“Chamam-me lá em baixo …”

Políbio Gomes Dos Santos

Poeta:
1911 - 1939



Quando tudo aconteceu...

1911. A 8 de Agosto nasce em Ansião Políbio Gomes dos Santos, filho de João Gomes dos Santos e de Maria Albertina de Sá Santos.
1918. Começa a frequentar o ensino primário na sua terra natal.
1921. Em Leiria, faz o exame de admissão ao liceu.
1922. Entra para o Colégio dos Pupilos do Exército.
1926. Regressa a Ansião por motivos de doença.
1928. Vai para Coimbra frequentar o Liceu Dr. Júlio Henriques.
1931. O jornal Novo Horizonte publica Soneto. Publica ainda outros escritos de Políbio, em verso e em prosa.
1932. Sai o primeiro número do jornal Ensaio, que se afirma o órgão da Academia Liceal de Coimbra. Políbio é o Director.
1933. Entra para a Universidade do Coimbra, onde frequenta Direito e Letras.
1936. Faz parte da Direcção da Associação Académica de Coimbra e da Associação Cristã dos Estudantes.
1938. É internado no Sanatório da Guarda. A Portugália publica As Três Pessoas.
1939. Nos Jogos Florais Universitários de Coimbra, com Voz que Escuta, vence o Prémio de Poesia António Nobre. O júri é presidido por Paulo Quintela. Regressa a Ansião, onde falece a 3 de Agosto.
1944. Sai o livro Voz que Escuta, incluído no Novo Cancioneiro.
1998. Em Ansião é instituído o Prémio de Poesia Políbio Gomes dos Santos.

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UMA VIDA BREVE NUMA ÉPOCA AGITADA

Nas primeiras décadas do século XX Portugal vive em angústia e sobressalto constantes. O clima reinante na sociedade é o de uma guerra civil intermitente (a expressão é de Fernando Rosas) que faz agonizar a I República e o país. Os problemas sociais tornam-se cada vez mais prementes. O mal-estar da população agrava-se. Um dos aspectos mais inquietantes é o alastramento da tuberculose. Entretanto, a agitação política dá lugar ao 28 de Maio de 1926 e à implantação da ditadura. No ano em que Políbio entra para a Universidade é promulgada a Constituição de 1933. Três anos depois começa a Guerra Civil de Espanha.

No panorama cultural da época tem grande peso a revista Presença (1927 – 1940) que é editada em Coimbra. É um marco da cultura portuguesa. Mas é questionado o seu alheamento em relação aos problemas concretos do país, e a defesa que fazem os seus principais mentores do princípio da arte pela arte. Formam-se entretanto novos movimentos literários, com destaque para o que deu origem ao neo-realismo. Deve-se assinalar contudo que muitos dos que defendem que a arte deve estar ao serviço do povo passam primeiro pela Presença. Ou perto dela. É o que acontece com Políbio. Entretanto a repressão cai sobre quem procura caminhos diversos do regime. O único número publicado da revista Cadernos da Juventude é apreendido e queimado no pátio do Governo Civil de Coimbra (1937). Acentua-se a polémica entre os defensores da arte pela arte (um exemplo é João Gaspar Simões, outro, de modo diverso, é Adolfo Casais Monteiro) e os que propugnam a arte com conteúdo, socialmente interventiva, em jornais e revistas como Pensamento, Manifesto, Gleba, Sol Nascente, O Diabo, Seara Nova, Altitude, Vértice (esta só a partir de 1942), e outros, que acolhem opiniões variadas, e em conferências públicas (Alves Redol, Jofre Amaral Nogueira).

Desde muito novo que Políbio se interessa pelas letras. Já na escola primária lhe observam o talento poético. José Marmelo e Silva, no prefácio à edição de Poemas, da Limiar, de 1981, inclui estas quadras simples da infância de Políbio, que mostram bem o seu talento precoce:

E minha terra Ancião
A terra onde eu nasci;
Dá-me baques o coração
Cuando me lembro de ti

Teus campos tem Olivedos
Encarados pelo sol;
E teus quintais tem Silvedos
Onde canta o rouxinol…

Manuel Augusto Dias, que inclui a biografia de Políbio na sua obra Ansianenses Ilustres (Editora Serras de Ansião, 2002), refere que, para além da poesia, se interessa também pela pintura e pela música. Nos últimos anos do ensino primário toca flautim na Filarmónica de Ansião, e chega a compor músicas. Em casa, o ambiente é favorável ao cultivo das artes. O pai, de grande habilidade manual, é reconhecido na terra como um artista de valor. Mas o internamento nos Pupilos do Exército é sem dúvida um trauma na vida do jovem, como salienta Marmelo e Silva. Tem que recuperar em Ansião, antes de voltar a estudar. Desta experiência, ficam marcas para a sua vida.




A OBRA. UMA VOCAÇÃO CULTIVADA

Políbio inclina-se fundamentalmente para uma cultura clássica. Lê a Bíblia quando jovem. Conhece bem os poetas portugueses. Estuda os franceses. A leitura de Baudelaire é um estímulo ao longo da sua vida breve (Marmelo e Silva diz que Les Fleurs du Mal é seu livro de cabeceira até à morte). É um seguidor de Cesário e de Pessanha, assinala Maria Alzira Seixo, no seu artigo saído no JL de 13 de Julho deste ano. O ambiente de Coimbra, a Universidade, completam a sua formação. Abrem-lhe novos horizontes. Mas a doença marca a sua vida. As amizades são numerosíssimas. Incluem Joaquim Namorado, Carlos de Oliveira, Miguel Torga, Vitorino Nemésio, e outros, não pertencentes aos círculos literários.

A sua obra é curta, mas muito valiosa. Os dois livros que publica, As Três Vidas e Voz que Escuta, totalizam 18 poemas, apenas. O autor escolhe e selecciona entre o que escreve, pondo cá fora só o melhor, no seu entender. A vida marca-o pesadamente, mas não perde o mundo de vista. A sua curta obra demonstra-o. É de leitura difícil, como é próprio de trabalhos elaborados, e em que o autor procura símbolos e referências no ambiente que o rodeia.

Óscar Lopes e António José Saraiva, na História da Literatura Portuguesa (15.ª edição – 1989) dizem que Políbio “… traz à sátira social uma arte poética de estranha qualidade, um temperamento rico e doloridamente original, capaz de unir certos motivos num mesmo fio: o do sangue de muitas vidas correndo em direcção à morte e o da bacia e o da bacia hidrográfica a escoar-se para o mar; o do próprio corpo doente e o da podre cidade burguesa febril e visionariamente radiografada, numa impressionante identificação de doença fisiológica com a social que transfigura o narcisismo de António Nobre, ponto de partida da sua estética.”

O texto anterior faz uma referência directa a Voz que Escuta, que vence o Prémio António Nobre de 1939, e está incluído no Novo Cancioneiro. Voz que Escuta por sua vez agrupa cinco poemas de Políbio, redigidos já perto do final da sua vida. Óscar Lopes e António José Saraiva dirigem-se particularmente a um desses poemas, Radiografia. Este poema é publicado em O Diabo, a 8 de Abril de 1939.

Políbio trabalha meticulosamente os seus versos, respeitando as regras da métrica, pesando as palavras, procurando a melhor sonoridade para condizer com a ideia que quer exprimir. Carlos de Oliveira, também ele, numa nota introdutória a Voz que Escuta, liga-o a António Nobre e a Cesário, (“… Trabalho que liga também Políbio aos primeiros operários dessa modernidade oficinal: Nobre, desarticulando um pouco os versos; Cesário, polindo-os sem descanso”). E chama a atenção para a transmutação da linguagem clínica em análise social.

Fernando Namora escreve sobre a arte de Políbio que: “… ele soube desde logo domar a impaciência e a exaltação em versos de um rigor adulto, a palavra a dosear-se numa severidade cadenciada, que foi o segredo de um magoado estranho encantamento, enquanto o seu olhar descia já ao fundo da complexa verdade das coisas, lá onde não cabem restrições de escolas e de temáticas. Do psicologismo presencista e da literatura empenhada, seu indócil antagonista, ele teve artes de colher antes de qualquer outro, a mais sábia das teses: dar o humano em situação, e dá-lo numa voz sofridamente pessoal…”.

João Laranjeira Henriques, doutorado em Estudos da Literatura e Cultura pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, analisa na sua tese a obra de Políbio a partir de um ponto de vista diferente. Assentando na ideia de que a poesia é um veículo diferente do romance ou do conto, defende que é um género literário que não possibilitaria no mesmo grau que os outros dois a expressão dos princípios do neo-realismo, desenvolvendo assim as teses de Eduardo Lourenço em Sentido e Forma da Poesia Neo-Realista. Também acha que a poesia neo-realista é mais urbana, centrada na problemática da cidade, ao contrário do romance e do conto, mais orientados para temas rurais. Baseando-se nestas ideias acaba por concluir que na poesia de Políbio se encontra uma evolução gradual da fase presencista, de tendência mais individual, para uma maior abertura ao exterior. Vê essa evolução culminar em Radiografia, cuja qualidade reconhece, e valoriza inequivocamente as metáforas que o poeta cria ao analisar a realidade social utilizando a linguagem clínica (tal como diz Carlos de Oliveira, e salienta muito bem Luís Adriano Carlos, na excelente introdução à edição de Poemas, de 1998). Lemos o poema:

Não sei se era uma esplêndida loucura.
Porém a noite escura, àquela hora,
Veio pôr-me nos olhos
Uma super-visão de Raios X.
Tudo transparente e sombrio!:
Nas caves os criados trintanários,
Sonolentos, senis, alquebrados,
Como em pêgo profundo, no fundo dum rio,
Deitados.
E em sobrados nos altos das casas
As pessoas suspensas e presas
Nas invisíveis asas.

O clarão dos escuros e silêncios
Apunhalava as coisas indefesas
E era o meu guia.
E eu via, via tudo, entretinha-me a ver,
Aplaudindo em meus olhos
A tragédia funérea de ser.

A mulher que eu amava dormia.
E lá estava perdendo a magia
Das formas,
O mistério das coisas opacas.
Ai, eu via os seus orgãos medonhos, eu via,
Comprimidos boiando em fluidos
De estranha alquimia.

As donzelas! as puras donzelas!
- Como eram iguais seus esqueletos
E gesto de guardar a virgindade
Num halo,
Fechadas nas casas, sonhando!

E aqui, ali, além, de quando em quando
As cenas abismais,
Infiltrações letais – promiscuidade!:

Em ângulos mornos de alcovas solenes,
Dormiam, jaziam casados,
Ventrudos, coitados, casais de burgueses!:
Um respirava o ar que o outro expira,
Cantado, resfolgado,
Como o vapor em máquinas cansadas
Ou moléstias em papos de reses;
E na parede, sobre a mesa de pau-santo,
O cuco do relógio veniando
Quatro vezes.
E ó ruas, ó ruas viscosas,
Dormindo venenosas, como cobras
Digerindo!
Ó casas leprosas,
Envenenando o ar amigo meu e deles!
- O ar já gás emagrecido, manso mas cansado,
Azul e quente,
Pairando sobre as camas a gemer,
Piedosamente!
Ó gente, .................................................

E lá vinha, e lá vinha a elevar-se do rio,
Um calmo doentio nevoeiro grosso!
Tão velho rio!
Cantado pelos bárbaros poetas...
Tão límpido!
Mostrando-me as enguias nas buracas
E os cadáveres inchados
De afogados,
Espetados nas estacas.

E o silêncio!
Eu e uma cidade!
Apenas o rumor de traças infernais,
A roerem humanos, ocultas, danadas,
Como caruncho em madeiras
De casas abandonadas.

Eu e uma cidade...
Que a lava da noite veio sepultar
Dentro de mim...
Esta Pompeia que me entrou plos olhos,
Com suas mil estátuas e cenas do fim...
Este burgo dos ídolos partidos e painéis
Cruéis, sumidos,
Que a minha alma ansiosa anda a escavar,
E que o loiro dinheiro dos Lords
Não pode comprar.

João Laranjeira Henriques, no ensaio Eu e uma cidade – O Lugar da Poesia no Neo-Realismo – A propósito do poema Radiografia, de Políbio Gomes dos Santos, publicado na Revista Electrónica de Estudos Literários, da Universidade de Vitória, Brasil, conclui que Políbio, neste poema, dá a entender que o poeta está especialmente equipado para fazer a análise de “uma cidade nocturna com traços de lúgubre declínio burguês”, o que não coincide com as teses de vários quadrantes sobre a menor capacidade da poesia para transmitir mensagens de carácter social e interventivo. João Laranjeira Henriques, pelo menos abertamente, não manifesta discordância. É uma questão que merece estudo, e constitui mais um aspecto a chamar a atenção para a obra de Políbio.

Vitorino Nemésio dedica a Políbio este poema, integrado na obra “Eu, Comovido a Oeste”. É muito significativo do afecto e da consideração que por ele sente.

À Memória de Políbio Gomes dos Santos

O poeta que morreu entrou agora,
Não se sabe bem onde, mas entrou,
Todo coberto de demora,
No bocado de noite em que ficou.

As ervas lhe desenham
Seu espaço devido:
Depressa, venham
Lê-lo no chão os que o não tenham lido.

Que o sorriso que o veste
Já galga como um potro
As coisas tenebrosas,
E esquecido – só outro:
Este
Nem precisa de rosas.






AGRADECIMENTOS

A Manuel Augusto Dias, Luís Adriano Carlos e João Laranjeira Henriques, pelo que têm feito para dar a conhecer a vida e obra de Políbio Gomes dos Santos. Cada um a seu modo, consegue dar a perceber a importância da curta vida e da pequena, mas enorme obra deste grande poeta. Esta pequena biografia sem eles não era possível.

À Biblioteca Municipal de Ansião, à sua directora, Dr.ª Teresa Ramos, e a toda a equipa, pela disponibilidade, simpatia e competência com que atenderam o responsável por estas linhas.

Ao Museu do Neo-Realismo, pelo apoio dispensado, e pela compreensão e simpatia tidas, que muito ajudaram este trabalho.