Diz Camões: o fruto daquela orta onde florescem plantas novas que os doutos não conhecem.

Garcia (Avraham) Da Orta

Médico e Naturalista do século XVI:
1499? - 1568



Quando tudo aconteceu...

1499?: Garcia da Orta nasce em Castelo de Vide, filho de Fernando (Isaac) da Orta e de Leonor Gomes. - 1523: Retorna a Portugal depois de estudar medicina em Salamanca e Alcalá de Henares. - 1530: Ingressa como professor de Lógica na Universidade de Coimbra. - 1534: Parte para Goa, Índia portuguesa, onde passa a residir, a trabalhar como médico e no comércio de especiarias e pedras preciosas. - 1563: Publica o seu Colóquios dos Simples e Drogas da Índia. - 1568: Falece. - 1580, 4 de dezembro: Condenado post-mortem pelo Tribunal do Santo Ofício pelo "crime" de "judaísmo"; tem seus ossos desenterrados e queimados.

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"Favorecei a antigua
Sciencia que já Achiles estimou;
Olhai que vos obrigua,
Verdes que em vosso tempo se mostrou
O fruto daquella Orta onde florecem
Prantas novas, que os doutos não conhecem.
Olhai que em vossos annos
Produze huma Orta insigne varias ervas
Nos campos lusitanos,
As quaes, aquellas doutas protervas
Medea e Circe nunca conheceram,
Posto que as leis da Magica excederam"

(trecho do poema de Luís de Camões ao Conde de Redondo, Vice-Rei da Índia, publicado em homenagem ao livro de Garcia da Orta Colóquios dos Simples e Drogas e Cousas Medicinais da India, e assi dalgumas frutas achadas nella, onde se tratam algumas cousas tocantes a medicina prática, e outras cousas boas pera saber, Goa 1563.)




UM LIVRO FALA DE SEU AUTOR

Eu sei que não é comum, quero dizer, o comum é ocorrer o contrário, mas eu sou o livro de um autor que vai narrar a vida deste último. Pode parecer estranho, mas o fato é que nós, livros, andamos pela cabeça dos autores por tanto tempo que nos tornamos íntimos conhecedores das personalidades dos mesmos. Claro que somos diferentes dos humanos. Por exemplo, costumamos receber nosso nome só após a impressão (uma novidade que tem pouco mais de um século mas que já causou muito reboliço entre nós. Há livros enciumados por não terem sido impressos e ficarem ainda em manuscrito. Há outros que embora impressos preferiam ficar manuscritos. Enfim, moramos na cabeça e nos corações dos homens e adotamos alguns de seus defeitos). Eu tenho este nome, Colóquios dos Simples e Drogas da Índia (que na verdade é um resumo do meu nome, pois nestes nossos dias os livros costumam sair impressos com nomes muito grandes, coisa que minha amiga A Ilíada nunca se conforma), já há um bom tempo antes de sair do prelo, mas isso é outra história.

Meu autor é Garcia da Orta. Médico português, cristão-novo. Sua vida começa em Castelo de Vide, em torno de 1500, e em 1568 termina em Goa, na Índia (onde sou impresso por primeira vez, em 1563). Ele é descendente daqueles judeus expulsos da Espanha em 1492 que entram em Portugal.

Em 1497 D. Manoel converte a todos compulsoriamente ao cristianismo. Daí ficam conhecidos como cristãos-novos, termo que já existe em Castela e Aragão (embora lá a história seja diferente). Os pais do meu autor permanecem em Portugal e começam a fazer sua vida no novo país. Garcia, que claro nem me tinha ainda na cabeça, depois de terminar seus estudos gerais, segue para Salamanca e Alcalá de Henares, em Castela, onde estuda medicina.

É aí que começo a surgir na cabeça do meu autor.




NOVOS E VELHOS LIVROS

Medicina é uma profissão interessante. Desde os gregos, e o Banquete (Platão) com quem conversei outro dia não me desmente, ninguém sabe ao certo onde situá-la. Ela tem muita coisa de artesanato, de habilidade manual e de aplicação técnica. Ao mesmo tempo, exige grande conhecimento de ciências, de filosofia. Nas universidades estuda-se muito a filosofia dos antigos, principalmente a de Aristóteles (tive, aliás, um entrevero com a Física na semana passada pois anda a me chamar de "fruto do empiricismo") e na parte dedicada à medicina propriamente dita seguem estudando Galeno junto com a Historia Natural de Plínio (com quem mantenho distantes mas cordiais relações) e o Dioscorides (este não pode nem me ver, por ele devo ser lançado à fogueira; pudera… vocês logo verão o porquê).

Desde a queda de Bizâncio, há coisa de pouco mais de cem anos, começam a chegar manuscritos gregos de textos médicos e filosóficos. Até então só se usam as traduções latinas a partir do árabe e as novas versões, que parecem ser mais próximas aos originais, vão provocando mudanças. Uma onda de ceticismo sobre a consistência do antigo saber vai se instalando. Claro que tudo é muito cuidadoso, lento. Pessoas e livros são levados à fogueira, na pior das hipóteses, e na melhor temos a censura a nos importunar (dia destes as Centúrias do Amato Lusitano me contaram: tiveram algumas páginas passadas a tinta, para impedir a leitura, entre elas uma na qual o autor conta o caso de uma freira que ficou doente por causa de seus desejos sexuais reprimidos). Enfim, nada anda muito fácil para nós, os livros que abrem novos horizontes indo além de onde os antigos chegaram.

Garcia da Orta fica muito interessado, ainda na universidade, pelo estudo das plantas medicinais, dos animais e minérios com uso medicinal ou simplesmente daquelas novidades do mundo natural que nunca haviam sido relatadas.




RETORNO A PORTUGAL

1523 é o ano em que Garcia da Orta retorna a Portugal e recebe a autorização para clinicar. Nesta fase de sua vida convive com importantes figuras lá em Portugal. O matemático Pedro Nunes, também cristão-novo, é um de seus grandes amigos.

Em 1530 assume a cadeira de Lógica na universidade de Coimbra. Tem algumas dificuldades para consegui-la. É rejeitado por duas vezes neste seu intento. Graças à influência de um tio, Francisco da Orta, médico do futuro cardeal D. Henrique, é que consegue este trabalho. Assim é Portugal nesses dias! Sua paixão pelo estudo das coisas do mundo o leva a ser um professor conceituado e querido. Garcia da Orta ensina a seus estudantes a importância do estudo das coisas do mundo, o valor da observação, o valor dos sentidos que vêem o novo e o inusitado e junto com o intelecto trata de inquirir e descobrir coisas que eram até então vistas de maneira menos abrangente e verdadeira (não é à toa que a Física de Aristóteles me despreza tanto).

Em 1533 torna-se deputado no senado na universidade. Mas ele não está contente. A carreira universitária que constrói não lhe oferece maiores desafios. Lá fora há um mundo por descobrir. Ele escuta os relatos dos viajantes sobre as novas terras, sua plantas e gentes tão diferentes de tudo que se ouve e se sabe. O mundo dos antigos é limitado, pequeno. Agora ele se expande, se abre. Eu nasci do desejo de Garcia da Orta em conhecê-lo e descrevê-lo.

Há um outro problema. D. Manuel havia prometido, quando da conversão maciça e forçada dos judeus ao cristianismo em 1497, que durante cinqüenta anos os cristãos-novos não seriam importunados em questões religiosas. Só que as coisas não seguem o rumo desejado. Já em 1506 sofrem perseguição do populacho e baixo-clero em Lisboa. Há pressões para que se estabeleça o Santo Ofício em Portugal. Ele será instituído em 1531, por meio da bula Cum ad Nihil Magis, de 17 de dezembro, a qual defende seu estabelecimento ao lembrar que "alguns convertidos da infidelidade hebraica à fé cristã, chamados de cristãos-novos, voltando ao rito judaico que haviam abandonado, e outros que nunca professaram a seita hebraica, mas nasceram de pais cristãos, observando aqueles ritos judaicos, bem como outros seguindo a Luterana e outras heresias e erros condenados e feitiçarias" . A ladainha de sempre! De fato o Santo Ofício só começa a agir lá em Portugal a partir de 1536. Garcia da Orta está neste interregno de tempo. Ele que, junto com sua família, só aderiu formalmente à religião dos cristãos e segue às escondidas a religião de seus ancestrais, ao contrário de outros cristãos-novos que aderem plenamente à nova fé, tem bons motivos para se sentir ameaçado.

Uma feliz conjuntura ocorre. Martim Afonso de Souza é também amigo de Garcia da Orta. Volta a Portugal vindo das terras do Brasil, depois de lá fundar uma vila e começar o plantio da cana-de-açúcar. Mas a Índia ainda é o grande objetivo da expansão portuguesa e para lá é mandado com uma esquadra. Aos 12 de março de 1534, Garcia da Orta, junto com sua família, parte com Martim Afonso de Souza que fora nomeado Vice-Rei da Índia.




MÉDICO E HOMEM DE NEGÓCIOS NA ÍNDIA

Goa é a sede do governo português na Índia. A efervescência do local é difícil descrever. Há miríades de povos, línguas, religiões e culturas. Ainda não há aqui tribunal do Santo Ofício, nesta época. A atividade comercial em torno das especiarias faz a riqueza e a opulência de muitos. Há uma guerra permanente contra os turcos que não querem perder seu controle da rota terrestre das especiarias. Portugal trata agressivamente de fincar sua posição e avançar. É um tempo de lutas. Uma epopéia que parece estar sendo escrita (segundo a Eneida me contou) por um poeta que se torna amigo de meu autor, lá pelos anos 50 deste século XVI, Luís Vaz de Camões.

Em Goa atua como médico. Conhece os hakuma, os médicos árabes, de quem só conhecera os escritos daqueles famosos entre eles. Conhece também o trabalho dos médicos hindus (chamados de vydias) a quem desconhecia por completo. Há doenças que vê e as reconhece como presentes também em Portugal. Outras assemelham-se às que conhece mas com ligeiras variações. Outras então, bem, nunca viu ou ouviu nada parecido. Como médico participa da primeira autópsia realizada em Goa, por ocasião de uma epidemia de cólera em 1543. Mas há algo que o atrai mais do que o cuidar dos doentes. A grande variedade de plantas medicinais e comestíveis, de resinas, de secreções animais, de minérios. Uma inteira e nova Matéria Médica que é desconhecida dos europeus.

Garcia da Orta passa a plantar e comercializar especiarias. Ao mesmo tempo constrói um horto, uma plantação de ervas medicinais para seu estudo. Viaja pelo interior das possessões portuguesas na Índia, acompanha expedições militares, vai inclusive até o Ceilão. Coleta as informações que lhe chegam de várias fontes. Estuda a nomenclatura local das doenças e de seus remédios. Compara com o que aprendeu na Europa e trata de encontrar possíveis correlações. Onde não as há, não teme em apontar o novo, não como elemento que vem destruir mas que vem positivamente perturbar e aumentar nosso conhecimento sobre o mundo. Eu começo a nascer. Meu período de gestação é de quase três décadas.




O RETRATO DE UM LIVRO

Para me escrever, Garcia da Orta elege a forma do diálogo, bastante em voga nestes dias. Ele cria um personagem de ficção, Ruano, que é ele mesmo, Garcia da Orta, como quando chega a Índia. Conhece a medicina tal como praticada em Portugal, Castela e demais locais da Europa. Mas nada sabe do que se faz aqui na Índia, das novas plantas, dos novos remédios. A Matéria Médica que conhece, a farmacopéia de que dispõe, é aquela do Dioscorides, Serapion e mais algumas obras de médicos medievais, principalmente árabes, traduzidos para o latim. Seus conhecimentos de botânica são os de Plínio e de alguns outros autores medievais, que conheciam o mundo em torno do Mar do Meio. Naquele mundo, a "Índia" significa algo distante, uma terra meio imaginária, meio figura de linguagem. Só que agora a Índia é aqui! Ruano é o alter ego de um Garcia da Orta que coleta, classifica, ordena e amplia a informação sobre esta nova Matéria Médica e que agora a divulga. Além de Ruano, o livro contém outros personagens de diálogo, alguns pessoas com as quais Garcia da Orta convive, como o licenciado Dimas Bosque, médico valenciano, que chega à Índia em 1558 onde exerce a função de físico-mor. Ele também tem uma propriedade, numa das ilhas próxima a Goa, onde cultiva os mais diferentes frutos e plantas.

Eu não trato especificamente de medicina. Embora meu autor seja médico e tenha atuado como tal na Índia, ele está mais preocupado com a botânica, em descrever as novas plantas, do que entrar em pormenores sobre diferentes doenças e seus tratamentos. Quando o faz é como parte de um relato enciclopédico que, por exemplo, também inclui informações sobre o gimnofisistas, sobre as crenças que existem na Índia, chegando até a contar sobre um hospital para aves. Isto sem contar o que fala sobre o jogo do xadrez, algumas anedotas que conta, alguns relatos de culinária. Sou mesmo muito vasto e amplo, quase como este grande Novo-Velho mundo.

Meu autor divide-me em 59 colóquios (na verdade 57, já que o primeiro é um colóquio introdutório e o último um colóquio de repassagem de algumas informações que não ficaram muito claras), cada qual dedicado a um item da Matéria Médica que meu autor descreve, em sua maior parte composta por ervas e frutos mas que inclui também minerais. A ordem dos colóquios é alfabética. Trata dos aloés até a zedoaria e o zerumbet. É bom se dizer que nesta Matéria Médica estão também incluídos frutos comestíveis, já que o bem comer, e de maneira correta, é item essencial para a manutenção da saúde.

Garcia da Orta começa a me escrever em latim. Esta é a língua da cultura, língua universal da Europa a quem ele pretende trazer as novidades em mim contidas. Mas por ocasião de minha impressão, resolveu publicar-me em português. Faz isso pois acredita que assim serei mais lido, inclusive pelo público português que se encontra na Índia. E há aqui também algo de novo, que meu autor traz para a ciência de seu tempo, ao acreditar que o conhecimento deve ser difundido entre o maior número possível de pessoas derrubando as barreiras de um idioma das elites, indo ao encontro do idioma compreendido pelo maior número de pessoas de um mesmo povo.

Ele está tão afeiçoado a mim, que fala diretamente comigo

"DO AUTOR FALANDO COM SEU LIVRO,
e mandao ao Senhor Martim Afonso de Souza.

Seguro livro meu, daqui te parte,
Que com huma causa justa me consolo
De verte oferecer o inculto colo,
Ao cutello mordaz, em toda parte:
Esta he, que aqui mando examinarte
Por hum Senhor, que de hum a outro polo
Só nelle tem mostrado o douto Apolo
Ter competencia igual co’o duro Marte.
Ali acharás defensa verdadeira,
Com força de razões, ou de ousadia,
Que huma virtude a outra não derrogua;
Mas na sua fronte a palma e a oliveira
Te diram que elle só, de igual valia
Fez, co’o sanguineo arnes, a branca togua" .

Além disto, meu autor anda muito preocupado com a possibilidade que possam me copiar, ou seja, roubar-me dele de alguma forma (pudera, tantos anos vive em sua cabeça e em seu coração que tem comigo uma relação muito passional). Alegando que quer evitar o prejuízo de ter seu livro impresso por qualquer um, sem sua autorização, meu autor pede ao Vice- Rei que garanta seus direitos exclusivos de me imprimir. Qualquer pessoa que queira fazê-lo deve pedir autorização do meu autor, sob pena de uma multa de duzentos cruzados por cada impressão não autorizada. Isto valendo por um período de três anos, a contar desde 5 de outubro de 1562.

Saio impresso em Goa aos 10 de abril de 1563. Sou o terceiro livro a ser impresso na Índia portuguesa. Por causa disso saio cheio de erros, o que deixa meu autor deveras triste e faz com que saia uma segunda impressão minha, com muitas correções, no mesmo ano. Como desde 1560 estabeleceu-se por lá o Santo Ofício (eles sempre acabam por chegar, é só as pessoas e os livros estarem contentes que poderão viver como querem e pronto, eles aparecerem para acabar com nossa festa. Que dias terríveis são estes…) o livro tem a autorização do desembargador da casa da suplicação e inquisidor de Goa, D. Aleixos Diaz.




AS AGRURAS DO MEU AUTOR E AS MINHAS

Os últimos anos de Garcia da Orta são bastante difíceis. Enfrenta dificuldades financeiras e querelas familiares. Em 1568 adoece de grave doença que o leva à morte. Mas ainda vê sua irmã, Catarina, ser levada à Catedral de Goa para ouvir sua sentença pelo "crime" de judaizar: a fogueira. Pessoas de sua família são devassadas pela fúria inquisitorial. Não apenas em Goa, mas também em Portugal. Ele falece doente, amargurado e em extrema dificuldade mas, pelo menos, parece estar em paz. Só que o Santo Ofício não pára na sua sanha "purificadora". Como decorrência dos processos levados a cabo contra pessoas de sua família, acaba sendo julgado pos-mortem e condenado à fogueira. Como não se encontra mais entre os vivos, seus ossos são desenterrados e queimados.

Eu tive mais sorte do que meu autor, pois pelo menos não fui queimado. Agora, falando a partir do século XX, posso fazer uma retrospectiva de minhas andanças pelo mundo. Andança de livro que é diferente de andança de gente. Tive algumas traduções e versões para outros idiomas. A primeira, muito diferente do original, na verdade uma epítome, aparece em Antuérpia no ano de 1567 publicada por Clusius (o botânico Charles de L’Escluze). Em 1572 tenho uma primeira tradução para a língua castelhana, publicada por Juan Fragoso, em Madrid. Em 1574 surge uma versão latina ampliada do resumo de Clusius, que conta com várias reedições (1579, 1593, 1601, 1605 e 1611). Depois uma italiana, em Veneza, feita por Annibale Briganti em 1576 com reedições em 1582, 1589, 1597 e 1616. Há uma tradução francesa de Antônio Collin feita em Lyon, 1602. Contudo, todas estas traduções não foram baseadas no original, escrito pelo meu autor, mas na versão resumida de Clusius. De qualquer modo, o grande número de edições demonstra o interesse que o tema desperta e mesmo a influência, por via indireta, que meu autor tem na botânica médica desde o século XVI. Há o caso de Cristobal Acosta, médico castelhano, também cristão-novo, que publicou o seu Tractado de las drogas y medicinas de las Indias orientales, con sus debuscados al vivo (Burgos, 1578). Trata-se de um livro inteiramente baseado em mim, que acabou ficando mais palatável ao público. Muitos estudiosos, ao longo dos séculos, esqueceram-se de Garcia da Orta. Mesmo em português só tive uma primeira reedição em 1872 e depois outra em 1891.

De qualquer forma, mesmo que esquecido, Garcia da Orta marca aquele despertar, na cultura portuguesa, do novo. Aquele ceticismo que passa a duvidar da tradição recebida e acreditar não nos textos antigos, mas naquilo que se vê, lendo não apenas os livros da tradição, mas fundamentalmente o livro da natureza que a investigação e o olhar abrem diante de nós.

Eu repouso em estantes empoeiradas, e meu autor nem gozou da paz eterna de sua sepultura. Mas ele é um dos marcos daquela grande jornada que mais do que levar os portugueses ao encontro das especiarias e belezas da Índia, ajudou a levar toda a espécie humana a esta jornada que segue até hoje, a paixão do conhecer.



i Extraído da Edição dos Colóquios de 1891. Colóquios dos Simples e Drogas da India. Lisboa, Imprensa nacional, 1891. Dirigida e anotado pelo Conde de Ficalho (a seguir: Colóquios…), pp.7-9. O Conde de Ficalho, na mesma obra, afirma ter sido esta a primeira composição de Camões a ter sido impressa (idem, p. 16). O trecho aqui transcrito encontra-se à p. 8 da referida obra e contou com algumas pequena modificações do editor. O conde do Redondo era D. Francisco Coutinho, oitavo vice- rei da Índia.

ii Extraído de António Borges Coelho Cristãos- Novos Judeus e os Novos Argonautas. Lisboa, Editorial Caminho, 1998, p. 103.
iii Colóquios…, p.6.
iv Colóquios…, p.3.