Médico português de ascendência judaica, é tido como um dos mais brilhantes matemáticos e cosmógrafos do século XVI.

Pedro Nunes

Médico, matemático, cosmógrafo:
1502 - 1578



Quando tudo aconteceu...

1502: Nasce em Alcácer do Sal. - c. 1520: Inicia estudos universitários. - 1523: Casa com D. Guiomar Areas (Aires), filha de castelhano, cristão-velho, vizinho de Salamanca. Aí toma o grau de bacharel médico. - 1527: Regressa de Salamanca e dá aulas a Martim Afonso de Sousa, ao infante D. Luís e a D. João de Castro. - 1529: Nomeado cosmógrafo do reino (a 16 de Novembro). Lente da cadeira de Filosofia Moral (a 4 de Dezembro). - 1531: Lecciona Lógica na Universidade, em Lisboa; em Outubro começa a dar aulas ao Infante D. Henrique. - 1532: Grau de Doutor a 23 de Fevereiro, na capela do Hospital Real. - 1534: Formula o manuscrito do Livro de Álgebra. - 1537: Obtém autorização do rei (27 de Setembro) para mandar imprimir todas as suas obras e a 1 de Dezembro é publicado o "Tratado da Sphera”. - 1542: Sai do prelo "Petri Nonii Salaciensis de Crespusculis libri unu". - 1544: Professor de Matemática na Universidade de Coimbra. - 1546: Publicado em Coimbra "De erratis Orontii Finaei". - 1547: Nomeado a 22 de Dezembro Cosmógrafo-Mor do Reino. - 1548: Nomeado Cavaleiro do Hábito de Cristo. - 1555: Eleito para proceder à Reforma dos Estatutos universitários. - 1557: Morre D. João III, o Piedoso e seu protector. - 1562: Aposenta-se da Universidade. - 1577: Consultado pelo Papa Gregório XIII sobre o projecto de Reforma do Calendário. - 1578: O “Episódio da Cutilada”. Pedro Nunes desaparece do número dos vivos a 11 de Agosto, em Coimbra.

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UMA LONGA CAMINHADA

«Os portugueses ousaram cometer o grande mar oceano, descobriram novas ilhas,
novas terras, novos mares, novos povos, e o que mais é: novo céu, novas estrelas.»
Pedro Nunes

Lisboa, Março de mil quinhentos e setenta e dois do ano da Graça de Deus Nosso Senhor:

De uma janela do Paço Real, D. Sebastião, El-Rei de Portugal e dos Algarves, D`Aquém e Além-Mar em África, observa atentamente mais um dia desassossegado em volta da Ribeira das Naus. Por ali deambulam marinheiros, grumetes, artífices e restantes elementos das tripulações, que vão e vêm, muitos à espera de uma oportunidade para embarcarem pela primeira vez, tendo sempre presente na ideia as muitas riquezas situadas mais além na curva do oceano. O rio Tejo, aquela hora continua repleto de naus e caravelas que partem e chegam numa pressa, como se dum espectáculo festivo se tratasse.

De quando em vez elevam-se no ar os novos cheiros de alimentos, exóticas essências e outros condimentos, até aí desconhecidos, e gritam-se mais adiante pregões para atrair clientela.

Ao lado do Paço, a azáfama da casa da Índia demonstra a certeza de que Lisboa é, desde as viagens de Gama e Cabral, e outros bravos capitães e navegadores, a capital europeia do comércio da Índia, das especiarias e outras drogas. Só falta agora ser a nova capital da cristandade.

O rei, “de meam estatura, rosto branco e bem proporcionado”, numa face imberbe, meia adolescente, condiz com a figura de menino-homem, de dezoito anos, dono de um espírito ardente mas instável. Sempre orgulhoso, sempre ausente consigo mesmo (cresceu na convicção de que Deus o predestinara para grandes feitos), sonha com as duas únicas paixões: a guerra contra os infiéis e gentios, e o fervor religioso para libertar a Terra Santa, junto com os seus validos.

A olhar sem ver o rio, nem nota que a seu lado há uns minutos se encontrava, respeitosamente em silêncio, o Cosmógrafo-Mor do Reino, Pedro Nunes, o maior matemático ibérico quinhentista, já com setenta anos.

Por fim lá reparou e disse: - “Mestre, foste mandado chamar ao Paço Real para, no exercício do cargo de Cosmógrafo-Mor do reino, dares novos cursos de cosmografia e náutica aos pilotos das naus portuguesas, além da elaboração de novas e urgentes reformas; pois sempre tenho grandes cometimentos para eles, em especial voltar a romper a estrada do Mediterrâneo para o cristianismo, rumo a Jerusalém”.

À mente do decano matemático logo veio o presságio por si feito e ignorado, por El-Rei, uns anos antes, ao escolher o dia do seu 14.º aniversário para a tomada de posse do Reino “num dia em que os astros estavam de mau agouro”.

Pedro Nunes inquieto aceitou, pois sabia que esse seria sempre o seu dever, mas, ao sentir um tremor involuntário, retira-se resignado, sem antes fazer respeitosamente uma vénia. Cada dia mais só, mal previa o fatídico resultado desse alto prenúncio.

Ao mesmo tempo mergulhava, melancólico, no seu passado distante mas tão presente ainda na memória:

“A trajectória da minha vida descreve a curva simbólica do poderio português, no século de ouro e sua decadência, no tempo em que vivi.

Aprendo as primeiras letras em Portugal, incluindo o latim. Vou para Salamanca, como aluno livre, talvez ainda antes dos vinte. Aí faço os meus estudos em Artes, Matemática e Medicina, de 1520 a 1526, ano em que me torno bacharel. Também frequentei uma outra universidade famosa na altura - Alcalá de Henares, notável pelos estudos teológicos. Era necessário aos estudantes ouvirem Artes e Filosofia e terem exercícios de letras com os artistas e filósofos.

Já em Lisboa, sou nomeado, por alvará régio de 16 de Novembro de 1529, cosmógrafo do reino. Através de concurso para a Universidade de Lisboa (4 de Dezembro de 1529) começo a ensinar filosofia moral, vindo posteriormente a assegurar também as cadeiras de lógica e metafísica. Aqui, prossigo os meus estudos em medicina onde, em 1532, recebo o título de Doutor.

Com a transferência da Universidade para Coimbra, em 1537, mudo-me para esta cidade, onde continuo a leccionar, desta vez a cadeira de matemática, que asseguro de 16 de Outubro de 1544 até 4 de Fevereiro de 1562, ano da minha jubilação.

1547 é o ano em que atinjo o lugar de Principal Cosmógrafo Real.”

Cargo que Pedro Nunes irá manter até à sua morte, em 11 de Agosto de 1578, uns dias após a batalha de Alcácer Quibir ou dos Três Reis, a 4 de Agosto. O rei de Portugal, D. Sebastião, o Desejado (1554-1578), ali morrerá com apenas vinte e quatro anos, não deixando descendência directa.

“Há quem me considere um génio na matemática aliada à elegância do discurso livre pela nobreza do meu espírito. Não há dúvida de que utilizo na minha linguagem uma prática humanista que além de portuguesa é também europeia”.

Eram os físicos de então, os cultores da ciência médica e da astronomia (ou astrologia), em simultâneo. Os médicos precisavam de conhecer a astronomia (“tanto esta como a matemática sempre me apaixonaram”) para a aplicarem à clínica astrológica. A astronomia e a astrologia eram estudadas em conjunto.

Mas a angústia da pura matemática força a figura do Cosmógrafo-Mor de D. João III (reinado de 1521-1557), seu grande protector, para um lugar esquecido da cultura portuguesa. Do muito que se esqueceu, fica a paixão pela álgebra, geometria e aritmética, registada por autores meus contemporâneos. O valor da obra vai ficar impresso em vários manuscritos dos mais célebres matemáticos europeus, que não se cansam de a referir. Lá fora, o seu nome será dado a uma cratera lunar e a um asteróide.

Entre nós, a sua imagem fica-se pela face das antigas moedas de cem escudos. Até hoje não há nenhum documentário ou filme sobre a sua vida. Do notável salaciense pouco mais de original, então, se poderá ainda ambicionar encontrar.





... ANNO DOMINI 1502 ... E A TRADIÇÃO JUDAICO-CRISTÃ

São mais as dúvidas que as certezas sobre a sua pessoa; não será certa a sua ascendência ou família, mesmo os seus biógrafos andam em bolandas para descobrir quem foram os seus pais e se teve irmãos, cingidos no nevoeiro da obscuridade e do esquecimento.

“Nasço em Alcácer do Sal (eu próprio o declaro, quando afirmo ... anno Domini 1502 quo ego natus sum...). Penso que a minha origem, Petrus Nonius Salaciensis, possa ser judaica, pois Damião de Góis descreve-me como português de nação, referência habitualmente aplicada a judeus conversos.

Em 1548 sou feito Cavaleiro do Hábito de Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas os meus críticos sempre alegam que o fiz para esconder o meu judaísmo ancestral.”

Nunca será incomodado pelo medo da sombra do Santo Ofício, talvez por ter a protecção da corte, mas os seus netos serão interrogados, sofrendo os horrores da Inquisição, o que é um forte indício – Matias Pereira é preso de 1623 a 31 e Pedro Nunes Pereira de 1623 a 32; ambos sairão vivos (coisa bem rara para tanta punição), com restituição dos seus bens e honrarias.

Nenhum dos seus familiares se vai notabilizar, em qualquer ramo das ciências ou das artes, e a sua descendência directa extingue-se à 3.ª geração com os netos.

“Peço ainda a vossa atenção para não me confundirem com outros dois homónimos meus, também doutores, que viveram na mesma época e que nada têm a ver comigo:

• Um tal Dr. Pedro Nunes, vedor da Fazenda Pública na Índia em 1522 e reitor na Universidade de Lisboa em 1536.

• Outro, com idêntico nome, inquisidor de Lisboa em 1565.”




A OBRA NO SIMBOLISMO DA ESCRITA

“Em Salamanca, centro do mundo do conhecimento científico, onde estudam nomes como Amato Lusitano, Garcia de Orta, Luís Nunes, António Luís, completo o bacharelato em Medicina. É também aqui que caso, em 1523, com D. Guiomar de Árias, que me dá seis filhos: dois rapazes e quatro raparigas.

Em 1527, já de volta a Portugal dou aulas ao Infante D. Luís, a Martim Afonso de Sousa (com as suas dúvidas de navegação) e a D. João de Castro.

Mas são as chamadas disciplinas das artes, tais como astronomia, aritmética e geometria, que também frequento nesta universidade, que me levam a receber o convite para ser cosmógrafo do reino, quando tinha apenas 27 anos, em 1529.

A fama que entretanto vou obtendo, modéstia à parte, faz com que seja requisitado de 1531 a 1535, por ordem de D. João III, para tutor na corte, em Évora, dos infantes D. Luís e D. Henrique, o futuro cardeal‑rei.

Aqui dedico-me a estudos humanísticos, tendo composto poemas em Latim e Grego. Também me consagro a reflexões religiosas com notas sobre a ressurreição, a anunciação, a multiplicação dos pães e outros temas do Novo Testamento.

A partir de 1544 vejo-me à frente da cátedra de matemática na Universidade de Coimbra, pelo menos até à minha jubilação em 1562. Continuo também a revisão e tradução de outros autores quinhentistas europeus de renome e com a autorização real inicio a publicação de várias obras escritas.”

A produção dos trabalhos sobre matemática e ciências náuticas contemplam a álgebra, geometria, trigonometria, geografia, física, cosmologia, etc., e é orientada em duas vertentes: as traduções e comentários e os trabalhos originais.

De entre as obras que Pedro Nunes deixou, relacionadas de forma mais ou menos directa com as navegações, tem-se a famosa obra De Crepusculis (1542), onde é abordado o problema da variação do crepúsculo com a latitude e a época do ano, ou a obra Petri Nonii Salaciensis Opera (publicada em Basileia - 1566), que se apresenta como uma compilação em latim de trabalhos relacionados com a arte de navegar.

Das suas muitas obras, um verdadeiro legado científico, destacam-se, pela sua evidente importância na inovação da arte de navegar: Tratado da Sphera (único livro escrito em Português, Lisboa – 1537, baseado num livro homónimo de João Sacrobosto) que inclui um verdadeiro Tratado da Náutica (ao desenvolver o problema da definição das rotas marítimas e a sua indicação nas cartas de marear, numa tentativa de arrumar o globo) com dois anexos, Tratado de certas duvidas da navegação e Tratado em Defensão da Carta de Marear; Tratado da Rumação do Globo para a Arte de Navegar; Tratado de Triângulos Esféricos, etc..

O isolamento, que ele não vai conseguir quebrar, irá marcar a decadência científica de Portugal. “… Quási ao mesmo tempo emmudeceu a lira de Camões e parou a pena de João de Barros, o cronista da Índia. A providência levou-os a todos quando a Pátria já não precisava dos cantos do Poeta, nem das crónicas do Historiador, nem dos cálculos do Cosmógrafo...”.

Mas em pouco mais de um século, a lógica da interpretação escolástica do próprio conceito do Homem e do Universo irá ser alterada, substituída por novos métodos científicos, e o mundo nunca mais será como dantes.

Em 1555 é eleito para proceder à Reforma dos Estatutos Universitários. Além disso, as suas aparições em Lisboa começam a coincidir com a Primavera, altura em que ocorre a partida das naus que vão em demanda dos Descobrimentos.




NAUS E TORMENTAS

Ao longo dos séculos XV a XVI, uma parte importante da população portuguesa envolve-se no empresa expansionista que leva os portugueses de então, desde Ceuta à China e Japão, passando pelo Brasil.

Uma parte significativa dos recursos humanos mobilizados destina-se às tripulações das caravelas, naus e outras embarcações que asseguram a exploração e a colonização das novas terras, em viagens de descobrimento que proporcionam aos portugueses a hegemonia no achamento de novos mundos durante mais de um século. Mas nem tudo era pacífico, sempre ocorriam naufrágios, epidemias, doenças, guerras, assaltos, mortes e demais desacatos, em que a maioria da tripulação, com o sonho da riqueza e da posse de especiarias, morria ainda antes de chegar ao seu destino.

É tradicional e recorrente na nossa historiografia a afirmação de que a carência de meios humanos para sustentar com sucesso, a longo prazo, um feito tão vasto como a Expansão Portuguesa, por terras de três continentes, foi uma das principais razões para o declínio do império colonial.

No tempo dos Descobrimentos, nos nossos barcos embarcavam, entre tripulantes, militares e passageiros varias centenas de pessoas comandadas por um nobre, com o cargo de capitão, pouco prático na arte de navegar, coadjuvado por um piloto e um mestre.

A rotina a bordo nos navios portugueses do século XVI pouco variava em relação ao tipo de embarcação. Tanto nas naus, maiores e mais pesadas, quanto nas caravelas, menores e mais leves, as condições eram semelhantes.

As condições extremas e adversas a que todos estavam sujeitos, em especial os marinheiros e outro pessoal menor, veio a favorecer o conhecimento de novas doenças e terapêuticas, ex. os alimentos frescos e citrinos para o escorbuto…

A duração da viagem podia depender do tipo de navio em que era realizada, mas variava principalmente devido às condições do tempo e da natureza. Por isso era necessário conhecer bem os regimes dos ventos e correntes, bem como os períodos do ano mais favoráveis à aventura no mar.

As embarcações que rumavam para oriente e Índia tentavam fazer coincidir a época da partida, quase sempre na Quaresma, com o tempo propício à navegação da monção na travessia do Índico.




CIÊNCIA NÁUTICA... OU ESPECULATIVA

Até ao começo da Idade Moderna, o conhecimento da posição dos navios no mar baseava-se essencialmente na observação de sinais e outros indícios em terra. Navegavam praticamente à vista da costa sem interpretar a filosofia dos céus.

Os Portugueses começam a usar os astros para, a partir da observação do movimento destes, preverem com algum rigor a posição em que se encontram, sem necessidade de usarem as referências de terra. Passa a ser possível conhecer a latitude dos lugares, pela observação da Estrela Polar, no hemisfério norte, e da constelação das estrelas do Cruzeiro do Sul, no hemisfério sul.

Pedro Nunes, pelo seu preclaro génio especulativo, com a introdução das equações de náutica matemática, vai desenvolver uma ampla actividade científica: ensina pilotos e reis, planeia cartas marítimas, aperfeiçoa regimes náuticos e escreve tratados para uso dos mareantes no tempo das descobertas. A ele se devem importantes contributos para o desenvolvimento de aparelhos astronómicos (exs. o anel náutico, o quadrante) úteis à navegação, tais como o nónio (uma eponímia científica), peça que junta ao astrolábio serve para medir fracções de grau.

Pedro Nunes vive em pleno apogeu dos Descobrimentos Portugueses e vai ser um dos protagonistas dessa epopeia. Uma época em que os portugueses deram novos mundos ao Mundo. Para isso e para além da sua grande temeridade, tiveram de recriar e desenvolver uma nova ciência náutica, resolvendo problemas de orientação e navegação nos oceanos para poderem regressar ao porto de partida e de armamento ou voltar de novo à terra prometida e descoberta. A obra de Pedro Nunes, reflexo desta época singular na história da Humanidade, admite soluções e esclarece ideias e conceitos para diversos problemas inerentes à Arte de Navegar.

A navegação em alto mar foi sempre, durante os tempos da história, um propósito essencial da humanidade.

Os portugueses, a partir do século XV e durante quase todo o século XVI, ao se aventurarem por mares nunca dantes navegados, dobraram uma página importante ao aperfeiçoarem novas técnicas de navegação. A expansão marítima condiciona quase totalmente a actividade científica em Portugal, com relevo para o ensino náutico.

Sendo uma das figuras maiores do pensamento lusíada, tem plena consciência da forte ligação entre teoria e prática; esta atitude vai ajudar ao sucesso da aventura da expansão marítima dos navegadores portugueses que na altura sulcavam os mares do mundo – é este o seu propósito ao fazer profissão de fé “…no entendimento e na imaginação como fontes de invenção e descoberta científica, tomando a imaginação não no sentido literário do termo, mas sim no sentido filosófico de especulação… “.

O nónio foi o invento que tornou Pedro Nunes mais conhecido. Trata-se de um sistema de conjugação de escalas que permite obter medidas mais precisas que qualquer das escalas individuais. Com esse sistema, Nunes avança uma solução para uma questão urgente na época, o problema da medida rigorosa dos ângulos de altura dos astros. O nónio será mais tarde aplicado a outros instrumentos de medida.

A sua acção alarga-se a várias áreas: proceder ao exame dos pilotos e seu aconselhamento técnico, ajudar na cartografia das terras e mares então descobertos e resolver assuntos científicos de conveniente importância para o reino.

No século XVI, a expansão marítima condiciona quase toda a actividade científica em Portugal. Pedro Nunes, com o seu pensamento místico, ao desenvolver regras e instrumentos de astronomia e geometria, vai auxiliar a navegação no alto mar, um tópico de grande importância quando o controlo do comércio marítimo era a fonte principal de riqueza.

É um dos precursores da moderna navegação científica. Com ele, atinge-se o apogeu do Império e o início do seu declínio.




LINHAS DE RUMO

Muito já se escreveu e disse acerca de Pedro Nunes, a começar por António Ribeiro dos Santos, seu primeiro biógrafo em 1806, Francisco Gomes Teixeira, Joaquim Bensaúde, etc..

" O século XVI pode ser chamado na história da Matemática Ibérica o século de Pedro Nunes. Portugal teve neste século a hegemonia das Matemáticas na nossa Península, porque Pedro Nunes por si só vale por muitos. Nos variados ramos da referida ciência de que tratou, nenhum outro matemático português o igualou." (in Panegíricos e Conferências, de Francisco Gomes Teixeira).

Em plena época dos descobrimentos, os matemáticos eram imprescindíveis para o conhecimento e desenvolvimento da arte de navegar. A aplicação do espírito matemático em Portugal esteve, no começo do seu desenvolvimento, muito ligada à ciência náutica, para além da sua manifesta importância na inovação da arte de navegar.

Como cosmógrafo é um dos primeiros a interessar-se por este novo corpus de conhecimentos, deixando importante produção científica e também a par de uma considerável obra poética e literária.

Nunes, pela sua audácia, vai tornear os problemas de navegação da época e incrementar o Ensino Náutico com novos e imaginativos avanços – descobre a linha de rumo (loxodromia) e explica que a distância mínima a percorrer por um barco entre dois pontos da Terra é um arco de círculo máximo – ortodromia ‑ e não uma linha recta, o que vai dar maior rigor à navegação, permitindo medições de alguns minutos de grau, isto é, com uma precisão até à dezena de quilómetros. Isto vai revolucionar a cartografia e ser a base do sistema de projecção dos mapas de Mercator.

Reconhecido e ao mesmo tempo contestado, será considerado o grande navegador do século XVI, embora jamais tenha ido aos mares. Sendo o mais importante cartógrafo e matemático do grupo de intelectuais no que simbolicamente se chamou a Escola de Sagres, vai promover com labor o grande projecto marítimo português, classificado por alguns como a maior empresa de globalização do planeta jamais conduzida por uma nação.

Quando Pedro Nunes é nomeado para cosmógrafo oficial, já existiria uma espécie de exame para avaliar as capacidades dos cartógrafos, técnicos de instrumentos e pilotos.

A novidade das suas «aulas» é que funcionariam a título de lições teóricas para além da simples prática, preparatórias dos pilotos para obterem a sua carta de marear.

Tanto as aulas como a verificação da aptidão dos cartógrafos não terão sido tarefas fáceis. As incompatibilidades entre Pedro Nunes e os homens das navegações encontram-se bem documentadas. De entre estas, pode referir‑se a alteração do valor do grau da estrela Polar, que não era aceite pelos pilotos, devido aos cálculos aritméticos, demasiado complexos.

Ele afirma:

“… Bem sey quam mal sofrem os pilotos que fale da India quem nunca foy nella: e pratique no mar quem nelle nam entrou…“

A sua relação com D. João de Castro (um dos maiores pilotos portugueses de sempre), homem ligado à prática das navegações, terá sido a excepção no campo da cooperação, e a mais conhecida. Este, nas suas viagens, experimentaria com certa frequência indicações e instrumentos fornecidos por Pedro Nunes. Nomeadamente, terá posto em prática processos de determinação de latitudes por alturas do Sol e de declinação magnética, também por observações solares.

Com uma imensa percepção científica para a novidade, é um dos primeiros matemáticos a referir a teoria heliocêntrica do astrónomo polaco Nicolau Copérnico e a impulsionar uma nova disciplina matemática – a navegação teórica.

Matemáticos quinhentistas, tal como o britânico John Dee, enaltecem e copiam as suas teorias e adoptam-no como referência incontornável. O discípulo mais conhecido que teve na Universidade é o jesuíta Cristóvão Clavio, professor em Roma e um dos computistas escolhidos pelo Papa.





A REFORMA DO CALENDÁRIO

E se maior prova fosse útil, um episódio que acontece em 1577 serve como tal, um ano antes da sua morte. Pedro Nunes recebe um convite do Papa Gregório XIII para dar a sua opinião sobre a reforma do calendário Juliano. Apenas um registo oral, feito no leito de morte, em que Nunes terá dito que qualquer calendário teria sempre erros. Uma alegação que será sempre válida.

Gregório XIII manda então recolher todo o seu espólio, numa busca derradeira de alguma referência do matemático ao calendário. Nada foi encontrado e o legado foi entregue à família, que o delapidou. Hoje, a sua obra encontra-se espalhada por todo o mundo, a maioria em colecções privadas, e os seus manuscritos valem pequenas fortunas de milhares de euros. Em Portugal, que se saiba, não existe nenhuma obra manuscrita de Pedro Nunes.

A comissão de estudos da Reforma (com Clavio) vai concluir o seu trabalho em 1581, sendo aceite pelo Papa, pela Bula Intergravissimas.




A DAMA DA CUTILADA

Um dos factos que vai ficar célebre e passar para a história, quando a capacidade de decisão e intervenção do notável sábio era já pouca, uns meses antes do seu padecimento, ficou conhecido pelo episódio da cutilada.

"Foi muito grande o valor dela
e pouca-vergonha dele
mas se ela ficou sem ele
ele não ficou sem ela”
(Sousa Viterbo)

D. Guiomar, filha muito solteira de Pedro Nunes, denodada e corajosa, vivia com o seu pai na Calçada – Coimbra (que os poetas coevos cantaram e Alberto Pimentel romantizou em “Portugal de Cabeleira”), e estaria noiva de Heitor de Sá, um seu vizinho. Este é que não está pelos ajustes, dá o dito pelo não dito, amanceba-se com outra e foge da cidade.

O nosso homem de Ciência, já de provecta idade, pois se aproximava rapidamente o fim do ocaso, ao sentir-se ultrajado pela afronta a que sua filha fora sujeita, queixa-se ao seu velho amigo, o bispo de Coimbra, D. Manuel de Menezes, da atitude condenável do futuro genro.

O prelado faz reunir na igreja de S. João de Almedina (ou do Bispo) os intervenientes directos, mais a nata social local, ávida de notícias que a faça distrair e animar a alma do tédio e melancolia da vida de antanho, que já prenunciava o princípio do fim do Império – estamos em Janeiro de 1578, nas antevésperas de Alcácer Quibir.

D. Guiomar, sempre distinta, desta vez perde a cabeça, ao ver Heitor negar a promessa feita, e, num repente, saca duma navalha simulada no seu belo corpete e golpeia com uma cutilada a cara do noivo de má palavra.

O Bispo, sem mais delongas, logo ali manda prendê-la e enviá-la para o mosteiro de St.ª Clara, onde acaba por professar. Mas para conseguir lá chegar teve de se esconder numa canastra, pois amigos e familiares de Heitor prometiam vingança.

Pedro Nunes, envergonhado e desgostoso com o escândalo e tudo o mais, morre triste e infeliz uns meses depois, em 11 de Agosto desse ano.

A tragédia de Alcácer Quibir acontecera uma semana antes. Estava próxima a união das coroas peninsulares, sempre temida e sempre detestada pelos portugueses.