Sou médico, nada me é estranho.

Ricardo Jorge

Médico, esteio da sanidade:
1858 - 1939



Quando tudo aconteceu...

1858 – Nasceu em 9 de Maio, na cidade do Porto 1874 – Terminados os estudos primário e secundário, ingressa na Escola Médico Cirúrgica do Porto, ainda com a idade de 16 anos 1879 – Conclui a sua licenciatura em Medicina com as mais altas classificações e apresenta a Dissertação de Licenciatura com o título «O nervosismo no passado», onde traça a história da Neurologia 1880 – Concorre a Professor Substituto da Escola Médico Cirúrgica do Porto, com o trabalho «Localizações Motrizes do Cérebro». Lecciona Anatomia, Histologia e Fisiologia Experimental 1882 – Juntamente com o colega Cândido de Pinho e Miguel Artur, edita a Revista Scientífica. Edita também a União Médica e À Volta do Mundo 1883 – Parte para Paris onde assiste a várias aulas de Renan e Charcot e segue para Estrasburgo, Recklinghausen, Weldeyer e Goltz, onde visitou vários laboratórios de Anatomia Patológica, Anatomia e Fisiologia. De regresso ao Porto, deu início a um curso sobre Anatomia dos Centros Nervosos e montou o primeiro Laboratório de Microscopia e Fisiologia (considerado como o introdutor da Metodologia Experimental naquela Escola). Vira-se para a Higiene e a Saúde Pública 1884 – Inicia e desenvolve estudos sobre Electrometria e Electrodiagnóstico. Inicia colaboração regular em «A Saúde Pública, Hebdomadário de Higiene» e participa activamente nos seus debates. Efectua quatro conferências que ficaram célebres, sobre a higiene em Portugal, a evolução da sepultura, inumação, cemitério e cremação 1885 - Publica «Higiene Social aplicada à Nação Portuguesa». É nomeado pela Escola Médica do Porto para apresentar ao Conselho Superior de Instrução Pública o Relatório daquela Escola Médica (este Relatório virá a servir de base à Reforma do Ensino Médico de 1911 e ao aparecimento das Faculdades de Medicina). Vogal do Conselho Superior de Instrução Pública 1886 – Publica «Ensaios Científicos e Críticos» 1888 – Publica «O Saneamento do Porto» 1890 – Estudos experimentais sobre a acção dos fluoretos alcalinos e sobre a clínica hidrológica do Gerês. Dá início à crenoterapia científica 1891 – Publica «Caldas do Geres» 1892 – Criados os Serviços Municipais de Saúde e Higiene do Porto e o Laboratório Municipal de Bacteriologia (no mesmo ano Biggs funda o de Nova Iorque), sendo nomeado Chefe desses Serviços 1894 – Diagnostica e confirma laboratorialmente a existência do vibrião para-colérico ou para-hemolítico, responsável da cólera frustre. Publica na Alemanha o trabalho «Sobre um novo vibrião da água» 1895 – Médico Municipal da Câmara do Porto. Passa a Professor Titular das cadeiras de Higiene e Medicina Legal da Escola Médica do Porto. Assume a publicação do «Boletim mensal de estatística demográfica e sanitária» 1896 – Morte de sua mãe, sua primeira perda afectiva 1897 – Início da organização sanitária e da demografia na cidade do Porto 1899 – Dá-se a sua consagração a nível nacional e internacional quando detecta clínica e bacteriologicamente a peste bubónica no Porto e manda evacuar as casas e fazer o isolamento e desinfecção dos domicílios. Publica «Demografia e Higiene da cidade do Porto». Manda estabelecer o «cordão sanitário» que a população e os interesses económicos não aceitam e é ameaçado de morte. Em Outubro, abandona o Porto e passa a residir em Lisboa. Passa a reger a cadeira de Higiene na Escola Médica de Lisboa. É nomeado Inspector Geral na criada Direcção Geral de Saúde e Beneficência. Logo em Dezembro cria o Instituto Central de Higiene (10.º no mundo) 1901 – Elabora o Regulamento Geral de Saúde 1902 – Publica no «Boletim dos Serviços Sanitários» todos os Regulamentos que interessavam à vida nacional 1903 – Incumbido de organizar e dirigir o Instituto Central de Higiene. 1906 - Participa na organização da Assistência Nacional Contra a Tuberculose e colabora na organização do Congresso Internacional de Medicina, presidindo à Secção de Higiene e Epidemiologia 1909 – Inicia viagens frequentes ao estrangeiro 1911 – Nomeado Director Geral de Saúde. É cada vez mais, investigador e cientista. Colabora na reforma do ensino médico de 1911 (com princípios por ele enunciados no Relatório de 1885). 1912 – Inicia funções, como Delegado de Portugal, no Office International d’Hygiene, embrião da Liga de Higiene das Sociedade das Nações. Morte de seu pai e novo golpe afectivo. 1913 – Funda os «Arquivos do Instituto Central de Higiene» 1914 – Eleito Presidente da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa para o próximo biénio 1916 – Efectua várias missões de estudo, visitando formações sanitárias em França, em zona de guerra, que repete no ano seguinte 1918 – Organiza a luta contra a Gripe Pneumónica, Tifo Exantemático, Varíola e Difteria. Escolhido para integrar o Comité de Higiene da Sociedade das Nações, criado após o fim da guerra. 1920 – Apresenta importante Relatório no Office International (considerado o melhor de todos os relatórios apresentados pelos países membros) 1922 – Morte da esposa, que lhe causa profunda tristeza 1926 – Reforma a Direcção Geral de Saúde e cria um quadro de Inspectores de Saúde em tempo completo. Incita as Câmaras Municipais a preocuparem-se com a salubridade pública. Sente enorme orgulho com a nomeação de seu filho Artur como Ministro da Instrução 1928 – Atinge o limite de idade, mas continua a exercer funções no Conselho Superior de Higiene, na condição de Presidente Técnico e nas várias Comissões e Organizações de Saúde europeias, como delegado e representante de Portugal 1929 – Nomeado Presidente do Conselho Técnico Superior de Higiene 1932 – Publica «Summa Epidemiológica de la Peste: epidémies anciennes et modernes». 1934 – Membro Correspondente da Académie Internationale d’Histoire des Sciences. Integra a Comissão organizadora do Congresso Internacional de História das Ciências 1935 - Presidente do Grupo Português de História das Ciências 1939 – Em Abril, comparece ainda como Delegado de Portugal na reunião do Comité Permanente do Office Internacional de Higiene Pública. Morre a 29 de Julho, em Lisboa. Foi sepultado no Cemitério de Agramonte, na cidade do Porto.

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AS ORIGENS

Nasce a 9 de Maio de 1858, na Rua da Sovela, hoje Rua dos Mártires da Liberdade, na cidade do Porto, filho de José de Almeida Jorge e de Ana Rita de Jesus.

Seu pai José (…./1912), era natural de Vilharigues (Vouzela), mas cedo foi viver para o Porto, onde foi ferreiro. Homem de carácter forte, mas delicado, muito trabalhador e de grande hon­radez. Casou com Ana Rita de Jesus, natural do Porto, filha de João Couto dos Santos e Maria Rita de Jesus, descrita como muito inteligente, trabalhadora e bondosa, que morreu em 1896.

Ricardo Jorge casou com uma prima direita, Leonor Maria Couto dos Santos, nascida no Rio de Janeiro, filha de Miguel Couto dos Santos e Maria Cristina de Alcântara. Era uma esposa dedicadíssima, de carácter exemplar. Faleceu em 1922.

Ricardo Jorge que nutria por ela amor intenso e uma ligação de admiração e respeito, sofreu uma enorme dor que durante algum tempo quase se repercutiu no seu trabalho. As palavras que lhe dirigiu na sua morte são uma amostra bem real daquilo que os ligava - «À santa companheira duma vida de trabalho, que até ao último suspiro me vivificou o coração com o seu alento apaixonado e a dulcíssima ternura de seu imenso amor: À alma pura e bendita, centro e razão última da minha existência, de quem vivia e para quem vivia, minha única dor. Àquela santa que era o que de bom e de melhor havia em mim».

Do casal nasceram quatro filhos – Artur, Ricardo, Leonor e Alice.

Como filho, Ricardo Jorge foi exemplar. Teve uma infância feliz e um profundo e sentido amor pelos pais. Orgulhava-se do seu pai ser ferreiro (quando outros o esconderiam) e várias vezes escreveu o profundo amor que sentia pelos pais - «Belas madrugadas de inverno! como eu as revejo nesta doce compunção das saudades da infância; antes do dia, ainda em casa de Cristo, para cada um nascia a sua canseira. Apegado ao calha­maço do latim, aconchegava-me à beira de minha mãe; girava o fuso ou rodava a dobadoura, e ela a dizer lendas e contos ou a cantar (…) «Em baixo resfolegava a forja, soprando para a rua um clarão vermelho; a espaços chispava o martelo cadente na çafra; enquanto não caldeava o ferro, meu pai cantava contente a sua moda pre­dilecta:

Meu filho, eu tive um sonho Qual era do meu agrado ...

«Esse sonho, coitado, era o nervo do seu braço incansável: o refrigério daquela fronte gotejante de suor com que amassava dia a dia o futuro do filho, tal qual lho retratava a fantasia. (…) Estou a vê-lo, à volta dos exames, na porta da oficina, a enxugar o rosto, traçando o avental crivado de faúlhas, com um sorriso tão fundo e tão aberto, que me ensoberbecia. (…) «Estou a ver a quadra encarvoada da oficina, fundo rem­brandesco do clarão vermelho da forja e do candente do ferro caldeado a chispar faúlhas que fuzilam no ar como foguetes de lágrimas. O cuspeiro, hissope de palha, borrifa de água o carvão a arder, abafando a lavareda e atiçando a combustão que espalha no ar um odor sulfúrico. O fole rouqueja a pulmeira cadenciada­mente pela toeira da frágua. Amiúde retine a çafra e os martelos grandes, à voz de malha!, ritmam as pancadas acordes em con­certo musical, que me soa ainda nos tímpanos esclerosados (…)

Foi neste ambiente esforçado, de trabalho rude, que entre a ternura da mãe e a alegria do pai, se desenvolveu o seu espírito e se formou o seu carácter.

Refere nos seus escritos que lia com a mãe os folhetins que Camilo publicava no «Comércio do Porto» e lia livros para seu pai ouvir; assim foi criando o gosto pela escrita e o sentido da crítica, e uma admiração profunda pela qualidade, que sempre procurou nos seus escritos e na sua vida científica.




O ESTUDANTE

Ricardo Jorge faz os seus estudos primários e secundários na cidade do Porto, sendo considerado um aluno brilhante, com altas classificações.
Ingressa depois na Escola Médico Cirúrgica do Porto, onde se revela, desde logo, um aluno brilhante e merecedor das mais altas classificações. Conclui o curso com 21 anos, em 1879, apresentando a Dissertação de Licenciatura intitulada «Um Ensaio sobre o Nervosismo».




O MÉDICO E O PROFESSOR

Após a sua licenciatura, concorre a Professor Substituto da Escola Médico Cirúrgica do Porto, com a tese «Localizações Motrizes do Cérebro». Logo no ano seguinte parte para Paris, onde visita Charcot e assiste a várias das suas aulas. Passou por Estrasburgo onde visita vários laboratórios de anatomia patológica com novos conceitos organizativos que Ricardo Jorge aproveita para, regressado ao Porto e à sua Escola, criar um Curso de Anatomia dos Centros Nervosos. Monta o primeiro laboratório de Microscopia e Fisiologia, onde realiza vários estudos sobre Electrometria e Electrodiagnóstico. Este início de carreira toda virada para a neurologia, indiciava que viria a ser essa a sua especialidade. Mas, entusiasmado com os aparentes efeitos da água do Gerês, passou a interessar-se pela Hidrologia e inicia estudos nesse campo, sem abandonar o seu primeiro interesse. Publica estudos sobre a História da balneação e a classificação das águas minerais e desenvolve estudos experimentais sobre a acção dos fluoretos alcalinos, dando início à crenoterapia científica em Portugal. Ricardo Jorge continuava a dar consultas de «moléstias nervosas» no chamado Instituto Hidroterápico que, curiosamente, estava instalado no Grande Hotel do Porto. Ali fazia tratamentos por hidroterapia, electricidade, ginástica e ignipunctura, sempre com muita clientela, com destaque para Camilo Castelo Branco, que começando como cliente, rapidamente passou a amigo e a conselheiro.

Quando foi obrigado a mudar-se para Lisboa, foi nomeado Inspector Geral de Saúde e pouco depois Professor da cadeira de Higiene da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, por desdobramento da cadeira de Medicina Legal e Higiene. A este propósito e porque revela grande carácter do colega Bello de Moraes, deve dizer-se que competia a este ocupar a cadeira de Higiene, que não a aceitou e insistiu com a Escola para que a entregassem a Ricardo Jorge «porque a cadeira de Higiene da Escola Médica de Lisboa só a podia ocupar um homem – o que escreveu o monumento da Demografia e Higiene da cidade do Porto».

Funda o Instituto Central de Higiene (baseado nos existentes em Inglaterra e na Alemanha) que foi o décimo a ser criado em todo o mundo. Ali se realizava o ensino sanitário de médicos e engenheiros, se faziam análises aos géneros alimentícios. Tinha um Laboratório de Bromatologia. Trabalhava em colaboração com o Instituto Câmara Pestana e com a Assistência Nacional aos Tuberculosos.

Quando Director Geral de Saúde toma uma medida controversa, ao decretar a interdição da Coca Cola e ordenando que toda fosse deitada ao mar, por entender que a mensagem publicitária criada por Fernando Pessoa (primeiro estranha-se e depois entranha-se) «era um explícito reconhecimento da toxicidade do produto», o que, convenhamos, nos parece argumentação pouco científica.




AS ÁGUAS DO GERÊS

Ricardo Jorge começou a interessar-se pela hidroterapia, após ter conhecimento do efeito da água do Gerês na doença do Prof. Gramaxo e depois de o Dr. Sousa Reis a ter analisado e ter verificado a alta percentagem de fluoretos que continha. Ficou de tal forma entusiasmado que chegou a considerar aquela água o «tesouro hidriátrico mais precioso da Europa, se não do mundo». Pro­curou obter a concessão oficial do Gerês e «organizar uma socie­dade que dispusesse de capitais para transformar a pobre Estância de 1735, numa «hidrópole moderna e grandiosa». Associa-se a Sousa Reis (químico), Manuel Joaquim Gomes (capitalista) e ao médico Paulo Marcelino Dias de Freitas (político, amigo do então presidente do Conselho de Ministros, José Luciano de Castro).

Em 20 de Junho de 1887, apresentaram o requerimento para concessão de exploração das águas do Gerês, nos seguintes termos: - «SENHOR: Os signatários Paulo Marcelino Dias de Frei­tas, médico e professor, Adolfo de Sousa Reis, químico, Manuel ]oaqquim Gomes, proprietário e capitalista, Ricardo de Almeida Jorge, médico e professor, vêm perante Vossa Majestade, rogar que haja por bem conferir-lhes a concessão das águas medicinais das Caldas do Gerês e autorizar-lhes a criação de instalações termais adequa­das, onde as preciosas águas sejam utilizadas, como merecem, a bem da saúde e da ciência, realizando assim um melhoramento de alto alcance económico e médico, de há muito instantemente reclamado por todos quantos têm transitado pelas Caldas e reconhecido o seu extremado valor terapêutica. - SENHOR: As águas medicinais do Gerês, dum alto valor em qualquer país, mesmo nos mais dotados em variedade e riqueza hidromineral, são entre nós uma raridade única no seu género. -- As suas nascentes muito abundantes per­correm em temperatura uma extensa escala termal, admiravelmente adaptada aos usos balneares e realizam pela sua fraca mineralização o tipo de águas medicinais oligometálicas, que pelas suas largas indicações nas doenças crónicas conquistaram hoje um lugar eminente em hidroterapêutica. O Gerês ombreia, entre outras estâncias de fama, com Plombières e Gastein. Mas, além dessas virtudes genéricas, que projectaram as águas da fraca mineralização à primeira plana da terapêutica termal, as águas do Gerês gozam de qualidades peculiares, de virtudes próprias que fazem delas um tipo à parte em hidrologia médica. Na sua composição, minuciosamente analisada por um dos signatários, Adolfo de Sousa Reis, revelou-se em dose descomunal o fluoreto de sódio, substância dotada de notáveis propriedades fisiológicas e terapêuticas, comprovadas à luz de experiências e observações clínicas por outro dos signatários o professor Ricardo Jorge. – As tradições da clínica termal do Gerês autorizavam já conferir às águas uma especialização determinada, uma autonomia hidrológica, indicando-as como dum alto valor cura­tivo para as desordens das vísceras abdominais, e em particular do fígado, para cujas doenças as Águas do Gerês constituem dum modo incontestável e incontestado uma medicação sem rival (…) Após várias vicissitudes, o contrato definitivo foi assinado em 16 de Setembro de 1889. Ricardo Jorge ficou detentor de 33 acções (num total de 700) da Companhia das Caldas do Gerês e foi nomeado Director-Gerente e médico contratado. Como disse Armando Narciso - «com a exploração do Gerês, Ricardo Jorge empobreceu, enquanto ia enriquecendo a bibliografia hidrológica portuguesa com trabalhos do mais alto valor científico». E Ricardo Jorge, em carta escrita a um amigo diz que «no Gerês desbaratara tempo, haveres, esforços e os melho­res anos da sua vida ...».

Ricardo Jorge só teve o encargo da clínica termal, nos anos de 1889, 90, 91 e 92.




O SANITARISTA

Aproveita a frase atribuída a Terêncio «Medicus sum, nihil a me alienum puto - Sou médico, nada me é estranho» e faz dela divisa para a sua vida.

Mais do que escrever os seus cargos e a sua actuação, recorde-se o que ele escreveu sobre a necessidade e a importância de uma acção sanitária correcta.

"Cada vez mais insalubre, a cidade não tem nas condições devidas nem água, nem esgotos, esses dois elementos imprescindíveis de limpeza, que a experiência tem demonstrado reduzirem a cifra da mortalidade geral. O hospital é um antro infecto, onde se amontoam doentes fora de todos os limites da tolerância e num desprezo repugnante das leis mais comezinhas da boa higiene. As classes pobres, o mundo dos proletários, vegetam ancoradas nuns alvéolos húmidos e lôbregos, sem ar e sem luz, e abandonadas a uma especulação torpe que tão sordidamente as explora com a miserável edificação das ilhas. Há a desfiar um estendal de misérias e vergonhas, de males e de incúrias. É forçoso lavrar um protesto contra tanto desleixo, contra tanta inépcia, contra tanta loucura criminosa"…

"Venha à medicina o primado, como o sonhara o es­pírito eminente de Augusto Comte, projectando-a ao ápice do seu sistema de hierarquia sociológica; porque só ela conhece o homem em corpo e espírito, nas suas imper­feições e nos seus vícios, nas suas misérias e fraquezas; porque só ela pela higiene, o mais florão da sua coroa, pode promover o bem-estar físico e moral, a evolução melhorista da actividade somática e intelectual".

"O problema que a todos sobreleva, que na cidade atinge toda a sua complexidade e importância, é o problema sanitário, provocado pelas condições materiais da vida em comum num espaço limitado. O formigueiro humano germina em si próprio o veneno da sua destruição. A vida social ganha em intensidade à custa da duração da vida individual".

"A grande higiene urbana, a higiene municipal por excelência, visa essen­cialmente a essa dupla finalidade: contratar a pureza do bolo alimentar e da água que tem de ser ingerida no ventre da cidade - remover toda a massa fecal, todos os escorralhos imundos"

“Estudar os males físicos da unidade social em si e nas suas causas, atalhá-los e preveni-los, aguentar e revigorar o homem colectivo de modo a fazê-lo alcançar a máxima felicidade física, aqui está o objectivo da grande higiene, tanto quanto é possível abrangê-lo. Mas todo esse lema tem de descansar fundamentalmente sobre o conhecimento da estrutura e movimento da população. Importa saber a anatomia e fisiologia do agregado, como elemento básico para a patologia, profilaxia e terapêutica sociais”.

“Fiscal do trabalho da Parca, a higiene sabia e podia alongar o fio da vida e suspender as tesouras da Atropos”.

"Há aqui os vícios da má educação e da ignorância; há as mais revoltantes práticas de trato de crianças numa trucidação perene, há as habitações lôbregas e insalubér­rimas onde se amesendra mais dum terço da população; há o desbaste das moléstias infecciosas pela licença do contágio; há enfim uma rede de incapacíssimos esgotos, rastilhando o solo e a água de imundície»

“O ensino da higiene social tem de ser absolutamente prático, sob pena de não prestar para coisa alguma, e só pode satisfazer a esse requisito, aliando-se intimamente com o serviço de saúde pública.

A higiene pública é verdadeiramente a craveira que mede o grau de adiantamento dos povos de lés-a-lés da Europa, desde a Espanha monárquica à Rússia soviética.”

“Os contágios evitáveis cobram vidas em excesso: a febre tifóide, a acusar a insalubridade; a varíola, a falta de vacinação suficiente. O tifo exantemático reponta a cada passo. Somos o único país da Europa sem guerra organizada contra o sezonismo. Contra o flagelo da tuberculose inaugurou-se mas não se activou o combate (…) Contra o das moléstias venéreas, não há um único serviço de dispensário montado como o hoje o mandam os mais elementares princípios (…) A mortalidade infantil é enorme (…)”




O QUE ESCREVERAM SOBRE ELE

“Via-se pela primeira vez um professor de uma escola superior vir a terreiro, sem rodeios, nem presilhas, (…) pôr ao léu as pústulas fedorentas do reino cadaveroso (…) e organizar a instrução nacional em moldes europeus” (Eduardo Coelho, em 1939)

“Comparando os mecanismos de uma rede sanitária a um sistema vascular, como se o modelo higiénico fosse um processo de assimilação e desassimilação urbana, no qual há um fornecimento de água pura, captada e canalizada, sujeita a desinfecção mecânica e rápida, conduzida através de artérias alimentadas pelos respectivos mananciais, e terá que haver um retorno venoso de líquidos inúteis e venenosos, efluentes conspurcados, esgotos do organismo natural da cidade, Ricardo Jorge explica, de uma forma didáctica os seus pontos de vista, num verdadeiro trabalho de sanitarista especializado (…)” (António Almeida Garrett, em 1941)

“Com a sua extraordinária inteligência, perscrutadora e crítica, se tivesse prosseguido no caminho da pedagogia e da investigação clínica e neurológica, certamente viria a ser o príncipe dos clínicos portugueses, com honras e proveitos bem maiores do que veio a ter, e sem os dissabores que inevitavelmente desabam sobre quem exerce, com personalidade, cargos oficiais de categoria superior” (A. A. Garrett, 1941)

«De há muita fiz para mim aula das páginas de Ricardo Jorge.» (Luís de Pina)

«Se ainda fosse moda cognominar os grandes homens, Ricardo Jorge merecia o cognome de Portuense. Nasceu no Porto, amou o Porto, serviu o Porto e penou por ele sem deixar de manter até o derradeiro clarão de inteligência o cunho da origem (...) Ricardo Jorge é como o vinho fino: cidadão do mundo sem deixar de ser do Porto» (João de Araújo Correia)

«É um verdadeiro mandamento. E a sua leitura, comentada, cons­titui por certo, e só por si, um curso inteiro de Higiene Pública. Hoje, como então e como sempre» (Arruda Furtado), 1946

«Sem exagero se pode chamar a Ricardo Jorge, de uma só vez, paladino da higiene e da profilaxia da linguagem. Além, foi Quixote que teve de esgrimir contra muitos preconceitos de fundas raízes. Aqui, todo se levava do diabo, quando notava escritorecos a marejarem-lhe a pureza da língua que tanto amava, e cujos segredos conhecia de tu cá tu lá. Mas, se, além, muitas vezes, pregou no deserto, aqui também não foi mais feliz, porque os brutinhos não lhe davam atenção». (Cruz Malpique)

«Cérebro de eleição que aos 81 anos escreveu páginas e páginas de um equilíbrio, de uma juventude, de uma serenidade e substância que desafiam as melhores mentes dos de 40». (Eduardo Coelho)




O MÉDICO NA GUERRA

Visita formações sanitárias na zona de guerra em França, nos anos de 1916 e 1917.

Profere as célebres palestras de Tancos, perante militares e com ensinamentos sobre Higiene.

Colabora com o Serviço de Saúde Aliado e no fim da guerra, é escolhido e nomeado membro do Comité de Higiene da Sociedade das Nações.




O ESCRITOR

«Um dos meus mais gratos prazeres é reduzir a escrito o meu pensamento (…) Sinto-me atacado de Grafofobia (…) Se a mania de escrever não conduz às vaidades exteriores das grandezas da publicidade, tem a vantagem suprema de conceder aos que dele se apoderam, a melhor e mais pura fonte dos gozos profundos e da satisfação interior», 1886.




BIBLIOGRAFIA

Científica (epidemiologia, higiene, crenoterapia, estatística, legislação, vários) 171 || Ensaio, História, Biografias, Crónicas de viagens, Polémicas, Crítica de Arte 95 || Prefácios, comentários e autoria 15.




OS ESCRITOS (alguns) CIENTÍFICOS

Um ensaio sobre o nervosismo (dissertação de licenciatura), 1879.|| Localizações motoras do cérebro (dissertação para Professor da Escola Médica) 1880 || O bioplasma e a biodynamica, 1881. || Electromedicina e electrodiagnóstico, 1884 || Hygiene social applicada à Nação Portuguesa, 1885 || Nota sobre o Franklinismo em Electro-diagnóstico, 1886 || Trabalhos experimentais sobre os fluoretos alcalinos, 1886. || Ensaios scientificos e criticos, 1886. || O Gerez Thermal – história, hydrologia, medicina, 1888 || Saneamento do Porto, 1888 || De l’électrométrie et de l’électro-diagnostic: á propos de la paralysie faciale de Ch. Bell, 1888 || Demographia e hygiene da cidade do Porto: clima – população – mortalidade, 1889 || Estudo sobre a lithiase biliar - Clínica Thermal do Gerez, 1890. || Caldas do Gerez - guia thermal, 1891 || Acromegalia - Um caso clínico, 1891 || Nouvelle Méthode de Classification des Eaux Minérales, 1893. || Boletim mensal de Estatística Sanitária, 1893 || A Epidemia de Lisboa de 1894, 1895 || A Diphteria no Porto, 1895 || Ueber einer neuen Wasser Vibrio, 1896 || Origens e desenvolvimento da população do Porto: notas históricas. Estatísticas, 1897. || Uma consulta médico-legal sobre o Gonococco, 1899 || Demographia e Hygiene da Cidade do Porto, 1899. || A Peste bubónica no Porto - Seu descobrimento. Primeiros trabalhos, 1899. || Sobre o Estudo e o Combate do Sezonismo em Portugal, 1903. || Censo dos Tuberculosos do Reino, 1905. || La malaria au Portugal: Premiers résultats d’une enquête, 1906 || Le Régime Sanitaire Maritime du Portugal, 1906. || Le Mouvement Physiologique de la Population, 1906. || O Mal-do-Bicho, 1909 || A Defesa contra o Colera, 1910 || Les Bacillifères de la Zaire et le système défensif contre le choléra par le contrôle bactériologique, 1911 || Demogenia e mortalidade das cidades portuguesas, 1913 || Prostituição e profilaxia anti-venérea, 1913 || La fièvre ondulante, 1913. || A Epidemia Tífica de Lisboa, 1914 || A Lepra, 1914 || A luta contra a Tuberculose, 1914 || La prophylaxie des maladies vénériennes au Portugal, 1914. || A Febre ondulante, 1915 || A Sanidade em campanha, 1916 || Influenza: nova incursão peninsular, 1918 || Encefalite letargica ou estupor epidémico - Nota sobre uma nova infecção epidémica, 1918 || La Grippe: rapport préliminaire présenté à la Commission Sanitaire des pays alliés dans sa session d’0ctobre, 1919 || Le typhus exanthématique à Porto, 1920 || Sur la Nomenclature méthodique des Eaux minérales, 1920. || Peste à Lisbonne, 1921 || L'Encéphalite Léthargique et la Grossesse - Transmission placentaire de la mère au fœtus, 1921 || A Pelagra, 1921 || Traitement sanitaire des marchandises et bagages, 1921. || O Cancro, 1923 || La Mortalité par le cancer à Lisbonne et à Porto - Parallele interur­bain, 1923. || Sur la Peste Pneumonique - à propos de l'Épidémie d'Alcochete, 1923. || Febre Amarela em África, 1925 || Deuxième Rapport sur la Fièvre Typhoide, 1925 || Rongeurs et Puces, 1925 || Encéphalites Postvaccinales, 1925 || Alastrim et variole: vaccine, encéphalites post-vaccinales, 1927. || Las Séquelles mentales de l'Encéphalite léthargique au Portugal, 1927. || Les Encéphalites post-vaccinales - Conclusions et doctrines, 1928. || La Fièvre jaune en Afrique et au Brésil, 1928 || La Dengue, à propos d'une épidémie navale à Lisbonne, 1929. || La Mortalité Urbaine et rurale, 1929 || Les anciennes épidémies de peste en Europe, comparés aux épidémies modernes, 1932 || La Leishmaniose au Portugal, 1935 || Les rodentia domestiques et sauvages dans l’évolution séculaire et mondiale de la peste, 1937 || Fiévre Jaune, 1939. Luiz de Verney, 1881 || Higiene Social aplicada à Nação Portuguesa, 1885 || Literatura Portuguesa 1886 || D. Afonso VI - Ensaio de clínica histórica, 1886. || Camillo Castello Branco, 1888 || Uma Visita a Seide, 1888. || Camillo Castello Branco - Derradeiro Inédito, 1891 || Tomaz de Carvalho, 1897 || Souza Martins, 1897 || Uma Questão deontológica, 1889. || Câmara Pestana, 1900 || As Pinturas decorativas da Escola Médica, 1901. || Gil Vicente e a Medicina, 1902 || O Xadrez, 1902 || A morte de D. Pedro IV, 1904. || Ribeiro Sanches, 1906 || Cartas de Ribeiro Sanches, 1907 || La Celestina en Amato Lusitano, 1908 || Sobre a Capela dos Templários de Tomar, 1909 || Ribeiro Sanches e Soares de Barros, 1909 || Amigos de Ribeiro Sanches - J. M. de Magellan, 1910. || Cometas antigos em Lisboa, 1910 || Em verdade: cartas publicadas no jornal República, de 21 de Junho a 1 de Julho, 1911 || Camillo Castello Branco. Memórias, 1911 || D. Carolina Michaelis e Camillo, 1911 || Bartolomeu de Gusmão, 1912 || Francisco Rodrigues Lobo. Estudo biográfico e crítico, 1912 || El Greco, nova contribuição biográfica, crítica e médica ao estudo do pintor Doménico Theotocópuli, 1913. || O médico penitente, 1913. || A guerra e o pensamento médico, 1914. || Ramalho Ortigão, 1915 || Á margem duma revista alemã, 1915 || Comentos à Vida, Obra e Época de Amato Lusitano, 1916 || Contra um plágio do Prof. Theophilo Braga : dados para a etho-psicologia literária duma pedantocracia, 1917 || De que faleciam os Conegos regrantes, 1918 || Francisco Rodrigues Lobo - Estudo biográfico e crítico, 1920. || A intercultura de Portugal e Espanha no passado e no futuro, 1921 || O Juiz Pinto Osório - In Memoriam, 1921. || Gomes Leal e Camillo, 1921 || O óbito de D. João II, 1922. || Gomes Coelho e os Médicos, 1922 || A propósito de Pasteur: discurso, 1923 || Maximiano de Lemos, 1923. || O culto de Camões - Uma ficção convencional, 1924. || Júlio Diniz, 1924 || Camillo e António Ayres, 1925 || Sermões dum leigo, 1925. || Os cristãos novos em Portugal, 1925. || I-H-S: discurso pronunciado na sessão académica consagrada a S. S. Pio XI e celebrada na Sala Portugal da Sociedade de Geografia, 1929 || Tem a palavra o prof. Ricardo Jorge, 1929 || A Exposição Colonial de Paris e as jornadas médicas, 1931. || Discurso no "Congres International d'Histoire de la Médecine", Bucareste, 1932 || Discurso no Congres d'Hygiene Méditerranéenne, Marselha, 1932. || Um pseudo-historiador justiçado , 1932 || O soneto imortal de Anvers e as versões vernáculas, 1933 || La médicine et les médecins dans l’expansion mondiale des portugais, conferência na Sala dos Capelos da Universidade de Coimbra, 1934 || Cartas dos grandes do mundo: cartas dos reis, senhores e homens insignes portugueses, coligidas por Francisco Rodrigues Lobo, pref. e notas Ricardo Jorge, 1934. || L'hygiéniste international Sir George S. Buchanan, 1937 || Palavras mal proferidas, 1937 || Memória de Belo Morais, 1937 || Camilo e Inês de Castro, 1939.




CRÓNICAS DE VIAGENS

Canhenho dum vagamundo: impressões de viagem, 1923 || De ceca e meca : impressões e estudos de viagem, 1925. || Passadas de erradío : impressões e estudos de viagem, 1928 || Impressões de Viagem, não coleccionadas, 1924-28. || Brasil! Brasil!, 1929.




PREFÁCIOS, COMENTÁRIOS E CO-AUTORIA

Almanach de Amenidades Médicas por Celso e Fabricio || d'Acquapen­dente (Ricardo Jorge e Maximiano Lemos), 1882. || Educação intellectual, moral e physica, Herbert Spencer; pref. Ricardo Jorge, 1884. || Guia médico-legal, Lacassagne, versão e adaptação, Ricardo Jorge e Maximiano Lemos, 1899 || O Telephone, Conde du Moncel,, versão de Ricardo Jorge, 1900 || La Malaria au Portugal, Ricardo Jorge e Morais Sarmento, 1906. || Homens de outros tempos, Teixeira de Carvalho, pref. Ricardo Jorge. 1924. || Júlio Dinis e a sua obra, Egas Moniz, pref. Ricardo Jorge, 1924 || Le mariage de Sylvestre, Camillo Castello Branco, Prefacio e Comentas de Ricardo Jorge, 1925. || Pro Israel, (Prefácio a Os Cristãos Novos em Portugal, de Samuel Schwarz), 1925. || José António Marques, por José de Abreu, pref. de Ricardo Jorge, 1926 || Estudos filosóficos e críticos, Alfredo Pimenta, pref. Ricardo Jorge, 1930 || Poeira do caminho, Albino Forjaz de Sampaio, pref. Ricardo Jorge, 1932 || Terra e azul, Duarte d'Almeida, com introdução de Ricardo Jorge, 1933. || Regimento proveitoso contra a pestença, Valentim Fernandes, comentários Ricardo Jorge, 1935 || O serviço de inspecção de toleradas em 1939, Tovar de Lemos, introdução de Ricardo Jorge, 1940.




COLABORAÇÃO NA IMPRENSA

Avulsos publicados em jornais, revistas nacionais e estrangeiros - «Primeiro de Janeiro», «Jornal da Manhã», «Comércio do Porto», «Folha Nova», «Norte», «Diário da Tarde», «Novi­dades», «Diário de Notícias», «Século», «Vitória», «Medicina Con­temporânea», «Jornal da Sociedade das Sciencias Médicas», «Arquivos do Instituto Central de Higiene», «Procès Verbaux de l'Office et du Comité d'Hygiène de la Société des Nations», etc.




O POLEMISTA

Ricardo Jorge, era implacavelmente crítico da mediocridade, da maldade e da estupidez (sobretudo quando a inteligência a servia). Reagia não por vaidade ou inveja, mas apenas porque admirava a inteligência, o carácter, a ciência e a sabedoria, onde quer que se encon­trassem, pesando no seu juízo crítico a avaliação das qualidades e defeitos, ao fazer o balanço do valor de cada um.

Uma das facetas da sua personalidade, segundo Fernando da Silva Correia, «foi a combatividade, que o levou a polémicas violen­tíssimas, que por vezes assumiram o aspecto de monólogos fulminantes ao reduzirem a silêncio alguns que o haviam imprudentemente querido apoucar ou pelo menos contrariar. A sua violência era terrivelmente inútil e embora talvez ninguém o haja excedido em intensidade, não acrescentou nada à sua glória», confessando ele próprio a mágoa de se ter servido de tal arma, pelo que aconselhou os filhos a não a utilizar, dando razão ao seu grande amigo e admirador Camilo, que lhe tinha dado o mesmo conselho, ...mas que ele não seguiu (tinha então 27 anos).

De facto, a propósito da polémica com Teófilo Braga, escreveu-lhe Camilo em 1886, o seguinte: «Li o seu truculento artigo. Está soberbo de sarcasmo, de troça, de gebada no caturrismo; peço-lhe porém, que seja aquela a sua última peça no género. O autor ou prelector das «Conferências» e do «Relatório» não pode pendurar as esporas de ouro e afivelar os acicates para fazer curvetear onagros que não obedecem ao freio. V. tem hoje um nome obrigante, amanhã, quando reler a sua charge, não gostará! Tolere estas rabujices de um velho que lhe quer como Pai, e submete a sua admiração às conveniências».




O RECONHECIMENTO

Durante a sua vida poucos compreenderam o valor e o alcance da obra que empreendeu em Portugal durante 60 anos.

Poucos se deram conta da luta feroz que empreendeu contra as deficiências, os interesses económicos, as rotinas, a preguiça, o acomodar de um povo que pouco parecia querer.

Ricardo Jorge estudou, investigou, legislou, reformou, entregou-se por inteiro à sua profissão, aos valores em que acreditava, à luta pela melhoria de um país sanitária e higienicamente atrasado. A sua acção e a sua obra não se limitaram aos assuntos de Saúde Pública, e é vasta, profunda, multiforme, incomparável e igualmente desconhecida.

Ricardo Jorge foi «um dos mais notáveis médicos e intelectuais da nossa História, a par do maior sanitarista português de todos os tempos, mestre de sanitaristas nacionais e modelo de sanitaristas mundiais. A sua grandeza destaca-se na perspectiva da história de toda a nossa literatura científica, crítica, historiográfica, filosófica, demográfica, pedagógica, linguística, patriótica, literária, estatística, polémica, etc.» (Eduardo Coelho)

Mas, santos da casa não fazem milagres, diz o povo, com sabedoria. Mas mesmo este povo que parece ter sabedoria, parece não saber reconhecê-la sempre que ela colida com os seus parcos interesses.

O próprio Ricardo Jorge a propósito da forma como foi tratado e ameaçado quando descobriu e propôs medidas contra a Peste do Porto, escreveu. «Ninguém é profeta na sua terra, e já a santa Sião lapidava os seus profetas. Pois podia lá admitir-se que no Porto houvesse homem de assaz autoridade e capacidade para fazer um diagnóstico de peste? A maldade e a ignorância indígenas ergueram-se para castigar o ousio; era um atentado contra o patriotismo português que consiste essencialmente em repudiar e malsinar o que tem, homens ou coisas que sirvam».

Assim, «o higienista que durante quinze anos estudara as horrorosas condições sanitárias do Porto e lhe apontou o remédio, cujo nome corria a imprensa dos dois mundos, é vítima duma cidade inteira», escreveu Eduardo Coelho.

Apesar disso e embora sentido, quando em 1921, participou no Congresso Luso-Espanhol, Ricardo Jorge que pela primeira vez voltava à sua cidade natal e à sua Faculdade, disse: «Nesta casa me criei, nela me fiz homem, nela professei logo ao sair dos bancos da Escola (…) Tanto tempo se volveu, que nem estas paredes me conhecem, e eu próprio me desconheço ao ver-me no seu recinto. Tudo está mudado, e eu o mais mudado, menos o sentimento fixo que vinte e dois anos de exílio não deliram, tão vivo hoje como no instante do meu forçado afastamento».




A MORTE

Morre em Lisboa no dia 29 de Julho de 1939. As suas cinzas foram levadas para o Porto, cidade onde nascera e que amava, apesar da ingratidão da população que tinha levado à sua mudança para Lisboa.

Cumpriu-se assim o seu desejo. Repousa no Cemitério de Agramonte, no Porto. A legenda inscrita no seu jazigo «Nihil Nisi Amor – Nada se faz sem amor» é uma boa síntese do que foi a sua vida. Em tudo pôs amor e entrega, pois mesmo quando polemizava e mostrava agressividade, era o amor às causas e aos valores que assim o fizeram reagir.