E continuei a sonhar, a amar e a cantar...

Eugénio Tavares

Poeta cabo-verdiano::
1867 - 1930



Quando tudo aconteceu...

1867: Em 18 de Outubro nasce na ilha Brava, no arquipélago de Cabo Verde, Eugénio de Paula Tavares, filho de Francisco de Paula Tavares e de Eugénia Nozolini Roiz Tavares, que morre em consequência do parto. Em 5 de Novembro, é baptizado na Igreja de São João Baptista, em Nova Sintra. 1870: Seu pai falece na Guiné, onde está em serviço do Estado português. Eugénio é acolhido pelo médico José Martins de Vera Cruz e por sua irmã, D. Eugénia da Vera Cruz Medina e Vasconcelos. 1876: É submetido a exame nas disciplinas básicas do ensino, obtendo a classificação de 18 valores. 1882: No Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro, é publicado o seu primeiro poema dedicado a sua madrinha. 1887: Casa com D. Guiomar Leça.1888: É colocado como Recebedor da Fazenda Pública no Concelho do Tarrafal. 1890: Regressa à Brava, onde passa a exercer as mesmas funções de Recebedor da Fazenda. 1895: Publica Manidjas (Canções) em crioulo. 1899: Começa a publicar textos na Revista de Cabo Verde, editada em Lisboa.1900: Em Junho, fugindo à perseguição das autoridades coloniais, exila-se nos Estados Unidos, onde inicia a edição do jornal Alvorada, cuja publicação se manterá até 1917. 1910: Revolta de rendeiros de Ribeirão Manuel, na ilha de Santiago. Proclamada a República em Portugal, Eugénio regressa a Cabo Verde. Inicia a sua colaboração em jornais no Manduco, publicado na ilha do Fogo. Mantém esta colaboração até 1910. 1910/11: Inicia a sua colaboração no Independente da Praia, que se prolongará até ao ano seguinte. Colabora também em O Futuro de Cabo Verde, no Progresso e no Mindelensede São Vicente.1911: Funda o semanário A Voz de Cabo Verde. 1912: Colabora no Correio Português, de New Bedford. 1913: Escreve para A Tribuna, da Brava.1914: Compõe e publica uma canção dedicada à República. 1915: Publica na Praia as Cartas Caboverdeanas.1916: Edita Amor Que Salva (Santificação do Beijo); neste mesmo ano, sai a público Mal de Amor: Coroa de Espinhos.1920: Morre José Martins de vera Cruz, pai adoptivo de Eugénio. 1922: Regressa à Brava, pois foi julgado e absolvido. Com um grupo de amigos, cria a Escola Governador Guedes Vaz. Ainda neste ano, funda a Troupe Musical Bravense.1927: O governador-geral da Colónia, Guedes Vaz, realiza uma visita à Brava e apresenta o pedido de desculpa a Eugénio Tavares relativamente às ofensas e sofrimento a que a governação anterior o expusera. 1930: Em 1 de Junho, falece na sua Brava natal, vítima de uma angina de peito. 1932: Em Fevereiro, por iniciativa do escritor português José Osório de Oliveira, amigo de Eugénio, é publicado pela Livraria J. Rodrigues & Cª. de Lisboa, o volume Mornas – Cantigas Crioulas, de acordo com uma selecção e com um prefácio que o autor fizera poucos meses antes da sua morte, em Nova Sintra.1940: No âmbito das comemorações portuguesas do duplo centenário, dos oitocentos anos da Fundação e dos trezentos da Restauração, o Governador de Cabo Verde desloca-se à Brava para inaugurar o mausoléu de Eugénio Tavares. 1969: A Liga dos Amigos de Cabo Verde, em Luanda, publica a 2ª edição de Mornas, com uma Adenda em português.1976: Pelos acordos de Londres e de Argel, Portugal reconhece a independência de Cabo Verde. 1995: Em 6 de Maio, no Palácio Valenças, em Sintra (Portugal), é feito o anúncio público, seguido da leitura de estatutos e da escritura pública, da criação da «Fundação Eugénio Tavares». 2002: Em 24 de Junho, é inaugurado na Praça Eugénio Tavares, da Vila Nova Sintra, na ilha Brava, o monumento ao poeta, «Homenagem da comunidade cabo-verdiana da diáspora e da associação ´Amidjabraba`».

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UMA INFÂNCIA TORMENTOSA, MAS FELIZ.

«Aos cinco dias do mês de Novembro de 1867, nesta Igreja Matriz de São João Baptista nesta ilha Brava, baptizei solenemente e pus os santos óleos a Eugênio, filho legítimo de Francisco de Paula Tavares e de Eugénia Roíz Tavares, já falecida e que nasceu a dezoito do mês transacto pela uma hora da manhã. Foram padrinhos Benjamim José da Vera Cruz e D. Maria Medina de Vera Cruz, seu pai, natural do reino de Portugal e sua mãe da Ilha do Fogo1 e para constar fiz este termo que assino. Era ut supra.» Com esta prosa, o cónego vigário Guilherme de Magalhães Menezes, dava o passaporte para a vida àquele que, grande poeta e notável jornalista em crioulo e em língua portuguesa, viria a ser o pai da literatura cabo-verdiana e o primeiro intelectual a pensar em Cabo Verde como entidade cultural autónoma. Eugénio Tavares, é, como Torga em Portugal, um poeta telúrico, escrevendo uma poesia intimamente ligada à terra e às gentes do arquipélago.
Francisco de Paula Tavares, um português natural de Santarém, estabelecera-se na Guiné, na região de Cacheu e Geba, transformando-se num rico proprietário. Porém, é grande a instabilidade que se vive no território – sobretudo as lutas tribais que são, por seu turno, reflexo da turbulência política e, sobretudo, social que se vive na Europa e que preanunciam transformações e medidas importantes (tais como, em 1869, a abolição da escravatura em todos os domínios portugueses). Em 1870 deflagra a guerra franco-prussiana. Em Portugal, é o pronunciamento do marechal Saldanha, querendo impor a D. Luís a demissão do governo do duque de Loulé. Este quadro de conflitualidade política e social e a guerra étnica que lavra na Colónia, leva-o, por prudência, a transferir sua mulher e uma filha (a pequena Henriqueta, nascida em Geba) para a ilha do Fogo de onde Eugénia, que está grávida, é oriunda. Henrique, o filho mais velho fica com o pai. No entanto, na sua ilha natal as melhoras não são significativas e vai para a Brava, onde tem familiares que a acolhem. Para mais, pelas suas condições naturais, a Brava é considerado um local privilegiado de cura e repouso. Tendo, no século XV, sido colonizada sobretudo por algarvios e madeirenses, a sociedade bravense naquela época caracterizava-se por, relativamente às outras ilhas, ali se verificar um ambiente ameno, isento de preconceitos étnicos, havendo um saudável convívio entre os negros, os crioulos e os, relativamente numerosos, colonos europeus.
Porém, a tragédia espreita a família do pequeno ser: Eugénia morre ao dá-lo à luz. Sua irmã Henriqueta é acolhida pela família Sena. O recém-nascido Eugénio fica com D. Maria Medina de Vera Cruz que, com seu marido, o médico José Martins de Vera Cruz, acabam por acolher definitivamente a criança quando, em 1870, na Guiné, Francisco de Paula Tavares morre também, em circunstâncias desconhecidas, mas pensa-se que vítima da onda de violência que o território atravessa. O irmão mais velho, Henrique, é levado para Portugal. A pequena Henriqueta fica entregue aos cuidados de um familiar de sua mãe, João José de Sena. Eugénio é tratado como um verdadeiro filho pelo casal Vera Cruz. Pode dizer-se que o pequeno, apesar de órfão, tem uma infância normal, feliz. Cedo, os pais afectivos e os amigos se apercebem da inteligência excepcional daquela criança. Por isso, a formação cultural do jovem não é descurada, pois para além do exame em matérias básicas que vem noticiado no Boletim Oficial de Julho de 1876 (leitura corrente, escrita, subtracção, multiplicação e divisão de números inteiros, gramática e doutrina cristã), recebe lições de Filosofia, Língua Latina e Teologia… - apesar da grande cultura que o escritor virá a adquirir, este é o único diploma oficial que se lhe conhece, pois todo o saber que acumula não será documentalmente oficializado. O contacto com os mais destacados intelectuais da Brava, nomeadamente os poetas Guilherme Dantas, Augusto Barreto, Maria Luísa de Sena Barcelos e José Rodrigues Aleixo, «o filósofo, o pensador da ilha Brava», enriquece culturalmente Eugénio Tavares e vai abrindo caminho para que o caudal do seu talento se converta na torrente criativa que dará lugar à sua polifacetada obra. Como diz o professor brasileiro Genivaldo Rodrigues Sobrinho, «Mesmo não tendo frequentado o Liceu de São Nicolau nem tido oportunidade de estudar em qualquer outro estabelecimento de ensino fora de seu país, Eugénio Tavares era possuidor de uma formação cultural que viria a se refletir em sua produção escrita. Apesar de ser autodidata em sua formação, como jornalista e prosador,» (…) «dominou o cenário cabo-verdiano nas primeiras décadas do século XX»


[1] - A mãe de Eugénio Tavares, D. Eugénia Nosolini Roiz Tavares, descendia de um italiano, André Nazolini que, em 1790 na ilha do Fogo, casou com D. Gertrudes Henriques, uma senhora portuguesa filha do capitão-mór daquela ilha.




OS PRIMEIROS PASSOS NA POESIA.

Com cerca de 12 anos, escreve os primeiros poemas. São lidos, primeiro em casa e depois, de mão em mão, começam a espalhar-se pela ilha. Aprende a tocar guitarra portuguesa e surgem as suas primeiras composições musicais. No Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro, é publicado um poema de que dedica a sua madrinha, D.Eugénia da Vera Cruz Medina e Vasconcelos, irmã do Dr. José da Vera Cruz e viúva do poeta Sérvulo Medina e Vasconcelos, a Badinha, como carinhosamente a trata: (…) Amo-te ó minha mãe e/bendita seja a fonte/inexaurida de bondade/maternal que emana do teu/espírito. Tudo com origem no/ amor, nada com origem no/ sangue. Tem apenas 15 anos. É o êxito obtido localmente com este primeiro poema que leva os pais adoptivos e os amigos da família a reconhecer que a Brava, apesar de possuir uma notável elite intelectual, é um meio demasiado restrito, limitado, para um espírito superior e destinado a altos voos, como é o de Eugénio.

Assim, em 1886, vai para a vila do Mindelo, na ilha de São Vicente, onde se emprega numa casa comercial que funciona também como consulado dos Estados Unidos. Desde 1874, a cidade está ligada à Madeira, à Metrópole e ao Brasil por um cabo submarino instalado por uma companhia britânica. Essa circunstância, ligada à concessão de depósitos de carvão, quebra o ancestral isolamento e gera no Mindelo um inusitado movimento portuário, de cargueiros e de transatlânticos, chegada e partida de estrangeiros, movimento ímpar no arquipélago. A vila converte-se num centro cosmopolita que deslumbra o jovem poeta bravense e que enriquece a sua criatividade. Como ele próprio dirá num texto publicado no Notícias de Cabo Verde, jornal publicado na Praia: «Ruas atafulhadas de gente que fala em todas as línguas, espécimes de todas as raças, exibição de todos os vestuários, de todos os costumes, de todos os tipos.» Rapidamente, aprende francês e inglês e inicia a sua colaboração nos jornais locais e no Notícias de Cabo Verde. O Mindelo passa a ser, depois da Brava, o seu segundo local de eleição. Virá a encabeçar a luta pela elevação da vila a cidade. De notar que o ano de 1886, em que Eugénio chega ao Mindelo, é o da eclosão da revolta na ilha de Santo Antão. Em 17 de Abril, mais de mil pessoas que partem de diversas freguesias do Paul, marcham sobre Ribeira Grande e ocupam durante cinco dias a praça do Concelho e várias repartições públicas. Protestam contra vexames, injustiças e, sobretudo, contra os impostos exagerados.[1]

[1] - Curiosamente, é um outro poeta, Januário Leite (1867-1930), acusado de pertencer ao núcleo de activistas que instiga os violentos motins. Nascido na Vila das Pombas, Concelho do Paul, na ilha de Santo Antão, será também acusado de fomentar e participar na revolta de 1894. As coincidências entre Eugénio e Januário não se ficam por ambos serem poetas e descendentes de europeus, pois ambos são autodidactas, dedicando as suas vidas à cultura, ambos professam o ideal republicano, ambos nascem em 1867 e ambos morrem em Junho de 1930. De Januário Leite apenas foi publicado um volume póstumo (em 1952) sob o título de Poesias.




A TERCEIRA COMPONENTE CULTURAL: SANTIAGO.

A influência de seu pai permite-lhe, em 1888, conhecer novos horizontes - é colocado como Recebedor da Fazenda Pública no Concelho do Tarrafal. Vindo do Mindelo, onde na vida social a matriz europeia se sobrepõe à africanidade da geografia, ao chegar a Santiago depara-se-lhe Cabo Verde em toda a sua verdadeira autenticidade e plenitude – o cruzamento entre duas culturas, a portuguesa e a africana – redundando numa mestiçagem plena de cor e de vida próprias. As crioulas são lindas. Eugénio demora-se na sua contemplação e dedica-lhes poemas: A Virgem Maria/pura mãe de Deus/seria crioula? /sim; nos sonhos/meus, contemplo-a, morena, filha de plebeus, / (…) A doce crioula/pequenina flor/é como a violeta no/aroma, na cor.
Na realidade, Santiago fascina-o - a sua palpitante vida, as suas gentes, sobretudo, como já se viu, as jovens crioulas. Começa agora a compreender o mosaico constituído por Cabo Verde, na sua diversidade étnica e na sua pluralidade sociocultural. Um dos seus mais importantes biógrafos, João José Nunes (1885-1965), seu discípulo e também poeta, também ele nascido na Brava, afirma que a estada em Santiago, constitui a terceira componente cultural de Eugénio Tavares (sendo a Brava e São Vicente, as duas primeiras). Ama particularmente a vila do Tarrafal, a sua praia e a vasta paleta de azuis que o mar ali oferece. Porém, apesar disso, as saudades da sua ilha, devoram-no. Estamos em 1889. Eugénio, agora com 22 anos, sente-se ansioso por regressar. Mais uma vez, a influência de seu pai se faz sentir – é nomeado Recebedor da Fazenda Pública da Brava.

Em Agosto de 1932 faz a sua primeira viagem à Galiza para participar numa homenagem a Castelao. É um marco importante da vida de Rodrigues Lapa, pois o seu amor por aquela nação irmã, acompanhá-lo-á para sempre.


É voz corrente que, por estes anos de 1852, 53, Rosalía nutre pelo poeta Aurelio Aguirre uma abrasadora paixão de adolescente. Depois, consta que terá surgido um outro amor, por pessoa cuja identidade se desconhece. É a vida sentimental que se pode esperar numa jovem de 16 ou 17 anos. Aurelio presidirá, em 2 de Março de 1856, no Conjo a um transgressivo banquete de confraternização entre operários e estudantes, organizado também por Eduardo Pondal e Rodríguez Seoane, onde profere um brilhante discurso carregado de poesia e de alusões políticas. Na realidade, é neste ambiente que Rosalía, que é actriz amadora no grupo de teatro do Liceo, forja as suas convicções socialistas e republicanas.


[1] - Eduardo Pondal Abente (Ponteceso, Corunha, 1835-Corunha, 1917). Poeta galego, autor de Rumores de los pinos, Queixumes dos pinos e A campana de Anllóns. Formado em Medicina pela Universidade de Compostela, sendo uma das figuras cimeiras do Rexurdimento, com Aurelio Aguirre e com Rodríguez Seoane, foi um dos promotores do famoso Banquete de Conjo. Era um profundo conhecedor da literatura portuguesa.






O REGRESSO ÀS ORIGENS. ( «TRISTE REGRESSO»).

O Eugénio Tavares que chega à Brava em 1890, já não é o mesmo que dali saíra anos antes. Agora conhece, senão na totalidade, pelo menos uma boa parte do arquipélago e pode sonhar com a transformação da colónia num local de onde a injustiça social e a carência de alimento cultural, sejam erradicados. Ao conhecimento da sua ilha natal, acrescenta as estadas em São Vicente e Santiago. Consta que, já no século XX, terá visitado também a Boavista, mas não existem dados concretos quanto a esta eventual viagem. Sobretudo, importa-lhe destacar a existência de uma entidade cultural autóctone, perfeitamente diferenciada da matriz metropolitana. Dada a diversidade dos crioulos de cada ilha, a língua portuguesa é utilizada como eixo estruturante da cultura cabo-verdiana – afinal o Brasil, o grande Brasil, não necessitou de outro idioma para afirmar a sua pujante cultura. Na verdade, a sua opção pelo português, pelo menos nos trabalhos jornalísticos, na ficção, no teatro. não significa que o crioulo não lhe sirva também de veículo para chegar ao coração do povo. Eugénio Tavares é, pois, um escritor e um jornalista bilingue – a sua obra jornalística e a sua prosa, utilizam preferentemente o português. O crioulo, emprega-o ele nas letras que escreve para as mornas – assim, em 1895 (?) publica Manidjas – Canções, o primeiro livro escrito em crioulo.

Entre 1890 e 1900, frequenta a elite cultural que, formando-se no crisol intelectual da Brava, depressa irradia para as outras ilhas, inclusive para Santiago. Casa com D. Guiomar Leça, que será a sua companheira até ao fim da vida, uma esposa discreta, sem interferência na vida literária e política do marido. Adere à Maçonaria, mas não se conhece com precisão a data da sua adesão. Casimiro Monteiro, grão-mestre da Maçonaria cabo-verdiana, é seu compadre e grande amigo. Acompanhado por Loft de Vasconcelos, desenvolve na imprensa uma campanha que visa a alfabetização dos cabo-verdianos e a supressão de injustiças sociais que a administração colonial não logra esbater. O governador-geral, Alexandre de Serpa Pinto, que chega ao arquipélago em 1894, compreende razão de ser da sua luta e estimula-o a prosseguir.

Em Lisboa, este surto de desenvolvimento cultural, esta sede de progresso, cheira a sedição. Serpa Pinto deixa o arquipélago em 1897 e é substituído no cargo por João Cesário de Lacerda, que chega preparado para acabar com as veleidades republicanistas, com as reivindicações e literatices locais. Eugénio é chamado ao Palácio do Governo, na Praia, e explicitamente repreendido por Cesário de Lacerda, que o proíbe de fazer referências na imprensa, à fome que então assola Santiago. Quando, de forma brutal, o punho de ferro deste homem começa a sufocar a voz nascente e clara dos intelectuais em sintonia com os anseios populares, em 1900, na Revista de Cabo Verde, Eugénio Tavares enfrenta o Governador, dizendo-lhe: Senhor Governador de Cabo Verde (…) Eu exijo para o povo aquilo que de direito sei ser do povo; porque sobre o facto de lhe ser negado provar que lhe não seja devido pode muito bem o não dar hoje preparar o ter que dar amanhã. (…) Por isso exijo; não peço. Quereis saber quem sou eu para exigir? Sou uma vontade e, por conseguinte, uma força. Claro, palavras como estas não caíram em saco roto – Eugénio Tavares é falsamente acusado de ter cometido uma fraude no montante de 16 contos de réis nas suas funções administrativas. Processado, é suspenso e condenado. Começa o calvário que o conduzirá ao exílio.
Esta Revista de Cabo Verde, publicada na Metrópole por Luís Loft de Vasconcelos, é um dos espaços privilegiados por Eugénio para exprimir as suas ideias. No seu livro Os Filhos da Terra do Sol – a formação do Estado-nação em Cabo Verde, diz a professora paulista Leila Leite Hernandez (que também alude ao papel da Revista editada por Loft de Vasconcelos): «…no início do século XX, tanto as ideias procedentes dos Estados Unidos, como as dos demais centros transmissores, convergem para o republicanismo que, aliás, impregna várias sociedades recém-independentes. É importante notar que nesses anos formam-se dois espaços de luta. Um, por parte dos que trabalham para assegurar o triunfo da República em Portugal,» (…) «Por sua vez, há o espaço de luta no próprio arquipélago, já anunciado pelos revoltosos de 1886, em Santo Antão, ao incorporarem a suas reivindicações a necessidade de substituir o governo monárquico pelo republicano. Assim, também em Cabo Verde, os princípios do republicanismo passam a ocupar o centro de todas as polémicas, informando a consciência histórica da elite crioula.»[1]

[1] LEITE HERNANDEZ, Leila, Os Filhos da Terra do Sol – a formação do Estado-nação em Cabo Verde, Selo Negro Editora, São Paulo, 2002)







HORA DI BAI, HORA DI DOR - O EXÍLIO NOS ESTADOS UNIDOS.

Numa noite de Junho de 1900, alguns pescadores da Baía da Furna vêem um navio de guerra hasteando a bandeira portuguesa, com os motores parados, silenciosamente, usando apenas a impulsão do velame, sulcar as águas da baía. Depois, duas lanchas transportam cerca de duas dezenas de soldados para terra. Cercam a casa de Eugénio e criam um dispositivo para o prender. Afortunadamente, o poeta estava numa festa de aniversário, em casa do compadre Nhó Lepeu, em Tomé Barrás. O destacamento de infantaria da Marinha dirige-se a essa casa e monta novo perímetro de cerco. Num lance tragicómico, Eugénio disfarça-se de velhinha e consegue fugir.
Em 12 de Junho de 1900, Eugénio embarca no navio B.A. Brayton com destino aos Estados Unidos. Diz Eugénio: «À tardinha, quando o cinzento perfil da ilha se diluiu no roxo do horizonte, desci à câmara, estendi-me no beliche e me pus a revolver na ferida da minha dor o punhal lacerador da saudade.» (…) «Que ia eu fazer à América? Como, ali, preencher o vácuo que eu tinha no coração? Viver, com que recursos? Sofrer, com que ânimo? Lutar, com que forças? Que ia eu fazer à América?». Ao cabo de 29 dias de viagem, o barco fundeou no porto de New Bedford. Começava uma década de exílio.
Uma década de martírio, mas durante a qual, em todo o caso, Eugénio desenvolveria grande actividade, sobretudo como jornalista. Em New Bedford, Massachusetts, Nova Inglaterra, onde reside com outros emigrantes cabo-verdianos, funda o jornal Alvorada e colabora em muitos outros, nomeadamente em periódicos portugueses e brasileiros. O Alvorada (que se publicará até 1917, portanto mesmo depois do regresso do poeta a Cabo Verde, em 1910), tem como objectivo principal ser «a voz dos emigrantes desprotegidos». Durante esse tempo de exílio, que só terminará com a proclamação da República em Portugal, o poeta visita por diversas vezes, de forma clandestina, a ilha Brava. Tem dois sobrinhos, filhos de Cidália uma irmã de Guiomar, sua cunhada, portanto. Crianças que ele adopta, seguindo o exemplo de seus pais adoptivos. Adora-os e eles retribuem esse amor. Os pequenos José e Luísa, constituem um dos principais motivos para as suas arriscadas e furtivas visitas à sua ilha.




O REGRESSO – A DEFESA DOS DIREITOS DO POVO DE CABO VERDE.

Em 5 de Outubro de 1910 é proclamada a República em Portugal. Eugénio, cheio de entusiasmo, regressa a Cabo Verde. Membro do Partido Republicano e maçon, não tem a temer agora qualquer acto de repressão. Entretanto, durante o seu exílio, fora julgado à revelia e declarado inocente da infame acusação de que fora vítima. Para ele, tem início um novo ciclo. Inicia a sua colaboração no Manduco, jornal editado por Pedro Cardoso Monteiro e que se publica na ilha do Fogo. Pelas autoridades republicanas, é nomeado director da Imprensa Nacional da Colónia, com a incumbência de criar um novo jornal. Com Gustavo Carlos da Fonseca, director, Abílio de Macedo, administrador, e João Maria Pereira, editor, funda o semanário democrático A Voz de Cabo Verde, cujo primeiro número sai em 1 de Março de 1911. No editorial (Fiat lux), Eugénio saúda o novo governador-geral da Colónia, Marinha de Campos, para o qual «não há ricos nem pobres, não há brancos nem pretos; há justiça e só justiça».




TEMPOS FELIZES.

Os doze anos que se seguem, são vividos intensamente, com uma grande actividade – no plano político, no jornalístico, no campo associativo e social, na poesia, na música. Em 1912 colabora no Correio Português, de New Bedford. No ano seguinte, escreve para a Tribuna, da Brava, editada por João José Nunes. Em 1914, compõe e publica uma Canção Republicana dedicada à recém-proclamada República. Em 1915, publica na Praia os opúsculos que designa por Cartas Caboverdeanas. Em 1916 sai a público o livro Amor Que Salva (Santificação do Beijo); neste mesmo ano é editado Mal de Amor: Coroa de Espinhos. Em 1922, regressando à Brava definitivamente, ao seio da família e dos seus conterrâneos, depois de várias idas e vindas à Praia, ao Mindelo, no quadro da sua actividade política. Esperam-no agora tempos tranquilos, embora precise de continuar a escrever para ganhar a vida. Com o seu grupo de amigos, funda a Troupe Musical Bravense. Por outro lado, com a ajuda de Hermano de Pina e de outros companheiros, impulsiona a criação da Escola Guedes Vaz, estabelecimento de ensino que vem preencher uma grave lacuna no sistema de educação da juventude da ilha. Exerce o professorado e, apesar de toda a sua actividade profissional, ainda guarda tempo para cuidar das flores do seu jardim. São tempos felizes.

Em 1927, o governador Guedes Vaz realiza uma visita de cortesia à Brava. Em nome do Governo, apresenta a Eugénio Tavares um formal pedido de desculpa pelo infortúnio e sofrimento causados por uma acusação injusta da Administração Central. Convida-o a visitar São Vicente. É uma viagem triunfal, pois Eugénio é recebido no Mindelo por uma multidão de admiradores que o conduz em ombros até à Câmara Municipal, onde o espera uma sessão solene e a consagração como figura cimeira da cultura cabo-verdiana.




«E CONTINUEI A SONHAR, A AMAR E A CANTAR.»


Eugénio com 62 anos (última foto).


Três anos depois, agora com 62 anos, Eugénio está precocemente envelhecido, embora o seu espírito permaneça jovem e actuante. Escreve e compõe. Deste período datam duas das suas melhores composições – as mornas Bidjiça e Nha Santana. A primeira, segundo tudo o indica, é inspirada pela paixão serôdia que sente por uma muito jovem rapariga com a qual inicia um namoro que faz sorrir os seus amigos e conterrâneos. Bidjiça alcança uma grande popularidade, Nela se diz que sol de entardecer de idade, /sol brando é el, sol de sodade… Porém, a jovem abandona-o, partindo para os Estados Unidos com a família. Despeitado por essa decisão da amada, Eugénio cai numa mágoa profunda, refugia-se no isolamento. Passado tempo, a rapariga faz-lhe saber que está disposta a voltar para ele. Mas Eugénio, num arroubo de orgulho ferido, recusa aceitá-la de volta. Pega na guitarra e compõe Nha Santana. Outro grande êxito popular.

No dia 1 de Junho de 1930, cerca das 11 horas da manhã, Eugénio Tavares está sentado numa cadeira de baloiço da sua casa de Nova Sintra. Recebe amigos e familiares. Discutem a política da Colónia, os fait- divers que se relatam nos jornais da Metrópole. A propósito, um deles, conta uma história engraçada. Estoira uma enorme gargalhada geral. Eugénio Tavares acompanha os amigos na risada. Depois, inclina-se e tomba, mortalmente fulminado por uma angina de peito.

Diz Eugénio na sua Autobiografia: «Os aspectos exteriores que emolduraram a minha infância, o sonambulismo taciturno das montanhas em cujos socalcos sonhei os meus primeiros voos, solidões misteriosas e enevoadas, semearam no meu espírito sentimentos que em breve não cabiam na estreiteza do meio em que vivia. Mais tarde um outro factor preponderou: a formosura das filhas dos crioulos, minhas irmãs, seu caminhar harmonioso, erectas e plácidas na linha das paisagens perpendiculares, suas vozes argentinas ou veladas elevando-se nas toadas tristíssimas, suas frontes trigueiras e puras, romperam-me na alma a intuição melodiosa do idílio e continuei sonhando, amando e cantando – com a fronte em sangue, com a alma em luz. No declinar da Primavera, açoutado de maus ventos, alanhado de injustiças odiosas, a poesia religiosa envolveu-me numa plúmbea atmosfera de paz e de saudade. E continuei a sonhar, a amar e a cantar.»




CONCLUSÃO – VÁRIAS OPINIÕES SOBRE EUGÉNIO TAVARES.

Muitos críticos vêm Eugénio Tavares como um mero compositor de mornas. Na realidade, a sua obra literária é reduzida e as suas mornas tiveram grande êxito e, por certo, qualidade musical, pois levaram Fernando Lopes Graça a procurar fixar o fio melódico das composições. Não se pode nem deve esquecer, no entanto, a sua intensa actividade como jornalista e como político, lutando em prol da justiça, do fim das desigualdades sociais no arquipélago, pelo apagamento das discriminações étnicas. Mas, fixando-nos apenas na sua faceta literária, ele é um dos próceres da literatura cabo-verdiana em língua portuguesa e, simultaneamente, pugna pelo reconhecimento do crioulo como válido instrumento de cultura. É verdade que escreveu mornas que ainda hoje são cantadas. No entanto, classificá-lo como «criador de mornas» é redutor e injusto, pois significa esquecer a dimensão intelectual e humana da sua luta pela dignidade do povo de Cabo Verde, pela exaltação da beleza das suas gentes e paisagens… Eugénio Tavares criou o conceito de caboverdianidade e terá sido um dos primeiros escritores a sentir e a conceber o arquipélago como entidade cultural autónoma, embora sempre se tenha considerado como português e patriota. Em carta endereçada da Brava, em Novembro de 1928, a José Osório de Oliveira, poeta e ensaísta português (1900-1964) afirma: «Amo a minha Pátria» (…) «Leia a Carta Caboverdeana para um jornal da América. Ela dirá do meu amor à Pátria. Faça o meu amigo reproduzir esses meus sentimentos, aí, onde parentes de meu pai, verão que o patriotismo de Francisco de Paula Tavares, frutificou em África».[1] Porém, ouçamos o que a seu respeito (e sobre a literatura de Cabo Verde) alguns mestres e estudiosos disseram:

«Em Cabo Verde, após a introdução do prelo em 1842, e a publicação do romance cabo-verdiano de José Evaristo d’Almeida, O Escravo (1856)» (…) «segue-se um longo período (ainda hoje mal conhecido no que respeita ao século XIX), até à publicação do livro de poemas Arquipélago (1935) de Jorge
Barbosa, e da revista Claridade (1936), fundada por Baltasar Lopes, Manuel Lopes e Jorge Barbosa, entre outros, em que se destacam José Lopes, Eugénio Tavares e Pedro Cardoso».[2] «Cabo Verde merece consideração à parte. Apesar de circunstâncias também desfavoráveis, como as de nível de vida e a distância a que o português literário se encontra do crioulo falado, a maior proximidade da cultura metropolitana (e sobretudo da brasileira) e certos fermentos mais antigos da vida literária possibilitaram um surto de escritores em torno das revistas Claridade (…) e Certeza», dizem Óscar Lopes e António José Saraiva numa das primeiras edições da sua História da Literatura Portuguesa, destacando depois nomes como os de Baltasar Lopes, Jorge Barbosa e Eugénio Tavares, que designam por «o poeta do crioulo».[3] Manuel Ferreira, sem dúvida um dos maiores especialistas portugueses em literatura africana, particularmente na de Cabo Verde, considera Eugénia Tavares, sobretudo um poeta e um jornalista «de excelente qualidade», quer exprimindo-se em português, quer em crioulo. Quanto à sua ficção, aliás escassa, classifica-a de «inferior qualidade artística».[4] O Tenente-Coronel Joaquim Duarte Silva, um dos mais antigos estudiosos da sua obra, é da opinião que o primeiro texto escrito em crioulo é da autoria de Eugénio Tavares. Refere-se a uma «transposição» para crioulo do famoso texto de Camões, Endechas a Bárbara Escrava (Aquela cativa/Que me tem cativo…), feita por Eugénio. Diz a versão crioula – Bárbara, bonita escraba... João Augusto Martins em Madeira, Cabo Verde e Guiné, Carlos Parreira[5] e outros autores, consideram-no o maior poeta lírico de Cabo Verde.

[1] - FERREIRA, Manuel, Cartas Inéditas de Jorge Barbosa, João Lopes e Eugénio Tavares a José Osório de Oliveira, Colóquio Letras, n.º 110/111, Lisboa, Julho de 1989.

[2] PIRES LARANJEIRA, Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa, Universidade Aberta, Lisboa 1995.

[3] - LOPES, Óscar e SARAIVA, António José, História da Literatura Portuguesa, 3ª ed. Porto Editora, Porto (s/d).

[4] - FERREIRA, Manuel, texto citado.

[5] - PARREIRA, Carlos, Eugénio Tavares, Poeta Crioulo, in Mundo Português, nº 78, Lisboa, 1940



Nota: Agradece-se, na pessoa do seu presidente, Dr. Eugénio Sena, à Fundação Eugénio Tavares a cedência das ilustrações que acompanham este texto, bem como a livre utilização que fizemos da informação escrita contida no seu sítio da Internet (http://www.eugeniotavares.org), sem a qual a feitura desta biografia teria sido bastante mais difícil.