O dinheiro não dá felicidade... mas acalma os nervos.

Beatriz Costa

Actriz:
1907-01-01 - 1996-01-01



Quando tudo aconteceu...

1907: No dia 14 de Dezembro, nasce na Charneca do Milharado, concelho de Mafra, Beatriz da Conceição que virá a ser conhecida pelo nome de Beatriz Costa. 1911: Os pais separam-se. Vai com a mãe para Lisboa onde esta contrai segundo casamento com um oficial subalterno do Exército. Devido à profissão do padrasto, que é colocado no Regimento 15 de Infantaria, vive seis anos em Tomar. 1917: Regressa com a família a Lisboa, morando na zona do Castelo. 1921: A jovem Beatriz tem 13 anos e finalmente sabe ler. Aprende a ler sem mestres, «por intuição», dirá mais tarde. Sobretudo, lendo os grandes escritores portugueses. 1922: É inaugurado o Parque Mayer em Lisboa. No recinto existem dois teatros – Maria Vitória e Variedades; mais tarde aparecerá o Capitólio e finalmente o ABC. 1923: Com 15 anos, Beatriz estreia-se no teatro. É uma das coristas de Chá e Torradas, uma revista que sobe à cena no Éden. Assume o nome artístico de Beatriz Costa. 1924: Entra na revista Rés Vés, em cena no Teatro Maria Vitória. A sua actuação agrada tanto que começa a ensaiar no Teatro Avenida como “cabeça de cartaz”. É a revista Fado Corrido. É com esta revista que seguirá em digressão para o Rio de Janeiro, onde actuará no Teatro República. Uma canção sua, Mademoiselle Garot, transforma-se num grande êxito popular.1925: Após ter participado no Brasil em cerca de uma dezena de peças, volta a Lisboa e integra a Companhia Portuguesa de Operetas sediada no S.Luiz actuando em: "A Monteri"; "A Canção do Olvido"; "Os Gaviões"; "A Flor do Tejo"; 1929: Na sua segunda digressão pelo Brasil com a Companhia de Eva Stachino é muito bem recebida no Rio de Janeiro e em São Paulo. De regresso ao Rio, é convidada por Procópio Ferreira, comediante de relevo no teatro brasileiro, para ficar no Brasil integrando a sua Companhia. 1930: Participa no filme Lisboa, Crónica Anedótica, de Leitão de Barros. 1932: Numa entrevista ao Jornal Portugal, diz: «apalpam-me na rua para ver se tenho soutien»... 1933: É a actriz principal do filme A Canção de Lisboa, realizado por Cottinelli Telmo e com um elenco de luxo onde se destacam Vasco Santana e António Silva. 1934: Em 24 de Setembro é inaugurado o Cine-Teatro Beatriz Costa, na Malveira. 1936: É a estrela de O Trevo de Quatro Folhas, de Chianca de Garcia, contracenando com Nascimento Fernandes e com o actor brasileiro Procópio Ferreira. Entra na revista Arre Burro!. 1937: Beatriz ganha, com Vasco Santana, o concurso "príncipes do cinema português» Entra na revista Há festa na Mouraria. 1938: Revista Sempre em Pé. 1939: Revista É Real. Interpreta o principal papel de Aldeia da Roupa Branca, um filme realizado por Chianca de Garcia. Vai para o Brasil onde permanecerá por dez anos – os melhores anos da sua vida, dirá mais tarde. 1947: Casa com o poeta, escritor e escultor brasileiro Edmundo Gregorian. 1949: Divorcia-se de Edmundo Gregorian. 1950: Contribuiu para a construção da escola primária da Charneca do Milharado, sua terra natal. 1960: Faz a sua última aparição numa revista – Está Bonita a Brincadeira. 1975: Sai o seu livro de memórias Sem Papas na Língua. 1977: É publicado o seu segundo livro Quando os Vascos eram Santanas… e não só. A Emi-Valentim de Carvalho edita um álbum em que os principais sucessos musicais de Beatriz Costa são compilados. 1985: Um grupo de jovens propõe-na simbolicamente como candidata à Presidência da República. 1990: É publicado o seu livro Nos Cornos da Vida. 1996: No dia 15 de Abril morre no seu quarto do hotel Tivoli.

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UMA NOTA INTRODUTÓRIA

Conheci Beatriz Costa muito superficialmente. Terei falado com ela uma meia dúzia de vezes. Um administrador da multinacional em que trabalhava era o dono da editora onde ela publicava os livros. Apresentou-ma no restaurante da FIL, creio que já em 1974 ou 75. De uma das conversas, retenho o orgulho com que assumia a sua condição de saloia e também na sua condição de autodidacta.
Era uma pessoa de uma grande simpatia, muito inteligente e desconcertante, metendo uma ou outra palavra menos ortodoxa pelo meio das frases. Isto na primeira conversa. Pelo meu ar alinhadinho, engravatado, supôs estar perante um súbdito domesticado do tal editor (que aparte o seu valor como industrial, era famoso pela prepotência). Quis chocar-me. Percebendo que estava enganada, mudou de atitude. Foi sempre de uma grande cordialidade e simpatia, mesmo quando abordámos as questões políticas e fazíamos leituras diferentes da realidade.
É sob a impressão causada por essa meia dúzia de conversas que escrevo esta pequena biografia. Como é meu hábito, arrumados no “Quando Tudo Aconteceu” os dados biográficos essenciais, dispenso-me no texto central de seguir estritamente uma linha cronológica. O que se segue são flashes da vida de Beatriz Costa. Pequenas reflexões sobre esses flashes.




NOS CORNOS DA VIDA

Só aos treze anos Beatriz aprende a ler. Nascendo numa família pobre, nem sequer foi á escola - «aprender um ofício» é, para os pobres, a alternativa da época aos estudos. Sua mãe separa-se do pai e volta a casar. Beatriz começa a trabalhar como ajuntadeira, cosendo peças de calçado. Tenta depois outro ofício – o de bordadeira. Mas, agora, com treze anos, aprende finalmente a ler - sozinha, guiando-se, diz ela, pela intuição – e que uso vai ela dar a essa competência tão arduamente adquirida? Irá devorar os livros de Aquilino Ribeiro, José Gomes Ferreira, António Botto… «Sou uma autodidacta do mais puro que existe neste país», dirá num dos seus livros de memórias. E é verdade.

A partir de certa altura, à mesa da Brasileira convive com Aquilino Ribeiro, com Gualdino Gomes, com Almada Negreiros. Ouve rádio e, principalmente, vai o mais que pode ao cinema. E ao teatro. E lê, continua a ler. Descobre Dostoievski – um dos seus mestres da Brasileira fala-lhe no russo genial. É a sua escola. Mais tarde, quando quer obter a carta de condução, não pode – falta-lhe o diploma da 4ª classe. Vinga-se aprendendo mais – para o fim da vida fala e escreve desembaraçadamente sete idiomas. Frequenta com aprovação uma pós-graduação na Sorbonne. Será que um diploma da Sorbonne vale menos do que o da 4.ª classe?




OS ANOS LOUCOS

Naquela década de vinte, Lisboa é uma cidade louca, considerando o país rural que a rodeia. Os “loucos anos vinte”, trazidos pelo vento que sopra da América, passam a barra do Tejo e encontram em Lisboa um bom acolhimento. Há uma burguesia que descobre os prazeres do consumo, da evasão, da vida nocturna – teatros, cinemas, night-clubs, começam a surgir – no léxico entram palavras como cocktail, charleston, swing, tango, samba… Nasce o Parque Mayer – uma Broadway à escala nacional.

Ter telefone ou rádio, mandar telegramas. Viajar. De comboio ou de barco, pois o automóvel ainda é coisa de ricos, tal como a viagem de avião. Em São Paulo, a Semana de Arte Moderna consolida a posição dos nossos modernistas – nomes como os de Manuel Bandeira, Heitor Villa Lobos, Anita Malfatti, Manuel Bandeira, Graça Aranha, Mário de Andrade, Di Cavalcanti, Tarsila do Amaral, juntam-se ao de outros «malucos» portugueses – Fernando Pessoa, Almada Negreiros, Raul Leal…

Trafica-se cocaína. O Repórter X encanta os seus leitores. Os políticos continuam com as suas conspirações, mas «são todos o mesmo».

As coisas irão mudar. De Braga Gomes da Costa virá até Lisboa «impor a ordem». Um jovem ex-seminarista, professor de Economia Política e Finanças em Coimbra, sonha um país arrumado, sem charleston, com poucos ou nenhuns night-clubs. Uma Santa Comba com o tamanho de Portugal. Do outro lado do oceano, avizinha-se a quinta-feira negra. Pela Europa, prospera o negócio das camisas – negras em Itália, castanhas na Alemanha, azuis em Espanha…

Mas estamos só em 1923 – algumas destas coisas ainda vêm longe. Beatriz tem quinze anos. Amigos da família, sobretudo Ema de Oliveira, ajudam-na a entrar no teatro. Como corista, faz parte do elenco da revista Chá e Torradas que se estreia no Eden. Seguirá depois em digressão pelo Alentejo e pelo Algarve. Afinal, a jovem Beatriz da Conceição não será ajuntadeira nem bordadeira.




AS LUZES DA RIBALTA

Beatriz da Conceição não é nome que se tenha. Luís Galhardo acha que deve ser Beatriz Costa. De revista em revista a sua cotação vai subindo; o corpo tipográfico em que o seu novo nome aparece nos cartazes vai também subindo. Não demora muito até que o nome da saloinha da Charneca do Milharado faça parte do título. Com dezasseis anos faz a sua primeira digressão pelo Brasil – um sucesso. E volta a Lisboa, onde estreia nova revista. E segue para o Porto, onde se apresenta no Sá da Bandeira. Irá ser assim por quarenta anos. Sempre a andar.

Em 1927, adopta um novo e definitivo visual. A franja que nunca mais abandonará. Quando, dois anos depois, faz segunda digressão pelo Brasil com a companhia de Eva Stachino é recebida com entusiasmo. Propõem-lhe que fique no Rio. Não aceita. Sente que ainda tem muita coisa a fazer em Portugal. E não se engana.




CÂMARA! LUZES! ACÇÃO!

Quando os Vascos eram Santanas (e não Gonçalves), em 1930, entra no filme de Leitão de Barros – Lisboa, Crónica Anedótica, que tem como figura central o grande Chaby Pinheiro, não podia saber que essa fase da sua vida, lhe iria permitir viver no futuro – quem não conhece hoje o dueto com António Silva em A Canção de Lisboa, de Cottinelli Telmo? As crianças, os jovens das gerações que percorreram as últimas oito décadas, sabem estes versos:

Ai chega, chega, chega,

chega, chega á minha agulha,

Afasta, afasta afasta,

Afasta o meu dedal.

Brejeira não seja trafulha,

Ó bela vem coser o avental do amor.

Em 1937 Beatriz ganha, ao lado de Vasco Santana, os votos dos cinéfilos portugueses e são eleitos "príncipes do cinema português". Porém, nunca deixa de fazer teatro, a sua grande paixão. Após ter entrado em meia dúzia de filmes, roda, em 1939, A Aldeia da Roupa Branca, de Chianca de Garcia. Outro grande êxito – todos, ao longo destes anos, vamos cantando:

Três corpetes, um avental,

Sete fronhas, um lençol,

Três camisas do enxoval,

Que a freguesa deu ao rol.

Mas Beatriz resolve que o cinema para ela terminou. E vai para o Brasil. Onde, segundo, disse depois, vive os melhores anos da sua vida.




O PÃO QUE OS OPORTUNISTAS AMASSARAM

Os melhores anos da sua vida, são dez – entre 1939 e 1949 – e vive-os numa festa permanente. No Rio de Janeiro, representa integrada na Companhia do Teatro João Caetano, tendo Oscarito como principal figura masculina.

Escreverá mais tarde: «Durante a minha carreira de artista popular e mimada pelo público, orgulho-me de não o ter sido menos pelos meus colegas, fossem eles um Vasco Santana ou o mais humilde figurante. Nunca cortei relações com um colaborador, porque só fui ajudada e prestigiada por todos! Tenho trabalhado com artistas extraordinários, tão grandes como os maiores que aplaudi em Londres, Paris, Roma, Atenas ou Rio de Janeiro. Nunca vi nada que suplantasse uma Maria Matos, nem fantasia que ganhasse em imaginação a um Oscarito».

Mas nem tudo foram rosas. Noutro registo, diz: «Sou uma mulher que lutou e conhece o pão que os oportunistas amassam». Em 1947 casa com Edmundo Gregorian, um artista plástico e escritor brasileiro. Apesar de tecer os maiores elogios a Edmundo, divorciam-se dois anos depois. Não tem feitio para ser casada - «Amo a liberdade», concluirá – vive para o teatro e para o público.

Em 1949, regressa a palcos de Lisboa e logo participa no elenco de uma revista que sobe à cena no Teatro Avenida. O título - Ela aí está! – é elucidativo sobre a sua grande popularidade. Uma “mulher sem idade”, foi como a definiu Vinicius de Moraes. Na realidade, com mais de quarenta anos, a sua vivacidade era a mesma de quando, com quinze, pisou o palco pela primeira vez. Quando sente que a juventude lhe foge e que, para prosseguir, a representar terá de mudar de estilo, opta por deixar o teatro. Em 1960 despede-se do palco na revista ESTÁ BONITA A BRINCADEIRA.




SEM PAPAS NA LÍNGUA

Quando entende que já não deve continuar a representar, começa a viajar por todo o mundo, completando a sua educação de autodidacta. Percorre todos os continentes e conhece pessoas fascinantes, tais como Salvador Dalí, Sophia Loren, Greta Garbo, Pablo Picasso, Edith Piaff.

Passa a residir no Hotel Tivoli e, após o 25 de Abril de 1974, inicia a publicação de livros de memórias. Tal como aconteceu com Amália Rodrigues, com Artur Agostinho e tantas outras figuras do mundo do espectáculo, é acusada de ter pactuado com o regime salazarista. E de ter tido uma simpatia especial pelas ideias de Caetano. Gente que o regime utilizou para tentar melhorar a sua imagem; gente que, gostando ou não do regime, tinha de calar as suas ideias. Ao contrário de outros que se reciclaram e apareceram depois como revolucionários, Beatriz manteve-se igual a si mesma, dizendo sempre o que pensava – sem papas na língua.

Na manhã de 15 de Abril de 1996, no seu quarto do sexto piso, alguém do pessoal foi encontrá-la morta. Morrera serenamente durante o sono.

No prefácio do livro Sem Papas na Língua, Jorge Amado comenta: Ao terminar a leitura dos originais de Sem Papas na Língua, penso nessa mulher ao mesmo tempo jovem e madura, jovem de mentalidade capaz de compreender e estimar o moço hippy mais prafrentex do nosso tempo, maturidade profunda de quem viu e viveu, de quem sabe, sua álacre beleza de ontem, sua tranquila, resplandecente beleza de agora, a face e o coração. Eu a vejo rodeada de amigos, quem mais soube fazer e guardar amigos? Eu a vejo rodeada de amor, do amor do povo. Dos povos, direi melhor, povo de Portugal, povo do Brasil. Lá e cá, jamais a gente das ruas a tratou por ilustre artista, de dona, de senhora, de distante e gloriosa figura. "Senhora dona Beatriz ", só para ricos e grã-finos. Para nós, foi, é e será sempre a menina Beatriz, a Beatrizinha, nascida no ventre fecundo do povo, sua filha, sua irmã, sua mãe ao recriá-lo, poderoso de raiva, desatado em riso, invencível, no palco. Para Beatriz Costa, palco e vida foram e são uma única coisa, indivisível».