Eis a velha cidade! A cortesã devassa...

guilherme de azevedo

Poeta, dramaturgo e jornalista:
1839 - 1882



Quando tudo aconteceu...

1839: Em 30 de Novembro, nasce em Santarém Guilherme Avelino de Azevedo Chaves, que virá a adoptar o nome literário de Guilherme de Azevedo. Na sua cidade natal, frequenta o liceu e conclui o curso de Humanidades. 1864: Assinando G. Chaves, publica Almanaque de Lembranças, colectânea dos seus primeiros versos. Começa a sair colaboração sua no Comércio de Lisboa. 1865: Publica textos na Revolução de Setembro, dirigida por Júlio César Machado. 1867: Com um prefácio de Ernesto Marecos, edita Aparições. 1871: Vivendo ainda em Santarém, funda o jornal O Alfageme. Publicação de Radiações da Noite. 1872: Com Jaime de Magalhães Lima funda o Espectro de Juvenal, que se publica até ao ano seguinte. 1874: Primeira edição de Alma Nova, que dedica a Antero de Quental. Fixa residência em Lisboa. 1875: Começa a colaborar regularmente na Lanterna Mágica, na Gazeta do Dia e no Diário da Manhã, onde publica as suas Cartas de Um Birmã. 1878: Assume a direcção da revista Ocidente, cargo que ocupa até partir para França. Estreia-se no Teatro D. Maria II a sua peça em 4 actos Rosalino. É correspondente literário do jornal A Luta, publicado no Porto sob a direcção de Urbano Loureiro. 1879: De parceria com Guerra Junqueiro e sob o pseudónimo colectivo de «comendador» Gil Vaz, sobe à cena no Teatro do Ginásio em 17 de Janeiro e é depois publicada a «revista do ano», ou, como lhe chama, o «relatório em 4 actos, Viagem à Roda da Parvónia. Ramalho Ortigão considera esta peça uma «fiel pintura dos costumes constitucionais». Funda com Rafael Bordalo Pinheiro o António Maria. 1880/81: Em O Primeiro de Janeiro, publicado no Porto, sai semanalmente um folhetim de sua autoria. No Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro, assina uma crónica quinzenal. Rafael Bordalo Pinheiro lança o seu Álbum das Glórias, ficando a parte literária a cargo de Guilherme de Azevedo que, sob o pseudónimo de João Rialto, assina as biografias das personalidades caricaturadas por Bordalo (vindo após a sua ida para Paris a ser substituído nessa tarefa por Ramalho Ortigão). A Gazeta de Notícias, jornal do Rio de Janeiro, oferece-lhe o lugar de correspondente em Paris, cargo que Guilherme de Azevedo aceita e que desempenha até à sua morte. Colabora na Gazeta do Dia e em O Pimpão. 1882: Em Março, como sequela da sua doença de infância, é acometido por uma síncope que o deixa muito diminuído, vindo a morrer em 6 de Abril numa casa de saúde de Paris.

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OS TIROS DA COMUNA DE PARIS, OUVEM-SE EM PORTUGAL

Santarém é, na segunda metade do século XIX, apesar da sua relativa proximidade da capital, uma cidade tipicamente provinciana, aliás, como todas as outras pequenas cidades do País (para não falarmos mesmo das consideradas «grandes»), A visão de uma vila adormecida, idilicamente bucólica, como a que Almeida Garrett nos descreve em Viagens na Minha Terra, não sofre alterações de monta nas poucas décadas que entretanto decorreram. A cidade portuguesa que, no dizer do ilustre polígrafo Alberto de Almeida Pimentel, aparte Lisboa, mereceu dos estudiosos de arte um mais elevado número de obras, a chamada capital do gótico, é bela, mas entediante. Bucolismo e tédio que os poderes vigentes procuram manter num sono permanentemente vigiado por um avassalador «bom senso» emanado de uma elite burguesa que tudo controla em termos económicos, políticos e sociais. Nada escapa à abrangente visão desse grupo dominante, nem sequer as manifestações culturais, ou melhor dizendo, muito menos estas.
Guilherme de Azevedo nasce no seio desse autodesignado escol, filho de um escrivão de Fazenda, o senhor Felício José Chaves, que, obviamente deseja que seu filho lhe siga as pisadas e lhe herde o prestigioso, honrado (e antipático) cargo. Guilherme tem, no entanto, um outro projecto de vida. Quando termina o ensino liceal, pretende prosseguir os estudos na Universidade, em Coimbra. Deseja vir a ser escritor, jornalista... Porém, o pai impõe-lhe a sua vontade e solicita aos superiores que o seu cargo seja herdado pelo filho. Guilherme vê-se, pois, escrivão de Fazenda, mergulhado num abominável pesadelo de burocratice. Sobre este tema, da luta entre o que Guilherme quer ser e aquilo que seu pai o obriga a ser, ouçamos a voz de Fialho de Almeida:
«Chegado à adolescência, e vendo o pai que o seu varão dificilmente conseguiria trepar a bacharel, porque era cábula, e não havia meio de reagir sobre um organismo flébil e queixoso, resolveu-se fazê-lo interromper o curso dos liceus e integrá-lo na burguesia lugareja.» [...] «Como a família gozasse em Santarém duma pequena mediania, Guilherme com os proventos do emprego, aliás rendosos, ali viveu sem maiores faltas de conforto, e até desenvolvendo entre o dandismo da terra, umas galhardias de trajo, que miserabilizavam mais ainda, a sua pobre carcaça de aleijado. Na terra, era antipático, chamavam-lhe o diabo coxo.» [...] «Ele não podia consolar-se de ser defeituoso, e sem se queixar, evitava todos os ricochetes de palestra donde pudesse sair alusão à sua deplorabilíssima invalidez.»1
Pertencem a este atormentado período da sua juventude, em que mitiga as agruras do quotidiano com ávidas (e talvez por isso mesmo apressadas) leituras de Baudelaire, de Leconte de Lisle, de Victor Hugo, os primeiros versos do Almanaque de Lembranças (1864) e a recolha de poemas publicados em jornais e revistas e a que dá o título de Aparições (1867). Com o jornalista e escritor Tomás Lino de Assunção e com o numismata e compositor musical José Ferreira Braga, funda em 1871 O Alfageme, jornal onde colabora escrevendo crónicas satíricas e humorísticas. É esta inspirada veia satírica que o levará, anos depois, a ser convidado por Bordalo para dirigir literariamente o António Maria. Mas estamos agora a falar de O Alfageme, onde, entre outras coisas, tem a ousadia de fazer o elogio da Comuna de Paris, o governo insurreccional, constituído por socialistas e por operários, que, perante o quadro de miséria vivido pela população, entre Março e Maio de 1871, gere a capital francesa, numa atitude de repúdio pela humilhante capitulação do Estado após o cerco dos exércitos prussianos.
Esta corajosa posição custa-lhe a devolução da folha pelos seus escassos assinantes, a extinção do Alfageme que, nascido em 6 de Agosto, falece a 19 de Outubro, chegado o seu sexto número, vale-lhe a cruel alcunha de diabo coxo, aludindo ao suposto espírito satânico do poeta e, sobretudo, à sua deficiência física motivada pelo acidente na infância e pelo tumor que daí adveio. À pequena escala do burgo, o escândalo é clamoroso. Mesmo os poucos amigos que ainda tinha na cidade, se afastam. Santarém é demasiado pequena para conter o sol de revolta e de inconformismo que arde no peito de Guilherme. Porém, em contrapartida, são também estas posições ousadas que lhe valem a aceitação por parte dos escritores da chamada Geração de 70. Está com 35 anos. Entretanto, seu pai morre. Converte o parco património herdado em moeda, encerra a sua odiada carreira de escrivão e transfere a residência para Lisboa. Um novo ciclo da sua vida - o último e o mais importante - vai começar. «Estou deveras fatigado de Santarém; vou-me embora.», dissera Garrett. Guilherme subscreve.
Ainda neste agitado ano de 1871 publicara Radiações da Noite, em cujo prefácio manifesta já o desejo de dar um novo rumo à sua escrita, pois anuncia-se como «iconoclasta-inovador» [...] «afirmando-se com mais veemência e mais calor a palavra da nova fé social e democrática». Guilherme de Azevedo ganha fama, começa a ser falado para lá das muralhas de Santarém. Não será por mero acaso que o vemos, em Maio desse mesmo ano, entre intelectuais da dimensão de Antero de Quental, Eça de Queirós, Oliveira Martins, Ramalho Ortigão, Augusto Soromenho, Adolfo Coelho, Jaime Batalha Reis e outros, no Grupo Cultural do Cenáculo, promotor das Conferências do Casino Lisbonense (que se projectava realizar de 22 de Maio a 19 de Junho de 1871), destinadas a, com realismo, «tratar as grandes questões contemporâneas, religiosas, políticas, sociais, literárias e científicas...» Como se vê, todo um programa de regeneração da anquilosada sociedade portuguesa. O Governo, porém, cancela a realização das Conferências. Afinal, nem só em Santarém as autoridades zelam por que o sono não seja interrompido.
Como já sabemos, tendo deixado de ser funcionário da Fazenda, Guilherme está agora disponível para ser escritor e jornalista a tempo inteiro. Encontra facilmente colaboração nos jornais de Lisboa, como a Lanterna Mágica (em cujas páginas, em 1875, Bordalo cria a figura do Zé-Povinho), a Gazeta do Dia, o Diário da Manhã. Algumas das suas crónicas jornalísticas são publicadas sob o sugestivo pseudónimo de «Guarda Nocturno». Em 1878 é-lhe proposta a direcção da revista Ocidente, cargo que aceita e onde se mantém até partir para França. O Ocidente, Revista Ilustrada de Portugal e do Estrangeiro, fora criada em 1 de Janeiro desse ano pelo prestigiado gravador Caetano Alberto da Silva, Brito Rebelo e Manuel de Macedo, e vinha na sequência de outras revistas ilustradas, como O Ramalhete (1837), O Panorama (fundada por Alexandre Herculano em 1837 e que se manteve, com interregnos, até 1868), Arquivo Pitoresco (1856), Dois Mundos (1877), etc. A sua qualidade gráfica e literária é atestada pelos numerosos prémios que irá receber nas exposições de Paris (1878), Lisboa (1888), Antuérpia (1894), Saint Louis (1895), Paris (1900) e Lovaina (1907). Por esta revista, de que se publicam 31 volumes, passam grandes vultos intelectuais portugueses, tais como Guerra Junqueiro, Maria Amália Vaz de Carvalho, Pinheiro Chagas, Cesário Verde, Luciano Cordeiro, Jaime Batalha Reis, Cândido de Figueiredo, Gonçalves Crespo, etc. Aí, Guilherme publica as suas crónicas ocidentais. Voltemos a escutar Fialho:
«A vida literária no tempo de Guilherme, era pouco mais ou menos o que é hoje; misantropias azedas sem vintém, acessos de mau humor com pretensões paradoxais, ceias baratas, espanholas, redacções, Martinho, Grémio, Casa Havanesa, e os camarins de algumas cómicas mais puxadas. Guilherme de Azevedo vivia de república numa casa da Rua dos Retroseiros*, o terceiro andar que olha prò Frade, com Junqueiro, no esplendor então da sua verve demoníaca, com Luís de Andrade, Magalhães Lima e não sei quem mais.»2 Em suma, o jovem provinciano, qual herói de Eça, conquistara a capital.




ALMA NOVA

Quando em 1874 sai Alma Nova, o livro transporta já e dá corpo nos seus versos a esse anseio por uma literatura colocada ao serviço das ideias democráticas e revolucionárias defensoras de uma nova ordem social que despontam um pouco por toda a Europa. Esta obra desperta mesmo uma grande curiosidade nos meios literários da capital. Segundo Ramalho Ortigão assinala no Jornal do Comércio (13 de Abril de 1882), A Alma Nova «abriu caminhos inexplorados até então, dentro da nossa poesia.» Guilherme de Azevedo, o quase desconhecido santareno, transforma-se assim quase num poeta consagrado, num jornalista de prestígio, num precursor dos novos caminhos que irão abrir-se à literatura. O livro é dedicado a Antero de Quental – «Meu amigo, Este livro parece-me um pouco do nosso tempo. Sorrindo ou combatendo, fala da Humanidade e da Justiça, inspirando-se no mundo que nos rodeia.» Na realidade, Quental é a figura tutelar da chamada «escola nova» onde se inscreve a poesia realista de Guilherme. Por sua vez, o grande escritor açoriano elogia-o em A Revolução de Setembro (1871) e dedica-lhe o soneto Mais Luz (1872). Óscar Lopes afirma que A Alma Nova (bem como já acontecia com Radiações da Noite) se conta «entre os livros de versos que mais contribuíram para fixar o estilo dos numerosos poetas panfletários desta época», sendo o seu tema «por excelência, a Cidade Burguesa, industrializada, enegrecida de fumo, proletarizada...»:
Por seu turno, Manuel Simões, a quem se deve o mais esclarecedor estudo sobre Alma Nova e sobre Guilherme de Azevedo, diz:

«Todo o livro é percorrido por sinais que antecipam a visão de Cesário acerca
da antinomia cidade/campo. De um modo geral, é o campo que sai exaltado no processo discursivo que organiza o material do discurso. É claro que a recusa da «civilização» citadina corresponde, algumas vezes, aos mecanismos republicanos que recusam servir o rei.» [...] «É inegável, porém, uma antipatia visceral pelo espaço urbano(«a cidade dormia o sono dos devassos», XXII), reiterada com insistência no poema XXIX:

Eis a velha cidade! a cortesã devassa,

a velha imperatriz da inércia e da cobiça,

não sendo arbitrária a permanência na estrofe seguinte dos significantes «lama» e «preguiça».»3




RAMALHO DESCREVE-O

Ouçamos agora João Ribaixo, ou seja Ramalho Ortigão, na folha do Álbum das Glórias que é dedicada a Guilherme de Azevedo:
«Chegado de Santarém pelo comboio da manhã, ele entrou em Lisboa há onze anos trazendo consigo um livro primoroso – A Alma Nova.
Desde então até hoje a sua pena nunca mais cessou de correr no papel em
alegres esfuziadas que, como um fogo de artifício, estalam na página em arabescos luminosos e em estrelas rutilantes.
Não é possível estar mais na publicidade e ao mesmo tempo aparecer menos em evidência.
Toda a gente o leu e ninguém pessoalmente o conhece.
No meio do estrépito retumbante da sua obra, assinada pelos pseudónimos famosos de Gil Vaz ou de João Rialto, na Lanterna Mágica e no António Maria, ele, encolhido, recluso, escorredio, atravessou a celebridade lisbonense pelo lado da sombra, caminhando no escuro em bicos de pés.
Os diferentes prazeres da glória, que consistem para o eleito em ser curiosamente apontado no Passeio Público pelas mulheres feias que infestam aquela região ao domingo à tarde, em ocupar uma cadeira em São Carlos e em ter um retrato fotográfico exposto nas vidraças da rua do Ouro entre o de um bailarino e o de uma cocotte – esses prazeres capitosos e ardentes, que tantas imaginações devoram no interior das nossas províncias –, Guilherme de Azevedo repeliu-os sempre com uma energia inexpugnável.
O Álbum das Glórias, abrindo nesta página um alçapão que faz tombar de chofre no meio do público a personalidade do organizador literário desta galeria, emprega a emboscada como único meio de trazer a lume esse perfil, o mais refractário às seduções de notoriedade. Apesar de coxear um pouco, por defeito físico, como Lord Byron, Guilherme de Azevedo é dos raros escritores que na imprensa caminha pelo seu pé. A maior parte dos jornalistas seus confrades andam pela mão, amparados às ideias e ao estilo dos outros.
Temos seguramente no país uns quinhentos ou seiscentos indivíduos perfeitamente habilitados para alinharem quotidianamente ao longo de uma gazeta três ou quatro colunas de frases aproximadamente correctas.
Cumpre unicamente advertir que essas frases nem exprimem as ideias nem representam os processos estéticos dos sujeitos que se encarregam de as reduzir ao sinal gráfico. São as frases que toda a gente respira no espaço e que se apanham no ar como moscas. A prosa expressiva, artística, pessoal, dando a imagem viva de uma ideia através da força de um temperamento, essa é apenas mantida nos jornais portugueses por uns quatro ou cinco escritores originais, que vão adiante; e todos os demais, consciente ou inconscientemente, os seguem.
Guilherme de Azevedo é um desses chefes de fila. Ele possui em alto grau as grandes qualidades do jornalista moderno: – a coragem da opinião, a fina sensibilidade mental perante a orientação científica do seu tempo, a suficiente dose de irreverência por todas as expressões da autoridade, e o poder da forma; – não da velha forma clássica dos compêndios de eloquência, mas da forma irregular e individual que mete a alma do artista na expressão da sua ideia e transforma o vocábulo inerte na palavra alada de que fala Homero.
O estilo de Guilherme de Azevedo dobra-se com admirável flexibilidade a todos os caprichos da fantasia; de sorte que, dado o facto sobre o qual o artigo tem de ser
bâclé para o jornal do dia seguinte, ele arranca-lhe de dentro em cinco tiras de papel tudo o que se lhe pedir: cabriolas, guinchos, métodos científicos, carrancas de palhaço, religiões, filosofias, busca-pés, baba de tigre, teorias de arte, formas de governo, bandeirolas, blasfémias ou pastilhas. Exercendo uma considerável força de crítica e de mordacidade sobre os compadrios caturras da sociedade de Lisboa, ele nunca teve inimigos. Quando há meses partiu para Paris, onde presentemente reside, li eu num jornal que vinte e três dos seus amigos tinham ido dizer-lhe adeus. Vinte e três amigos, para um homem que não tem pelo menos dois ou três ministros fechados em cada mão, parece-me ser o mais expressivo elogio que se pode fazer à bonomia de um malicioso. E esse elogio, Guilherme de Azevedo merece-o mais que ninguém, porque nunca a fibra belicosa de um mais arrogante sapador revestiu o coração ingénuo de um melhor rapaz.»4 Este texto lavrado num registo encomiástico serve de contrapeso á descrição, talvez realista, mas ácida de Fialho de Almeida, nas páginas que, no número 40 de Os Gatos, dedica ao escritor santareno.




PARIS

Para além das crónicas que foi enviando, não existem muitas referências ao que terá sido o percurso dos dois anos que Guilherme viveu em Paris. Correspondente telegráfico e literário da Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, recebe por essa incumbência mil francos por mês, não estando contudo impedido de colaborar nos jornais de Lisboa e Porto. Por isso, não terá tido grandes dificuldades económicas. Habita numa sobreloja, num entresol, do boulevard Saint Germain, em frente do Teatro Cluny. À partida, sonhara ir ali, na Meca do chic (como diz Fialho), produzir finalmente a sua «grande obra». Em A Alma Nova, Lisboa, «a cortesã devassa», não é mais do que a correspondência autóctone e possível à grande e tentacular metrópole dos versos de Baudelaire, de Hugo, de Lamartine – Portugal é, no dizer de Eça, «um país traduzido do francês em vernáculo»; por consequência, Lisboa, provinciana e atrasada, é, apesar de tudo, aquilo que de mais parecido temos com uma grande cidade. Mas agora, nada de imitações – Guilherme está no coração da civilização, na fonte de todas as misérias, de todas as opulências: está em Paris.

Tudo indica, porém, que o sonho vai sendo adiado - vagabundagens, hábitos de café, prostitutas, as noites perdidas em cavaqueiras estéreis ou nos teatrinhos de boulevard... A «grande obra» vai ficando sempre para «amanhã». As crónicas obrigatórias de cuja escrita depende economicamente, são sempre alinhavadas à última hora, escritas de um jorro, uma vez que já as tem pensadas de antemão - não são sequer emendadas, pois, impaciente, o paquete espera que ele termine, para ir correndo levá-las ao telégrafo. Gaba-se de nunca ler nada para preparar os seus escritos – segundo diz, tudo lhe surge na mente já acabado (depois, saber-se-á que assim não é – quando adoece, os amigos descobrem-lhe apontamentos, revistas francesas sublinhadas... fontes de consulta, enfim. O que está longe de ser um crime, mas que, apesar de tudo, ele esconde como se de um crime se tratasse). Um dia de Março de 1882, indo avisá-lo de que haviam chegado uns amigos de visita, a porteira dá com ele desmaiado, vítima de uma síncope. Ao despi-lo, os amigos descobrem que todo o seu lado esquerdo está ulcerado, gangrenado. Durante seis meses, sabe-se depois, escondeu de todos o avanço da doença que começara, décadas antes, com o tumor provocado pela sua queda na infância. Ao cabo de uns dias, já em Abril, lá se deixou conduzir pelos amigos – Lino de Assunção, Bordalo e Eduardo Garrido, à Casa de Saúde Dubois.




ESCRITOR «MENOR»?

Guilherme de Azevedo, no que se refere à opinião que dele faziam os seus coevos, foi estimado por Junqueiro (que lhe dedicou a Velhice do Padre Eterno), por Magalhães Lima e por Bordalo, louvado por Antero e por tantos outros, exaltado por Ramalho e um pouco ridicularizado, diga-se, embora com algum carinho, pela pena ferina, cruelmente impiedosa, de Fialho de Almeida que, sendo ele próprio um «rapaz da província ao assalto da capital», parece não ter perdoado a Guilherme a sua ousadia de, vindo de Santarém, ter conquistado as colunas dos principais jornais de Lisboa e do País e de serem as suas crónicas lidas avidamente, os seus ditos e frases jornalísticas repetidos pelas mesas dos cafés e de ter sido convidado a fixar-se em Paris (que, na época, era por aqui considerada a capital do mundo, a fonte de todas as ideias e prodígios). Outros contemporâneos, que com ele conviveram e se cruzaram, manifestaram o seu respeito por este homem que as circunstâncias da vida tornaram amargo, mas que em vez de fel destilava pela sua pena um humor ácido, talvez, mas humor, em todo o caso.
É, pela generalidade dos investigadores e historiadores da literatura portuguesa (como, por exemplo, Mário Dionísio), considerado um «escritor menor». Porém, o que significa ser um escritor menor? Será que existe ou em algum tempo existiu uma medida objectiva que permita avaliar da grandeza ou da menoridade de quem cria? A esse respeito, voltamos a Manuel Simôes que, na introdução à edição de 1981 de A Alma Nova, nos diz:
«As razões por que a história das ideias e, de modo particular, a história da literatura, não conserva de um autor senão uma referência de segunda ordem são complexas e dependem muitas vezes de circunstâncias externas ao próprio movimento dos factos sociais, impostas como são por condicionamentos propositadamente desviantes da cultura progressista de um país. Compreende-se, por isso, que Guilherme d’Azevedo tenha sido um autor esquecido, ignorado pela feroz máquina repressiva que tem canalizado a cultura portuguesa, e posto no índex das figuras marginais da história das ideias precursoras do socialismo em Portugal.» E, mais adiante: «Guilherme d’Azevedo, numa espécie de testamento poético» [...]«e acentuando a função social do seu verbo, manifesta a esperança de que alguns dos seus versos, pelo menos, «fiquem presos/como fios de luz, ao manto da Justiça!». Que um tal desiderato se cumpriu é coisa que mesmo o leitor de hoje poderá verificar e porventura ampliar com a perspectiva histórica que o tempo lhe conferiu; simultaneamente dar-se-á também conta de como tem sido injusto e injustificado o esquecimento duma figura que activamente participou na batalha da «geração de 70» e que, não obstante a evidência de elementos catalisadores (e sua colocação retórica) de gazetilha, foi a primeira voz com incidência na renovação da forma poética do último quartel do nosso século XIX.»5




O FIM

No dia 6 de Abril de 1882, quinta-feira de Endoenças, Bordalo Pinheiro dirige-se à Casa de Saúde Dubois, no Faubourg Saint-Denis, onde Guilherme está internado. No Março anterior um grupo de amigos o levara para lá. Uma enfermeira detém-no à entrada - o amigo está moribundo, avisa-o. De facto, no seu quarto, o poeta agoniza. Pouco depois, aparecem também, Tomás Lino de Assunção e o dramaturgo Eduardo Garrido. Guilherme tenta ainda comunicar com eles, estendendo-lhes dois dedos trémulos. Ao cabo de uma hora tudo está terminado. Bordalo modela-lhe em gesso a máscara mortuária. No sábado seguinte, seguido por um escasso grupo de amigos, faz-se o funeral. Descreve Fialho: «Este enterro foi a mais triste coisa que se pode imaginar. Chovia, e os amigos do morto eram tão poucos! De sorte que no cemitério o préstito cerrava-se, fazendo-se ainda mais pequeno, por que não se perdesse naquela terra estrangeira esse calor da Pátria que vinha dos corações batendo de ansiedade. Cada qual lhe lançou então na cova a pá de terra consoante os ritos de amizade, e ouvia-se a voz do visconde de Faria dizer fanhosamente:
– Eu cá sempre o tive por uma pessoa ordinária: três anos em Paris, e nem sequer um cartão me foi deixar ao consulado!...»6




Os seus restos mortais são trasladados para Portugal em 1887.



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1 - Fialho de Almeida, Os Gatos (Lisboa, 1889-1894).
* - Rua da Conceição.
2 - Fialho de Almeida - op. cit.
3 - Manuel Simões - introdução e notas a A Alma Nova (Imprensa Nacional, Lisboa, 1981
4 - Ramalho Ortigão – Álbum das Glórias (n.º. 14, Lisboa, Dezembro de 1880).
5 - Manuel Simões - op. cit.
6 - Fialho de Almeida - op. cit.