esqueça a palavra... Pelos sacrifícios que sofrem servindo a Deus, os missionários pensam ganhar o Céu. É recompensa metafísica, mas recompensa. Já Rondon e os homens do SPI são movidos apenas por uma ideia civil, laica, viver para outrem. Para eles não está prometida qualquer recompensa; nem nesta, nem na outra Vida. Ora diga lá: quais são os mais abnegados?




UMA VOLTA AO MUNDO

Engasgo-me, não tenho que opinar, o entrevistado é ele.. E ele continua:

- A construção de linhas telegráficas foi o motivo primeiro para as entradas de Rondon pelos sertões brasileiros.

- E fez muitas expedições?

- Inúmeras! Em 1891 já tinha instalado 1574 quilómetros de linhas telegráficas. Acabará por instalar cerca de 7000...

- Estou a ver que é ele o pai das comunicações brasileiras.

- Também é! Mais importante é ter sido o Pai dos índios brasileiros.

- Expedições atrás de expedições, instalação de linhas telegráficas, pacificação e defesa dos direitos dos índios... Sempre a andar... Esse homem nunca parou? E amores, como foi?

- Em 1892, no Rio de Janeiro, Rondon casa com Chiquinha Xavier. Ainda no mesmo ano parte para Cuiabá com a esposa. Chiquinha virá a dar-lhe um filho e seis filhas.

- Vigor genital!

- Cada qual tem o seu, mais não sei... Até 1898 Rondon é o responsável pela manutenção das linhas telegráficas de Mato Grosso. Em 1899 chefia a comissão que estende as linhas de Cuiabá a Corumbá, também para a Bolívia e o Paraguai. Em 1906 atravessa 250 léguas dos sertões do Noroeste de Mato Grosso e 300 léguas da floresta amazónica, para levar os fios desde Cuiabá ao Território do Acre, fechando assim o circuito telegráfico nacional. E, nessas andanças, sempre a pacificar e a integrar novas tribos, protegendo-as contra espoliadores e bugreiros.

- Um outro Ghandi...

- Sim, tem razão, ambos viveram na mesma época. Mas, distanciados por milhares de quilómetros, ignoravam-se um ao outro. E afinal tinham missão idêntica, viver para outrem, altruísmo. Um na América do Sul e o outro na Ásia.

- Mas o mais conhecido é o Ghandi.

- Porque sacudiu a Coroa Britânica. Rondou sacudiu apenas as consciências. Foi por isso.

- Sim, o Ghandi teve enorme projecção política...

- ... enquanto o Rondon foi apenas explorador, humanista e cientista.

- Cientista? Dessa não sabia eu...

- É o que eu dizia, são as neblinas do Curupira... Em cada expedição, Rondon levava, para além da tropa, duas equipas. Uma, a dos construtores das linhas telegráficas. Outra, a de cientistas: geólogos, botânicos, zoólogos, etnógrafos, linguistas. Geógrafo era o próprio Rondon que fez o levantamento de milhares de quilómetros lineares de terras e águas, determinou as coordenadas (longitude e latitude) de mais de 200 localidades, inscreveu no mapa do Brasil 12 rios até então desconhecidos e corrigiu erros grosseiros sobre o curso de outros tantos. Os outros cientistas das suas equipas recolheram mais de 3 mil artefactos indígenas, mais de 8 mil espécimes da flora, mais de 5 mil espécimes da fauna e um número infinito de amostras minerais. A maior contribuição de sempre para o Museu Nacional...

- Espantoso! Mas, diga-me uma coisa: se não estou em erro, foi no princípio do século, antes da Grande Guerra, que Marconi inventou a telegrafia sem fios. Isso não interferiu com o trabalho de Rondon?

- A nova tecnologia demorou a chegar ao Brasil. Por outro lado, a manutenção das linhas telegráficas passara a ser pretexto para se continuar a integração dos índios. Muitos destes eram empregados na própria manutenção das linhas "mediante retribuição mais justa do que as ilusórias vantagens que colhem ao serviço de particulares que os exploram desumanamente". Quem o diz é o próprio Rondon. Eu acho que se a TSF tivesse sido inventada uns 30 anos antes, talvez Rondon não tivesse iniciado a sua cruzada humanitária em 1890. E, em consequência, talvez hoje já não existissem índios no Brasil, holocausto.

- Afinal, sempre há males que vêm por bem... Mas Você estava a contar a contribuição para o Museu Nacional...

- Conto-lhe outra: a pedido do governo brasileiro, em 1913 Rondon organiza a expedição do ex-presidente norte-americano Theodore Roosevelt ao Amazonas. Partem da fronteira com o Paraguai e, ao fim de dois anos, alcançam Belém do Pará. Rondon aproveita para inscrever no mapa do Brasil um rio com mais de mil quilómetros e até então de curso misterioso, chamavam-lhe o rio da Dúvida. Roosevelt é o novo nome que Rondon lhe dá. Durante a jornada várias vezes tem que se impor para que os americanos obedeçam às suas normas de aproximação aos índios.

- O que é que os americanos pretendiam? Tiroteio à far west?

- Mais ou menos isso... Mais tarde Roosevelt acaba por reconhecer a justeza das posições de Rondon e declara: "A América pode apresentar ao mundo duas realizações ciclópicas: ao norte, o canal do Panamá; ao sul, o trabalho de Rondon - científico, prático, humanitário."

- Até que enfim, o reconhecimento internacional...

- Houve mais: em 1914 a Sociedade de Geografia de Nova Iorque concede a Rondon o Prémio Livingstone, por ser o explorador que mais se adentrara em terras tropicais. Em 1913, já o Congresso das Raças, reunido em Londres, aplaudira com entusiasmo a obra de Rondon, apontando-a como exemplo a ser seguido "para honra da civilização universal".

Diaí Nambikuára cala-se, balança a cabeça, cepticismo. Por fim resmunga:

- Para honra da civilização universal... Letra morta... Duas guerras mundiais... E depois, olhe só o que está hoje acontecendo no Brasil, e em África, e na Ásia, e até na própria Europa... Letra morta, letra morta...

Recompõe-se:

- Deixemos isso... Você quer saber mais a respeito do Rondon, não é? Em 1918 levanta a carta do Mato Grosso. O melhor é Você pegar num mapa do Brasil para entender tudo o que vou dizer agora. Em 1927, já como General de Divisão, começa a dirigir a inspecção de fronteiras. Avança para o Oiapoque, junto à fronteira com a Guiana Francesa. Passa ao Rio Branco, ao Mahu e ao Tucutu, para estudar a fronteira com a Guiana Inglesa. Sobe o rio Uraricoera para alcançar a fronteira com a Venezuela. Nova expedição em 1928: sobe o rio Cuminá até às suas nascentes, junto à Guiana Holandesa.

- Desculpe interrompê-lo outra vez. Ao fazerem travessias tão longas por florestas virgens, como é que eles se abasteciam de mantimentos?

- Menina: entrar na mata é mergulhar no verde. Nesgas de azul só lá no alto, de vez em quando por entre as copas. A passarada grasnando e piando, revoadas, araponga martelando seus ouvidos. À sua volta, a bicharada espreita, pula, salta, guincha, rosna, acaba por fugir, restolhada será cobra. O arvoredo inspira água, expira, transpira verde, pingando sempre. Depois os rios, igarapés. Você nadando por entre o verde, mesmo sobre a terra fofa. Pode assustar, mas a floresta dá tudo quanto um homem precisa: palmito, chá de douradinha, mel, açúcar de biriti, peixe e caça, lambaris, antas, pacas, tatus, jacus, mutuns, cobras e macacos. Os índios sabem disso, desde sempre. Rondon e os soldados têm de aprender, e aprendem, que remédio! Está entendendo?

- Sim, entendo, fico é arrepiada só de pensar nessa ementa... Dizia Você que Rondon chegou à fronteira com a Guiana Holandesa em 1928...

- E em 1929 sai do Rio de Janeiro rumo a Manaus pelo interior do país. Atravessa o Araguaia, o Tocantins e o Amazonas, o Cucuí e o Tabatinga, até Iquitos, no Peru. Depois segue para o Acre, percorre o Xapuri e alcança Boipedra e Cojiba. Passa ao Guaporé para inspeccionar a fronteira com a Bolívia. Mais tarde já está no Paraná e Santa Catarina. É quando rebenta a revolução de 1930 e ele interrompe a marcha.

- Que revolução foi essa?

- A revolução do Getúlio Vargas. Rondon não adere, a sua filosofia impede-o de pegar em armas contra irmãos. É quanto basta para começar a ser perseguido pelas novas autoridades. Para evitar o refluxo de más vontades sobre o Serviço de Protecção aos Índios, demite-se da sua direcção, voltas e contravoltas da política... Mas antes saiba que foi feito um cálculo dos caminhos palmilhados por Rondon. O seu auxiliar, Gen. Jaguaribe de Matos, estima que ele tenha percorrido o equivalente ao perímetro da Terra. Ou seja, mais ou menos 40 mil quilómetros. Dentro do Brasil, deu uma volta ao mundo (duplo sentido, se Você quiser). Rondon é o último dos grandes exploradores do nosso planeta.

- Sei de Amundsen, Peary, Charcot e Byrd. De Rondon, como explorador, nunca ouvira falar...

- Nem como explorador, nem como nada. Contudo o nome dele, em letras de ouro, está inscrito na Sociedade de Geografia de Nova Iorque, ao lado de todos esses que Você acaba de citar. É deveras extraordinário como um vulto destes, do universo de língua portuguesa, seja praticamente desconhecido em Portugal. Menina, essa vossa ignorância ou é complexo de superioridade de borra colonialista, ou então o Curupira está mesmo soprando as neblinas do Esquecimento...




INTEGRAR, EXCLUIR

Touchée... Mudo de assunto:

- E o que aconteceu ao Serviço de Protecção aos Índios?

- Passa para a alçada do Ministério do Trabalho. Os burocratas tomam conta dele, as dotações orçamentais são drasticamente reduzidas, o SPI começa a funcionar aos soluços, os bugreiros outra vez à vontade para dar seguimento à espoliação e à chacina.

- Mas que mentalidade era essa que fomentava a caça ao índio?

- Fomentava e continua fomentando... Mas isso Você deve saber melhor do que eu, esta civilização é mais sua do que minha... Contudo, sempre lhe digo que o raciocínio dos usurpadores é muito simples: "Devemos tirar as terras aos índios porque eles não sabem aproveitar a riqueza das mesmas. Deixá-las em seu poder, é regredirmos ao princípio do mundo. E se eles, por causa disso, nos querem matar, em legítima defesa tratamos nós de os matar primeiro."

- Há sempre uma justificativa para o pior dos crimes...

- E depois essa justificativa é radicalizada contra tudo e contra todos que possam arranhar os privilégios dos grandes fazendeiros, os chamados coronéis. Até hoje continuam impunes os assassinos do Chico Mendes e de outros líderes dos Sem Terra.

- Sei disso, mas voltemos ao Rondon. Fora do SPI, o que fez ele?

- Com a sua influência, tenta minorar os desastres, consegue pouco. Mas tão grande é já o seu prestígio em toda a América do Sul que, em 1934, o Governo brasileiro vê-se compelido a indicá-lo para espinhosa missão diplomática: arbitrar o conflito que opõe o Peru à Colômbia pela posse do território de Letícia. Rondon vence os obstáculos um a um e em 1938, só em 1938, consegue que o Peru e a Colômbia assinem o tratado de paz.

- Quatro anos! Que pachorra!

- Que força de vontade! direi eu. Tem 73 anos e sofre de um glaucoma que acabará por cegar-lhe um olho. Mas não desiste da vida, nada trava a sua determinação, nem sequer a doença... Vinte anos mais tarde, nas vésperas da sua morte, dirá uma secretária: "Ainda hoje, sem vista, ocupa-se em passar a limpo os seus diários - que haviam sido escritos a lápis, em campanha - ditando eu e guiando-lhe, às vezes, a mão, ao mudar de página."

- Que fibra!

- Sim, que fibra! Com a paz de Letícia mais se reforça o seu prestígio e em 1939 o Governo convida-o a reassumir a direcção do SPI. Aceita, faz o balanço dos estragos ocorridos nos dez anos em que esteve ausente: encerrada a maior parte dos postos de assistência, territórios tribais usurpados, índios amontoados em reservas e entregues ao arbítrio dos seus inimigos de sempre, cunhatãs raptadas...

- Cunhatãs?

- Mocinhas raptadas para servirem de amásias aos coronéis. Curumins tomados à força...

- Curumins?

- Mocinhos tomados à força para servirem como criados nas casas grandes dos coronéis. Sentindo-se traídos, muitos índios tinham fugido e retornado às matas e à guerra contra os brancos. É preciso reconstruir e Rondon mete mãos à obra. Tem 74 anos mas a idade não o tolhe; nem a doença. O SPI retorna à responsabilidade do Ministério da Agricultura. Rondon exige dotações orçamentais que permitam o relançamento de uma política indigenista coerente. Todos os postos do SPI são reabertos e muitos outros são inaugurados. Anuncia-se às desconfiadas tribos outrora pacificadas que o murubixaba Rondon voltara a chefiar os brancos. Assim recomeça a interrompida viagem do neolítico à civilização, assistência efectiva e vigilância permanente na defesa dos direitos dos índios. Em 1952 Rondon consegue da Presidência da República a criação do Parque Indígena do Xingu, preservação de uma vasta região natural do Brasil, cujo usufruto pertencerá aos índios que nela vivem. E em 1953, em consequência dos avanços da Etnografia, por incumbência de Rondon, a Comissão de Estudos do SPI prepara e ele inaugura, no Rio de Janeiro, o Museu do Índio.

- Em 1953? Tinha ele 88 anos, se não me engano nas contas.

- Exactamente, 88 anos. Ficará na activa até morrer.

- E isso acontece quando?

- Aos 93 anos. Mas antes, aos 90, o Congresso Nacional promove-o a Marechal e, em sua homenagem, dá o nome de Rondónia ao Território do Guaporé.

- Homenagem mais do que merecida...

- Deveria ter preferido outra...

- Qual?

- Na sua última viagem a Mato Grosso, Rondon insiste em visitar o velho Cadete, chefe dos Bororo das Garças, uma das primeiras tribos que ele pacificara. Os dois velhos dão-se as mãos, abraçam-se, conversam longamente na língua dos Bororo, são amigos há mais de 60 anos. Sorrindo para os seus acompanhantes, Rondon explica: "Sabem o que ele está dizendo? Me aconselha a vir morrer aqui porque, estando eu assim tão velho, já não posso durar muito, e só os Bororo saberão fazer o meu funeral". Acho que Rondon deveria ter aceite o convite.

- Diaí, por que é que Você diz uma coisa dessas?

- Menina: há coisas na vossa civilização que não me apetecem e então, sem dar por isso, regrido ao neolítico. Não me apetece a vossa indiferença, ou cegueira, de excluir do vosso convívio homens e mais homens, populações inteiras.

- Está a falar de índios e brancos?

- Também disso. Mas principalmente da vossa sociedade.

- Não estou a entender.

- Aurora, você não quer é entender. Bote os olhos nas favelas a que Você chama de bairros de lata. Bote os olhos nas multidões que já não têm e já não sabem o que fazer, para elas a vida perdeu o norte. Primeiro, vocês excluíram os outros. Agora estão excluindo os da vossa própria tribo, suicídio colectivo.

- Diaí, bem sei que a globalização, realmente...

- E há outra coisa: entre os índios, se um homem, como Rondon, for sagrado em funeral, não há Curupira que sobre ele consiga soprar as neblinas do Esquecimento. Expliquei-me? Tenho dito, ponto final.