Eu o vi, lusitanos, o príncipe encoberto...

manoel bocarro francês

Médico:
1593-01-01 - 1662-01-01



Quando tudo aconteceu...

1593: Nasce em Lisboa. - 1619: Publica seu primeiro livro, sobre um cometa que surgira um ano antes em Lisboa. - 1624: Publica sua obra sebastianista, o Anacephaleoses da Monarchia Luzitana; por conta deste livro e de suas práticas judaizantes, foge de Portugal no mesmo ano. - 1626: Publica mais uma parte de seu trabalho, em Roma, sob os auspícios de Galileu Galilei. - Final dos anos 20: reside em Hamburgo. - 1641: Falece seu único filho. -1644: Publica, em Hamburgo, nova edição do Anacephaleoses. - 1654: muda-se para Livorno, Itália. 1662, falece.

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DESCOBRINDO

O que se segue é o texto de um judeu português anônimo do século XVII sobre seu amigo Manoel Bocarro Francês, aliás, Jacob Rosales, encontrado nos pertences de um alfarrabista judeu-marroquino em Nhuambatu, Estado do Amazonas, Brasil, e que parece ter sido lido pelo padre Vieira. O texto foi vertido para o português moderno por Francisco Moreno de Carvalho que, levando em conta os ensinamentos de um amigo português de que "o rigor histórico não está condenado à prosa de notário", também ampliou, deu brilho, adaptou as datas hebraicas para o calendário ocidental do século XX, traduziu alguns termos hebraicos, remendou, emendou, omitiu, acrescentou, citou, subtitulou, criou e transcreveu (sem nunca mentir) o texto que se segue:


"Vendo pois o consorte de Lucina
Valor nos Portuguezes tão supremo,
No Concilio dos Deoses determina,
Em seus hõbres formar ao Throno extremo:
As Monarchias todas, que arruina
Da fortuna o poder, que eu nunca temo,
Nos vossos se hão de unir de tal maneira,
Que seja a mais potente, & derradeira"

(Manoel Bocarro Francês, "Jacob Rosales",
Anacephaleoses da Monarchia Luzitana,
p.9, 24ª oitava.. Lisboa 1624)


Manoel Bocarro Francês tem quase minha idade. Nossas famílias são ainda aparentadas. Descendemos dos judeus que o rei D. Manuel obrigou a tornarem-se cristãos. A maioria acabou por se integrar à nova religião. Nossas famílias, a minha e a dos Bocarro, entre outras tantas, continuamos seguindo a crença de nossos ancestrais. Quando eu e Manoel Bocarro estudavamos no colégio jesuítico de Santo Antão, em Lisboa, sempre nos portamos externamente como bons católicos. Lá chegamos a criar uma prece em latim para o momento no qual o padre consagrava a hóstia. "Só a tí rendemos culto, Deus de Israel, e a nenhum outro". Dias de medo, de vida dupla. Lá Manoel Bocarro começou a tratar do assunto que o arrebata tal qual o Profeta Elias o foi pela carruagem de fogo: a esperança na vinda do Messias.

Desde que nossos ancestrais foram convertidos por obra de D. Manuel que há entre nós, cristãos- novos judaizantes, uma grande efervescência. Aguardamos a vinda do Messias com todo o apego de nosso coração. Mas aqui em Portugal vimos que muitos dos nossos se embalaram em outra esperança: a vinda do Encoberto, daquele rei que instaurará uma nova Era para o mundo. Há anos, o Bandarra compôs suas trovas influenciado por um grupo de cristãos- novos. Suas profecias se alastraram tanto, que o Tribunal do Santo Ofício chegou a prende-lo. Depois el Rei D. Sebastião desapareceu lá pela África, e aí tudo acabou por se misturar. Nosso messianismo judaico, as trovas de um cristão- velho metido em meio a cristãos- novos, esta situação ruim em que nos encontramos… Enfim, já andam a dizer que os portugueses são como nós judeus, andam a esperar alguém que nunca virá. Judeus e portugueses, portugueses e judeus, estamos mesmo bem misturados.

Eu segui a carreira das leis, meu amigo Manoel foi ser médico como seu pai. Estuda em Alcalá de Henares e em Siguenza, na Espanha. Mas eis que no final do ano de 1618 surge um cometa nos céus de Lisboa. Lá está meu amigo Manoel Bocarro Francês, que agora é, além de médico, também astrônomo, astrólogo e matemático. O cometa tem a forma de uma folha de Palma. Grandes acontecimentos se prenunciam. Em meio à discussão sobre a natureza do cometa, Manoel Bocarro vê se descortinar a luz de uma Nova Era. Publica em janeiro de 1619, seu primeiro livro, Tratado dos Cometas que Apareceram no anno passado de 1618. Nele repudia as idéias peripatéticas sobre a natureza dos cometas, vistos aí como manifestações atmosféricas, e demonstra, por meio de provas matemáticas, que o cometa era gerado em meio aos demais corpos celestes. A física dos céus não é espelho da perfeição, mas sim rege-se pelas mesmas leis que regem o mundo físico, visto aí como um todo. Depois das considerações de ordem física e matemática, Bocarro passa a ocupar-se, neste livro, sobre a astrologia judiciária, tratando de prever os acontecimentos que o cometa anuncia. Prevê um período de convulsões, com assassinatos de monarcas e grandes mudanças na Europa. A derrota do Império Turco, sinal da vitória final da cristandade, ainda não é prenunciado por este cometa. Meu amigo dedica seu livro ao Inquisidor- Geral de Portugal e, para demonstrar ainda mais sua fidelidade à Igreja e quiçá para não despertar suspeitas sobre suas origens e verdadeiras convicções, encerra seu livro com loas à Virgem Maria.




ACTIVIDADE MÉDICA E O ANACEPHALEOSES

Em 1620, Bocarro recebe autorização para clinicar em Portugal e o título de Doutor em Medicina, após passar por um exame de qualificação levado a cabo por professores da Universidade de Coimbra. Sua atividade médica leva-o constantemente à Espanha. Em 1622 está na Corte de Madrid, cuidando de D. Baltazar de Zuñiga, alto dignitário, ministro da Itália e figura de primeira grandeza na Espanha naqueles dias. Em conversas com seu ilustre paciente e com outro personagem convidado pelo primeiro, adentra a discutir a física aristotélica, a alquimia e a astrologia judiciária. Decide escrever sobre como Portugal será a última e maior monarquia do mundo e de como o Rei Encoberto virá e trará uma Nova Era de luz para todos.

Nasce assim o livro Anacephaleoses da Monarchia Luzitana, publicado em Lisboa em março de1624. Vou descrevê-lo, pois foi a principal obra de meu amigo. O corpo principal do livro é composto por 131 versos em oitava, entre os quais alguns dedicados à alquimia que se constituem no primeiro texto português escrito sobre a Obra de Hermes. Declarando sua admiração por Camões, de quem tenta copiar o estilo, Bocarro começa a cantar o passado de Portugal apontando para seu futuro de esplendor.

O autor declara no seu prefácio ao leitor qual o plano de sua obra. Sua idéia é escrever 4 Anacephaleoses (palavra grega que significa recapitulação) a saber:

1. O I Anacephaleoses, chamado "Stado Astrológico" no qual mostra "astrologicamente como Portugal há de ser a última e mais poderosa monarquia do mundo" e também escreve sobre a Pedra Filosofal. Dedicado ao rei Felipe III de Portugal;

2. II Anacephaleoses, chamado "Stado Régio", no qual traz a biografia de todos os reis de Portugal. Dedicado a D. Diogo da Silva & Mendonça, Marquês de Alenquer e Duque de Villa Franca;

3. O III Anacephaleoses, intitulado "Stado Titular", no qual registram-se os nobres e eclesiásticos do reino de Portugal bem como as possessões territoriais lusitanas. Dedicado a Fernão Martins Mascarenhas, Bispo e Inquisidor Geral de Portugal;

4. O IV e último Anacephaleoses, "Stado Heróico", no qual são relatados os feitos heróicos de ilustres portugueses. Dedicada a D. Teodósio, Duque de Bragança.

Contudo Bocarro não conseguiu publicar as quatro partes de sua obra. Só o I Anacephaleoses chegou ao prelo. Os demais são queimados ou interrompidos em sua publicação. Como declara o próprio autor:

"...& e ami, cujo intento he so o augmento da patria persegue os mesmos luzitanos, & ministros com tanto rigor que posso dizer com Camões, que não menos milagre he o escapar delles a vida, o que foy o acresentarse ao Rey Iudaico: este foi o motivo para o incendio de minha obra: mas sendo necessario obedecer, aos que era forçoso servir, suspendi a execuçam. Mas nã quis logo tirar mais a luz, que este primeiro Anaceph. Prometendo, se for aceyto, & eu mais amparado da justiça, & verdade, sem tantas extrosões, de fazer logo estapar os outros tres & seus fragmentos".

O livro publicado compõe-se de três partes. A primeira é composta por textos introdutórios e explicativos. Fazem parte dela a "dedicatória" ao rei Felipe de Portugal e de Espanha; a "protestaçam em que o autor declara seu intento" texto no qual o autor declara não opor-se a nenhum dos fundamentos da fé católica e a já citada "advertencia ao lector" na qual conta sobre o plano mais vasto de sua obra e das desventuras por ele sofridas. A segunda parte é o texto poético do livro. Dos versos n.º 37 ao 56 há uma unidade distinta, impressa em tipo diferente, que trata da Pedra Filosofal e da transmutação dos metais em ouro. Os demais versos formam uma unidade na qual exalta-se o passado de Portugal, recorda-se o infausto de D. Sebastião (verso n.º 60) e prevê, baseado na astrologia, o reerguimento de Portugal e o estabalecimento da última monarquia do mundo que antecipará uma idade de paz e harmonia; como escreve no verso n.º 128:

Verás hum só Pastor, hum só rebanho,
Que o sucessor de Pedro só proveja,
Nem na terra, nem no liquido estanho,
Impugnarà ninguém à Madre Igreja:
O ser de Portugal será tamanho,
Que o mundo todo só nelle se veja,
Emporio do universo summo, & grande,
Pera que seu Monarcha todo o mande.

A terceira parte, em prosa, narra o encontro com D. Baltazar de Zuñiga e as discussões em torno da física aristotélica, da alquimia e da astrologia judiciária.




DESVENTURAS DE UM JUDAIZANTE

Meu amigo teve, de novo, todo o cuidado de expressar sua fidelidade à Igreja e não dar nenhum ensejo aos que poderiam acusá-lo de heresia. Mas dois acontecimentos quase que simultâneos levaram meu amigo a muitas desventuras. O primeiro é o descontentamento que o Anacephaleoses provocou junto à autoridades. Afinal, El Rei Felipe nos governa e não deve ter ficado muito satisfeito, caso tenha lido o livro a ele dedicado pelo meu amigo Manoel, de que Portugal será a última e maior monarquia de todas. Isto levou meu amigo à prisão que, graças à ajuda de D. Francisco de Melo, nobre cuja simpatia angariou, foi de curta duração.

Além disto, soubemos que um irmão de Manoel, Antônio Bocarro, delatou a ele e a todo nosso grupo à mesa do despacho do Santo Ofício em Goa, para onde dirigiu-se há coisa de alguns anos. Não temos, claro, detalhes da denúncia-confissão de Antônio. Certamente deve ter contato como nosso grupo reunia-se para ler a Bíblia e interpretá-la segundo os ensinamentos de nossos ancestrais judeus; de como comemorávamos o sábado e as festas judaicas; de como evitamos comer alimentos proibidos (carne de porco, peixes sem escamas); de nossos ataques ao culto aos santos e às imagens por parte dos católicos; de como rezamos diferente durante a missa, que só freqüentamos para que não nos persigam; de como aguardamos a vinda do Messias que nos salvará…

Apesar de suas loas à Virgem Maria, a sua declaração de fidelidade à Igreja, Manoel Bocarro, assim como eu, é um judaizante de longa data. Na surdina, no âmago de seu ser, é devoto do Deus de Israel e da Lei de Moisés e não à Lei de Cristo. Ele escreve, portanto, não só sobre o Encoberto que há de vir mas, principalmente, a partir de sua condição de "judeu encoberto", de alguém que dissimula sua verdadeira crença sob a máscara de devoção à Igreja.

Fugindo ao duplo problema que enfrenta, o de opor-se aos Felipes e o de judaizar, numa época em que na Hispânia a presença judaica é proibida e qualquer prática religiosa que não a católica é punida pela Inquisição, Bocarro foge de Portugal com sua família. Eu e a minha juntamo-nos a eles nessa empreitada. Abandonamos a Pátria e a língua, a carreira e os bens. Rumamos em direção a Itália.





ROSALES

Eu enfrento grande dificuldades em Roma. Sou um homem de leis, não tenho ao que me apegar como trabalho. Manoel Bocarro me ajudou muito naquele período. Como médico logrou atender a pacientes famosos e ricos, o que garante um bom sustento a ele e a todos nós. Mas meu amigo continua inquieto. Encontra pessoas interessadas em sua idéias sobre física, astronomia e profecias. Um insigne sábio italiano, Galileu Galilei, interessa-se por suas críticas à física de Aristóteles e por suas observações astronômicas. Em 1626 meu amigo publica a quarta parte de seu Anacephaleoses bem como excertos de outras partes do mesmo e esclarecimentos sobre passagens obscuras de seu livro publicado em Portugal. Este Galileu Galilei é que prefacia esta nova obra denominada Luz Pequena Lunar e Estellifera da Monarchia Luzitana. A luz menor da lua e das estrelas, representado pelo Portugal restaurado, representa a etapa preliminar na grande luz do Sol de uma Nova Era. Sem a dissimulação a que éramos obrigados a viver na Península, levanta a máscara que o encobre até então. Declara sua condição de judeu, acrescenta o nome "Rosales" ao seu nome original, explicando tratar-se do nome de um ancestral judeu. Este nome, segundo ele, contém em si a explicação para sua função neste mundo, revelar o Rei Encoberto. Rosales nada mais é do que o resultado da composição da expressão hebraica "Bebarzel ve Esh", com ferro e fogo (seu nome será revelado), aludindo assim a uma antiga tradição de que o Encoberto traria "marca de ferro" em seu nome. Meu amigo acredita-se imbuído da missão de revelar a todos o Encoberto, sendo, nas suas palavras, nada mais do que o ponteiro do relógio que é obrigado a apontar as horas. Ele declara que D. Teodósio, Duque de Bragança (pai de El rei D. João IV), que mantém com D. Sebastião, desaparecido em terras de África, uma relação de parentesco, é o Encoberto. Com isso, Manoel Bocarro cria a possibilidade de se esperar pela vinda, e não pela volta, do Encoberto, livrando a todos da idéia de que El rei D. Sebastião encontra-se ainda vivo prestes a retornar. Nestes últimos anos de minha vida, aqui em Amsterdam, ouvi que há portugueses que aderiram a esta idéia e que acreditam ser El Rey D. João IV o Encoberto.




EM HAMBURGO

Como judeus revelados, precisamos ter uma vida judaica plena, em uma comunidade judaica. Por isso seguimos para Amsterdam, onde permaneço até hoje. Esta comunidade de judeus portugueses começou a se estabelecer aqui desde o final do século XVI. Hoje contamos com cerca de 400 famílias. Homens de negócios, profissionais, temos também muitos pobres. Meu amigo Rosales preferiu seguir viagem para Hamburgo, outra cidade que conta com uma comunidade de judeus portugueses, menor que esta mas bem estabelecida. Lá tornou-se médico de membros da nobreza, muito conceituado e afamado.

Continuamos em contato, haja visto que meu amigo costuma viajar a Amsterdam onde mantém laços de amizade com importantes figuras, como rabi Manasseh Ben Israel, com quem partilha muitas das esperanças e visões messiânicas e com seu amigo, ainda dos tempos de Portugal, o também médico Zacuto Lusitano. Rosales escreve poemas e cartas laudatórias às obras de ambos, assim como um escrito filosófico e de apologética judaica Epos Noetikon sive Carmen Intellectuale que sai publicado em Amsterdam em 1639 e um prefácio especial à obra médica de Zacuto Lusitano, intitulado Armatura Medica, que sai publicado no segundo tomo da Opera Omnia de Zacuto. Escreve também um poema laudatório à gramática hebraica em língua portuguesa de Moshe Ben Gideon Abudiente (Hamburgo, 1633). Toma parte em polêmicas e debates a favor dos médicos judeu-portugueses que eram caluniados e ameaçados de perseguição.




DESVENTURAS

Em 1641 Rosales sofre um duro golpe que é a morte de seu único filho, de 17 anos, vítima de uma doença que seu próprio pai é incapaz de curar. No mesmo ano, um outro irmão, bem mais novo do que ele, Gaspar Bocarro Francês (Yoshiahu Rosales), a quem ajudara a sair de Portugal e a aderir ao judaísmo, procura o embaixador português em Amsterdam e pede seu direito de retornar a Portugal e se reconciliar com a Igreja. Para tanto, malsina diversos judeus portugueses de Amsterdam, Hamburgo e Livorno, comunidades nas quais vivera como judeu, encabeçando sua lista por seu irmão Manoel, a quem chama de "herege" e atribui a responsabilidade por levá-lo ao "mau caminho" do judaísmo.

Naquele período nós, os judeus portugueses, estamos muito divididos em relação a nova casa real portuguesa, os Bragança, que restauram a independência de Portugal dos castelhanos. É um período conturbado. Nós, em Amsterdam, temos Portugal em guerra contra a Holanda. Canaviais de judeus portugueses em Pernambuco, Brasil, são queimados em meio a uma revolta geral contra a presença batava naquelas terras. A casa de Bragança, por sua vez, trata de restaurar o rigor do "Santo Ofício" em Portugal. O jovem Isaac de Castro Tartas, preso no Brasil, morreu Santificando o Nome de Deus em Lisboa, num auto-de-fé. Estamos realmente perplexos. Lembro-me que naqueles dias o embaixador português chegou a ser apedrejado por judeus- portugueses aqui em Amsterdam. Eu, todavia, segui olhando com simpatia a restauração de minha Pátria, apesar de tudo.

Isto levou a um profundo abalo nas minhas relações tão antigas com Rosales. Sei que confluência de fatores políticos e econômicos jogam papel importante nas decisões de indivíduos e grupos em relação à Pátria com a qual mantinham uma relação ambivalente, erigida sob o amor e a repulsa. Rosales mantém estreitos laços com o poder Habsburgo e com Francisco de Melo, que o havia salvado da prisão em Portugal e que naquele período, nos anos 40, é ligado à casa reinante espanhola. Desta forma, criam-se as condições para que Rosales torne-se agente dos interesses espanhóis em Hamburgo, tarefa que executará até os idos de 1650. Em 1647, o imperador o agracia com o título nobiliárquico de Comes Palatino, fato muito pouco usual em se tratando de um judeu. Naquele período conturbado, Rosales divorcia-se de sua esposa, Yehudit Rosales (Brites Pinel), que ainda é prima minha distante, quiçá como consequência, ainda, da triste morte do único filho.

Mesmo naquele período em que defendeu ativamente os interesses de Espanha contra Portugal, publica uma nova edição do Anacephaleoses, em 1644, desta feita sem nenhuma referência à religião cristã e sem as oitavas que tratam da Pedra Filosofal. Nesta obra, continua a proclamar a vinda do Encoberto e o destino de Portugal como a última monarquia do mundo. Refere-se à Restauração portuguesa de 1640 como uma etapa neste processo, previsto por ele já em 1624.

No início dos anos 50, Rosales perde sua função como agente dos interesses espanhóis em Hamburgo. Sem condições de lá permanecer, ruma para a Itália. Em Livorno (Leghorn) passa a viver junto à comunidade judeu- portuguesa daquela cidade.




ÚLTIMOS ANOS

Sobre sua vida em Livorno soube por intermédio de um judeu português que se mudou par cá, para Amsterdam, nos últimos anos e que lá o conheceu.

Em 1654 publica seu último livro. Trium Verarum Propositione Astronomica, Astrologica et Philosophica. Este judeu português que cá veio morar, vindo de Livorno, trouxe consigo um exemplar, já que tinha este livro em grande conceito. Nele Rosales mantém suas críticas a Aristóteles. Segue usando a astrologia como instrumento de previsão das mudanças políticas que ocorrerão no mundo. Com a numerologia como recurso auxiliar, vaticina sobre os diversos países da Europa e sobre Portugal, afirmando seu destino como última e maior monarquia do mundo, regida pelo rei Encoberto, prenúncio de uma Nova Era de paz, fraternidade e esplendor.

Na parte filosófica deste livro, Rosales tece considerações sobre a origem do conhecimento humano. Sua fonte vem de Deus, que o revelou ao primeiro homem, Adão. Este pecou e o conhecimento foi quase totalmente perdido. Vem Abraão e restaura o conhecimento divino revelado, seguido pelos demais patriarcas. Moisés recebe a revelação sinaítica e desde então, entre os judeus, o conhecimento jamais se perdeu. Para corroborar sua teoria, não deixa de citar passagens do "Novo Testamento" dos cristãos que, na sua concepção, corroboram a tese de que o conhecimento divino revelado nunca abandonou e jamais abandonará Israel. Sobre os não-judeus, Rosales acredita que também podem chegar ao conhecimento divino, embora por vias mais longas e demoradas do que aquele da Revelação dada a Moisés nosso Mestre.

Soube que em 1659, Rosales escreve ao embaixador português em Roma, Francisco de Sousa Coutinho, retomando a questão do Encoberto, afirmando que acredita que estará, em breve, para se revelar. Mas não me consta que tenha voltado a escrever mais sobre o assunto. Ele integra, em Livorno, uma sociedade benemerente da comunidade judeu-portuguesa, a "Hebra de Casar Orfas" (sociedade que promove o dote para órfãs pobres).

A respeito de sua morte, sei apenas que em 1662, a caminho de Florença para atender sua paciente, a condessa de Strozi, falece.

***

(O texto termina aqui e é seguido por alguns anagramas e símbolos indecifráveis. Alguns parecem dizer algo sobre o falso messias Sabetai Tzvi, que surgiu em Esmirna, em 1666. Não sabemos se algum judeu português viu neste evento uma possível revelação do Encoberto. - FMC).





APÊNDICE

BIBLIOGRAFIA DE MANOEL BOCARRO FRANCÊS / JACOB ROSALES

Ode e Epigrama, em latim para o livro de Pedro de Herrera, Descripcion de la Capilla de N. Sra. Del Sagrario que erigio en la Santa Iglesia de Toledo el Ilmo. Senor Cardenal D. Bernardo de Sandoval y Rojas, arcobispo de Toledo. Madrid, 1617.
Tratado dos Cometas que Apareceram em novembro passado de 1618 . Lisboa, 1619.
Anacephaleoses da Monarchia Luzitana, Lisboa, 1624.
Luz Pequena Lunar e Estellifera da Monarchia Luzitana. Roma, 1626.
Brindis Nupcialis, Egloga Panegyrica Representada dos Senhores Isach e Sara Abas. Hamburgo, 1632.
Ode e Epigrama, em latim para a Gramática Hebraica (em português) de Moshe Ben Gideon Abudiente. Hamburgo, 1633.
Ode Saphicum. Amsterdam, 1637. Escrito em honra ao IV volume do De Medicorum Principum Historia, do médico judeu- português Zacuto Lusitano. Este poema não foi reimpresso em outras edições da mesma obra.
Panegyrus in Laudem Eximii sive Menashe Ben Israel. Amsterdam, 1639. Poema em homenagem ao livro De Termino Vita, de autoria de Menashe Ben Israel.
Epos Noeticum sive Carmen Intellectuale. Amsterdam, 1639. Texto incluído no livro De Termino Vitae.
Poema Laudatório. Lyon, 1642. Publicado no I volume da Opera Omnia de Zacuto Lusitano.
Poculum Poeticum. Lyon, 1642. Segundo poema de Rosales impresso do I volume do De Medicorum Principum Historia, de Zacuto Lusitano. Poema escrito sob a forma de um cálice.
Armatura medica:hoc est modo addiscendae medicinae per Zacutinas historias, earumque Praxin. Lyon, 1644. Publicado no II volume da Opera Omnia de Zacuto Lusitano.
Regnum Astrorum Reformatum. Hamburgo, 1644.
Status Astrologicus. Anacephaleosis I. Monarchiae Lusitanae. Hamburgo, 1644. Contém também o Foetus Astrologici libri tres, dedicado a D. Francisco de Mello.
Fasciculus Trium Verarum Propositionum Astronomicae, Astrologicae et Philosophicae. Florença, 1654. A primeira parte denomina-se Vera Mundi Compositio e é a edição latina de um manuscrito escrito pelo autor já nos idos de 1618. A segunda parte é uma reedição do Foetus Astrologici acrescido de mais uma parte, agora denominado Foetus Astrologici libri quator. A terceira parte é uma reedição do Epos Noeticum sive Carmen intellectuale.