Diz Fernando Pessoa: A Vida fê-lo herói, e a Morte o sagrou Rei!

Sidónio Pais

Presidente - Rei:
1872 - 1918



Quando tudo aconteceu...

1872: Natural de Caminha, onde nasceu no dia 1.º de Maio. - 1888: Alista-se como voluntário no Regimento de Infantaria 23, não tardando a ver-se promovido a sargento-cadete de artilharia para prestar serviço no Regimento n.º 1 da mesma Arma. - 1891: Assina o Manifesto Académico redigido por João Meneses. - 1892: Completa o Curso da Escola do Exército. - 1899: Ingressa no corpo docente daquela Faculdade onde será nomeado professor catedrático para reger a 3.ª cadeira de Cálculo Diferencial e Integral. - 1906: É promovido a capitão. - 1908: Profere a sua oração de sapiência na Universidade de Coimbra. - 1911: Nas bancadas da primeira Assembleia Nacional Constituinte, eleita em 28 de Maio de 1911, Sidónio Pais arranja assento como deputado pelo círculo de Aveiro. É Ministro do Fomento no Governo chefiado por João Chagas. - 1912: Ministro das Finanças no Governo de Augusto de Vasconcelos. Exercerá, até meados de 1916, as funções de ministro plenipotenciário em Berlim regressando a Lisboa, com a declaração de estado de guerra entre Portugal e a Alemanha, sendo então colocado como alto funcionário no Ministério dos Negócios Estrangeiros. - 1917: Comanda o golpe militar que o levará a ser eleito Presidente da República. - 1918: É assassinado ao entrar na Estação do Rossio.

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QUEM SOU. MINHAS ORIGENS

Nome completo: Sidónio Bernardino Cardoso da Silva Pais.

Sou filho de um escrivão, que me deixou órfão muito cedo, a mim e aos meus dois irmãos. A minha família parece ter vindo a este mundo marcada pelo signo de uma tragédia que já levou à loucura e à morte vários familiares meus. Primeiro foi um tio, que se ordenou padre em Braga, e que morreu no Brasil, atacado de demência. Depois foi a minha irmã a que sucedeu a mesma tragédia e, mais tarde, quando eu for presidente, o meu irmão Aureliano morrerá no Hospital do Conde de Ferreira, atacado de loucura incurável.
A vida não começa fácil para mim. Talvez por isso, desde cedo me deixo encantar pelas casernas. Aos 16 anos já marco passo no Regimento de Infantaria 23. Completo o Curso da Escola do Exército e, pouco depois, parto para Coimbra onde vou preparando o Magistério. Antes, fui vogal da Comissão de Balística presidida pelo general Fernandes da Costa, a quem fiquei a dever grandes favores na conciliação das funções militares e de estudioso doutorando.

Após ter andado pelas escolas industriais e, mais tarde, na Faculdade de Matemática da Universidade de Coimbra, acabo por ingressar no corpo docente daquela Faculdade onde sou nomeado professor catedrático para reger a 3.ª cadeira de Cálculo Diferencial e Integral.




AONDE EU ESTAVA AQUANDO DA REPÚBLICA

Em 1910 a República vem encontrar-me na minha pacatez de vida. Já sou o capitão Dr. Sidónio Pais, não sou exactamente um homem da Revolução.

É certo que fui um dos poucos que, em 1891, assinou o Manifesto Académico redigido por João Meneses e que por isso muitos me atribuem o professamento dos ideais republicanos desde muito novo. Contudo, só depois da implantação da República em 5 de Outubro de 1910 é que me disponho a aparecer publicamente ao lado dos revolucionários republicanos.

Nas bancadas da primeira Assembleia Nacional Constituinte, eleita em 28 de Maio de 1911, como deputado, faço ouvir a minha voz em 13 sessões da Assembleia, particularmente durante a discussão, na especialidade, do projecto da Constituição Política da República. Nas manifestações do primeiro aniversário da implantação da República sou, até, nomeado o representante oficial do Governo na cidade do Porto, sendo eu quem assina o auto do lançamento da primeira pedra para o monumento comemorativo da Revolução Republicana. Mas é como ministro do Fomento, no Governo de João Chagas, que o meu nome começa a ser badalado com maior frequência.
O Governo de João Chagas finda a sua existência e no que se lhe segue encontrar-se-á uma vez mais a minha presença, agora na pasta das Finanças e é neste cargo que começo a aparecer no grande plano da vida nacional, principalmente ao apresentar aquilo que é considerado como o primeiro orçamento da República. É um orçamento em que, nas minhas contas, o défice fica por 1966 contos, enquanto para o deputado António Granjo a coisa não fica por menos de 6946 contos.
É também por esta altura que passo a ser o «irmão Carlyle» da loja maçónica Estrela D’Alva. Lembro-me bem: em 20 de Fevereiro de 1911, num prédio situado na Rua Sá da Bandeira, em Coimbra, faço o meu «testamento de iniciado» nessa associação secreta sem, no entanto, vir a dispensar grande participação na mesma.

Na verdade, interessa-me esta instituição unicamente por razões de carácter pessoal. A própria escolha do nome simbólico é bem o exemplo do meu afastamento quase total em relação às teses maçónicas. Carlyle, filósofo, historiador e escritor escocês, que é tido como o percursor de algumas das mais obscuras concepções totalitárias, não é um modelo cristalino para qualquer homem, e muito menos em 1911. Ao que sei, Carlyle era antigo estudante de teologia e preceptor de famílias ricas, a quem só aos «heróis» cabe o direito de dirigir as sociedades. Eles são personagens providenciais e as sociedades devem reconhecê-los como seres superiores, deixando-se guiar por eles e obedecer-lhes cegamente.

É este arquétipo que eu escolho para patrono do meu baptismo maçónico. Quem em 1911 estranha esta minha opção de Carlyle ficará a entendê-la melhor em 1918.




O MEU SIDONISMO

Em Dezembro de 1917, o Sidónio Bernardino Cardoso da Silva Pais já não é propriamente um desconhecido para muita gente. Ainda que o meu nome não ande muito na boca do cidadão comum, como eu fizera parte de dois dos primeiros Governos da República e exercera, até meados de 1916, as funções de ministro plenipotenciário em Berlim, isto é já o suficiente para me conferir uma certa dimensão pública.

Estou com pouco mais de 45 anos e sei que esta não é ainda a idade mais indicada para ser aceite como o mais alto magistrado da Nação. No fundo, eu não passo de um modesto major do Exército e, além do mais, os republicanos não parecem estar muito interessados em verem a República vestida de farda militar.

É certo que tinha havido já a «experiência» do Governo do general Pimenta de Castro em 1915; porém, o tempo não está para generais e é mais fácil para mim, como simples major, conseguir trazer para Portugal o primeiro esboço da concepção fascista do Estado, em 1917.
Quem me veja, na tarde de 5 de Dezembro de 1917, a passear tranquilamente de eléctrico pela Avenida da Liberdade, está longe de pensar que se encontra perante um homem que dali a poucas horas haverá de dar muito que falar.

Na verdade, eu não passeio por passear. Acompanhado pelo Dr. Leonardo Trigoso, faço tempo para me encontrar com alguns dos conspiradores que sob as minhas ordens, dentro de algumas horas, caminharão para a Rotunda.

Alguns pensam que é apenas mais uma das muitas revoltas que afligem a República. Mas em breve haverão de conhecer bem o que vai ser a minha revolução.

Não me posso queixar de partir para esta minha aventura e iniciado o meu consulado presidencialista sem contar com o apoio popular, ou sequer dos sectores tidos como progressistas.

Tenho de tudo ou, pelo menos, aquilo que julgo ser suficiente. Alguns dos homens da Revolução que em 1910 libertara Portugal de um regime apontado como retrógrado, obsoleto e repressivo estão comigo desde a hora em que se mostrou necessário fazer alguma coisa.

Aponto o Machado Santos, o heróico revolucionário de 5 de Outubro de 1910, justamente tido como o pai da República; o José Carlos da Maia, também herói célebre da Revolução Republicana; o Vasconcelos e Sá, igualmente um dos principais obreiros do 5 de Outubro de 1910 e alguns outros republicanos de primeira estirpe, que dão ao meu movimento rebelde uma certa credibilidade republicana e fazem do golpe algo em que se pode confiar à primeira vista.
Ao meu lado vêm, também, colocar-se personalidades que fariam bem as delícias de qualquer Presidente de hoje. Fernando Pessoa endeusa-me; António Sérgio acredita em mim; Basílio Teles entusiasma-se; Rocha Martins defende-me e outros, não menos famosos, só desejam poder servir-me.
Estou, na verdade, rodeado ou apoiado por um lote de individualidades a ter em conta.

Em pouco tempo, comecei a seguir pelos caminhos que alguns apelidam de «desvairo messiânico», depois de terem ouvido o meu grito: «Viva a República Nova!»

Jamais esquecerei o que se passou a partir de então.

Foi uma época de grandes manifestações, que perseguiam a minha pessoa numa loucura nunca vista.

Ao delírio esfuziante das viagens por terras do Norte seguiam-se a digressão pelo Sul, onde encontrarei recepções de espectacular dimensão.

Estava, agora, mais decidido do que nunca a levar por diante os meus intentos. Sentia-me já um semideus e em breve talvez pudesse ser mais do que isso!

As manifestações eram de proporções nunca vistas. A minha presença arrastava torrentes de entusiastas e poucos eram aqueles que queriam ficar em casa quando me fazia ver.

Odiado por uns, combatido por outros e atacado por tantos, eu sei, no entanto, que sou extraordinariamente amado por multidões que me aclamam numa entusiástica loucura.

Nas mulheres, encontrei sempre a grande força e o maior conforto.

O Raul Brandão fez-me justiça ao dizer sobre mim o seguinte: «Havia nele uma distinção que os outros não tiveram; um não sei quê, que atraía os homens e principalmente as mulheres: Era uma figura alta, distinta, adorado pelas mulheres, e que não conseguia passar sem saias à sua volta.»

Estou separado da minha mulher, que continua a viver em Coimbra, mas nunca me faltam companhias femininas. A condessa de Ficalho é, sem dúvida, a mais frequente.

A minha fama é de tal ordem que nos tempos de Coimbra alguns amigos chegaram mesmo a dizer: «A Sidónio pode-se confiar tudo, menos a mulher!» Bocas! Inveja!

Sabem que eu tenho boa figura. Quase sempre vestido de negro e enluvado a rigor, deixo boa impressão por onde passo. Eu, que sou um fumador inveterado (chegava a fumar quatro maços por dia), ainda fumava por estas alturas a popular marca Antoninos. Só passei definitivamente para os dispendiosos Baunilhas quando fui presidente.

A minha figura pessoal passa a ser promovida numa campanha publicitária de envergadura gigantesca. Para me exibir em público mando fazer uma farda recamada de estrelas. É verdade que, quando fui deputado, exigi no Parlamento a supressão imediata de títulos nobiliárquicos, de condecorações ou de outros quaisquer distintivos honoríficos, mas agora acho que me ficam bem as seis estrelas na minha farda de presidente. Mando, igualmente, fazer obras nos palácios de Belém e da Pena, que não ficam por menos de 13 contos. O que, para a época, é uma boa fortuna.

Ao meu redor criam-se mitos de toda a espécie. Apesar de ateu confesso, eu sou para muitos o Santo Sidónio.

Os sectores católicos não escondem o contentamento e o apoio que dispensam às minhas medidas. E o caso não é para menos. Com o decreto de 9 de Dezembro de 1917, mando reintegrar os bispos e os clérigos nos seus antigos postos. As procissões e as romarias voltam às ruas sem ser necessária qualquer autorização prévia. Prédios e outras propriedades são devolvidos à Igreja. E, em 23 de Fevereiro de 1918, outro decreto, o número 3856, vem revogar diversas disposições da Lei da Separação das Igrejas do Estado.

As missas passam a poder ser celebradas para além de certas horas, sem necessidade de autorização, e volta a ser consentido o uso das vestes talares que, aliás, nem tinha grande tradição em Portugal, resultando mais da influência espanhola e italiana.
Sou, também, o primeiro chefe de Estado a pôr oficialmente os pés numa igreja, desde a proclamação da República. É igualmente durante o meu consulado que o Parlamento republicano regista o maior número de deputados eleitos pela lista dos católicos.

Mas se os meios mais conservadores rejubilam com as minhas decisões, já os republicanos e o operariado não estão com o mesmo agrado.

Acusam-me de repressões violentas de greves e revoltas militares e que as prisões estão cheias de opositores ao meu regime. Chegam mesmo a dizer que a Leva da Morte, onde é assassinado Francisco Correia Herédia Ribeira Brava, é um dos episódios mais sanguinários do meu consulado.




A MORTE

Entretanto, a situação no Porto torna-se cada vez mais confusa. Resolvo ir eu próprio à capital do Norte e tentar resolver pessoalmente os problemas levantados pelas Juntas Militares.

Mas basta que eu assim pense e imediatamente se ergue um monumental coro de vozes sugerindo que não devo sair de Lisboa. Argumentam intenções de me proteger contra prováveis atentados e Sollari Allegro, meu representante no Norte, envia-me um telegrama aconselhando-me a «não cair na asneira de se deslocar ao Porto».

No intuito de impedir a minha deslocação, as autoridades nortenhas chegam a informar Belém de que não é possível organizar a tempo os preparativos para a recepção presidencial. Sollari Allegro vai mesmo mais longe e chega a afirmar que se eu escapasse em Lisboa, no Entroncamento ou na Mealhada, não escaparia no Porto

Em Lisboa, o governador civil, Sousa Fernandes, tenta, igualmente, demover-me de ir ao Norte. O mesmo acontece com o responsável pela pasta da Guerra, que me indica ter notícias de se estar a preparar urna manifestação de famílias de presos políticos, para a estação do Rossio, onde eu deverei embarcar.

Não quero saber do que me dizem acerca dos atentados e respondo:

- E que tem isso? Ou eles ou eu!

O governador civil, desiludido, responde, ao despedir-se de mim:

- Julgo da minha obrigação dar este conselho a V. Ex.a O meu presidente fará o que entender. Lá estarei à noite no Rossio, para cumprir o meu dever, e oxalá V. Ex.a não tenha de se arrepender.

Já perto da noite, o capitão Carneira insiste, também, junto de mim, no sentido de me dissuadir, mas a minha disposição é inabalável:

- Não desisto - vou! Não te preocupes comigo. As balas disparadas contra mim, bem sabes que se encravam.
Mas, infelizmente para mim, desta vez não se encravam as balas disparadas pelo homem que espera por mim no Rossio.



* * *

Cai o presidente
e agora toma a palavra
o autor do livro
“Sidónio - Ele tornará feito qualquer outro”:
Em Belém, o presidente acaba de jantar. Nas ruas desertas acendem-se os bicos de gás da iluminação pública e a noite começa a aparecer densa, neste sábado de 14 de Dezembro de 1918.
A esta mesma hora, um desconhecido janta numa das mesas do Restaurante Silva, em pleno Chiado. Perto dele, sentado numa mesa próxima, está o governador civil, Sousa Fernandes. Fala-se da viagem do presidente ao Norte. O desconhecido acaba de jantar, paga a conta e sai sem uma palavra. Dirige-se à Estação do Rossio, a dois passos dali.

No Rossio, vê-se já a Guarda Republicana, com fardas de gala, preparada para formar sob o alpendre, onde prestará a guarda de honra devida ao presidente da República. Vão chegando polícias, mais polícias do que habitualmente. No Teatro Nacional, frente à Estação, representa-se a peça de Afonso Gaio Abel e Caim. Nela, Adelina Abranches faz o papel de bruxa.

Para ver o cerimonial da partida do presidente, junta-se uma multidão, na sua maioria constituída por gente que acaba de sair das casas de espectáculos.
No Politeama, Maria Bastos interpreta A Vizinha do Lado; no Avenida, Palmira Bastos faz de Leonor Teles no drama histórico de Marcelino Mesquita; no Éden, Ausenda de Oliveira é a estrela da fantasia Sangue Artista; Naná é o filme que o Olímpia projecta nessa noite.

Nos cafés Suíço e Martinho, as mesas enchem-se de clientes e adensa-se o fumo dos cigarros. Faltam dez minutos para a meia-noite. Os acordes do Hino Nacional, tocado pela banda da Guarda de Honra, começam a ser ouvidos, dando conta da chegada do automóvel presidencial. De Belém ao Rossio demorara apenas quinze minutos.

O aparato policial impressiona o próprio presidente: - Que exagero! Nem que eu fosse o czar da Rússia...., diz Sidónio, ao apear-se do carro que o deixa junto à estação.

Como sempre, vem impecavelmente vestido. Sob o majestoso capote de mescla cinzenta, cravejado de estrelas presidenciais, um elegantíssimo colete de lã preta forrado a cetinela branca - confeccionado na loja Eduardo & Santos, na Rua 1.º de Dezembro, 148 - protege a fina camisa de paninho branco, com punhos engomados e peitilho de zefir da mesma cor - padrão exclusivo da firma Pitta & C. ª, da Rua Augusta, n.º 197. Um dólman e uma camisola aberta de «crepon» branco, sem gola, para maior destaque dos vistosos colarinhos de linho branco engomado, igualmente da marca Pitta, dão a nota final a um porte de soberba elegância que afamara Sidónio Pais. Nesta noite, o presidente veste ceroulas de «crepon» branco com a etiqueta Crépe de Santé-Rumpf e compõe a parte interior do seu trajar com suspensórios de tecido de algodão de cor castanho-claro por fora e branca por dentro.

A multidão ovaciona-o. O presidente prepara-se para entrar no grande átrio da estação, atravessando duas compactas filas de polícias, que o protegem de toda aquela gente que acorrera ali para o ver e saudar.

De repente, abate-se sobre a mole humana um autêntico vendaval de pânico. De todas as portas da estação sai gente a correr, enlouquecida, procurando esconder-se nas escadas dos prédios próximos.

Há tiros e gritos por todo o lado. No meio da tormenta, o automóvel da Presidência da República parte a grande velocidade para o Hospital de S. José. Dentro de minutos, toda a gente fica a saber o que aconteceu. De bairro em bairro, a notícia chega da mesma forma:

- «Mataram o Sidónio! Mataram o Sidónio!»

O homem de capa alentejana, que umas horas antes jantara no Restaurante Silva, tinha acabado de disparar contra o presidente Sidónio Pais. Chama-se José Júlio da Costa.

«A pistola já está pronta», conta José Júlio da Costa, «o dedo no gatilho; para tapar a pistola tinha levado um capote alentejano, que só estava sobre os ombros e, quando o presidente vem quase junto de mim, dei um empurrão nos guardas e, ao mesmo tempo que abria caminho, partiram dois tiros. Foram os dois sobre o lado direito, um para junto do braço e outro no ventre. A República Nova morria com o seu presidente. Não dei um passo para fugir. Acabava assim o absolutismo.»
Limitara-se a empurrar um dos polícias da dupla fila do cordão de segurança e a disparar a sua arma sobre o presidente, que mal tem tempo de reagir.

Sidónio Pais ainda faz um gesto, na intenção de sacar o revólver que traz no bolso esquerdo do capote militar. Porém, um segundo tiro acerta-lhe em cheio e fá-lo cair no limiar da porta que procura transpor.

É tudo tão rápido que só por mero acaso o autor dos disparos é preso no local. Na infernal confusão, a Polícia e a Guarda acometem o justo e o pecador, distribuindo coronhadas ao acaso e desencadeando um furioso tiroteio, que atinge tudo o que está perto.

No chão, Sidónio Pais agoniza, perante os esforços infrutíferos do capitão Carneira, que tenta, a todo o custo, salvar a vida do presidente, protegendo-o com o seu corpo do tiroteio a que se assiste.

«Morro bem! Salvem a Pátria!», afirmam alguns que Sidónio terá dito ao despedir-se deste mundo.

Sidónio Pais chegará já morto ao hospital, onde o médico Torres Pereira praticamente se limita a certificar o óbito.

José Júlio da Costa viera de Garvão, pequena vila do Baixo Alentejo, com objectivo único de pôr fim ao consulado sidonista, começando pela eliminação física do seu principal mentor.
E conseguiu. Tal como há oito anos sucedera com o rei D. Manuel que, no dia da Revolução de 5 de Outubro de 1910, se preparava também para seguir com destino ao Porto, Sidónio Pais já não chega a iniciar a sua viagem para a capital do Norte.

A D. Manuel II, último rei de uma dinastia que vê culminar o seu tempo na História de Portugal, restar-lhe-á um exílio de tranquilidade, que nas praias da Ericeira tem o seu princípio.

A Sidónio Pais, primeiro presidente de um autoritarismo que começou com ele e continuará para além dele, o destino garante-lhe a frieza de um túmulo que as balas de um desconhecido lhe reservam nessa noite de 14 de Dezembro de 1918.

Sidónio fora, de facto, uma legítima esperança no conturbado mundo da política portuguesa e pena foi que não tivesse passado disso mesmo: de uma esperança.

Mas poderia Sidónio ter sido mais do que isso? Poderia Sidónio ser a antítese de um sebastianismo secular, quando ele aparece tal qual um desejado descoberto numa «manhã de nevoeiro»?