Quem se atreve a cantar flores nesta manhã de pesadelos?

josé gomes ferreira

Poeta:
1900-01-01 - 1985-01-01



Quando tudo aconteceu...

1900: Em 9 de Junho nasce no Porto José Gomes Ferreira, filho de Alexandre Ferreira, político republicano. 1904: A família vai viver para Lisboa. 1910: É proclamada a República. 1914-18:1ª Grande Guerra. Matricula-se no Liceu Camões, passando depois para o Gil Vicente. 1916: Vítima de febre tifóide, que José também contrai, morre seu irmão Jaime.1917: Alexandre Ferreira é eleito vereador do município de Lisboa. Revolução Soviética. 1918: Publica o primeiro livro de poemas, Lírios do Monte. Faz-se sócio da Liga da Mocidade Republicana. 1919: Alista-se no Batalhão Académico Republicano. 1920: Dirige a revista Ressurreição, na qual Fernando Pessoa colabora com um soneto. 1921: Sai a público a sua colectânea de poemas Longe. 1924: Licencia-se pela Faculdade de Direito de Lisboa. 1925: É nomeado cônsul de Portugal, em Kristiansund, na Noruega, cargo que exercerá durante cinco anos. Seu pai é eleito deputado por Lisboa. 1926: Traduz O Livro das Mil e Uma Noites. Movimento do 28 de Maio. 1930: Regressa a Portugal. Colabora em diversas revistas - Presença, Seara Nova, Gazeta Musical e de Todas as Artes, Imagem, Senhor Doutor, Descobrimento. Sob o pseudónimo de Álvaro Gomes, faz a legendagem de filmes.1931: Publica na Presença o poema Viver sempre também cansa. Do seu primeiro casamento, nasce o seu filho Raúl Hestnes Ferreira. 1936-39: Guerra Civil de Espanha. 1939-45: 2ª Guerra Mundial.1941: Em Coimbra, nasce o Novo Cancioneiro, onde José Gomes Ferreira colabora. 1942: Fernando Lopes-Graça musica três sonetilhos de Longe. 1945: Integra o Movimento de Unidade Democrática. 1946: Colabora com Fernando Lopes-Graça em Marchas, Danças e Canções. 1947: Escreve a letra do hino do MUD Juvenil, cuja música é composta por Fernando Lopes-Graça. 1948: Sai a público o volume de Poesia I. Colabora em Homenagem Poética a Gomes Leal. 1950: É publicado Poesia II. Sai também a público o livro de ficções O Mundo dos Outros – histórias e vagabundagens. Colabora em Líricas. 1952: Nasce, do casamento com Rosália Gomes Ferreira, Alexandre Vargas, seu segundo filho. Colabora no jornal Ler, dirigido por Fernando Piteira Santos. 1956: Publica a colectânea de poemas Eléctrico.1958: Com Carlos de Oliveira, organiza Contos Tradicionais Portugueses. Luiz Pacheco publica a sua Carta-Sincera a José Gomes Ferreira. 1959: Mário Sacramento publica O Mundo de José Gomes Ferreira (in Ensaios de Domingo) 1960: É editada a sua obra de ficção, O Mundo Desabitado. De David Mourão-Ferreira sai o texto Na publicação de Eléctrico (in Vinte Poetas Contemporâneos). 1961: É-lhe atribuído o Grande Prémio da Poesia pela Sociedade Portuguesa de Escritores. 1962: É editado o volume de Poesia IV. Publica-se o seu livro Os Segredos de Lisboa.1963: Edita-se Aventuras Maravilhosas de João Sem Medo. António Ramos Rosa publica José Gomes Ferreira ou a Imaginação perante o Real (in Poesia Liberdade Livre). 1964: Carlos Loures publica O Universo dos humilhados na obra de José Gomes Ferreira (in Vértice n.º 252/253). 1965: Sai A Memória das Palavras – ou o gosto de falar de mim.1966:Publicação de Imitação dos Dias – Diário Inventado.1969: É editado Tempo Escandinavo (contos). 1971: Publicação de O Irreal Quotidiano – histórias e Invenções. De Carlos de Oliveira sai o texto Autor, Encenador, Actor (in O Aprendiz de Feiticeiro). 1972: Eduardo Prado Coelho publica O Real Impossível em José Gomes Ferreira (in A Palavra sobre a Palavra). Carlos Filipe Moisés publica a sua tese de doutoramento na Universidade de São Paulo, A Problemática Social na Poesia de José Gomes Ferreira. 1973: Sai Poesia V. Sai o texto José Gomes Ferreira, de Gastão Cruz (in A Poesia Portuguesa hoje). 1974: Revolução de 25 de Abril. 1975: Gaveta das Nuvens – tarefas e tentames literários. Sai o seu volume de crónicas Revolução Necessária. Alexandre Pinheiro Torres publica Vida e Obra de José Gomes Ferreira. 1976: O Sabor das Trevas – Romance Alegoria. 1977: Novo volume de crónicas: Intervenção Sonâmbula. 1978: Saem os volumes

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NASCE NA RUA DAS MUSAS UMA AVENTURA POÉTICA

Nascido no Porto, profeticamente na Rua das Musas, freguesia de Santo Ildefonso, vem para Lisboa com quatro anos. E, do mesmo modo que Camilo Castelo Branco, nascido em Lisboa, foi indiscutivelmente um homem e um escritor do Norte, José Gomes Ferreira, nascido no Norte, é um homem e um intelectual de Lisboa; Lisboa é a sua cidade. Cresce «longe das árvores, no roldão poeirento das cidades», como ele próprio diz, cedo se enamora da poesia - «a minha Aventura Poética começou aí por volta de 1908, tinha eu os meus oito anos, no dia em que reparei (ou procedi como se reparasse) na existência das palavras».
A sua intervenção política começa também muito cedo: com dez anos, na manhã de 4 de Outubro de 1910, antes de a República ser proclamada, vem para a rua à frente de um bando de miúdos, prendendo num cabo de vassoura uma bandeira verde e vermelha feita de papel de seda, onde colou com letras recortadas um vibrante «Viva a República!». O pai, democrata e republicano que viria a ser deputado por Lisboa, teve por certo influência na precocidade com que adquire consciência política (consciência política, o que não significa que se sinta talhado para uma carreira política).
Mora na Vila Rodrigues, na Calçada do Monte Agudo onde pelo final da década de 20 foi construído o «feiíssimo Bairro das Colónias». Muitos anos depois, em 1958, saberá que a escritora Irene Lisboa morava também na Calçada do Monte Agudo, na Vila Rodrigues, numa casa pegada à sua. Numa conversa em casa de José, poucos meses antes do falecimento da escritora, descobriram essa vizinhança e que o «Zeca» que a jovem Irene ouvia uma senhora chamar, era a mãe de José Gomes Ferreira querendo saber por onde parava o filho traquina, sempre empoleirado em muros ou trepando a nespereiras.




A RESSURREIÇÃO. A PAIXÃO MUSICAL. A LUTA POLÍTICA

Depois de uma má experiência no Liceu Camões, passa para o Gil Vicente, onde tem como professor Leonardo Coimbra, com quem estuda os poetas saudosistas. E outros mestres distintos: Newton de Macedo, Damião Peres, Câmara Reys… Torna-se amigo de todos ou de quase todos. O seu gosto pela literatura e pela cultura em geral é agudizado. Dirige a revista Ressurreição - «Revista de Arte e Vida Mental», na qual Fernando Pessoa colabora com o soneto Abdicação[1]. Em 1918 publica o seu livro de estreia, o poemário Lírios do Monte (com capa de Stuart de Carvalhais), obra que virá a retirar da sua bibliografia. A música é outra das suas paixões. Depois de ter escutado a primeira audição mundial da Sinfonia Clássica de Prokofiev, inspirado em Trindade Coelho, no romance Os Meus Amores, compõe um poema sinfónico, Idílio Rústico, que se estreia em 3 de Março de 1918 no Teatro Politeama executado por uma orquestra dirigida pelo maestro David de Sousa. Provoca em Leonardo Coimbra «um largo sorriso incitador». Quando Gomes Ferreira abandona a via musical, Luís de Freitas Branco afirma ter-se perdido um potencial notável compositor. É também neste ano de 1918 que se filia na Liga da Mocidade Republicana e queima em pleno Café Gelo um retrato de Sidónio Pais. «E todavia quando, empurrado por Leonardo Coimbra e dentro da coerência da linha paterna, entrei no coro prestativo contra o histérico consulado de Sidónio Pais, nem de longe suspeitava a que ponto chegava a minha carência de vocação para a acção política.»[2]

À breve ditadura sidonista encerrada com o assassínio do «presidente-rei», em 14 de Dezembro, segue-se a ameaça da Monarquia do Norte – Em 19 de Janeiro de 1919, os monárquicos encabeçados por Paiva Couceiro, proclamam no Porto a monarquia. Quase todo o Norte do País e uma parte da Beira-Alta adere à sublevação. Em Lisboa, a guarnição de Monsanto, revolta-se também contra a República. O nosso José, alista-se no Batalhão Académico Republicano e, concluído um breve treino militar em Tancos, é integrado na coluna do general Abel Hipólito, participando em operações na breve guerra civil que assola o País. No Porto, a 13 de Fevereiro, eclode um movimento republicano chefiado por Sarmento Pimentel. Quatro dias depois, o último bastião monárquico, em Vila Real é vencido. O episódio da Monarquia do Norte termina. José volta à Faculdade de Direito.

[1] - Ressurreição, n.º. 9, Fevereiro de 1920.
[2] - A Memória das Palavras.




OS CAFÉS E OS AMIGOS

Os Cafés da Baixa lisboeta eram, naquelas primeiras décadas do século XX, centros de discussão, sedes de tertúlias artísticas e políticas. Ali se criavam revistas, se combinavam conspirações, se projectavam obras literárias. José Gomes Ferreira é, por estes anos 20, assíduo frequentador do Martinho, do Portugal, do Gelo, da Brasileira, do Chiado… «Os benditos cafés onde em moço gastei longas tardes ardentes a ruminar livros, a fazer versos, a escrevinhar no meu Diário, a redigir planos de romances, a aborrecer-me…»[1]. Manuel Colares Pereira, Américo Durão, Mário Beirão, Domingos Monteiro, António Botto, Chianca de Garcia, Armando Soeiro, Augusto de Miranda, Gualdino Gomes… são apenas alguns nomes entre os muitos frequentadores desses habitats do sonho e do pesadelo que os cafés são naqueles anos vinte e continuarão a ser até que, pelos anos sessenta, começam a ser «reconvertidos», perversamente reciclados – bancos, companhias de seguros, agências de viagens, cafetarias, pizzarias… Há «alvos predilectos (…) das setas envenenadas de muitos arcos» que a fauna dos cafés desfere. Júlio Dantas é um deles (- Júlio Dantas é o discípulo do chinó do Garrett! dirá Gualdino Gomes «mestre dos mestres dos conversadores de café»[2]). 1921 é o ano em que publica Longe, outra colectânea de poemas que o autor virá a considerar obra menor - «Longe… (Para quando o Perto?), interroga-se. Porém terá surpresas. Mais de dez anos depois, Soeiro Pereira Gomes dir-lhe-á: «A minha mulher e eu namorámos através do Longe…» e Fernando Lopes-Graça, que comprara o livrinho na Feira do Livro em 1942, musicou três sonetilhos. Se serviram para um grande escritor namorar e para um grande musicólogo os musicar, os poemas não podem ser tão maus como ele julgara mais de vinte anos antes.

Em Novembro de 1923 vê Raul Brandão, uma das suas referências dilectas, na Rua do Carmo, fica maravilhado – Existe! dirá. Em Março de 1924, na Brasileira do Rossio, é apresentado a Teixeira de Pascoaes, outro dos seus modelos. Fica desiludido. Tem «cara de sacrista», comenta.

[1] - Obra citada.

[2] - Op. Cit.




A PIOR SOLIDÃO – O «INTERREGNO NORUEGUÊS»

Em Novembro de 1925 é nomeado pelo então ministro dos Negócios Estrangeiros, Vasco Borges, cônsul de Portugal em Kristiansund, na Noruega. «Por fortuna não passei de cônsul de 4ª classe» (…) «e fora de todas as carreiras». No Porto, embarca no paquete Sicília, rumo a Oslo. No comboio de Oslo para Trondjem, atravessando planícies de neve, escreve: «A pior solidão é a que me espera agora: a de ter de esconder a minha verdadeira personalidade. Ai de mim se não conseguir aparentar a banalidade altiva dos medíocres! Tomar-me-ão por parvo.» Aprende a língua norueguesa, que lhe soa «como uma arcada de violoncelo». Ao fim de dez meses lê jornais com desembaraço e, com a ajuda de dicionário, consegue ler romances policiais. Mais seis meses e começa a mergulhar em Ibsen, Björnson, Alexandre Killand, Knut Hamsum. Aproveita a solidão para de novo compor música - «meia dúzia de ninharias desprovidas de ânsias de futuro», diz com modéstia.
As cartas dos amigos mitigam as saudades de Lisboa: «Por aqui tudo velho. Continuo a encontrar o Fortunato, continuam as tardes na Bertrand – o mesmo de sempre!», diz Ferreira de Castro em Abril de 1926. «Lisboa está linda. As olaias floresceram mais cedo…» afirma-lhe Alfredo Brochado pela mesma altura. No São João desse ano, depois do Movimento de 28 de Maio, Brochado pergunta: «Você já sabe que vivemos em regime de ditadura?» José já sabia. E assim vai passando o «interregno norueguês», como Gomes Ferreira classifica estes cinco anos.




O REGRESSO – A REVOLUÇÃO CONTINUA

Quando volta a Lisboa, encontra outro um país – A Revolução continua – dizem os que estão orgulhosos da «nova ordem» que reina nas ruas e com a repressão que condiciona as mentes. Com um ou outro acidente de percurso, a direita católica e conservadora, o chamado Governo da Ditadura Militar, vai, decreto a decreto, sob a orientação cautelosa, mas obstinada, de um tal Oliveira Salazar, eliminando os vestígios da República, suprimindo as liberdades fundamentais. «Ordem Nova» que repõe tirania velha. Alguns amigos são os mesmos, outros morreram. Surgem alguns novos – Manuel Mendes, Bernardo e Ofélia Marques (seus «compadres», padrinhos de seu filho Raúl), Carlos Botelho, Diogo de Macedo, José Rodrigues Miguéis, João Gaspar Simões, Cottinelli Telmo, a Maria e o Chico Keil… E os neo-realistas Alves Redol, Carlos de Oliveira, Fernando Namora, Manuel da Fonseca, Soeiro Pereira Gomes, Carlos Queiroz… Sob pseudónimo (Álvaro Gomes, Avô do Cachimbo e outros), colabora na Imagem, na Ilustração da Bertrand, no Senhor Doutor, no Girassol.

OLHA, AINDA HÁ FLORES

Olha, ainda há flores.

Mas quem se atreve
a cantar as flores do verde pino

no madrigal desta manhã de pesadelos?

E tu, papoila, minha bandeira breve,

quando voltarás ao teu destino

de enfeitar cabelos?

Estes versos, escreveu-os José Gomes Ferreira para As Papoilas, uma canção popular composta por Fernando Lopes-Graça. Na realidade, os tempos não corriam de feição «a cantar as flores do verde pino». Em 1933, logo em Janeiro, o governo a que Salazar presidia criava a Polícia de Defesa Política e Social, que passaria a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado e depois a Polícia Internacional de Defesa do Estado, a PIDE, que ensombrou gerações de antifascistas, perseguindo, prendendo, torturando, matando. Em 1936 desencadeava-se em Espanha a rebelião fascista de Franco contra o governo legítimo da República – era a Guerra Civil que iria durar até 1939, num prelúdio sangrento da II Guerra Mundial, que eclodindo nesse ano, se manteria até 1945, deixando o mundo em ruínas.

É um período negro em que José Gomes Ferreira não publica livros. Colabora, sim, em revistas como a Presença, a Seara Nova, a Gazeta Musical e de Todas as Artes, na revista de cinema Imagem, no jornal infantil Senhor Doutor, onde publica em folhetins As Aventuras de João Sem Medo. É na Presença que, em 1931, publica o poema Viver sempre também cansa, que representa o arranque para uma fase decisiva da sua obra poética. Colabora também na legendagem de filmes estrangeiros sob o pseudónimo de Álvaro Gomes.




VOZES AO ALTO

Terminada a guerra com a vitória dos Aliados, nasce entre os antifascistas portugueses a ilusão de que todas as ditaduras nazi-fascistas, lixo da História, irão ser varridas pelas democracias vencedoras do conflito. Mas é mesmo uma ilusão. Salazar, qual ilusionista de circo pobre, faz um truque, um passe de mágica – Portugal uma ditadura? Que ideia! - O regime corporativo, onde a saudação de braço estendido, como na Itália fascista ou na Alemanha nazi, foi ritual corrente e, por vezes, obrigatório, transforma-se numa «democracia orgânica», qualquer coisa assim como se os dirigentes salazaristas estivessem de tal forma imbuídos do sentimento popular que nem fosse necessário consultar o povo para tomar decisões. Claro, este truque de saltimbanco só enganou quem quis ser enganado. E os Aliados quiseram porque vinha aí a Guerra Fria e preferiam um governo fascistóide, catolicóide e ferozmente anticomunista a um regime democrático aberto à legalização do PCP e de outros partidos «perigosos para a Democracia» (para qual Democracia? - Para a «democracia orgânica», obviamente).
É criado o Movimento de Unidade Democrática. O nosso José adere, tal como a grande maioria dos intelectuais portugueses. Naturalmente, são perseguidos pela PIDE, presos, torturados – o habitual. Em 1947 é criado o ramo juvenil do MUD, Jornada. Gomes Ferreira escreve a letra do hino da organização cuja música é composta por Fernando Lopes-Graça. Merece a pena transcrever:

Não fiques para trás, ó companheiro,
é de aço esta fúria que nos leva.
Para não te perderes no nevoeiro,
Segue os nossos corações na treva.

Aqueles que se percam no caminho,
que importa, chegarão no nosso brado.
Porque nenhum de nós anda sozinho,
e até os mortos vão ao nosso lado.

Vozes ao alto!
Vozes ao alto!
Unidos como os dedos da mão
havemos de chegar ao fim da estrada
ao som desta canção.

Durante as frequentes e intensas lutas estudantis dos anos sessenta, este hino será cantado até à saciedade por jovens, mesmo por aqueles que, mais à direita ou mais à esquerda, não militam no Partido Comunista, organização que está indubitavelmente por detrás do MUD Juvenil. O Jornada, é também o hino que serve de indicativo à estação clandestina Rádio Portugal Livre que, nas instalações da Rádio Praga, emite diariamente para Portugal, a partir de Março de 1962. A música e a letra de Jornada transformam-se num hino da resistência antifascista, ultrapassando as fronteiras do partidarismo sectário. De notar que embora Lopes-Graça seja um militante comunista, Gomes Ferreira não o é ainda, mantendo a sua amizade com intelectuais que se afastaram do partido, tais como Carlos de Oliveira, João José Cochofel, Mário Dionísio, Mário Soares. José não é um fanático que siga anátemas ou obedeça a fatwas, é um espírito aberto.




POESIA MILITANTE

Entre 1950, quando é editado O Mundo dos Outros – histórias e vagabundagens, selecção de crónicas publicadas na Seara Nova, e o ano da sua morte, publica cerca de quatro dezenas de títulos - colectâneas de poemas, obras de ficção, crónicas, livros de memórias, ensaios, peças teatrais, introduções, prefácios, comentários, notas, traduções. De um escritor que, nos primeiros cinquenta anos de vida, produz pouco mais de meia dúzia de títulos, passa a ser um criador prolífico. E à quantidade corresponde a qualidade. Neste segundo fôlego do seu espírito criativo, surgem as suas grandes obras, aquelas que o convertem num dos mais importantes escritores portugueses do século XX.

Em 1952 surge o Ler, jornal de letras, artes e ciências, dirigido por Fernando Piteira Santos. João José Cochofel, Augusto Abelaira, José Cardoso Pires, Joel Serrão e José Gomes Ferreira, são alguns dos colaboradores. José encarrega-se de uma crónica a que chama À Porta da Livraria. Luiz Pacheco, o irreverente e talentoso escritor e «editor maldito», ligado ao movimento surrealista, escreve-lhe uma carta que virá a publicar, em 1958, num pequeno volume Carta-Sincera a José Gomes Ferreira com uma nota do autor por causa da província, onde, afirmando-se grande admirador de Gomes Ferreira lhe censura a colaboração no Ler - «V.Ex.ª não escreva mais no «Ler»! Sabe-se que os seguidores da linha oficial do PCP estão contra o Ler, acusando-o de dissidência, titismo, em suma de «desvio». Pacheco, para quem o neo-realismo constitui uma aberração, tem razões mais intelectuais do que políticas. Segundo afirma, procura «defender o nome de José Gomes Ferreira, - mesmo contra o próprio José Gomes Ferreira». E diz: «As inocentes croniquetas que com tanta nonchalance V.Ex.ª. tem escriturado (é o momento de alguém o dizer e digo-o eu já, para que me não julguem distraído) à primeira vista eu sei que não valem esta catilinária. Parece que não (os argumentos a favor delas deixo-os porém a cargo de V.Ex.ª.). Mas eu sou um crítico ou sou uma batata grelada?» (…) «quanto a mim essas inocentinhas estão a prejudicar o nome de José Gomes Ferreira, o grande Poeta».




A OBRA SAINDO DAS GAVETAS

Naturalmente que José Gomes Ferreira não publica muito nesse meio século de vida, mas escreve muito. Fora «enchendo gavetas com nuvens», para usar a expressão que ele próprio utiliza para classificar esses anos em que acumulou projectos que, por uma razão ou por outra, não concluía. Depois, essas nuvens vão saindo das gavetas transmudadas em sóis luminosos:

Em 1948 sai a público Poesia I, que José Gomes Ferreira considera o seu verdadeiro livro de estreia; em 1950 é publicado o volume de Poesia II, sendo também editado o livro de ficções O Mundo dos Outros – histórias e vagabundagens, que publicara em crónicas na revista Seara Nova. Colabora com Fernando Lopes-Graça em Líricas. Em 1956 publica Eléctrico. Em 1960 é a vez da obra de ficção, O Mundo Desabitado. Em 1961 é-lhe atribuído o Grande Prémio da Poesia pela Sociedade Portuguesa de Escritores pelo seu livro Poesia III. Em 1962 é editado o volume de Poesia IV e publicado o livro Os Segredos de Lisboa. Em 1963 edita-se Aventuras Maravilhosas de João Sem Medo. Em 1965 sai A Memória das Palavras – ou o gosto de falar de mim.1966 é o ano de publicação de Imitação dos Dias – Diário Inventado. Em 1969 publica o livro de contos Tempo Escandinavo. Em 1971, O Irreal Quotidiano – histórias e Invenções. Em 1973 sai Poesia V. Em Outubro, publica-se os Estatutos da Associação Portuguesa de Escritores que sucede à S.P.E. encerrada pela polícia política. José Gomes Ferreira assina um editorial do n.º 1 do boletim da A.P.E. que conclui com a frase (que propõe como divisa): «Escritores: as diferenças, entre pessoas de qualidade, só as podem unir!». E chega 1974 – finalmente, é tempo de flores…



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25 de Abril de 1974: «Sinto os olhos a desfazerem-se em lágrimas».

Manhã cedo, Rosália acorda-o dizendo-lhe que há movimentos de tropas em redor de Lisboa. José refila, rabugento. Levanta-se e espreita pela janela. Pouca gente na rua. Toca o telefone. É o Carlos de Oliveira:

«Está lá? Está lá? É você, Carlos? Que se passa?

Responde-me com uma pergunta qualquer do avesso.

Às oito da manhã o Rádio Clube emite um comunicado ainda pouco claro»: Depois «A Rosália chama-me, nervosa:

- Outro comunicado na Rádio. Vem, depressa.

Corro e ouço.» (…) «Na Rádio a canção do Zeca Afonso…» «Sinto os olhos a desfazerem-se em lágrimas».[1] Agora, sim, é tempo de cantar flores. É tempo das papoilas, bandeiras breves, voltarem ao seu destino de enfeitar cabelos. Mas José, nos seus 74 anos de vida, já sofreu muitas desilusões. Por isso, num encontro com escritores portugueses antifascistas regressados a Portugal após o 25 de Abril, José diz: «Que esta revolução das flores não seja a revolução das flores de retórica.» Mais de três décadas depois, vemos que para além das flores de retórica, pouco mais temos.



A Gaveta das Nuvens


Em 1975 sai Gaveta das Nuvens – tarefas e tentames literários e o volume de crónicas Revolução Necessária. Em 1976 edita-se O Sabor das Trevas – Romance Alegoria. Em 1977 é a vez de novo volume de crónicas: Intervenção Sonâmbula. Em 1978 saem os volumes I, II e III de Poesia Militante. É eleito presidente da Associação Portuguesa de Escritores. Publica Coleccionador de Absurdos e Cinco Caprichos Teatrais. Em 1979, nas eleições legislativas intercalares, é candidato, por Lisboa, nas listas da APU (Aliança Povo Unido). Em 1980 começa o tempo das homenagens - o presidente Ramalho Eanes, condecora-o como Grande Oficial da Ordem Militar de Santiago da Espada, recebendo depois o grau da grande oficial da Ordem da Liberdade. Nesse ano, numa altura em que o PCP já não está «na mó de cima», portanto por idealismo e não por oportunismo como aconteceu com tantos, filia-se no Partido Comunista Português. Publica O Enigma da Árvore Enamorada – Divertimento em forma de Novela quase Policial. Edita-se ainda o Relatório de Sombras – ou a Memória das Palavras II. Em 1983 é submetido a uma melindrosa operação cirúrgica, sendo também homenageado pela Sociedade Portuguesa de Autores. Em 8 de Fevereiro de 1985, morre na sua casa da Avenida Rio de Janeiro, em Lisboa, vítima de doença prolongada. Como ele próprio diria, Viver sempre também cansa:

O sol é sempre o mesmo e o céu azul

ora é azul, nitidamente azul,

ora é cinzento, negro, quase verde…

Mas nunca tem a cor inesperada.

(…)

E obrigam-me a viver até à Morte!

Pois não era mais humano

morrer por um bocadinho,

de vez em quando,

e recomeçar depois,

achando tudo mais novo?

(…)

Quando viessem perguntar por mim,

havias de dizer com teu sorriso

onde arde um coração em melodia:

«Matou-se esta manhã.

Agora não o vou ressuscitar

por uma bagatela.»



E virias depois, suavemente,

velar por mim, subtil e cuidadosa,

pé ante pé, não fosses acordar

a Morte ainda menina no meu colo…[2]



Algumas opiniões sobre a obra.

Na obra de José Gomes Ferreira cruzam-se três tendências ou correntes literárias, sem que se possa ligá-lo a qualquer delas: o eco da matriz saudosista que lhe fica da iniciação com o seu mestre Leonardo Coimbra orientando-o para a devoção a Raul Brandão e a Teixeira de Pascoaes, a atracção pela forma insolitamente bela e onírica do surrealismo e o apelo constante do conteúdo do realismo socialista ou, como se chamou entre nós, do neo-realismo. Esta miscigénese dá lugar a uma escrita muito pessoal, muito original, muito fora das escolas e das classificações que os bem-pensantes usam como prótese, a crítica literária como bússola e a análise académica como bengala. Ouçamos três opiniões sobre a sua obra, a de Mário Dionísio, a de Fernando J. B. Martinho, bem como a de António José Saraiva e Óscar Lopes:

Diz Mário Dionísio: «É sabido que José Gomes Ferreira nasce, entre outros, de Raul Brandão, a que chamou o seu «mestre secreto», e obliquamente de Teixeira de Pascoaes. Digo nasce no sentido com que Malraux observa que toda a criação é, na origem, a luta de uma forma em potência contra uma forma imitada» (…) «E assim naturalmente as coisas se passaram – ele mesmo o descreve - com José Gomes Ferreira até chegar à descoberta da sua linguagem pessoal e à necessidade de integrá-la no contexto duma época bem diferente da de Brandão ou de Pascoaes.»[3]

Saraiva e Lopes: «Gomes Ferreira foi principalmente o porta-voz de um sentimento de remorso e responsabilização do intelectual por todas as brutalidades e injustiças, pelo drama colectivo dos últimos cinco decénios; as contradições da auto-sinceridade, já focadas por Raul Brandão e Régio, ganham com ele tons alternativos de sarcasmo, de nojo, de revolta, de melancolia, de perplexidade, anotados no quotidiano da resistência.»[4]

Sobre a sua obra poética diz Fernando J. B. Martinho: A «dialéctica da realidade e da irrealidade, de que também se encontram reflexos nos seus livros de «histórias», «vagabundagens» e «invenções», alarga-se a um outro tema que domina a poesia de José Gomes Ferreira: o conflito dentro da persona, entre as suas tendências individualistas e a necessidade de partilhar o sofrimento e o drama dos outros homens».[5]



José Gomes Ferreira, poeta e cidadão
Falar de José Gomes Ferreira, como acabamos de fazer, foi como descrever o caminho trilhado pela inteligência através de um século manchado por numerosos estigmas – duas guerras mundiais com uma grave crise económica de permeio, o deflagrar da Guerra Fria, a ameaça da destruição nuclear, e as vésperas do colapso do «socialismo real». Em Portugal, o florescer e o ruir do sonho republicano, submerso no caos da I República e do episódio da aventura sidonista, a eclosão do corporativismo, versão indígena do fascismo e do nazismo, a guerra colonial, a Revolução democrática e a consequente desilusão que se lhe seguiu. José Gomes Ferreira, o escritor, o cidadão, viveu tudo isto nos 85 anos que a sua vida durou – alternâncias de períodos de vibração popular, de entusiasmo e esperança, com o doloroso e cinzento marasmo de quase cinquenta anos de ditadura de permeio. Depois, antes da sua morte, ainda pôde assistir ao «regresso à normalidade», ao vazio que esta democracia formal nos deixa nas mãos e no coração.

A sua escrita incorpora-se na luta de resistência activa que os intelectuais portugueses moveram contra a ditadura salazarista. Os seus versos, as páginas dos seus livros, as letras de canções que, musicadas por Lopes-Graça, andaram nas bocas dos antifascistas, fazem parte da luminosa estrada que sulcou uma noite mesquinha e criminosa. A sua obra foi um grito de inteligência no deserto de ideias que um regime tacanho quis fazer prevalecer sobre as mentes dos Portugueses. Por isso, concorde-se ou não com as opções políticas de José Gomes Ferreira, deve-se-lhe reconhecer a coragem de quem nunca se preocupou com o que lhe era conveniente, de quem sempre fez e disse o que lhe pareceu estar certo. Falar de José Gomes Ferreira foi como narrar o percurso que as suas palavras luminosas abriram através da noite escura que durante 48 anos desceu sobre Portugal. Falámos de um dos grandes, de um dos maiores poetas portugueses.

[1] - José Gomes Ferreira in Poeta Militante III – Viagem do Século Vinte em mim, Moraes Editores, Lisboa, 1983.

[2] - Excertos do poema «Viver sempre também cansa» ( in Poeta Militante I, 4ª edição, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1990.

[3] Mário Dionísio, prefácio a Poeta Militante I, 4ª edição, Lisboa, Publicações Dom Quixote,1990.

[4] - António José Saraiva e Óscar Lopes, História da Literatura Portuguesa, 17ª edição,1996.

[5] - Texto de Fernando J.B. Martinho no Dicionário de Literatura Portuguesa, organizado por Álvaro Manuel Machado, Editorial Presença, Lisboa, 1996.