Sempre mais alto … Até onde eu puder

Maria Lamas

Jornalista, activista política e cívica, escritora portuguesa:
1893 - 1983



Quando tudo aconteceu...

1893. Maria da Conceição Vassalo e Silva nasce em Torres Novas, a 6 de Outubro. É a primeira filha de Maria da Encarnação Vassalo e de Manuel Caetano da Silva. 1900. Frequenta a Escola Régia de Torres Novas 1906. Entra para o Colégio das Teresianas de Jesus, Maria e José, em Torres Novas, como aluna interna. 1908. Volta para casa no fim do ano lectivo. 1911. Casa pelo civil com o tenente Ribeiro da Fonseca. É o primeiro casamento civil celebrado em Torres Novas. O marido é colocado em Angola, e Maria da Conceição acompanha-o. Nasce a filha Maria Emília. 1912 É a primeira europeia a chegar a Capelongo, na Huíla, para onde o marido fora destacado. 1913. Regressa a Portugal. Nasce a filha Manuela. Vive em Torres Novas. 1914. Saem em publicações locais as suas primeiras poesias, quase todas sobre o tema da guerra, começando a utilizar o pseudónimo Serrana d’Ayre. 1916. Trabalha como voluntária da Cruz Vermelha. Organiza saraus para angariação de fundos para famílias de soldados. 1919. Divorcia-se, ficando com as duas filhas a seu cargo. Vai para Lisboa viver com os pais. 1920. Começa a trabalhar na Agência Americana de Notícias. Colabora no jornal A Capital. 1921. Casa pela segunda vez, com o jornalista monárquico Alfredo da Cunha Lamas. 1922. Nasce a filha Maria Cândida. Inscreve-se no curso geral dos liceus. Colabora na alfabetização de operárias da Fábrica Simões, em Benfica. 1923. Sai o seu primeiro livro, de poesia, Humildes. Passa a usar o pseudónimo Rosa Silvestre. Publica também Diferença de Raças, romance. 1924. Começa a dar aulas no Instituto Luso-Belga, em Carnide. 1925. Sai o primeiro número da revista infantil O Pintainho, que dirige, também com o pseudónimo Rosa Silvestre. São anos de grande actividade literária, com colaborações de diversa índole em jornais e revistas, com destaque para os suplementos infantis. 1927. Publica-se o romance O Caminho Luminoso. 1928. A convite de Ferreira de Castro, elabora e dirige O Reino dos Miúdos, do Magazine Civilização. 1929. Sai o livro de contos infantis Maria Cotovia. Entra para a empresa do jornal O Século, onde pouco depois começa a trabalhar na direcção do semanário feminino Modas & Bordados. 1930. Organiza a exposição Mulheres Portuguesas – Exposição da obra feminina antiga e moderna de carácter literário, artístico e científico, conhecida como O Certame das Mulheres Portuguesas. Passa a dirigir o Modas & Bordados, que, por proposta sua, passará a ter o subtítulo Vida Feminina. 1931. Publica a novela infantil As Aventuras de Cinco Irmãozinhos, com ilustrações de Ofélia Marques. 1933. Publica A Montanha Maravilhosa, novela infantil com ilustrações de Roberto Araújo, e o poema Ribeirinho. 1934. É agraciada com o grau de Oficial da Ordem de Santiago da Espada pelo Presidente da República, Óscar Carmona, por mérito cultural na acção em prol das mulheres. Profere a conferência A Viagem do Espírito nas tardes artísticas de O Século. Viaja. Publica a novela infantil A Estrela do Norte. Tardes culturais de O Século. Sócia do Sindicato dos Jornalistas, com carteira profissional. 1935. Publica a novela infantil Os Brincos das Cerejas e o romance Para Além do Amor. Desloca-se à Madeira e aos Açores, onde realiza reportagens, profere conferências. Responde ao Inquérito às Mulheres Portuguesas, organizado por O Diabo. 1936. Sai a revista juvenil Joaninha, O Jornal das Raparigas, onde publica em folhetim o romance O Relicário Perdido. O Correio da Joaninha é respondido pela Tia Filomena, pseudónimo de Maria Lamas. Separa-se do segundo marido, ficando com a filha Maria Cândida a seu cargo. Adere à Associação Feminina Portuguesa para a Paz. Assume a condução da secção Educação do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas (CNMP). 1937. Organiza um ciclo de conferências por mulheres nos salões de O Século. Decorre uma exposição de tapetes de Arraiolos, executados pelas mulheres presas na cadeia das Mónicas. 1938. Sai o romance A Ilha Verde. 1940. Traduz O Feiticeiro de Oz, de L. Frank Baum. Sai A Lenda da Borboleta. 1941. Traduz O General Dourakine, da Condessa de Ségur. 1942. Sai O Vale dos Encantos. 1943. Publica A Montanha Maravilhosa, também para crianças e jovens. 1945. Maria Lamas inicia a sua vida política, assinando as listas de apoio à constituição do MUD – Movimento de Unidade Democrática. Começa a sua actividade junto à direcção do CNMP. 1946. É eleita Presidente do CNMP. Em conjunto com Sara Beirão apresenta uma representação à Assembleia Nacional sobre a capacidade eleitoral feminina, prejudicada pelo decreto-lei n.º 35 426, de 31 de Dezembro de 1945. Vai ao primeiro congresso da Federação Democrática Internacional das Mulheres (FDIM). 1947. Exposição Livros Escritos por Mulheres, organizada pelo CNMP na Sociedade Nacional de Belas Artes. Deixa a direcção da Modas & Bordados. É encerrado o CNMP por ordem do Governo Civil de Lisboa. Cria, com dois sócios, a editora Actuális, que servirá de base para a publicação de As Mulheres do meu País. 1948. Sai o primeiro fascículo de As Mulheres do meu País. II Congresso da FDIM em Budapeste. Participa activamente na candidatura de Norton de Matos à Presidência da República, no âmbito da qual profere uma importante palestra denunciando a política do Estado Novo relativa à protecção da mulher e da família. 1949. Membro da Comissão Central do Movimento Nacional Democrático (MND). É presa e detida em Caxias. Sai a revista As Quatro Estações, que dirige. O primeiro tomo inclui 32 páginas do romance inacabado O Despertar de Sílvia. 1950. Julgada e condenada, com os companheiros da Comissão Central do MND. É amnistiada. Sai o último fascículo de As Mulheres do meu País. Conferência A Paz e Vida. Subscreve o documento fundador da Comissão Nacional para a Defesa da Paz. Presa pela PIDE e novamente detida em Caxias, apesar do seu estado de saúde. Escreve a Salazar protestando contra a detenção dos membros da Comissão Central do MND. Escreve um diário da prisão. É transferida sob prisão para o Hospital de Santo António dos Capuchos. 1951. Posta em liberdade, após ter sido condenada no tempo da prisão sofrida, traduz João que chora, João que ri, da Condessa de Ségur. 1952. Após intenso trabalho de pesquisa, começa a sair As Mulheres no Mundo. Participa numa reunião de mulheres no Congresso dos Povos para a Paz, em Viena de Áustria. 1953. Traduz A Pequena Princesa, de Frances Burnett. III Congresso da FDIM, em Copenhaga. É eleita membro do Conselho Mundial da Paz, numa sessão em Budapeste. Vai a uma reunião do Movimento Antifascista para a Paz, em Viena de Áustria. Pela Rádio Moscovo dirige aos portugueses mensagens sobre a paz, sob o pseudónimo Helena Torres. É detida no avião de regresso a Lisboa. Julgada, é condenada a seis meses de prisão. 1954. É libertada. Vai à Madeira colher elementos para o próximo livro. 1955. Mensagem à Assembleia Mundial de Forças Pacíficas, reunida em Helsínquia. Volta à Madeira e começa a escrever um livro sobre o arquipélago. 1956. Sai o livro Arquipélago da Madeira – Maravilha Atlântica. 1957. Viaja intensamente, participando nas actividades do Conselho Mundial para a Paz. 1960. Começam a sair os fascículos de O Mundo dos Deuses e dos Heróis. Mitologia Geral. Entre outros trabalhos, traduz Adriano, de Marguerite Yourcenar. 1961. Continua a traduzir, com destaque para Vencer, de Roger Martin du Gard. 1962. Exila-se em Paris, onde vive no Grand Hôtel Saint-Michel, no Quartier Latin. Encabeça a delegação portuguesa à Conferência para a Paz e o Desarmamento, em Moscovo. 1963. V Congresso da FDIM, em Moscovo. Reunião Internacional de Mulheres, em Berlim Leste. Colaboração com a Liga Portuguesa de Ensino Popular, ligada à Ligue Française de l’Enseignement Laique. 1968. Assiste à greve geral em França, e vive de perto o Maio de 68. 1969. Após numerosas viagens regressa a Portugal. Recebe muitas provas de apreço, e é convidada várias vezes a dar entrevistas à comunicação social. 1971. Estudo A Promoção da Mulher e a Protecção da Criança, in Mulheres contra Homens, nos Cadernos D. Quixote. 1973. Mensagem ao III Congresso da Oposição Democrática, em Aveiro. 1974. Testemunha de defesa de Maria Isabel Barreno no Processo das Três Marias. Participa no 1.º de Maio. Preside a um comício da Comissão Portuguesa para a Paz. Inscreve-se no Partido Comunista Português. É nomeada Directora Honorária da Modas & Bordados. 1975. Convidada de honra do VII Congresso da FDIM, em Berlim. Presidente Honorária do MDM – Movimento Democrático das Mulheres. 1976. Directora da revista Mulheres. 1980. Recebe a Ordem da Liberdade, das mãos do Presidente Ramalho Eanes. 1983. A FDIM atribui-lhe a medalha Eugénie Cotton. Morre em Lisboa.

Ler mais...




A vida na época. A situação das mulheres

No fim do século XIX, e no primeiro terço do século XX, a vida portuguesa sofre grandes convulsões. Avultam nestes anos a implantação da República em 1910 e dezasseis depois a imposição da ditadura. Nesta época a situação das populações é muito afectada pelas modificações introduzidas pela industrialização e pelos fenómenos associados à migração dos campos para as cidades e para o estrangeiro. Agrava-se a situação das mulheres, pois a sua participação no mundo do trabalho assume novos aspectos, com novas exigências, pois começam a constituir uma parte importante da mão-de-obra industrial, para além do papel fundamental que já desempenhavam no sector agrícola. Entretanto, continuam a ser discriminadas em todos os aspectos, na vida política e económica, e mesmo nos direitos cívicos elementares. O direito ao voto e o acesso à instrução são dois campos em que a desigualdade de direitos entre homens e mulheres é evidente.

Algumas mulheres formam movimentos em vários países para combater este estado de coisas. As várias correntes existentes, de pendor conservador ou mais radical, coincidem na constatação da necessidade de promover a educação oficial para as mulheres . Refere-se, a este respeito, que a taxa de analfabetismo feminino em Portugal em 1900 era da ordem de 85,4 %, e que em 1930 tinha baixado apenas 10%, para 74,3. No mesmo período de tempo, a Espanha conseguiu uma redução da mesma taxa de 71,4% para 47,5%, conseguindo, portanto, uma redução em mais do dobro , apesar da semelhança de condições entre os dois países. Em Portugal a taxa de analfabetismo total era de 79,2 % em 1900, e de 67,8 % em 1930. Quanto ao Ensino Secundário, criado em 1888 (Liceu Maria Pia, que começou a funcionar em 1906), as raparigas, em 1908, eram 9,8% da população liceal. Em 1920 eram 24,20 %. Estes indicadores mostram as diferenças entre os sexos existentes na época no que respeita à escolaridade, e como elas dificilmente se corrigiram. A implantação da República, apesar das ideias de muitos dos líderes à altura, não foi acompanhada por um esforço eficaz no sentido da alteração da situação das mulheres neste campo (como noutros). Houve avanços e recuos no que respeita à legislação, e faltou levar à prática um plano consistente. Sob o Estado Novo continuou a avançar-se com dificuldade. Só devido à pressão internacional é que avançou a alfabetização em maior escala. E recorde-se que o ensino obrigatório nem sempre abrangeu o sexo feminino. O decreto-lei n.º 40.964, de 31 de Dezembro de 1956, alargou a obrigatoriedade do ensino escolar até à 4.ª classe, só para o sexo masculino, situação esta que só foi corrigida quatro anos depois, com o decreto-lei n.º 42994, de 28 de Maio de 1960.

A participação das mulheres na vida política em pé de igualdade com os homens só foi alcançada depois do 25 de Abril, com a promulgação da Constituição de 1976. Se a Lei n.º 2137, de 1968, já determinava que todos os cidadãos portugueses que soubessem ler e escrever eram eleitores da Assembleia da República, no que respeitava aos corpos administrativos (câmaras municipais, juntas de freguesia, juntas distritais) só os chefes de família eram eleitores, excluindo-se assim as mulheres casadas.




As origens

Maria Lamas (só viria a assumir este nome muito mais tarde, adoptando o apelido do seu segundo marido) nasce em Torres Novas, filha de um republicano maçom e de uma católica devota. Frequenta o Colégio das Teresianas, onde, entre outras influências, se familiariza com a obra de Santa Teresa de Ávila. Chega a ser aluna interna. Tem uma fase de misticismo, e pensa em professar. Então, o pai retira-a do convento. Poucos anos depois, casa e vai para Angola com o marido. Nasce-lhe ali a primeira filha. É portanto mãe aos dezoito anos. Aos vinte e um anos, já mãe de dois filhos, publica as suas primeiras poesias, iniciando a sua carreira de escritora. Divorcia-se aos vinte e seis anos, começa a trabalhar fora de casa aos vinte e sete, e casa pela segunda vez aos vinte e oito. Não é descabido sublinhar que começa desde nova a viver intensamente, numa procura constante de superar as contradições que sente entre a sua realização pessoal, os valores em que acredita e o que observa no seu dia a dia. Desenvolve um enorme interesse pelo trabalho com crianças e apercebe-se desde cedo da gravidade da problemática da mulher.

Ainda a viver em Torres Novas desenvolve acções de solidariedade, nomeadamente para com as famílias de soldados que combatem na I Guerra Mundial. Já a viver em Lisboa, a trabalhar para ajudar a família, que se debate com problemas económicos, contacta com a realidade do meio industrial, quando se relaciona com as operárias da Fábrica Simões. Relaciona-se também com os meios intelectuais e artísticos, onde encontra as mais diversas personalidades, como com o escritor Ferreira de Castro. Com este vai trabalhar na Civilização Editora, e será ele também quem a apresenta a João Ferreira da Rosa, que a admitirá em O Século.

Eugénia Vasques, numa comunicação ao Congresso Maria Lamas, realizado em 2004, no Porto , refere um escrito da homenageada em que esta revive a reacção que tem, aos dezoito anos, e vê uma fotografia de algumas das primeiras mulheres e jovens que vão frequentar as universidades portuguesas. Nesta sua comunicação, Eugénia Vasques acentua encontrar-se em Maria Lamas uma procura continuada de um caminho em que coincidam a auto-referencialidade e a sinceridade. Eugénia Vasques dá especial relevo à obra literária de Maria Lamas, como veículo de expressão dessa procura, sobretudo no que respeita aos romances que escreveu e que projectou. Mas tem de se constatar que a procura desse caminho não enforma apenas a obra romanesca de Maria Lamas; na realidade, é determinante em todo o seu percurso de vida, desde a sua juventude em Torres Novas.




A obra e a intervenção cultural e política

Maria Lamas, ao longo da sua vida, procurou por várias formas atingir os grandes objectivos que sempre sentiu como seus: a promoção das mulheres como mulheres e como mães (é notório o seu enorme interesse por crianças) e a defesa da paz. Não é ousado dizer que assume estes objectivos a partir da sua experiência de vida. Aprende desde nova o que são os horrores da guerra, tendo o seu primeiro marido a combater na frente da Flandres, na aviação, de onde regressou muito afectado, e no seu trabalho como voluntária da Cruz Vermelha, em apoio das famílias dos soldados.

Tendo-se habituado a escrever desde muito nova, ainda no Colégio das Teresianas, começou pela poesia, e, mais tarde escreveu vários romances, nos quais procura evidenciar os dramas do amor romântico, confrontado com o papel de esposa e mãe, e com os valores dominantes na sociedade portuguesa. Estes romances estão muito centrados na problemática feminina, e são claramente dirigidos às mulheres. Maria Lamas deixou por concluir outros romances (Uma Vida Singular, Fronteiras, O Despertar de Sílvia), que obviamente não terminou devido às enormes dificuldades que lhe foram acarretadas pela perseguição política, e pela prioridade que deu a obras como As Mulheres do meu País.

Maria Antónia Fiadeiro assinala que Maria Lamas “ … mantêm, paralelamente à luta cívica, a luta pelo registo autobiográfico, nomeadamente através do cultivo da actividade epistolar, e pelo direito à felicidade, que acompanha a emancipação individual.” E cita Fernando Piteira dos Santos, que, escrevendo na Moda & Bordados, afirma que “em Maria Lamas a ficção confessional e o inquérito sociológico reflectem a mesma tomada de consciência”, concordando que esta “é uma fértil hipótese de compreensão da sua biografia”.

Em 1947 o Governador Civil de Lisboa ordena o encerramento do CNMP. O pretexto é que, existindo a OMEN - Obra das Mães para a Educação Nacional, o CNMP se tornava desnecessário. Na realidade é uma represália em relação à Exposição Livros Escritos por Mulheres, que acaba de decorrer. É na sequência deste encerramento que Maria Lamas resolve deitar mãos à recolha de elementos para poder escrever As Mulheres do meu País, mostrando uma realidade completamente distinta da visão que o regime pretendia fazer passar na opinião pública. A romancista dá definitivamente lugar à jornalista e à activista política.




Uma mulher na política

Maria Lamas não é a única mulher a travar o combate político contra o Estado Novo. De modo nenhum. Mas há que salientar que a sua postura perante a vida (a procura do caminho já acima referido) e a empatia que desde nova sente para com os desfavorecidos leva-a inevitavelmente a esse combate, que é de tentar desmascarar os mitos que abafam a sociedade portuguesa, mitos que a ditadura tão bem explora em proveito próprio. A sua experiência de vida, o trabalho profissional, os contactos com diferentes meios sociais, preparam-na especialmente para este combate. Habituada a enfrentar dificuldades, mostra bem a fibra que tem ao avançar para a preparação de As Mulheres do meu País, em resposta à arbitrariedade do regime, ou a enfrentar a PIDE/DGS .

É necessário assinalar que Maria Lamas faz uma grande evolução política ao longo da sua vida. Essa evolução explica-se analisando o período histórico em que vive, o trabalho que desenvolve, as realizações que alcança e o grau de satisfação (a felicidade) que consegue com estas. Referimos dois documentos, espaçados entre si cerca de dez anos, que marcam bem essa evolução.

O primeiro é a resposta de Maria Lamas ao Inquérito às Mulheres Portuguesas, promovido por O Diabo . Nesta resposta Maria Lamas afirma reconhecer que a maioria das mulheres portuguesas não possui uma personalidade para merecer a igualdade com o homem perante a lei. Não lhe interessa a luta pela conquista dos direitos políticos. Lamenta o trabalho feminino fora de casa, que é uma imposição da vida, achando que muitas raparigas seriam mais úteis em casa, e não fora a ganhar exíguos ordenados. E diz: ”No futuro, creio, surgirá o equilíbrio e a mulher regressará ao lar”.

O segundo documento é a representação do CNMP à Assembleia Nacional, de 8 de Fevereiro de 1946, assinada por Maria Lamas e Sara Beirão. Nesta representação ataca-se o decreto-lei n.º 35 426, de 31 de Dezembro de 1945, que priva as mulheres casadas da capacidade eleitoral .

Entre os dois documentos, há uma grande diferença de atitude. É fácil especular sobre as causas desta evolução. A aproximação ao CNMP e à Associação Feminina para a Paz sem dúvida que integram essa evolução. Mas uma mulher como Maria Lamas, com as suas preocupações sociais, de auto-referencialidade e de sinceridade, não pode deixar de constatar os falhanços da política do Estado Novo, em relação às mulheres e às crianças, e a opressão a que é submetido tudo o que se opõe aos seus ditames. E não é certamente exagero inferir que, para além do que ordena a mais elementar justiça, chega à conclusão de que mudar o estado de coisas é indispensável e requer a expressão da vontade de todos, incluindo as principais discriminadas, as mulheres. Como tal, regula o seu caminho para pôr a sua prática em acordo com o melhor modo de ver as coisas. Na introdução a As Mulheres do meu País diz-nos:

O desejo de conhecer, em todos os seus aspectos, a vida da mulher portuguesa, surgiu no meu cérebro e no meu coração há muitos anos. Foi quando eu própria me encontrei na encruzilhada onde é forçoso escolher um caminho, e me reconheci sem preparação para a luta, nem outra bússola que não fosse a minha sinceridade e a minha responsabilidade de mãe.

E mais adiante:

O pensamento que me levara a esta observação tornava-se mais nítido, dominava todos os outros pensamentos, à medida que novos embates e rudes experiências me iam dolorosamente esclarecendo. Já não duvidava: os meus problemas eram os problemas de todas as mulheres, embora alguns revestissem, para cada uma, aspectos diferentes.

Identificando-se assim com os problemas das mulheres em geral, é bom referir que Maria Lamas recusa sempre considerar-se feminista. Dá grande importância à ideia da maternidade, como realização da mulher, em todas as fases da sua carreira política. E defende igualmente a manutenção dos traços próprios da feminilidade, no que ela própria dá o exemplo. É sempre uma mulher, num mundo de homens, que ela contribui poderosamente para que seja das mulheres também.

Escritos principais de Maria Lamas


Humildes. Poesia. 1923.

Diferença de Raças. Romance. 1923.

O Caminho Luminoso. Romance. 1927.

Para Além do Amor. Romance. 1935

A Ilha Verde. Romance. 1938

As mulheres do meu país. 1948.

As Mulheres no Mundo. 1952.

Arquipélago da Madeira – Maravilha Atlântica. 1956.

O Mundo dos Deuses e dos Heróis. Mitologia Geral. 1960.

A Promoção da Mulher e a Protecção da Criança, in Mulheres contra Homens, nos Cadernos Dom Quixote.

Nota – indicam-se aqui as obras mais conhecidas. Não estão incluídas, por exemplo, as obras destinadas às crianças e jovens. A obra de Maria Lamas é vastíssima, escrita sob vários pseudónimos, e terá de ser estudada mais aprofundadamente do que até hoje. É também de recordar a sua importante actividade como tradutora.


Algumas obras consultadas


Cronologia de Maria Lamas, organizada pela filha Maria Cândida Vassalo e Silva da Cunha Lamas Caeiro em 2002, e inserida na edição do mesmo ano da Editorial Caminho de As Mulheres do meu País.

Maria Lamas – Biografia, por Maria Antónia Fiadeiro. Quetzal Editores, Lisboa, 2003.

Dicionário da História de Portugal. Coordenação de António Barreto e Maria Filomena Mónica. Livraria Figueirinhas, Lisboa, 1999.

A Memória, a Obra e o Pensamento de Maria Lamas. Actas do Congresso Maria Lamas: Uma Mulher do Nosso Tempo. Edições Colibri. MDM – Movimento Democrático de Mulheres. Lisboa. 2008.

A Concessão do Voto às Portuguesas, de Maria Reynolds de Souza. CIG – Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres. Colecção Fio de Ariana, n,º 3.

Quotidianos Femininos (1900-1933), de Paulo Guinote. CIDM, Lisboa, 1997


Agradecimentos


Torre do Tombo

Museu do Neo-Realismo, com um especial obrigado à equipa da Biblioteca.

CIG - Comissão para a Cidadania e Igualdade do Género – Centro de Documentação.